1 de agosto de 2017

Fátima: Segredo ou Profecia?

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Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: 'Vem lá a chuva'; e assim sucede. E quando sopra o vento sul, dizeis: 'Vai haver muito calor'; e assim acontece. Hipócritas, sabeis interpretar o aspeto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?»
Lucas 12, 54-56

Incultos como eram, os pastorinhos de Fátima, desconheciam o conceito de profecia por isso, chamaram segredo ao que a Senhora lhes comunicou sobre o futuro, assim como as duas visões que tiveram na aparição do dia 13 de julho de 1917. Portanto, o que popularmente é conhecido como “O segredo de Fátima” deve entender-se como a Profecia de Fátima. É neste sentido que o ainda Cardeal Joseph Ratzinger se referiu a Fátima, como sendo a mais profética das aparições modernas.

Profecia e sinais dos tempos
Seguindo o evangelho de Lucas, acima citado, os profetas eram pessoas que estavam bem despertos e atentos aos sinais dos tempos. Ou seja, ao presente impregnado de um futuro que já se antevia aqui e agora. Uma coisa é ver, outra coisa é interpretar e ver sinais do futuro incrustados no momento presente.

Por exemplo, muita gente ao longo dos séculos, tem visto como o vapor de uma panela de água a ferver pode atirar com o testo, e não viram mais que isso mesmo, uma panela de água a ferver; o Senhor James Watt, porém, olhou mais além do fato insignificante, e na tentativa de aproveitar o poder do vapor, construiu a máquina a vapor, que é a primeira máquina construída pelo homem.

A profecia liga o presente ao futuro - no sentido de que o futuro já dá noticia de si mesmo, e já se encontra no momento presente em forma de sinais dos tempos que só os de mente desperta podem perceber; os que olham para o mundo com olhos quem vêm por detrás e mais alem do que é obvio, e, por outro lado, estão sempre em contacto com o Senhor do Tempo: presente, passado e futuro que é Deus.

A profecia liga o futuro ao presente - no sentido de que o futuro não está irreversivelmente fixo, mas é de alguma maneira interativo e suscetível de ser mudado. de facto, o objetivo da profecia na bíblia, é alertar-nos acerca de um futuro que está nas nossas mãos evitar, pois temos liberdade e poder para o modificar e escrever a historia diferentemente. Neste sentido o futuro não é um comboio que perdeu os freios e não já há forma de o deter, mas sim um cavalo a galope perfeitamente domado cujas rédeas estão na nossa mão.

História do segredo
“O segredo da Senhora”, como as crianças lhe chamavam, consta de três partes claramente distintas; a primeira trata-se da visão do inferno, a segunda do ateísmo militante da Rússia, e a terceira de uma representação simbólica do ateísmo militante ao longo do século XX.

O segredo ou profecia, está composto por duas visões, que correspondem à primeira e a terceira parte do segredo, com um discurso intermédio da Virgem, a segunda parte, acerca do ateísmo militante da Rússia. Comunicado pela Senhora aos três pastorinhos no dia 13 de julho de 1917, literariamente o segredo foi escrito em duas épocas diferentes; a primeira e a segunda parte do segredo foram escritas no dia 31 de agosto de 1941, a terceira a 3 de janeiro de 1944.

Passaram-se, portanto, 24 e 27 anos respetivamente desde que em 1917 as crianças afirmaram pela primeira vez que eram depositárias de um segredo que não revelariam. Nos interrogatórios, aos que as crianças foram submetidas, por curiosidade que é inata à natureza humana, as perguntas sobre o segredo eram as mais repetidas. Primeiro ofereciam ouro, prata e dinheiro para as ludibriar a revelar tal segredo e quando não conseguiram seguiram-se as ameaças de morte e a tortura psicológica na prisão de Ourem. As crianças nunca cederam.

1ª Parte: Visão do inferno
Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor.

Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

A existência do inferno é um dado incontornável da nossa fé. Se arrancássemos da bíblia todas as páginas em que o inferno vem mencionado, ficaríamos sem dúvida com uma bíblia mais pequena, mas já não seria Bíblia Sagrada que relata a Palavra de Deus. Há cada vez mais teólogos, que negam a sua existência, alegando que existe só como o zero na matemática, para ajudar nas contas, em virtude de uma coerência lógica, mas que não há lá ninguém. Se há ou não há não sabemos nem nos interessa; o inferno é a possibilidade de não se salvar; é o lugar teológico do mal, assim como o Céu o lugar teológico do bem.

Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.' Lucas 16, 19-31

Na parábola do Rico e do pobre Lázaro temos uma visão do inferno que, no contexto da parábola, tem a mesma função pedagógica que a visão dos pastorinhos de Fátima. Na visão do Inferno a Nossa Senhora quis reafirmar que ele existe e que é real a possibilidade de não se salvar. A descrição pormenorizada deste, com todos os detalhes das almas a caírem lá dentro e do sofrimento das mesmas no meio do fogo, mais a presença dos demónios que tanto apavorou os pastorinhos, tem um intuito pedagógico e funciona como um alerta, para os que nesta vida não seguem a Cristo como caminho, verdade e vida.

Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma. Mateus 10, 28

Na Bíblia há duas formas de representação do inferno; o inferno como tortura eterna e o inferno como morte eterna. A visão mais comum, a que aparece mais vezes, é a do inferno como morte eterna, ou seja, regressar ao nada quem nada foi, nada fez na vida, não serviu a nada nem a ninguém, e, em vez de acreditar em Deus e na vida eterna, não acreditou em nada para além da morte.

É inconcebível que, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, condenasse a uma eternidade de sofrimento e tortura a quem na temporalidade, por mais longa que fosse, tenha vivido no pecado; nem os tribunais humanos são assim tão severos. Não haveria nenhuma proporção entre o crime e a pena.

As poucas vezes, portanto, em que na Bíblia o inferno aparece como sofrimento eterno, tem um intuito meramente pedagógico, baseado na realidade de que os seres humanos temem mais o sofrimento que a morte. Pelo que, o inferno como tortura eterna, tem uma força motivacional para mudar de vida muito superior ao inferno concebido como morte eterna, que se coaduna mais com o que realmente será.

Como visão profética do inferno é mais apelativa a visão deste como tortura eterna. Os pastorinhos, portanto, não viram o inferno conforme ele é, mas sim como o imaginavam, inspirados no que lhes foi dito em inúmeras pregações, naqueles tempos, nas quais o inferno como sofrimento era tema quase obrigatório.
   
2ª Parte: A II Guerra Mundial e o ateísmo militante da Rússia
— Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior.

Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados.

Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

A Nossa Senhora propõe a devoção ao Imaculado Coração de Maria como antídoto para combater o mal em todas as frentes, individual e social. Se Salvação é a visão real de Deus, que supera a visão beatifica à qual alguns nesta terra têm acesso, a proposta desta devoção não é outra coisa que o eco do evangelho de São Mateus 5, 8:  Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Um coração que se purgou e purificou de todo mal e corrupção vê a Deus.

Um coração assim limpo, não está dividido, e está pronto a comprometer-se unilateralmente e incondicionalmente; é, desta forma, uma réplica do coração Imaculado de Maria que como ela diz, “Eis a serva do Senhor faça-se em mim segundo a sua Palavra”. O coração é o centro motor da atividade humana, onde os pensamentos ganham motivação e impulso para se transformarem em obras ou comportamento. Quando o nosso coração pertence a Cristo, tarde ou cedo poderemos dizer como o apostolo, Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de julho de 2017

Fátima: Lúcia a Mensageira

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Perfil humano
Nasceu em 22 de março de 1907, última dos sete filhos de António dos Santos, irmão da Sra. Olimpia mãe do Francisco e da Jacinta; era sã e robusta, mas não era de feições delicadas, era até um pouco rude. De rosto moreno e arredondado, nariz um pouco achatado, boca larga de lábios grossos; o único atrativo físico vinha-lhe dos olhos pretos, grandes e expressivos.

Mas o que lhe faltava em beleza física tinha a Deus recompensado em beleza interior. Era muito responsável, desde muito pequena qualquer tarefa lhe podia ser confiada; era uma educadora de divertindo as crianças com jogos e historias por ela contadas, tanto da bíblia como dos santos, como lendas daquela terra. Fazia procissões, cantava os versos da Igreja e ensinava catequese.

Naquele tempo a primeira comunhão só se fazia aos 10 anos; Lúcia, porém, comungou aos 6 anos porque com a memoria prodigiosa que tinha, sabia o catecismo todo de cor. Alem da memoria era também muito inteligente e criativa em atividades e divertimentos para distrair as crianças, pelo que todas as crianças, não só a Jacinta e o Francisco, tinham por ela um atrativo especial.

Ao contrário de Jacinta e de Francisco era vivaz, extrovertida e mexida, uma líder natural. O qual não a impedia de chegar a ser tão meiga e afetiva como Jacinta, uma afeição que manifestava a diariamente em especial com a sua mãe, quando voltava de pastorear as ovelhas cobria a mãe de abraços, beijos e mimos.

«A Lúcia era muito divertida - refere-nos uma outra sua companheira, Teresa Matias. - Era muito amiga de nos fazer jeito, de maneira que muito gostávamos de estar com ela; de mais, era muito inteligente, cantava e dançava bem e sabia-nos ensinar cantigas. Todos nós lhe obedecíamos. Passávamos assim horas e horas a cantar e a dançar que até nos esquecíamos de comer.

Como ela própria diz nas suas memórias, eram muito amigas de dançar e de festas. O dia 13 de junho era um dia sempre muito esperado por Lúcia pois se festejava de maneira especial na aldeia. A Dona Maria Rosa, conhecendo a filha, sabia que não trocaria as festas por coisa nenhuma. Mas é claro que se enganou. As aparições mudaram a forma de ser de Jacinta e de Francisco e também de Lúcia.

Jacinta e Francisco sofreram pela doença e os pequenos sacrifícios que eles inferiam de ocasiões como não comer não beber etc. Lúcia não precisava de buscar sacrifícios pois o sofrimento vinha ter com ela todos os dias. Foi a que mais sofreu a incredulidade dos que não acreditavam nas aparições, pelo que teve de suportar vexames troças, ameaças e até bofetadas.

Naquele 13 de Maio de 1919 quando o governo queria impedir os peregrinos de ir à Cova da Iria dois guardas agarraram a Lúcia, que para lá também se dirigia, e disseram um para o outro em voz alta: aqui estão covas abertas. Com uma das nossas espadas cortamos-lhe a cabeça e aqui a deixamos, já enterrada. Assim acabamos com isto duma vez para sempre.

Ao ouvir estas palavras, julguei-me realmente chegada ao meu último momento; mas fiquei tanto em paz como se nada fosse comigo. Passado um momento, em que pareceu ficarem pensativos, o outro respondeu: – Não, não temos autorização para isso.

Em especial sofreu por causa da incredulidade do seu pároco e das suas irmãs e mãe. Esta última mesmo depois de ser curada por especial favor de Nossa senhora chegou a afirmar: que coisa! Nossa Senhora curou-me e eu parece que ainda não acredito! Não sei como isto é!

Lúcia e o Eneagrama
A mente – sentimento - instinto são os três filtros pelos quais acostumadamente entendemos a realidade, nos relacionamos com ela e com os outros. Todos buscamos uma única coisa segurança; os sentimentais ou emocionais buscam relacionar-se e ser aceitados e amados pelos outros e assim encontrar o equilíbrio interior; os viscerais confiam nos seus instintos, na sua intuição ou sexto sentido; os cerebrais usam a mente para tentar entender, pois conhecimento significa poder.

Francisco era visceral instintivo, sentia-se bem consigo mesmo buscava a natureza, abstraindo-se de tudo e de todos, buscando uma única relação, estar com o “Jesus escondido” para o consolar. Jacinta era sentimental, dependente da relação com os outros sobretudo com a sua amiga intima, Lúcia; descobriu o sofrimento como forma de amor e nele viu o seu contributo para a salvação de muitos.

Lúcia era claramente cerebral, usava a mente para entender tudo e todos os que a rodeavam e o que acontecia; como tal não era 6 pois os seis são bastante inseguros e cheios de dúvidas; Lúcia parece bem firme no terreno e segura de si mesma. Apesar daquele episódio de dúvida de se as aparições seriam coisa do demónio, mas a dúvida não surgiu espontaneamente na sua mente, foi la colocada pelo seu pároco em quem ela confiava cegamente.

Também não é um 5 pois ao contrário do Francisco que se retirava Lúcia gostava de estar sempre no meio de gente por ser extrovertida e inquisitiva e desenvolta e criativa sempre buscando novos jogos ou atividades para entreter as crianças.

O número que melhor se aproxima à sua forma de ser por irónico que pareça é o 7. Precisamente o número que, de entre todos os números do eneagrama, foge do sofrimento. E no entanto, foi a que mais sofreu enquanto ao crédito das aparições; os três eram vexados pelo povo em geral, mas enquanto Jacinta e Francisco, pelo menos em casa, estavam a salvo e na rua estavam protegidos pela autoridade do seu pai o Sr. Marto, Lúcia em casa era maltratada pela mãe e pelas irmãs e tida como embusteira e mentirosa; na rua a sua mãe não lhe importava que até lhe batessem se com isso ela dissesse a verdade.

Por outro lado, quanto ao oferecer sacrifícios voluntários, não era tão zelosa como os dois primos. Lúcia de alguma forma nem é tão sofredora com Jacinta nem tão adoradora como Francisco. Lúcia vive nas relações sociais e na diversão por isso era tão boa com as crianças. Ninguém entretém tanto nem melhor que um numero 7; sempre preparados para a palhaçada, os jogos, as danças…

Neste sentido Lúcia, apesar de ser a líder dos três, e a vidente mais importante do grupo, não se nota que encarne no imediato um aspeto específico da mensagem de Fátima, como Jacinta a penitência e Francisco a oração, e em especial, a adoração ao Santíssimo Sacramento.

A razão pode ter a ver com o facto de que Francisco e Jacinta sabiam que não lhes restava muito tempo de vida por isso viviam de uma forma escatológica como as suas mentes e os seus corações postos não já neste mundo, mas no mundo que iria vir, ansiando ver Nossa Senhora a qual lhes tinha dito que pronto os levaria para o Céu, e que o Francisco tinha de rezar muitos terços ainda para lá poder entrar.

Quanto a Lúcia, como muito tempo por diante parece ter vivido a mensagem de Fátima na sua totalidade como um todo e no anonimato, ao longo de muitos anos recluída como religiosa de clausura.

Vida longa em anos curta em eventos
A vida de Francisco e de Jacinta foi de veras curta; ao contrario, a de Lúcia seria muito longa. Sozinha abandonada por todos em especial pelos seus dois amigos confortava-se em repetir o que a Senhora lhe tinha dito, Não tenhas medo! ... Eu ficarei contigo! ... Sempre! ... O meu Imaculado Coração será o teu refúgio! ... e o caminho que te conduzirá até Deus!  ..

Depois da morte de Jacinta dia 17 de junho de 1921 Lúcia foi afastada de Fátima para paradeiro desconhecido do povo, o colégio das irmãs Doroteias no Porto, com o consentimento desta e da mãe tanto para analisar sem a presença dela os acontecimentos como para ver se o povo deixava de acorrer à Cova da Iria e visitar a única vidente ainda viva.

Tocada pelas aparições, a vida de Lúcia foi longa em anos, mas curta em acontecimentos. Do colégio do Porto passa para o postulantado das irmãs Doroteias em Pontevedra e dali para o noviciado em Tuy que termina a 3 de outubro de 1928. Demora-se por Espanha até ao ano 1946 em que volta a Portugal e visita Fátima e a sua família.

Dali recebe a autorização do Papa Pio XII para deixar as Doroteias e realizar o seu sonho primigénio o fazer-se Carmelita; entrou então para o Carmelo de Sta. Teresa em Coimbra o dia 25 de março de 1948 onde levou uma vida de oração e penitência até à sua morte, ocorrida a 13 de fevereiro 2005, como 98 anos.

Lúcia a mensageira
Se Francisco era o contemplativo, o ser orante pois dedicava à oração muitas horas; se Jacinta que como numero 4 faz seu, o drama da humanidade perdida, oferecendo-se e juntando os seus sofrimentos aos de Cristo pela redenção dos pecadores; o que é ou quem é Lúcia para a mensagem de Fátima?

Lúcia é a comunicadora, porque só ela tem uma relação plenamente interativa com Nossa Senhora só ela pergunta e responde só ela dialoga com a Senhora. Lúcia é o porta voz do céu; a mensageira, de alguma maneira a evangelista que anos mais tarde coloca por escrito a vida e ditos tanto da Senhora nas aparições como a forma com os seus primos encarnaram a mensagem de Fátima, da qual ela é, para a posteridade, a testemunha, a depositária e a custódia.

Obedecendo ao Bispo de Leiria, Lúcia colocou por escrito o segredo, que fechou em envelope e enviou ao Papa, juntamente com as suas memorias das aparições nas quais descreve também, de modo biográfico, a vida, ditos e obras dos seus primos e de si mesma.

Como vidente foi, até à sua morte, a intérprete e a exegeta da mensagem de Fátima. Este papel ficou bem claro nas tentativas que os papas desde Pio XII até João Paulo II, fizeram de consagrarem a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Todos os papas o fizeram, mas todos evitavam nomear a Rússia e algumas vezes não era feita a consagração em união com todos os bispos do mundo.

A Lúcia, se assim o entendesse, não hesitava em dizer que não era como Nossa Senhora queria. Por fim, aquela que o papa João Paulo II fez, a 25 de março de 1984, ante a imagem oficial de Fátima e o ícone de Kasan em Roma, obteve o assentimento de Lúcia, que afirmou: a consagração foi feita e foi aceite.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de junho de 2017

Fátima: Jacinta a Reparadora

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Perfil humano
Jacinta de Jesus Marto nasceu a 11 de março de 1910. Como Francisco, tinha o rosto redondo e feições duma regularidade perfeita; boca pequena, lábios finos, mento breve, corpinho bem proporcionado. «Não era, contudo, tão cheia como o Francisco - diz-nos a mãe.

Era muito vaidosa, gostava de se vestir bem, andava sempre bem penteada e colocava flores no cabelo. Como a prima gostava de dançar ao toque do pífaro do seu irmão Francisco. Divertia-se nos jogos e ao contrario do seu irmão tinha mau perder. Muito centrada em si mesma, era ela que tinha que escolher os jogos ou os castigos, e nisso era intransigente.

Por outro lado, não era um espírito livre e independente como a sua prima Lúcia. Era mais dependente e nesse sentido vivia encostada à sua prima com quem tinha uma amizade invulgar, nada fazia sozinha, um dia sem Lúcia era um dia triste e sem sentido.

Moralmente era irreprochável, como o seu irmão tinha sido formada e formatada para nunca mentir; chegou a repreender a mãe quando esta dizia alguma mentira piedosa. Então a mãe mentiu-me? Disse que ia aqui e foi para acolá? ... Isso de mentir é feio! Se não queria dizer a verdade calava-se e não havia ninguém que lhe arrancasse uma palavra. Um dia em que a Lúcia cansada de tantos interrogatórios se escondeu, os visitantes perguntaram a Jacinta pelo seu paradeiro; esta para não mentir calou-se:  que é que respondeste quando te perguntaram por mim? perguntou a Lúcia, - Calei-me bem caladinha! Porque eu sabia onde tu estavas e mentir é pecado.

O aspeto mais importante e mais vincado na sua personalidade é a sensibilidade; Jacinta era tão sensível que até parecia de porcelana; emocionava-se muito facilmente tinha o coração nas mãos. Já aos 5 anos, pedia uma e outra vez que a sua prima lhe contasse a história da Paixão do Senhor; ao ouvir narrar os sofrimentos do Nosso Divino Redentor - diz-nos a Lúcia - enternecia-se e chorava muito, e em pranto dizia – “Coitadinho de Nosso Senhor - repetia - eu não hei-de fazer nunca nenhum pecado; não quero que Jesus sofra mais.  (…)

Muitas vezes dizia, Gosto tanto de dizer a Jesus que o amo! Quando Lho digo muitas vezes, parece que tenho lume no peito, mas não me queimo. (…) gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que nunca me canso de lhes dizer que Os amo. repetia muitas vezes. Jacinta possuía uma alma requintada, cheia de finíssimos sentimentos, dizia o pai dela.

Amava as ovelhas e designava a cada uma delas pelo seu nome. Havia a pomba, a estrela, a mansa, a branquinha - os nomes mais lindos do seu vocabulário. Os cordeiritos brancos eram o seu enlevo.
«Sentava-se com eles ao colo - diz a Lúcia - abraçava-os, beijava-os e, à noite, trazia-os ao colo para casa, para que não se cansassem e para fazer como o Bom Pastor que ela tinha visto numa pequena estampa que lhe tinha sido oferecida».

Jacinta no Eneagrama
Com uma mensagem para todo género humano, Maria apareceu em Fátima a três crianças que representam essa humanidade; uma humanidade incompleta que perscruta e se relaciona com a realidade e os outros desde um prisma redutivo e redutor. Lúcia era claramente cerebral; a memoria e a inteligência é o seu forte. Francisco é visceral instintivo não se dedica muito ao pensamento vive da visão da perceção e da contemplação; para ele poucas coisas importam. Jacinta é sentimental, toda ela é emoção sensibilidade.

Que numero poderia ela ser? Um dois não pois tem uma personalidade básica bastante egocêntrica, não própria do 2; um três também não porque não parece buscar o sucesso nem ser pragmática; a meu ver Jacinta no Eneagrama é um 4.

Lúcia conhece a Jacinta mais que ninguém e descreve-a, de facto como sendo bastante egocêntrica absorvida por si mesma. De facto, como adiante veremos, a conversão de Jacinta vem na descentralização da sua vida quando se dá conta que o centro da sua vida não é ela, mas Ele o Jesus que sofre e que precisa de ser reparado. Então entende: quem me queira seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.

Como os 4, Jacinta é exageradamente sentimental trágica e romântica; sonhadora individualista; de gosto requintado pelo estético, como acima fica manifestado na sua a relação com os cordeirinhos imitando a Jesus o bom pastor; como todos os 4 foge do ordinário. Jacinta não acompanhava mais ninguém a não ser a sua querida Lúcia, porque achava as outras crianças groseiras que diziam asneiras, ordinárias; odiava a falta de integridade. Em casa, ela preferia a companhia de seu pacífico irmão Francisco e evitando, a qualquer custo, a companhia de seu irmão mais velho, João.

Outra caraterística dos 4 que encontramos na Jacinta, o medo de ficar sozinha e abandonada como manifestou quando esteve na prisão de Ourém e a sua ida para o hospital da Dona Estefânia em Lisboa onde ela vinca e sublinha que vai morrer sozinha, coisa que ele sublinha com trágicas e dramáticas conotações, próprio dos quatro no eneagrama.

le coeur a ses raisons que la raison ne connaît pas – O coração tem as suas razões que a razão desconhece. Depois do encontro com o pároco Lúcia que, como a sua mãe, o tinha como homem santo e de respeito, por ser cerebral e racional, começou a duvidar de si mesma e da sua perceção; talvez o pároco tivesse razão e as aparições fossem mesmo coisas do demónio. Jacinta, porem, como via e conhecia com o coração, opôs-se à Lúcia e defendeu convictamente a veracidade das aparições.

Como o pároco colocou o demónio na cabeça de Lúcia, esta chegou a sonhar e ter pesadelos com ele, num dos sonhos via o diabo arrastando-a para o inferno e rindo-se dela. Chegado o dia 13 de julho negou-se a ir à Cova da Iria, os primos choravam e imploravam que fosse pois eles não queriam ir sozinhos; Jacinta sobretudo dizia que tinha pena de Nossa Senhora, que iria ficar desgostada com eles. Ao chegar o meio-dia hora das aparições, como por milagre os medos da Lúcia dissiparam-se e lá foi ela com os primos em direção à Cova da Iria, passando por milhares de pessoas que já para lá se dirigiam.

Jacinta a reparadora
"Compreendi que o Amor encerra todas as Vocações e que o Amor é tudo!... então, num transporte de alegria delirante, exclamei: encontrei finalmente a minha vocação, a minha vocação é o Amor! No Coração da Igreja Minha Mãe, eu serei o Amor, assim serei tudo, assim o meu sonho será realizado."  Sta. Teresa do menino Jesus

Gosto tanto de sofrer por amor de Nosso Senhor e de Nossa Senhora! Eles gostam muito de quem sofre para converter os pecadores. Jacinta

Se a pequena Jacinta tivesse conhecido a Santa Teresa do menino Jesus, de certo se reveria e identificaria com ela. Dissemos que cada pastorinho encarna na sua vida e na história da sua conversão um aspeto da mensagem de Fátima. Se Francisco encarna o amor, pela oração e pela consolação do Senhor ao passar tempos infinitos com Ele, Jacinta é o coração da mensagem de Fátima.

Dos três, é a que mais empatia tem pelos corações dilacerados de Jesus e de Maria pelos ultrajes e pecados com que são ofendidos. Desde o momento em que se dá conta dos corações quebrados de Jesus e de Maria, Jacinta oferece-se a emenda-los com a cola do seu amor. O amor é de facto a única cola que pode unir os humanos entre si e com Deus, e reparar os corações, fendidos e ofendidos.

“Quem se obriga a amar, obriga-se a padecer” – Ou como diz Jesus “Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos” . Jacinta apercebe-se muito bem disto e por isso aceita alegremente todos os sofrimentos que se lhe apresentam para reparar o coração ofendido do Senhor.

Assim quando chorava na prisão de Ourém com saudades dos seus pais, bastava a sugestão dos outros dois a que oferecesse esse sacrifício para imediatamente enxugar as lágrimas e alegremente e com certo prazer oferecer o sacrifício. Chegava a dizer Jesus deve estar contente comigo pois custou-me um bocadinho.

Quando já ela e Francisco estavam doentes de cama, chamou com urgência a Lúcia para lhe dizer: Olha, Lúcia - dizia-lhe a Jacinta toda alvoraçada - Nossa Senhora veio-nos ver e disse que vinha buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se ainda queria converter mais pecadores (por meio do sofrimento). Eu disse-lhe que sim. Agora, dizia ela a Jesus, podes converter muitos pecadores, porque sofro muito! Dizia ela num desabafo a Jesus depois da operação a sangue frio.

Só Deus sabe o que ela sofreu no hospital de Ourem onde foi operada sem anestesia; só Deus sabe o que sofreu com a ferida aberta no peito que já deitava pus. E, no entanto, o seu corpo foi encontrado incorrupto quando o corpo foi exumado em 1935 para a causa da beatificação.

Com a sua morte na cruz, Cristo restaurou o género humano, e reparou a nossa união com o Pai. Jacinta que gostava de imitar a Jesus bom pastor no meio do rebanho, levando aos ombros a ovelha perdida, acabou por imita-lo nos três anos de duração da sua vida publica, nos sofrimentos da sua paixão e na solidão da sua agonia e morte. três anos depois das aparições, Jacinta morreu sozinha no hospital com uma ferida aberta no peito tal como Jesus.

Na sua curta vida, Jacinta não só imitou a Cristo bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, mas imitou também a Cristo como cordeiro imolado que tira os pecados do mundo pois a conversão dos pecadores era a única motivação do seu sofrimento e da sua curta vida. E parafraseando um soneto de Camões, mais serviria ela se para tão longo amor tão curta a sua vida. Faleceu três anos depois das aparições o dia 20 de fevereiro de 1920 com 10 anos de idade.
Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de junho de 2017

Fátima: Francisco o Contemplativo

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Perfil humano
Francisco de Jesus Marto nascido a 11 de junho de 1908 em Aljustrel, lugar pertencente à freguesia de Fátima, Concelho de Ourém. Filho de Manuel Pedro Marto e de sua mulher Olímpia de Jesus dos Santos.

Irmão de Jacinta que como esta não apresentava as caraterísticas rudes da sua prima Lúcia. Era robusto de cara redonda e bochechuda um tanto morena de lábios breves como a irmã; mas ao contrário desta, era muito meigo, calmo e pacífico, sem ser um “paz d’alma”, ao contrário, era enérgico, forte, resoluto e gozava de boa saúde.

Como todas as crianças da sua idade, Francisco gostava de brincar; porém ao contrário da sua irmã, não tinha mau perder, até parecia que não queria ganhar; de facto quando alguém quebrava as regras do jogo ou teimava em negar-lhe os direitos, cedia sem resistir limitando-se a dizer, «Julgas que foste tu que ganhaste? Pois seja! A mim pouco se me dá!”.

E quando algum se aproveitava da sua calma para lhe roubar alguma coisa, dizia, «Deixá-lo lá, pouco me ralo”. Era tão pacífico que até “dava nervos” à sua prima Lúcia; ela podia ordenar-lhe qualquer coisa e ele fazia sem questionar.

Não era nada medroso podia ir de noite sozinho a qualquer sítio escuro sem mostrar receio ou sequer contrariedade. Brincava com os lagartos e as cobras que encontrava; fazia-os enrolar em volta do seu pau e dava-lhes a beber nos buracos das pedras o leite das ovelhas. Era apaixonado pela musica que exercitava tocando o seu pífaro nas horas calmas e como Jacinta era amante das flores e da natureza.

Moralmente era irrepreensível - «Uma manhã - conta-nos a Sra. Olímpia - ia ele a sair com o gado e eu digo-lhe assim: - Vai hoje para o Oiteirinho da madrinha Teresa, que ela não esta cá, foi à Aldeia. E logo a responder: - Ah, isso é que eu não faço! Não tive mão em mim que não lhe chegasse uma bofetada. Mas ele não se acobardou. Voltou-se para mim e assim a modo muito sério, sai-se com esta: - Então, é a minha mãe que me está a ensinar a roubar?

Francisco e o Eneagrama
Segundo os psicólogos, existem três centros de inteligência, o cérebro, o coração e o corpo; somos, portanto, cerebrais, emocionais ou viscerais/instintivos; se bem que todos nós lemos a realidade e nos relacionamos com ela e com os outros desde os três centros de inteligência, sempre temos um que é “default” ou preferencial em relação aos outros dois.

Na teoria psicológica do Eneagrama, há nove tipos de personalidade, três para cada um dos três centros de personalidade que acima mencionamos; cada tipo de personalidade é identificado por uma compulsão ou tendência específica, da qual a pessoa, não é consciente, e que influencia ou determina o seu comportamento.

Casualidade ou providência, os três pastorinhos representam muito bem esses três centros. A Lúcia é cerebral, a Jacinta é emocional, e o Francisco visceral ou instintivo. Cada um deles encarna a mensagem de Fátima à sua maneira segundo a sua personalidade básica e centro de inteligência.

Dentro do seu centro instintivo, Francisco não é certamente um 8, cuja compulsão ou tendência  é ser forte, ou um 1 cuja compulsão é ser perfeito, mas sim clarissimamente um 9, cuja compulsão é a busca de paz e harmonia evitando o conflito a toda custa.

Os noves tendem a esquecer-se de si mesmos acomodando-se às agendas dos outros. A Lúcia nas suas memórias nota isto do Francisco que ele obedece sem questionar quase como, um autómato. Os noves são brilhantes "pacificadores", porque aprenderam a minimizar os conflitos.  Também notamos isso no Francisco, para evitar o conflito é até capaz de se privar de algo de que gosta, como nota o seguinte episodio:

Em certa ocasião a prenda para o Francisco foi um lencinho com a imagem de Nossa Senhora da Nazaré, que ele, todo satisfeito, foi mostrar aos companheiros. Ora o Lencinho, a certa altura, desapareceu. - «Tinha muita estima nele - diz a mãe - e falava nisso vezes sem conta. Quando, todavia, lhe disseram que o lenço estava em poder de outro pequeno que teimava que era dele, não fez força para o readquirir: - «Que fique com ele! A mim não me importa o lenço».

Os Noves evitam o conflito a todo custo e buscam tranquilidade, paz e harmonia (interna e externa). Francisco vive desapegado de tudo e de todos um pouco na estratosfera; poucas são as coisas que verdadeiramente lhe importam. Silencioso, a leste de tudo e de todos ensimesmado contemplativo.

Eucarístico e contemplativo
«Eu gostei muito - dizia - de ver o Anjo e ainda mais de ver Nossa Senhora. Mas do que mais gostei foi de ver Nosso Senhor naquela luz que a Virgem nos pôs no coração. Gosto muito de Deus ... Mas Ele está tão triste por causa de tantos pecados ... Nós não devemos fazer nem o mais pequeno pecado! ... » (…) «Daqui a pouco Jesus vem buscar-me para ir para o Céu com Ele e então fico sempre a vê-Lo e a consolá-Lo. Que bom! ... Francisco

Nós estávamos a arder, naquela luz que é Deus, e não nos queimávamos. - Passava assim horas em adoração ao santíssimo como lhe chamava ele “Jesus escondido”. Penitência e oração resumem a mensagem, de Fátima; ambos Francisco e Jacinta fazem penitência e oração, mas Francisco está mais inclinado à oração e Jacinta à penitencia.  Enquanto Jacinta se ocupava em salvar almas por meio da sua penitência, Francisco só pensava em consolar Jesus com a sua oração e presença.

Tal como Jesus, com os apóstolos, de vez em quando desaparecia sem ninguém se dar conta deixava a companhia da irmã e da prima e escondia-se detrás de uma parede ou ia para um lugar ermo e lá rezava sozinho. Quando o encontravam Lúcia e Jacinta:  – Francisco, por que não me dizes para rezar contigo e mais a Jacinta? – Gosto mais – respondia – de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor que está tão triste.

Já depois das aparições, conta Lúcia que quando ia à escola, por vezes, ao chegar a Fátima, dizia-me: – Olha: tu, vai à escola. Eu fico aqui na igreja, junto de Jesus escondido. Não me vale a pena aprender a ler; daqui a pouco vou para o Céu. Quando voltares, vem por cá chamar-me.

Apesar do amor pela eucaristia, pelo “Jesus escondido”, o Pároco de Fátima recusava dar-lhe a comunhão. Mas enquanto este lha recusou não lha recusou o anjo e ao comungar Francisco exclamou: Eu sentia que Deus estava em mim, mas não sabia de que maneira.

Depois das aparições a vida dos dois irmãos muda drasticamente, Jacinta não perde uma ocasião para oferecer todo os sacrifícios a Deus pela conversão dos pecadores, Francisco por seu lado não perde uma ocasião para se isolar da irmã, da prima e das outras crianças e passa largas horas sozinho rezando o terço consolando a Jesus. Dizia: – Vocês não venham para aqui; deixem-me estar sozinho.
– Mas que estás aqui a fazer tanto tempo? – Estou a pensar em Deus que está tão triste, por causa de tantos pecados! Se eu fosse capaz de Lhe dar alegria!

“Vivo sem viver em mim e tão lata vida espero que morro porque não morro” Sta Teresa de Ávila

Tão adentrado estava já Francisco, na relação com o seu “Jesus escondido” que já não pensava nem queria outra coisa. Todo tempo era pouco para estar com Ele, e para O consolar.  Um dia perguntaram-lhe se queria ser carpinteiro, militar, doutor, ou mesmo padre; não quero ser nada respondeu; e que queres ser então, perguntaram a seguir, não quero ser nada, quero morrer e ir para o céu.

Quando Francisco e Jacinta já estavam doentes um em cada quarto da casa, era a Lúcia que levava e trazia as mensagens entre ambos. Como era sabido que Francisco morreria antes que a sua irmã, a Jacinta manda-lhe dizer que não se esquecesse de rezar por ela e pela Lúcia, ao que Francisco respondeu que tinha medo de se esquecer quando visse Nosso Senhor. Seria de facto tanta a alegria e felicidade que a visão daquele que até ali era só o “Jesus escondido” lhe iria causar que absorto por Ele iria ficar coma mente varrida de todo pensamento.

E para o céu foi de facto no dia 4 de abril de 1919 dois anos depois das aparições e algum tempo de convalescença durante a qual os seus pais tinham fé de que se iria salvar. Um dia sua madrinha Teresa prometeu que se a Nossa Senhora o curasse Lhe ofereceria o seu peso em trigo, ao que o Francisco respondeu com um sorriso angélico, “A Nossa Senhora não lhe fará essa graça”. A qualquer palavra de esperança de melhoras respondia, “É inútil, Nossa Senhora quer-me no Céu consigo” E não o dizia resignadamente ou tragicamente mas sorrindo, bem disposto e alegre.
Pe. Jorge Amaro, IMC




15 de maio de 2017

Fátima e a sua relevância para o mundo

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Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé. Aparição de 13 de julho

O século XX foi, sem lugar a dúvidas, o século mais sangrento da história da humanidade. O Deus de Israel que viu o sofrimento do seu povo escravo no Egipto, não podia contemplar tantos horrores impávido e sereno. Naquele tempo enviou Moisés neste tempo enviou Maria, aquela que desde as bodas de Caná está atenta às necessidades do seu povo, e desde a visitação à sua prima nunca cessou de visitar os seus filhos.

Com efeito, desde a primeira aparição da Nossa Senhora em Fátima a 13 de maio de 1917 até depois do atentado do Papa João Paulo II a 13 de maio de 1981 na praça de São Pedro em Roma, Fátima esteve no centro como chamada de atenção a esta humanidade sofredora.

Fátima, comunismo e consagração da Rússia
 (…) virei pedir que o Papa faça a Consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração. Aparição de 13 de julho

De todos os pedidos de Nossa Senhora aos pastorinhos este foi sem dúvida o mais espinhoso. Desde Pio XII, a 31 de outubro de 1942, até ao Papa Francisco, a 13 de outubro de 2013, já lá vão sete tentativas de consumar o pedido. Foram muitos os subterfúgios nesta consagração para de alguma forma se dar a entender que se estava a consagrar a Rússia, sem nunca nomear o seu nome por razões diplomáticas e ecuménicas obvias. José Milhazes, no seu livro A Mensagem de Fátima na Rússia, afirma que uma imagem de Fátima chegou a ser levada clandestinamente para a Praça Vermelha, nos anos 70.

A irmã Lúcia chegou a “protestar” dizendo que, no ato de dedicação de 13 de maio de 1982, a Rússia não aparecia como sendo o objeto da consagração. E continuou a dizer: “A Consagração da Rússia não foi feita como Nossa Senhora pediu”.

A 25 de março de 1984 o Papa, mandou vir a imagem oficial da capelinha de Fátima e o famoso ícone russo de Kasan, que estava também em Fátima, na Igreja ortodoxa do Exército Azule, depois de recitar a fórmula da consagração agregou, “Iluminai especialmente aqueles povos de quem esperais a nossa consagração e dedicação”. Esta foi a fórmula mais explícita de quantas consagrações se fizeram e a irmã Lúcia, finalmente, concordou que a Rússia tinha sido consagrada como pedira Nossa Senhora.

Apenas um ano depois a conversão da Rússia acontece; acede ao poder Mikhail Gorbatchov o qual lançou as reformas da Perestroika que em russo significa precisamente conversão. Com esta revolução o país colocava de lado o ateísmo militante e a liberdade religiosa foi instaurada no país. 

O cardeal Joachim Meisner, arcebispo de Berlim até à queda do muro, disse na altura” Para mim é óbvio que a revolução antissoviética se iniciou em Fátima com a virgem e as três crianças”. Tal como as muralhas de Jericho, (Josué 6, 20) a força da oração conseguiu o que nenhuma outra força conseguiu incluindo a militar.

Fátima e o Nazismo
Não só o comunismo se sentiu atacado por Fátima, também o Nazismo se sentiu incomodado, de facto o ofício central para a segurança do Reich chegou a afirmar que “Toda a propaganda de Fátima se orienta na sua estrutura total contra os fundamentos do Nacional Socialismo (Nazismo)”.

A mensagem de Fátima é explícita na condenação do comunismo como militância ateística, nada diz contra a revolução social que o comunismo trouxe; também não há nada explícito contra o nazismo como ideologia, só se fala da segunda guerra mundial e do muito mal que iria causar. Apesar de Fátima ser explicita contra a ideologia ateia da revolução Russa, os aliados não queriam usar Fátima contra a Rússia por estar com eles aliada contra a Alemanha Nazi. Desta feita instrumentalizaram a mensagem de forma a tronar-se uma arma contra o Nazismo

Mais explicitamente o Pe. Luís G. da Fonseca reescreveu o texto do segundo segredo: assim, onde se falava da consagração da Rússia colocou consagração do mundo; e em vez de Rússia difundirá os seus erros pôs-se “uma propaganda impia difundirá no mundo os seus erros promovendo guerras”; desviou-se assim a atenção da Rússia para a Alemanha em 1942. Historicamente, portanto, Fátima também serviu de arma de arremesso dos aliados contra o nazismo.

Fátima e a guerra fria
A cúpula azul da Igreja ortodoxa, por detrás da basílica de Fátima, não passa ainda hoje despercebida se bem que já não está pintada de azul.  Chamou-se de facto durante décadas o exército azul. Organização religiosa que serviu aos norte-americanos e ditadores latino-americanos para satanizar e combater o comunismo. Chegou a ter 25 milhões de associados, o seu nome contrapõe-se claramente ao exercito vermelho da URSS.

Era de certo um exército pacifista, mas o Kremlin sempre desconfiou que se tratasse de um ninho de agentes da CIA. Fundado pelo Padre americano Colgan que sintetizou a mensagem de Fátima em três preceitos: Devoção ao Imaculado Coração de Maria, reza do terço diariamente e cumprimento dos deveres do Estado.

As imagens peregrinas de Fátima
A primeira partiu de Portugal em 1946, a pedido de um pároco de Berlim que propôs que a imagem percorresse todas as capitais europeias até à Rússia. Seguiram-se outras viagens em 1948 para a África, em 1949 para a América, em 1953 para a Coreia do Sul, em plena guerra a Senhora Branca da Paz era mais uma vez uma arma de arremesso contra o comunismo.

Foi precisamente neste ano que no Cairo se organizou uma das maiores manifestações marianas conhecidas no país, por ironia a imagem desfilou no carro da embaixada russa.

Fátima e a religião muçulmana
Diz a lenda que Fátima era o nome de uma donzela árabe capturada por Dom Afonso Henriques, em luta contra os mouros e dada em matrimónio a um dos seus guerreiros D. Gonçalo Hermingues, que dela se tinha prendado, na condição de que ela aceitasse livremente o matrimónio e converter-se ao cristianismo.

Fátima aceita, e depois da instrução conveniente é batizada com o nome de Oureana (que deu origem à cidade hoje chamada de Ourém). A bela princesa, entretanto, morreu na flor da idade, e D. Gonçalo, desolado, entregou-se a Deus na abadia cisterciense de Alcobaça, a 30 km de Ourém.

Fátima desde sempre foi um nome muito comum no mundo árabe, porque assim se chamava a filha querida do Profeta Maomé. Fátima é objeto de veneração e respeito por todos os muçulmanos, por ser a filha mais chegada ao seu pai e o ter apoiado nas suas dificuldades; o mesmo fazia com o seu marido e filhos; foi também a única filha do profeta que teve filhos varões que viveram mais além da infância, e fundaram dinastias em países como o Egipto.

Poucos cristãos sabem que a Nossa Senhora é venerada pelos muçulmanos. De facto, quando Maomé entrou na Meca e os seus soldados começaram a destruir todos os ídolos, ele abraçou uma estátua da Nossa Senhora para que os soldados não a destruíssem também.

O livro do Alcorão contém toda uma sutra (capítulo) acerca de Maria; ela é também o único nome de mulher neste livro. Todas as outras mulheres das quais o livro fala não as menciona pelo seu nome, como faz com Maria, mas sim pela sua função. Por exemplo não se fala de Sara, mas sim da mulher de Abraão.

Maria é venerada no Alcorão como virgem e mãe do profeta Isa (Jesus) o que, tanto para muçulmanos como para cristãos, é Ele que há-de vir no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos, pode ser que a intervenção da Senhora de Fátima ainda não tenha terminado, e ainda tenha uma palavra a dizer nas relações entre muçulmanos e cristãos.

É um facto que nas suas viagens peregrinas, a Senhora de Fátima tem suscitado a curiosidade e despertado uma veneração entre os árabes por ter o nome de Fátima. Não é, portanto, de todo impossível que Maria venerada por cristãos e muçulmanos, em especial debaixo da invocação de Senhora de Fátima, aproxime uns e outros.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de maio de 2017

Fátima e a sua relevância para Portugal

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Deus não poderiam ser apenas um espectador silencioso antes as atrocidades do século XX, o mais sangrento na história da humanidade. De alguma forma, havia uma necessidade urgente de que o Eco da Sua voz, o Evangelho, ressoasse no meio de tanta devassidão.

Foi neste século em que as filosofias ateísticas e niilistas de fins de século XIX buscaram a sua realização histórica. Pensemos em autores como Darwin, Feuerbach, Karl Marx, Freud e Nietzsche, as suas teorias influenciaram as mentes e a opinião pública do mundo ocidental. 

Fátima é, de alguma maneira, a resposta de Deus, para a humanidade do século XX. Um Deus que, afinal, não está morto, como essas filosofias previam, nem perdido nem petrificado na mente dos homens primitivos. Pelo contrário, nestes tempos pós-modernos, como sempre, está bem vivo, tornando a Sua presença através da sua Palavra de Vida que é eterna, portanto, válida em todos os tempos e em todos lugares.

Na escolha do lugar e do tempo da revelação divina, surge sem dúvida a pergunta porquê 1917, porquê Portugal? Porquê Fátima? Porquê aquelas crianças em particular e porquê a Cova da Iria? Não há casualidade nos planos de Deus, nem penso, como dizia Einstein, que Deus jogue aos dados. Deus escolhe sempre criteriosamente o tempo, o lugar e os mensageiros ou catalisadores da sua mensagem, como escolheu a Terra e o povo de Israel para encarnar na história da humanidade.

Porquê Portugal?
Terra de Santa Maria – Foi o nome dado no século IX, por Afonso III rei de Leão, às terras que ficam entre o rio Douro e o Vouga. O castelo de Santa Maria da Feira era provavelmente a fortaleza militar e centro administrativo destas terras. O culto à Virgem Maria nestas terras é anterior à nossa nacionalidade; sob a invocação de Imaculada Conceição remonta a Afonso Henriques o primeiro rei de Portugal a quando da conquista de Lisboa em 1147. Portugal é, portanto, conhecido como terra de Santa Maria. Faz, portanto, todo o sentido que Maria visite aquela que sempre foi considerada como a sua terra.

A Imaculada Conceição é rainha de Portugal - A partir de 1640 os reis portugueses deixam de usar a coroa na cabeça. Como tal a dita cerimónia de coroação foi substituída por uma outra e passou a ser chamada de aclamação, na qual o rei recebe a coroa que coloca ao seu lado, não na cabeça. Isto desde que o rei Dom João IV pediu a intervenção de Maria, numa das batalhas da restauração da independência; ao ser bem sucedido o rei proclamou a Nossa Senhora da Conceição Rainha de Portugal.

Muito antes, portanto, de ser declarado dogma pelo Papa Pio IX, em sua bula Ineffabilis Deus em 8 de dezembro de 1854. Já em Portugal Maria era venerada no seu título de Imaculada Conceição. Maria, portanto, visitou os seus domínios.

Porquê Fátima?
Mas tu, Belém a mais pequena entre as cidades de Judá, é de ti que há-de sair aquele que governará em Israel. Miqueias 5,2

O paradigma bíblico de escolher o último, o desconhecido, o que não é importante, não foi aqui roto. Fátima, que contava com pouco mais de dois mil, era uma freguesia agreste, situada num planalto irregular da serra de Aire, com um clima húmido e ventoso, solo pobre e pedregoso seco e sem cursos de água. O povo desta região, inculto e agreste como o próprio terreno, vivia da prática de uma economia agro-pastoril de subsistência.

Não obstante as obstinadas campanhas anticlericais e secularistas e liberais dos finais do século XIX e princípios do século XX, a grande maioria das pessoas permanecia fiel à religião católica, com práticas diárias de oração, tais como: a reza do terço nos serões em família, a frequência regular dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. O povo era humilde e pautava a sua vida pelo calendário litúrgico, vivendo intensamente os tempos litúrgicos Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, Ascensão Pentecostes, Corpo de Deus… bem como as romarias dos santos populares de veneração local.

O cónego Manuel Formigão refere, nos seus escritos, que a reza do terço era uma devoção muito querida no lugar de Aljustrel freguesia de Fátima. Aliás, a devoção do rosário era, "de há séculos, a mais geral e a mais querida manifestação do amor de toda a diocese de Leiria, não só de Fátima, à Santíssima Virgem". Todas as famílias o rezavam depois de cear, os pastorinhos tinham por hábito reza-lo também quase como passatempo enquanto guardavam o rebanho.

Visitar Fátima e apresentar-se como a Senhora do Rosário é como chover sobre o molhado. Fátima era terreno preparada para a visita da senhora, que ia precisamente pedir às crianças que rezassem todos os dias o terço. Não lhes estava a pedir nada de desconhecido, mas algo para o qual as crianças já tinham sido iniciadas e era costume fazerem.

Porquê aquelas crianças?
Deus escolhe os humildes para confundir os sábios - Fátima segue os paradigmas do evangelho à letra. Como é possível que uma mensagem tão relevante, tanto para Portugal, como para o mundo inteiro, tenha sido confiada a três crianças rudes, simples e analfabetas?

À primeira vista Lúcia de 10 anos, e os seus primos Francisco de 9 e a sua irmã Jacinta de 7, eram crianças perfeitamente normais; iguais a tantas outras naquelas serranias, tanto pelos seus defeitos como pelas suas virtudes.  Porém tinham certos dotes, aspetos da sua personalidade que Deus ia certamente usar para fazer passar a sua mensagem.

Lúcia - não atraía pela sua beleza física, mas era extrovertida, guardava, ensinava e entretinha as outras crianças; sabia contar histórias, sobretudo as histórias da bíblia que ela contava admiravelmente, emocionando os pequenos corações como o da Jacinta; era criativa e vivaz, uma líder natural. Estava, portanto, naturalmente qualificada para a ser a interlocutora de Maria, a mensageira e a depositária da mensagem por longos anos ate ao fim da sua vida em 2005.

Jacinta - ao contrário de Lúcia, era agraciada fisicamente, era franzina, bonita e bem constituída; porém psicologicamente era todo o oposto da sua prima, tímida, introvertida, muito sentimental e sensível. Estava qualificada para ser o coração da mensagem, para ser a sufragadora, para encarnar aquela parte da mensagem de Fátima que dá conta e sentido aos sofrimentos de cada dia e que tira proveito deles para um bem maior, “a conversão dos pobres pecadores”.

Francisco - nem era como a prima Lúcia, nem como a irmã Jacinta. Menos sentimental, mais visceral ou instintivo, abstraia-se de tudo e de todos, não se guiava pela cabeça, como a Lúcia, nem pelo sentimento como Jacinta, mas pelo instinto. Ele era o mais contemplativo dos três, desapegado da vida, de tudo e de todos, tinha a mente e os olhos no “Jesus escondido” no sacrário, como a s três crianças chamavam o Santíssimo Sacramento; passava longas horas em oração e contemplação. Ele encarnou, da mensagem de Fátima, o amor pela eucaristia. Ironicamente, por caturrice do pároco de Fátima, só comungou no leito da morte das mãos de um outro sacerdote por estar ausente o pároco.

Porquê a Cova da Iria?
Conta a lenda que, Iria ou Irene, era uma donzela nascida numa Vila romana nas margens do rio Nabão em Tomar; recebeu educação num mosteiro de monjas Beneditinas. Dotada de beleza e inteligência, a jovem Iria atraía as atenções, tanto do monge Remígio seu diretor espiritual, como do jovem fidalgo Britaldo. Movido de ciúmes, o primeiro deu-lhe uma poção que a fez parecer grávida; ao vê-la naquela condição o segundo deu-lhe a morte. Do Nabão para o Zêzere, do Zêzere para o Tejo, o corpo apareceu incorruptível na localidade, chamada com o seu nome Santa Irene, Santarém.

O local onde apareceu a Nossa Senhora era propriedade privada; pertencia à família de Lúcia, se assim não tivesse sido provavelmente as autoridades teriam encerrado o local e proibido as pessoas de lá irem.

A relevância de Fátima para Portugal
Vivo num conflito entre a necessidade emotiva da crença e a impossibilidade intelectual de crer. (…) O facto é que há em Portugal um lugar que pode concorrer, e vantajosamente, com Lourdes. Há curas maravilhosas, a preços mais em conta" Fernando Pessoa (1888-1935)

O mais internacionalmente conhecido poeta português, encarna muito bem o pensamento filosófico, político e social português do tempo das aparições. Pessoa faz coro com a maior parte dos pensadores portugueses, que imitando os seus congéneres europeus ironiza, satiriza a fé do povo simples, que considera ser ao mesmo tempo causa e consequência da ignorância e falta de cultura.

Insurgindo-se contra o nacionalismo Católico, que já tinha Fátima por epicentro, Pessoa já naquele tempo fazia parte de uma corrente, ainda hoje vigente, que visa que a europa negue as suas raízes cristãs e volte ao paganismo pré-cristão.

A incoerência é bem patente em Pessoa, como denota a frase acima citada; por exemplo, exalta os descobrimentos portugueses e esquece-se ou ignora que estes não seriam possíveis sem a fé que animava e motivava os descobridores. O próprio Camões, o que escreve a historia de Portugal dentro da narrativa da epopeia da descoberta do caminho marítimo para a India, reconhece que a razão dos descobrimentos foi “Dilatar a fé e o império”. A cruz que estava em todas as velas das naus portuguesas era a cruz dos templários; o grande inspirador e mentor dos descobrimentos, o Infante Dom Henrique, era um Templário.

Com a tomada do poder por Afonso Costa em 1910, o Estado viu na Igreja um inimigo a eliminar; tomou como ideologia o laicismo militante e em vez de dialogar com a Igreja, impôs-se à Igreja, começando por expulsar a sua força mais sábia e intelectual, os Jesuítas, os que mais lhe faziam sombra; proibiram as cerimónias religiosas fora das Igrejas, o toque dos sinos, legalizaram o do divórcio, extinguiram os feriados religiosos, reprimiram e limitaram o mais que ponderam a imprensa cristã, os sacerdotes e religiosos não podiam usar em público as suas vestes e hábitos. Para a primeira república, Fátima, era uma crendice obscurantista.

Pouco durou esta política laica pois, providencialmente, no mesmo anos das aparições, em 1917, o governo jacobino e antirreligioso de Afonso Costa sucumbiu. Subiu ao poder Sidónio Pais que instaurou o Estado Novo, acabou com as leis antirreligiosas, mas por outro lado fechou o parlamento. O regime endureceu ainda mais com a ascensão de Salazar em 1928, como ministro das finanças e mais tarde como primeiro ministro. Passamos de um regime liberal laico filo comunista para o fascismo do Estado Novo sem nenhuma guerra.

Em 1931 os bispos portugueses consagraram Portugal ao Imaculado Coração de Maria para ser poupado, como de facto foi, ao avanço do comunismo ateu que devastou o nosso país vizinho, a Espanha, numa guerra Civil fratricida entre 1936 - 1939.  Ao contrário de Portugal, a transição para o fascismo de Franco fez-se por intermédio de uma sangrenta guerra civil, com uma perseguição à igreja onde pereceram centenas de padres, Bispos, religiosos e religiosas.

Salazar não era clerical, mas em vez de atacar a Igreja serviu-se habilmente dela e mais concretamente de Fátima, para satanizar e atacar o comunismo, e impedir qualquer tipo de reformas políticas e sociais. Fátima foi nacionalmente e internacionalmente utilizada como arma contra o avanço do comunismo, no entanto a verdadeira mensagem de Fátima nunca se refere ao comunismo, enquanto sistema politico social, mas sim exclusivamente ao ateísmo militante.

“Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé”
(…) quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra? Lucas 18, 8
Esta triste e enigmática, deixada no ar por Jesus, parece sugerir que a fé que vai passando de geração em geração, de uma forma cada vez mais fraca é suscetível de se perder no tempo, muito antes de Cristo vir pela segunda vez para julgar os vivos e os mortos.

Nós portugueses, habitantes da Terra de Santa Maria, temos a promessa que a Senhora de Fátima fez aos pastorinhos, no dia 13 de julho e que ficou incluída na 2ª parte do segredo, de que nestas terras a fé vai permanecer até Cristo vir ao nosso encontro… Vem Senhor Jesus!
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de abril de 2017

Fátima: Coincidência ou Providência?

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“Kairós” – O momento oportuno
Inspirado num texto publicado por Vittorio Messori, a 14 de dezembro de 2011, no jornal italiano Corriere della Sera, dei-me conta que Fátima é protagonista de inúmeras coincidências, ligadas à sua mensagem e significado para o mundo, durante o século XX. Os menos crentes chamar-lhe-ão meras coincidências; mas, mesmo entre os não crentes, são cada vez mais aqueles que afirmam que nada acontece por acaso, uma frase que com muita frequência vemos no Facebook, aplicada a mil e uma situações existenciais.

Para aquilo que de bom acontece, e não tem explicação plausível, os não crentes chamam-lhe sorte; ao contrário, para o que de mal acontece chamam-lhe azar. O sinónimo de sorte ou azar, para os crentes, é Providência. Os crentes não perdem a cabeça em tempos de sorte, nem se desesperam em tempos de azar, pois sabem que “não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature”.

Se até os cabelos da nossa cabeça estão contados, como diz o Evangelho, tudo é Providência divina. Ou seja, tudo o que acontece, de bom ou de mau, é querido ou permitido por Deus, “que escreve direito por linhas tortas”. E para aquele que põe a sua confiança e segurança em Deus, “Não há males que por bem não venham”.

O sim da Igreja a Fátima
O processo eclesiástico, que, para além dos interrogatórios do pároco de Fátima, o Pe. Manuel Marques Ferreira, e do Cónego Manuel Nunes Formigão, constou de uma comissão que instaurou um inquérito canónico oficial para averiguar a veracidade das aparições.

A comissão começou os seus trabalhos no dia 13 de maio de 1922, 5 anos depois do começo das aparições, e acabou no dia 13 de outubro de 1930, exatamente 13 anos depois do encerramento das aparições. Nesse dia, com o conhecimento e aprovação do Papa Pio XI, o então Bispo de Leiria, D. José Correia da Silva, anunciou o resultado da investigação permitindo, oficialmente, o culto a Nossa Senhora de Fátima.

Fátima e os papas
Em plena I Guerra Mundial, a 5 de maio de 1917, o Papa Bento XV exortou a todos os cristãos que pedissem a intercessão de Maria para obter a “aspirada paz para o mundo desvairado”. Tão só 8 dias depois, Maria aparece em Fátima com o seu plano para a paz mundial. Um ano mais tarde, em 1918, o mesmo papa, em carta dirigida aos bispos portugueses para restabelecer a diocese de Leiria, à qual pertenciam os videntes, referiu-se às ocorrências de Fátima como "uma ajuda extraordinária da Mãe de Deus."

No mesmo dia em que a Nossa Senhora apareceu em Fátima pela primeira vez, a 13 de maio de 1917, era ordenado Bispo o Padre Pacelli, mais tarde eleito papa com o nome de Pio XII. Vinte cinco anos mais tarde, quando celebrou o seu jubileu de prata, viu nesta coincidência os secretos desígnios da Providência.

Apesar de não o conhecer pessoalmente, Jacinta amava muito o Santo Padre e por ele rezava todos os dias; numa das suas visões, viu-o muito angustiado, a rezar. Gostava tanto dele, e era tanto o desejo de o ver que, ao observar como tanta gente acorria à Cova da Iria, durante as aparições e depois delas, na sua simplicidade e singeleza, chegou a afirmar: “Vem tanta gente aqui só o Santo Padre é que não vem!”.

Não veio, de facto, durante a sua curta vida, mas veio durante a vida da sua prima. Paulo VI celebrou o cinquentenário das aparições e encontrou-se com a irmã Lúcia, a qual faleceu no dia 13 de fevereiro de 2005. Mas, antes de falecer, 5 anos antes, em a 13 de maio de 2000, assistiu à beatificação dos seus primos Francisco e Jacinta. O então papa, João Paulo II, recordou nesse dia as palavras de Jacinta e agradeceu-lhe o seu amor e as suas muitas orações e sacrifícios pelo papa, quando ele ainda nem tinha nascido.

Atentado do Papa João Paulo II
No mesmo dia e na mesma hora em que o papa João Paulo II foi baleado, a 13 de maio de 1981, 64 anos antes, aparecia a Nossa Senhora em Fátima. Não é segredo para ninguém que a bala foi disparada pela União Soviética, pelo apoio que o papa dava à organização sindical “Solidariedade”, que, na altura, atuava como um cavalo de Tróia dentro do Império Soviético, e que acabaria por ser a sua ruína. Não foi a União Soviética que prevaleceu, mas a Nossa Senhora de Fátima que, milagrosamente, desviou a bala, no entender do papa.

Das três balas disparadas contra o papa João Paulo II, duas não provocaram lesões graves. Os estragos causados pelo terceiro projétil foram bem maiores. A bala perfurou o abdómem do papa, atingiu o intestino grosso e o intestino delgado, resvalou pelo osso sacro - a penúltima parte da coluna vertebral - e saiu pelas costas.

Nesse percurso, a bala passou a providenciais centímetros de órgãos vitais, em especial a artéria aorta. Se essa artéria fosse atingida, é improvável que Karol Wojtyla sobrevivesse à corrida entre a Praça de São Pedro e o Policlinico Agostino Gemelli, onde chegou abalado por uma intensa hemorragia, prontamente neutralizada por uma transfusão de 3 litros de sangue e uma cirurgia que consumiu cinco horas e meia.

João Paulo II que, até aquele momento, apesar de amante fervoroso de Maria, à qual se referia o seu moto “Totus Tuus”, ainda não tinha manifestado grande interesse por Fátima, acabou por visitá-la um ano depois, em 1982, para agradecer a Maria que o tinha protegido. João Paulo II visitou duas vezes mais Fátima, porque se deu conta que ele era o papa do segredo; o segredo que os seus antecessores leram e mantiveram guardado.

O papa João XXIII ficou tão sensibilizado com ele que o manteve sempre no seu quarto de dormir, mesmo depois de ter afirmado estar convencido de que o segredo não se referia nem a ele nem ao seu pontificado.

O conhecimento que os pastorinhos tinham do seu futuro
Sim, a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Aparição do dia 13 de junho

Logo na segunda aparição, anos antes, quando ainda gozavam de perfeita saúde, os pastorinhos já conheciam o que os esperava: que Francisco e Jacinta em breve morreriam e que a Lúcia ficaria ainda por mais um tempo, para ser testemunha da mensagem de Fátima e propagar a devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Mais ainda, em aparições privadas da Nossa Senhora, a Jacinta soube, com antecedência, tudo sobre as circunstâncias da sua morte: o dia e a hora; que iria para dois hospitais, para sofrer mais, mas não se curaria; que, para o hospital de Lisboa, seria acompanhada pela sua mãe, que a deixaria lá sozinha; o que mais a torturava foi o saber que nunca mais iria ver a sua querida amiga Lúcia e morreria sozinha.

Coroa de glória e coroa de espinhos
A coroa da Nossa Senhora de Fátima é de ouro puro, pesa 1200 gramas e está adornada com 950 diamantes, 313 pérolas, uma esmeralda grande, 13 esmeraldas pequenas, 33 safiras, 17 rubis, 260 turquesas, uma ametista e quatro águas-marinhas. Estas jóias foram oferecidas por centenas de portuguesas, para agradecer o facto de Portugal não ter entrado na Segunda Guerra Mundial.

Quando o papa João Paulo II doou a bala para ser colocada na coroa, em primeira análise não sabiam onde colocá-la; foi, por isso, com surpresa, que a joalharia que fez a coroa de Nossa Senhora de Fátima, em 1942, descobriu que a bala que atingiu João Paulo II tinha precisamente o mesmo diâmetro da anilha que une as hastes do diadema; aí foi, portanto, colocado o projétil, quase meio século depois; quando a coroa foi feita ela já continha, naquele momento presente, o lugar do futuro.

A suntuosa coroa, fruto do trabalho e do amor dos Portugueses por Maria, estava incompleta; faltava-lhe ainda uma pérola, a bala que atingiu o papa, e, providencialmente, o lugar que esta iria ocupar esteve sempre lá à sua espera. Ao ser colocada no seu lugar, a coroa de glória passa a ser também a coroa de espinhos e, assim, condiz mais com a vida da Nossa Senhora e com a vida à qual todo o cristão está chamado, à glória pela via da cruz, do sofrimento, representado na bala.

Fátima e Rússia
Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim o meu Imaculado Coração triunfará. 13 de julho 1917.

Três meses depois de a Nossa Senhora ter dito isto aos pastorinhos, Lenine faz-se com o poder na Rússia e começa a revolução bolchevique, que iria aniquilar as nações vizinhas, transformando-as, com a Rússia, na grande nova Babilónia, a União Soviética.

Quantos exércitos tem o papa?” – perguntou, no seu tempo, Estaline, para ridiculizar o potencial político e militar do Vaticano. A história demonstrou que quem se ri no fim ri-se melhor, o poder espiritual é bem mais potente que o militar, pois o ser humano é, ante tudo, espiritual e os motivos espirituais, até mesmo negativamente, como força motriz de comportamento, são sempre mais fortes que a ganância e todos os outros motivos mundanos e terrenos.

Por fim, (disse Maria em Fátima) o meu Coração Imaculado triunfará, com efeito, no fim o sentimento religioso, a crença em Deus, triunfou sobre o ateísmo iluminista e racionalista; a fé triunfou sobre a razão, tanto na Rússia, como em Portugal e no mundo inteiro.

Isto mesmo disse, a 10 de maio de 1985, numa visita a Portugal, o presidente norte-americano Ronald Reagan, de certo inspirado por Deus, afirmou: “Atrevo-me a sugerir que é no exemplo de homens como ele (referindo-se ao Papa João Paulo II) e nas orações de pessoas de todo o mundo – pessoas humildes como os pastorinhos de Fátima – que reside um poder maior de que todos os grandes exércitos e estadistas do mundo”. Dois anos depois, era assinado o primeiro tratado de desarme nuclear entre os Estados Unidos e a URSS.

O Azul de Maria prevalece sobre o vermelho
Retirada do Exército vermelho da Áustria - O dia 13 de maio 1955 – Depois de longos 10 anos de campanha, promovida pelo sacerdote Franciscano Petrus Pavlicek, que constava em inúmeras e constantes procissões e a reza do rosário em público um pouco por todo o país, sobretudo em Viena. Ante este protesto silencioso, pacífico, mas proactivo, dos austríacos, a Rússia retirou-se da Áustria, que tinha ocupado desde 1945.

A bandeira da Comunidade Europeia - A 8 de dezembro do mesmo ano, 1955, também, na festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, foi eleita como a bandeira do Conselho da Europa, a que hoje representa a União Europeia. Azul é a cor da Virgem Maria e as estrelas são aquelas que rodeiam a cabeça da mulher do Apocalipse, em que a tradição reconhece Maria.

O fim da União Soviética - Por fim, no mesmo dia 8 de dezembro de 1991, na mesma festa da Imaculada Conceição, 74 anos depois de Maria ter dito em Fátima que, por fim, o seu Imaculado Coração triunfaria, a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia assinaram um documento que punha fim à União Soviética. Na noite de Natal desse ano, a bandeira vermelha, com a foice e o martelo, foi retirada para sempre da cúpula mais alta do Kremlin e, em seu lugar, foi hasteada a bandeira tricolor do Império de Pedro, o Grande.

Consagração da Rússia ao Imaculado Coração - Uma das petições de Maria, ou condições para que a Rússia se convertesse, foi que o papa a consagrasse ao seu Imaculado Coração. Depois de inúmeras consagrações incompletas, desde o Papa Pio XII, em que o nome Rússia nunca era nomeado, finalmente o Papa João Paulo II, no dia 25 de março de 1984, fez uma consagração que encontrou aceitação perante a vidente Lúcia.

Dois anos depois subia ao poder Mikhail Gorbatchov, que iniciou uma série de reformas sociais e políticas, uma das quais acabava de vez com a perseguição religiosa e o ateísmo militante. A estas reformas ele mesmo deu o nome de Perestroika, conversão em russo.

O muro de Berlim - O muro que durante anos dividiu as duas Alemanhas começou a ser construído pela Republica Democrática da Alemanha, no dia 13 de agosto de 1961. A sua demolição começou, oficialmente, no dia 13 de junho de 1990 e foi completada dois anos depois.

Não poucas são as coincidências entre Fátima e vários factos históricos que aconteceram no passado século XX. Quando são muitas casualidades, e quando todas elas apontam na mesma direcção, não pode não haver uma intenção deliberada. Em Fátima e por meio de Fátima, a Divina Providência interveio no século mais belicoso da história da humanidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de abril de 2017

Fátima: Intervenção Sociopolítica

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Fátima é o maior acontecimento religioso da primeira metade do século XX, uma explosão transbordante do sobrenatural neste mundo enleado na matéria. Paul Claudel – Poeta Francês, dramaturgo e diplomata

Fátima - a mais política de todas as aparições marianas. Clodovis Boff – Teólogo, filósofo e professor

A pintura e a escultura, ao longo dos tempos, têm-nos habituado a uma imagem estereotipada de Maria como “humilde serva de Sião”, passiva, de rosto sereno e calmo, que, em vez de falar abertamente e expressar os seus pensamentos e sentimentos, guarda as coisas no seu coração (Lucas 2, 19). Não negamos que tudo isto seja verdade, mas é só uma faceta da sua personalidade.

Não sei por que razão, ao largo dos séculos, a outra cara de Maria nunca foi pintada nem esculpida; a mulher do Magnificat que, a plenos pulmões, cheia de energia, quase contradizendo o paradigma antes descrito, proclama: “manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.” Lucas 1. 51-53

Maria pro ativa – Quando recito estes versos, a imagem que me surge na mente tem mais parecido com a Padeira de Aljubarrota ou com a mulher de peito nu, empunhando a bandeira diante das tropas da tomada da Bastilha, que aquela a que a Igreja nos tem habituado. Admito a exageração, sobretudo por causa do elemento violento implícito nas duas imagens da minha fantasia; mas também há exagero na figura estereotipada, pelo que a verdade seja um misto das duas figuras. Uma Maria, obviamente não agressiva, mas mais proativa que passiva.

Sendo a aparição de Nossa Senhora em Fátima, a mais política de todas as aparições, como diz Boff, até para verificar a autenticidade das aparições de Fátima, era mister encontrar alguma manifestação política na figura bíblica de Maria. Pelo Magnificat podemos concluir que Fátima não foi a primeira vez que Maria “se meteu na política”. Assim sendo, a mensagem de Fátima é verdadeiramente revolucionária ao estilo do Magnificat, e revela-nos a outra cara de Maria, a da intervenção sociopolítica, como pré-anúncio do Reino de Deus que o Seu filho veio trazer ao mundo.

Em Fátima, Maria, mãe da Igreja, mãe da vida, visita os seus filhos com uma mensagem de vida e de paz, para um mundo imerso na guerra, na morte genocida e ideológica; vem anunciar que Deus continua vivo e bem vivo, a todos aqueles que o proclamaram morto, como o filósofo Nietzsche no materialismo ideológico e histórico, assim como no ateísmo militante que, partindo da Rússia, se alastrou pelo mundo inteiro.

Em Fátima, Maria visita o seu povo como outrora visitou a sua prima Isabel; pede aos pastorinhos que se ofereçam e participem com Deus no projeto de salvação do mundo, vítima de si mesmo, do seu racionalismo e niilismo cruel e sem coração, que causou os horrores da guerra e a crueldade da tortura e o irracionalismo das perseguições e genocídios étnicos e religiosos do século XX. E, a título de esperança, para consolar os seus filhos nas horas amargas, deu-lhes a certeza de que, no fim, o seu coração imaculado triunfaria.

(…) coloco hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. Deuteronómio 30, 15. Tal como Moisés, Maria, em Fátima, coloca lado a lado a esperança e a ameaça, a salvação e a ruina, a promessa e o aviso, a graça e o juízo e, ainda tal como Moisés, insta-nos a optar pelo bem e pelo caminho do Evangelho para sair dos horrores nos quais o mundo se tinha metido.

O contexto histórico e social das aparições
 As duas guerras mundiais – Na primeira guerra mundial morreram cerca de 12 milhões de pessoas, na segunda 60 milhões. Nunca nenhuma guerra anterior tinha dizimado tantas vidas, se pensamos também no número de feridos, que duplica estes números e dos quais muitos ficaram deficientes o resto da vida.

Os totalitarismos, Nazista, Fascista e Comunista, com os seus genocídios, limpezas ideológicas étnicas e religiosas – Aos mortos na guerra, somamos os milhões de vítimas dos regimes totalitaristas que, a escala nunca antes vista, praticaram limpezas étnicas, como o extermínio dos Judeus nos campos de concentração nazis, as limpezas ideológicas comunistas praticadas nos Gulags siberianos e os torturados e desaparecidos dos fascismos europeus e latino-americanos.

O ateísmo militante comunista e a perseguição religiosa – na antiga União Soviética e países satélites pertencentes ao Pacto de Varsóvia; China, Cuba, onde ainda não existe liberdade religiosa, e os vários países africanos comunistas de orientação chinesa ou soviética, durante décadas, o ateísmo militante impôs-se, perseguindo os que se manifestavam religiosos. Segundo Eloy Bueno, no seu livro a Mensagem de Fátima, o número de mártires do século XX acende a 26.685.000

O armamento nuclear e a guerra fria – Com a bomba atómica que os Estados Unidos lançaram sobre as cidades de Hiroxima e Nagasaki, seguiu-se uma escalada de armamento nuclear que fazia uma ameaça constante para a Paz mundial. Ao fim da guerra fria, havia armas nucleares capazes de destruir o mundo, não uma, mas dez vezes.

Neste contexto lúgubre e tenebroso, antes de acabar a primeira guerra mundial, anunciando a segunda como pior que a primeira, deixando antever a possibilidade de uma terceira no segredo, surge Fátima como luz da paz que é possível; como um chamamento à conversão da Rússia, de uma forma especial, por ser responsável do ateísmo ideológico e militante mas, de uma forma geral, de todos os pecadores para os tirar do inferno, não tanto daquele inferno que os pastorinhos viram em visão, mas no inferno em que a vida dos homens se tinha tornado.

"Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho." Marcos 1, 15

“Para grandes males, grandes remédios” - Com a mesma urgência de Jesus no inico da sua pregação, por Maria em Fátima no ano de 1917, Deus intervém, direta e visivelmente, na história humana para reorientá-la para Cristo seu filho. Ajuda e protege os agentes do Evangelho da paz e do bem e pede a três crianças que se ofereçam pela conversão dos pecadores, da Rússia e pela paz no mundo.

A tríade de conversão, penitência e oração é ao mesmo tempo o centro do Evangelho e o núcleo da mensagem de Fátima. Assim sendo, podemos dizer que Fátima ecoa no dramático e negro século XX a mensagem do Evangelho de há dois mil anos.

“O meu Coração Imaculado triunfará”
Fátima em 1917 pode ser vista como o prolongamento de Lourdes em 1958, quando a Nossa Senhora se apresentou a Santa Bernardete como sendo a Imaculada Conceição, dogma que Pio XI proclamara anos antes e que Bernardete desconhecia o significado.

O ser humano é mente e coração, os racionalismos exagerados do seculo XX levaram aos horrores das guerras e genocídios que foram perpetrados por gente sem coração. Deus é Pai e é Mãe, é homem e mulher. Se Jesus representa a Deus como Pai e homem, pois como Ele disse a Filipe, quem me vê a mim vê o Pai, Maria, a mãe de Jesus, representa a Deus como mulher e mãe.

Por isso, a um mundo de excessivo machismo e racionalismo frio e cruel, tinha Deus que enviar uma mulher, Maria, para que as mulheres deixassem de permanecer em casa com a perna quebrada como mães e domésticas e se juntassem aos homens no comando dos destinos políticos do mundo.

Para que trouxessem à politica e à vida social o seu coração sensível e feminino. Pois o coração, como diz Pascal, tem razões que a razão desconhece. E é precisamente a isto que temos vindo a assistir no mundo ocidental e um pouco no resto do mundo, depois da segunda metade do século XX.

O feminino e o masculino são como as duas ases de um pássaro; um pássaro a voar com uma só asa voaria em círculos, e em círculos viciosos de facto tem a humanidade voado até aqui, repetindo os mesmos erros uma e outra vez, de geração em geração. A nossa esperança é que com a mulher ao lado do homem dando o seu contributo em todas as células da atividade humana, o mundo se torne mais humano. O século XX foi um século de demasiado cérebro e demasiado pouco coração. Um mundo mais inclusivo, não só das mulheres, mas também dos homossexuais e outros de certo será um mundo melhor.

O Imaculado Coração de Maria triunfará - Um coração imaculado sempre triunfa; quando a política é feita com coração - com generosidade, compaixão misericórdia, com amor - e não só com a razão. Quando este coração é puro e imaculado, sem a podridão da corrupção, da malícia e do interesse mesquinho e egoísta, então haverá igualdade e paz no mundo quando triunfe o coração sobre a razão e a pureza sobre a corrupção.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2017

Fátima: Que viram os pastorinhos?

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Uma senhora, vestida de branco, mais brilhante que o sol
Tinha um vestido branco, e um cordão de oiro ao pescoço até ao peito ... A cabeça estava coberta por um manto branco, também, muito branco, não sei, mas mais branco que o leite . . . e tapava-a até aos pés ... era todo bordado de oiro .... Aí que bonito! ... tinha as mãos juntas, assim, - e a pequena levantava-se do banquito, juntava as mãos à altura do peito a imitar a visão.
Jacinta

Jacinta, mais expansiva e sensível à beleza, não conseguia conter dentro de si a alegria sobrenatural que a inundava e não parava de exclamar: “Aí, que Senhora tão linda! Ai, que Senhora tão bonita!” Era alegria demasiado grande para permanecer num peito tão pequeno pelo que não tardou em dize-lo à sua mãe que se mostrou incrédula. Porém o seu pai, o Sr. Marto desde o primeiro momento acreditou, pois, conhecendo bem os seus filhos, sabia que nunca mentiriam amantes da verdade como eram.

Como podemos então conceptualizar as aparições, tanto as do anjo que se deram um ano antes a modo de preparação e as de Nossa Senhora de Maio a Outubro de 1917?

Aparição ou visão?
A teoria da autossugestão diz que, num ambiente em que as pessoas esperam que haja aparições haverá aparições. Não enquadram as aparições de Cristo ressuscitado aos apóstolos, nem a do mesmo a Paulo de Tarso, nem as aparições marianas aprovadas pela Igreja. Comum a todas estas é que a “aparição” apanha os videntes de surpresa.

Também não é uma visão, pois esta é sempre privada, e é expressão de uma forte experiência religiosa, sem público e sem uma mensagem para os outros",; por outro lado implica uma experiência religiosa anterior, frequentemente é um fenómeno místico que implica um longo processo de ascese.

Ao contrario da visão, a aparição é sempre profética, pois está confinada a um lugar e tempo específico, (Fátima Lourdes ou Guadalupe) há testemunhas desde o primeiro momento; há sempre uma mensagem profética para o tempo e para o lugar, e é sempre acompanhada de fenómenos, ou milagres que não têm uma explicação científica.

Foi, portanto, uma aparição a experiência dos pastorinhos em Fátima, mas foi esta como a de Cristo ressuscitado aos apóstolos? Partimos do principio de que a humanidade transfigurada de Jesus Cristo, o Seu corpo glorioso após a sua ressurreição e ascensão ao céu nunca mais se manifestou diretamente na terra na sua realidade corpórea como O viram os apóstolos. O mesmo pode ser dito em relação a Maria Sua mãe. Assim sendo os pastorinhos não tiveram uma visão de Maria na sua realidade corpórea, mas sim uma visão imaginativa, uma fantasia, uma alucinação. Jacinta de facto, num dos interrogatórios, referiu que a Senhora tinha pouco mais que um metro de altura.

Recordamos o princípio tomista: Quidquid recipitur ad modum recipientes recipitur. Para explicar o facto de que na ultima aparição enquanto a multidão estava entretida com o milagre do sol, os pastorinhos viram parte da corte celestial imaginada a seu modo: assim viram São José com o menino Jesus nos braços, a Nossa Senhora das Dores, Jesus Cristo abençoando o mundo e, por fim, a Nossa Senhora do Carmo.

Rejeitamos a presunção mesquinha de que tudo o que não é natural ou “normal” é patológico; os génios não são normais e, no entanto, não são patológicos. A Igreja, antes de permitir ou apoiar quaisquer aparições observa os seguintes critérios: 1. A mensagem está de acordo com o Evangelho e a doutrina da Igreja; 2. Os videntes gozam de perfeita saúde física e mental; 3. Os videntes são honestos e humildes e a sua vida é exemplar do ponto de vista espiritual e moral.

Alucinação divina
Assim qualificamos a experiência dos pastorinhos de Fátima. Alucinação, porque a Nossa Senhora não apareceu real e objetivamente; se assim tivesse sido, todos os presentes a teriam visto; divina, porque não foi provocada pela mente hipoteticamente doentia dos pastorinhos, porque eram perfeitamente sãos mentalmente, mas sim por Deus, para por intermédio deles, fazer passar uma mensagem para Portugal e o mundo inteiro.

A alucinação é uma perceção que ocorre na ausência física ou corpórea do objeto percebido; à semelhança do que ocorre com os sonhos noturnos, cuja sensação de realidade é tão viva que só ao despertar nos damos conta de que não era real. Portanto, no caso dos videntes de Fátima eles aperceberam-se da presença de Nossa Senhora sem ela estar realmente ou corporeamente presente.

Que há então de sobrenatural nesta experiência? O sobrenatural está no facto de que não foram os pastorinhos que se autoinduziram a esta experiência, mas sim foi causada por Deus. Este é de facto o critério principal para a sua autenticidade. Os pastorinhos não causaram a experiência, não a buscaram e nada fizeram para a ter é aqui que se situa o âmbito da intervenção divina assim como depois no conteúdo da mensagem que de modo nenhum podia ter sido por eles inventada, dada a sua condição de rudes e ignorantes, como os define o Cónego Manuel Formigão.

Não digo que seja a última palavra sobre o assunto; o que me faz ter a certeza de que as crianças experimentaram algo sobrenatural, é que, em conformidade com todas as pessoas que tiveram este tipo de experiências, as suas vidas mudaram radical e dramaticamente. Os videntes não só tiveram uma aparição e ouviram uma mensagem, eles encarnaram e viveram essa mensagem o resto das suas vidas.

A visão do inferno
Quidquid recipitur ad modum recipientes recipitur. Sto. Tomás de Aquino
O que é recebido, é recebido segundo a capacidade do recebedor. Este princípio tomista ajuda-nos a entender e conceptualizar as visões e no caso de Fátima é fundamental para a explicação da visão do inferno.  Quando a Nossa Senhora lhes mostrou o inferno não lhes podia mostrar a realidade verdadeira do inferno tal qual ele é. Seria como colocar o mar dentro de um buraco na areia, parafraseando o conto de Sto. Agostinho na compreensão do mistério da Santíssima Trindade.

O que os pastorinhos viram foi a recriação, na sua mente de todas as pregações que até ali tinham ouvido dos padres que, naquele tempo não se cansavam de amedrontar as pessoas com o fogo do inferno; também as representações gráficas em pagelas e nas “alminhas” que ainda hoje abundam à beira dos nossos caminhos.

Mais uma vez que há de revelação divina nesta experiência? De certo não a forma como as crianças viram o inferno, mas a ocorrência da visão, provocada pela Senhora.  Portanto, a experiência em si, foi provocada pela Nossa Senhora, a forma como essa experiência foi vivenciada pelas crianças tem que ver com a capacidade de compreensão destas e com a forma com que elas imaginavam o inferno com a ajuda da catequese e pregações. Parafraseando o principio tomista, o que as crianças viram, viram-no segundo os arquétipos e as imagens da sua mundividência.

O milagre do sol
Depois de tanto sofrer pela incredulidade e pelas pressões da sua mãe e pároco para que desmentisse as aparições, na aparição de 13 de Julho, Lúcia pediu à Senhora que fizesse um milagre “para que todos acreditem que Vossemecê nos aparece”. A Senhora prometeu que o faria e renovou a promessa a 19 de agosto e a 13 de setembro. E foi assim que uma grande multidão de pessoas se reuniu na Cova da Iria a 13 de outubro:

E, precisamente na hora vaticinada em julho - às 12h; -, algo de espantoso começa. Inesperadamente - porque uma chuva torrencial enchera de lama a Cova da Iria -, a Lúcia diz à multidão para as pessoas fecharem os guarda-chuvas (…) (nisto) o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos, fora de todas as leis cósmicas, - o sol bailou, segundo a típica expressão dos camponeses…

«Era como um globo de neve a rodar sobre si mesmo» (Padre Lourenço)

«Este disco tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.» (Dr. Almeida Garrett)

«A certa altura, o sol parou e depois começou a dançar, a bailar; parou outra vez e outra vez começou a dançar» (Ti Marto)

«Uma luz, cujas cores mudaram dum momento para o outro, refletiu-se nas pessoas e nas coisas» (Dr. Pereira Gens – que o viu a 40 Km de Fátima)
Jornal O Século (diário liberal, anticlerical e maçónico de Lisboa)

Testemunhas são também as fotografias tiradas nesse dia nas quais se vê, primeiro como chovia torrencialmente e depois toda uma multidão olhando para o sol. Não seria possível haver tanta gente ao mesmo tempo a olhar para o mesmo lugar se aí não houvesse nada que captasse a sua atenção.

Mais uma vez repetimos algo aconteceu, não nada, e desta vez algo que tinha sido anunciado três meses antes e que acontece no dia e na hora indicada. O fenómeno foi testemunhado desta vez não só por pobre analfabetos e rudes e toscos ignorantes, mas também por professores padres médicos e catedráticos de universidade. Que aconteceu então?

De todas as explicações para este fenómeno a que nos parece mais plausível é a do físico e monge beneditino Stanley Jaki (1924-2009) professor onde Einstein também o foi em Princeton, New Jersey, que se deu ao trabalho de vir a Portugal para inquirir alguns dos que presenciaram o fenómeno (1924-2009). Isto foi o que concluiu:

Trata-se de um raríssimo fenómeno meteorológico, resultante da convergência e interação entre nuvens do tipo cirro (a altas altitudes, constituídas por cristais de gelo), com nuvens de baixa altitude (feitas de partículas de água em estado líquido), em interação com ventos que faziam rodopiar as partículas de água e gelo numa roda espiralada, que por sua vez gerou em simultâneo um feixe de cores cintilantes (resultantes da refração dos raios solares nas partículas de água e gelo) e um raro efeito de “lente”, que explica a estupefação das pessoas na Cova da Iria, que achavam que o Sol, aparentando aumentar de tamanho, se iria precipitar sobre elas.. Stanley L. Jaki, God and the sun at Fatima, Real View Books, 1999.

Se não foi um fenómeno astronómico, se o sol não dançou nem as leis da física foram violadas, mas apenas se tratou de um fenómeno meteorológico raro, mas possível, onde está então o milagre? O milagre está no facto de ter sido previsto pelos pastorinhos, 5 meses antes, e de ter sido indicado por Lúcia, o dia e o exatíssimo momento em que iria acontecer assim como aconteceu.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2017

Fátima: Como se "impôs" à Igreja?

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Na Celebração do cinquentenário das aparições, a 13 de maio
de 1967, depois da missa o povo gritou ao papa Paulo VI que 
queria ver a Lúcia…
«Não foi a igreja que impôs Fátima, foi Fátima que se impôs à Igreja» Cardeal Cerejeira, em 1943

A Igreja não declara nem nunca declararia Fátima com a infalibilidade de um dogma. O que ali aconteceu ocorreu num âmbito intermédio entre o natural e o sobrenatural, portanto, como tudo em matéria de fé, não pode ser demonstrado de uma forma plenamente convincente ao pensamento racional, como também não pode ser demonstrado o contrário. A Igreja limita-se a declarar que o que aconteceu pode ser aceite com uma certeza razoável, e plausível; como aliás sempre acontece em matéria de fé. A fé nunca pode ser racional ou racionalizada, só pode ser e sempre tem de ser razoável.

Fátima fez um caminho longo e árduo até ser aceite pelas autoridades eclesiásticas e tolerada pelas autoridades civis. Um caminho onde certamente mais que uma vez interveio Deus para que não fosse ignorada. Sim Deus, pois os três pastorinhos não fazem apologia do seu testemunho e de alguma forma, pelo que se desprende dos interrogatórios aos quais foram submetidas, pouco lhes importa que acreditem ou não na sua palavra

Voz do povo voz de Deus
O povo continuava a afluir a Fátima às centenas de milhar: mesmo depois da morte de Francisco em 1919 e de Jacinta em 1920; apesar de ser ridicularizado nos jornais laicos, obstaculizados pelas autoridades civis, a ponto de dinamitarem a capela que ali tinha sido construída; em suma desde que Jacinta contou à sua mãe, as multidões juntavam-se às centenas de milhar.

Porque Jacinta não foi capaz de manter a aparição de 13 de maio em segredo nas restantes aparições, nos dias 13 de cada mês até à última no dia 13 de outubro, as crianças nunca mais estiveram sozinhas. No dia 13 de junho, estavam com elas cinquenta pessoas; em 13 de julho, de duas a três mil; no dia 13 de agosto, apesar dos videntes terem sido postos na prisão, 18.000 reuniram-se no lugar das aparições; nesse mesmo mês, os videntes viram a Senhora no dia 19, nos Valinhos, depois de serem libertadas da prisão. No dia 13 de setembro, era já uma multidão de 30.000 pessoas e no último, a 13 de outubro, cerca de 70.000 presenciaram o bem anunciado e esperado milagre, como a senhora tinha prometido a Lúcia três meses antes, no dia 13 de julho.

Não era só a fé que levava as pessoas a acorrerem em massa à Cova da Iria desde a segunda aparição, mas a participação na mesma aparição que começava sempre pelo rezar do terço liderado pela Lúcia. é certo que só os videntes viam a Nossa Senhora e entre eles, só a Lúcia falava com ela, mas o resto do povo também experimentava algo...

Todos são unânimes em dizer que ao meio dia solar de cada dia 13, incluído o 13 de Agosto em que as crianças estavam ausentes por terem sido detidas pelas autoridades, a luz do sol diminuía de intensidade, corria um ar fresco e uma pequena nuvem descia sobre a azinheira onde os pastorinhos diziam que a Nossa Senhora se pousava.

No decorrer das aparições viam a Lúcia em êxtase e ouviam-na a falar; em resposta às suas perguntas ouviam como um “zumbido de abelhas”. A Lúcia avisava sempre quando a visão terminava dizia que a Nossa Senhora se estava retirando para o Oriente desde onde sempre surgia.

Um dia a Jacinta cortou um raminho da azinheira onde a Nossa Senhora tinha pousado o Seu pé e todos os que o cheiraram deliciaram-se com um perfume desconhecido. Por fim o milagre do sol selou para o povo a autenticidade de Fátima que, desde então, é visitada às centenas de milhar e até milhões.

“Voz do povo voz de Deus”. - Quem defendeu e promoveu Fátima, impondo-a à Igreja perplexa e prevalecendo sobre as investidas insidiosas do republicanismo ateu, anticlerical e maçon, foi o povo simples, que ali começou a afluir aos milhares logo após a primeira aparição. Sem este, Fátima teria sido ignorada e esquecida. Uma vez mais se verifica o paradigma da Bíblia:  os ignorantes confundem os sábios. Mateus 11, 25

Aqueles que afirmam gratuitamente que foi a Igreja que criou Fátima, ignoram a documentação histórica que prova precisamente o contrário. Fátima só foi aprovada em 1930 depois de 13 longos anos de investigação. A relutância inicial da Igreja, em relação a Fátima é notória no testemunho do Pe. Lacerda diretor de um Jornal da época “O Mensageiro”, acerca do pároco de Fátima, em que afirma:

Como ultima nota elucidativa devo dizer que o pároco da Fátima, o meu amigo Pe. Manuel Marques Ferreira, se conservou sempre alheio a tudo, levando o seu proceder a nunca ter ido á Cova da Iria no dia das aparições. Só a muitos rogos lá foi no ultimo dia”.

Ainda acerca do pároco de Fátima, o Sr. Marto, o pai de Francisco e de Jacinta, e, ao contrário da mãe de Lúcia, o primeiro em acreditar na palavra dos seus filhos, refere que o Sr. Prior não acreditava e não deixava a gente acreditar. A incredulidade do pároco, explica e influencia a relutância da Sra. Maria Rosa, mãe da Lúcia, a admitir, quase até ao fim da vida, a graça que a Virgem concedeu à filha, amargando a vida desta.

Foi o povo que acorria à Cova da Iria aos milhares que manteve a chama de Fátima bem viva para obrigar as autoridades civis a respeita-la e as eclesiásticas a tomar uma posição favorável. O que aconteceu precisamente no dia 13 de maio de 1922, o dia em que D. José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria, publica a “Provisão sobre os acontecimentos da Fátima”.

Nela resume os acontecimentos ocorridos em Fátima nos últimos anos, salientando precisamente a enorme adesão popular, apesar das perseguições das autoridades civis e do alheamento das autoridades religiosas, e nomeia uma Comissão, para estudar os acontecimentos extraordinários segundo as leis canónicas.

Apela, ainda, aos fiéis da sua e outras dioceses que “dêem conta de tudo quanto souberem quer a favor quer contra as aparições ou factos extraordinários que lhes digam respeito, e testifiquem especialmente se nelas houve ou há qualquer exploração, superstição, doutrinas ou cousas deprimentes para a nossa Santa Religião”. 

Como foram encaradas as aparições pelas autoridades
Não é verosímil que três crianças de tão tenra idade, (…) rudes e ignorantes, mintam e persistam na mentira durante tantos meses, posto que sejam obsidiadas com perguntas e interrogatórios (…) e ameaçadas pelo representante da autoridade eclesiástica e civil (…) Nenhum temor é capaz de demovê-las de afirmar que vêem Nossa Senhora (…) A naturalidade e franqueza com que se expressam, a simplicidade e candura com que se manifestam, a indiferença e desinteresse que mostram quanto ao facto de se lhes prestar ou não crédito. – Documentação critica de Fátima

Esta é a conclusão a que chega o Cónego Manuel Nunes Formigão, depois de inúmeros interrogatórios levados a cabo por ele, pelo Pároco de Aljustrel e Fátima, o Pe. Manuel Marques Ferreira, e outros clérigos. Todos eles muito críticos e até sarcásticos, mas nunca fizeram mal às crianças embora às vezes os interrogatórios levavam-nas à exaustão, especialmente no dia do milagre do sol, depois deste ter ocorrido.

Menos condescendentes, foram as autoridades civis quando chegaram ao extremo de as submeter à tortura psicológica.  Anunciaram aos pequenos que no quarto ao lado os aguardava uma caldeira de azeite a ferver-se não se retratassem. A primeira a ser interrogada foi a Jacinta, seguida do Francisco e da Lúcia. Um a um, os três entraram na câmara aterradora na certeza de que seriam fritos em azeite; o Francisco pensando que a sua querida irmã já estava morta, a Lúcia pensando que os seus queridos amigos e primos já estavam no Céu, como a Senhora tinha prometido que cedo os levaria.

A esta tortura há que juntar a pressão constante do povo; uns que ameaçavam outros que ridiculizavam outros ainda que lhes prometiam mundos e fundos se lhes revelassem o segredo. Era impossível que as crianças aguentassem tanto se não houvesse nada e que o que acontecia todos os meses no meio de tanta gente fosse apenas teatro. Abalados por todas as ameaças, os pais da Jacinta pensaram afastar as crianças de Fátima. Mas estes recusaram dizendo: ‟Se nos matam, não faz mal! Iremos mais rapidamente para o céu!”

Para o dia 13 de outubro esperavam-se grandes multidões, pois a Lúcia desde a aparição do dia 13 de julho disse que a Senhora ia fazer um milagre que para que todos acreditassem. Um dia antes, a pressão e a tensão era tanta nas famílias dos videntes que logo de manhã, a mãe da Lúcia sugeriu à filha que se fossem confessar pois iam-nos matar a todos se o milagre não se realizasse. 

Calmamente e cheia de convicção, a Lúcia consolou a mãe dizendo-lhe que se podiam ir confessar, se a mãe se quisesse, mas ela tinha certeza que a Senhora iria realizar o milagre pois não só tinha prometido como tinha renovado, a promessa nas aparições de agosto e setembro.

Sozinhas contra tudo e contra todos só a divina providência lhes valeu, pois também os seus familiares mais chegados, especialmente os de Lúcia, contribuíam para o seu sofrimento ao considerá-las mentirosas.

Estavam certamente dispostas a pagar com a suas vidas o testemunho que deram, porque não só proclamaram a mensagem da Nossa Senhora como elas mesmas a encarnaram nas suas vidas.  (… vão deitar-vos as mãos e perseguir-vos, (…) metendo-vos nas prisões; (…) assim, tereis ocasião de dar testemunho. (…) não vos deveis preocupar com a vossa defesa, porque Eu próprio vos darei palavras de sabedoria, a que não poderão resistir ou contradizer os vossos adversários (Lucas 21, 12-19).

Os que dizem que Fátima foi inventada pela Igreja, não têm documentos para comprovar as suas calúnias e não leram de certo a documentação crítica de Fátima que descreve:

Por um lado, os estratagemas seguidos pela autoridade civil, para desacreditar e calar as crianças e impedi-las a elas e ao povo de acorrer ao lugar da Cova da Iria. Por outro o processo rigoroso que foi seguido pela autoridade eclesiástica, que para além dos interrogatórios do pároco e do Cónego, constou de uma comissão que instaurou um inquérito canónico oficial para averiguar a veracidade das aparições. Finalmente, a 13 de outubro de 1930, 13 anos depois, com o conhecimento e aprovação do Papa Pio XI, o Bispo D. José Correia da Silva anunciou os resultados do inquérito numa carta pastoral:

(…) invocando humildemente o Espírito Divino e colocando-nos sob a proteção da Santíssima Virgem, e depois de ouvida a opinião dos nossos Reverendos Conselheiros, declaramos dignas de crédito as visões dos pastorinhos na Cova da Iria, freguesia de Fátima, desta diocese, de 13 de maio a 13 de outubro de 1917. Permitimos oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima.

Fátima e os papas
A 5 de Maio de 1917, quando a 1º Grande Guerra ainda estava no seu apogeu, o Papa Bento XV, em carta dirigida ao Secretário de Estado Cardeal Gasparri, rogou com veemência o auxílio do Céu, por meio da Mãe de Deus:

“Encarregamos portanto a Vós, Senhor Cardeal, de fazer conhecer a todos os bispos do mundo o nosso ardente desejo que se recorra ao Coração de Jesus, Trono de graças, por meio de Maria (…) a piedosa e devota invocação e leve a Ela o angustioso grito das mães e esposas, o gemido dos meninos inocentes, o suspiro de todos os nobres corações; possa mover a Sua amável e muito benigna solicitude a obter para o mundo desvairado a aspirada paz, e possa lembrar depois aos séculos futuros a eficácia de Sua intercessão e a grandeza do benefício por Ela obtido a Seus filhos”.

Oito dias depois Nossa Senhora apareceu em Fátima, anunciando ao Papa e ao mundo o seu plano de paz. Um ano mais tarde o mesmo Papa, em carta dirigida aos bispos portugueses para restabelecer a diocese de Leiria, referiu-se às ocorrências de Fátima como "uma ajuda extraordinária da Mãe de Deus."

Pio XI, sucessor de Bento XV, ofereceu pessoalmente estampas da imagem de Nossa Senhora de Fátima a seminaristas.  Pio XII referiu-se a Fátima pela primeira vez em 1940, na encíclica Saeculo exeunte.   Em 1950 o Papa Pio XII disse mesmo ao Superior Geral dos Dominicanos: "Dizei aos vossos religiosos que o pensamento do Papa está contido na Mensagem da Fátima."

Em 1964, no fim do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI ofereceu a Rosa de Ouro a Fátima, e encomendou toda a Igreja ao cuidado de Nossa Senhora de Fátima, ele mesmo visitou Fátima no quinquagésimo aniversário da primeira aparição. O Papa João Paulo II visitou Fátima três vezes – em 1982, 1991 e 2000. Na sua visita do ano 2000, beatificou os dois videntes falecidos, Jacinta e Francisco. Também fez universal a Festa de Nossa Senhora de Fátima, ordenando a sua inclusão no Missal Romano. Por fim o Papa Francisco pediu ao Patriarca de Lisboa que consagrasse o seu pontificado à virgem de Fátima, o que ocorreu a 13 de maio de 2013.
Pe. Jorge Amaro, IMC