15 de outubro de 2017

Fátima: O Sacrificio como Missão

3 comentários:
– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos!
– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Tema central da mensagem de Fátima
Na primeira aparição, logo após as apresentações e a petição aos pastorinhos de virem ali nos seis meses seguintes, a Nossa Senhora perguntou-lhes se queriam oferecer-se a si mesmos pela salvação dos pecadores.

Fátima faz-se eco da forma como a comunidade cristã interpretou a morte de Jesus o qual se ofereceu como cordeiro sem mancha para expiar os pecados da humanidade. Jesus não deu por nós a vida só no ato da sua morte, toda a sua vida foi uma vida para os outros; veio para servir e não para ser servido (Marcos 10, 45). Jesus na sua vida combateu o pecado e o mal nas suas mais variadas formas; ao fim foi o mesmo pecado que o matou; morreu não só pelos nossos pecados, mas também a causa do nosso pecado.

Jesus lutou contra o pecado da mesma forma que o nosso corpo luta contra a doença. Quando uma bactéria ou vírus invade o nosso corpo, um glóbulo branco chamado neutrófilo persegue estes invasores depois dos anticorpos os terem identificado e marcado para serem destruídos. Por um processo chamado fagocitose, o neutrófilo captura e devora o invasor e morre. Também Jesus assumiu o pecado da humanidade, morrendo neste mesmo processo, mas salvando a humanidade da morte eterna

O que Maria pede aos pastorinhos é a solidariedade e participação na paixão de Cristo no seu ato único de reparação dos pecados da humanidade. A participação no mistério da redenção de Cristo com o nosso sacrifício voluntário, de sujeitos passivos e alheios, faz-nos proactivos em relação não só à nossa salvação como à salvação dos outros.

Este tema central da mensagem de Fátima é também o mais difícil de entender nos nossos dias. Mas tal como Maria em Lourdes veio reafirmar o dogma da Imaculada Conceição, em Fátima vem reafirmar a teologia, para muitos obsoleta e retrograda, da expiação e reparação. Mas como pode uma pessoa reparar os próprios pecados e os pecados dos outros?

Jesus morreu para expiar os pecados da humanidade
O salário do pecado é a morte (Romanos 6,23) – É a ordem das coisas, não há atos inócuos ou neutros; o que não promove a vida, leva à morte. O bem promove a vida o mal leva à morte como consequência lógica, esta é uma verdade irrefutável. Vemos prova disso em cada má ação que praticamos; como diz o provérbio, “o mal fica com quem o pratica”; o castigo acompanha a má ação como o anexo acompanha o email.

Não há obra má que pratiquemos que não seja sucedida por um castigo, que não provém de Deus, mas sim da mesma ordem das coisas, como consequência logica da má ação praticada. Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nem perdoa nem esquece; o mal que fazemos contra a nossa natureza humana ou contra a natureza do planeta paga-se e bem caro.

Se Jesus de Nazaré só fosse um profeta e nada mais, a sua morte seria vista como a morte individual do justo. Mas como Jesus, para além de ser verdadeiro homem é também verdadeiro Deus, a sua morte já não pode ser interpretada ou vista como um acontecimento meramente pessoal, mas sim um acontecimento que tem repercussões na humanidade por Ele criada e Nele representada. Como Jesus ressuscitou, a sua morte serviu para matar a morte; aquela morte eterna à qual a humanidade estava abocada.

Jesus morreu pelos nossos pecados, no sentido de que foram os nossos pecados que o mataram; mas como Jesus não permaneceu morto, mas ressuscitou, os nossos pecados mataram-se a si mesmos; a sua morte foi, portanto, o fim da morte como consequência do pecado.

Deus não pode negar a ordem das coisas por Ele criadas; como vimos acima, pertence a essa ordem das coisas que com o pecado vai o castigo e o castigo é a morte. Sem a intervenção divina, seriamos com um comboio sem freios que corre para um destino mortal irreversível.

João 15, 3 - Sem mim nada podeis fazer - Se pelas nossas próprias forças fossemos capazes de nos salvar, não teria sido necessária a vinda de Cristo ao mundo. O pecado colocou-nos no fundo de um poço sem possibilidade de sair; em areias movediças nas quais quanto mais nos movemos mais nos enterramos; em buraco feito no gelo estaladiço que cobre a água de um lago, que parte quando nos apoiamos nele. Do mal e do pecado não podemos sair sozinhos.

João 1.29 – Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. –  João Batista que apesar de ser filho de sacerdote atua fora do sistema sacrificial do templo oferecendo o perdão dos pecados por intermédio de um batismo de purificação, aponta a Jesus como sendo o verdadeiro cordeiro de Deus que vem substituir o sacrifício de cordeiros do Templo de Jerusalém. Só quem não tem pecado, pode pagar pelos pecados dos outros.

O sacrifício de Cristo é um sacrifício perfeito porque ele mesmo é o sacerdote, a vítima, o altar e o Templo onde se oferece. Se algo é perfeito não pode ser igualável pelo que o sacrifício de Cristo, e só o sacrifício de Cristo é suficiente para pagar pelos pecados de toda a humanidade presente passada e futura.

No sacrifício de Cristo, a justiça de Deus, a ordem natural das coisas é satisfeita; alguém pagou o preço do pecado que é a morte; por outro lado também é satisfeita a bondade, a graça e o amor de Deus pois não fomos nós que pagámos mas sim o seu filho.

Associar-se ao sacrifício de Cristo
Misteriosa solidariedade - Tanto somos solidários no mal, como somos solidários no bem. A ideia de que pertencemos todos ao Corpo Místico de Cristo, não é só uma ideia piedosa, mas também científica; o ser humano vem de um tronco comum; há laços que unem toda a Humanidade desde o seu aparecimento sobre a Terra. "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade" disse, quando pôs o pé na Lua; Neil Armstrong. Não foi uma empresa de franco atirador, nem na sua execução nem no seu significado; em realidade, nele, por ele, e com ele a Humanidade chegou à Lua.

Inconsciente espiritual coletivo – Freud descobriu uma instância no interior da nossa personalidade chamada - inconsciente, constituído pelo que foi vivido experimentado, recalcado, escondido, esquecido, nos primeiros anos da nossa vida quando ainda não eramos conscientes de nós mesmos. Este material influencia o nosso pensar, sentir e atuar de uma forma automática e fora do nosso controle; às vezes aflora à consciência em forma de linguagem corporal, lapsus linguae, e em especial em sonhos.

Para além deste inconsciente individual, a um nível ainda mais profundo, Jung, discípulo de Freud, defende que existe um inconsciente coletivo. O material que o constitui, já não tem que ver com as minhas vivências individuais, mas sim com o que a humanidade como um todo viveu.

Cada uma das nossas obras entra a formar parte de uma base de dados coletiva de tal forma que qualquer individuo da espécie humana está, à nascença capacitado para fazer os atos mais heroicos que já foram feitos assim como os mais criminosos e deploráveis, sem precisar de nenhuma aprendizagem. Desta forma o individual influência o coletivo e o coletivo influência o individual.

Efeito borboleta - Pequenas e até irrisórias causas podem ter grandes efeitos ou consequências. Os efeitos de um grande furacão que aqui se faz sentir podem ter sido causados pelo esvoaçar de uma borboleta milhares de quilómetros de aqui, que ao perturbar o equilíbrio, fez cair a primeira peça do efeito dominó. Assim se explicam também as grandes avalanches de neve que sepultam casas e aldeias.

Na vida humana não há atos inócuos, neutros e sem consequências que não tenham tarde ou cedo repercussões, positivas ou negativas, no resto da humanidade, consoante o ato seja positivo ou negativo. 

Mateus 16:24 - Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; - Todo sacrifício é imolação do nosso Ego tudo o que fazemos pelos outros todo é altruísmo, é um sacrifício do ego. Só negando o meu ego posso eu afirmar o outro, o alter ego. Depois do sacrifício de Cristo os sacrifícios que valem aos olhos de Deus não são o dom de algo que me pertence, como eram os sacrifícios da antiga lei, a imolação de cordeiros e cabritos, mas sim a imolação de mim mesmo.

Tertuliano 197 DC - O sangue de mártires é semente de cristãos – pelo martírio o cristão configura a sua vida a Cristo de uma forma quase absoluta, pelo que é via direta para o Reino de Deus. Por outro lado, não só ganha ele individualmente, a Igreja também ganha, pelo seu testemunho em repetir, renovar e atualizar na sua vida a paixão de Cristo no aqui e agora da história. É sobretudo edificante e encorajante para os novos cristãos, para os que ainda estão num processo de conversão a Cristo.

Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja. Colossenses 1, 24

Este é o texto que tem sido citado para dar fundamento bíblico à prática pedida por Nossa Senhora logo na primeira aparição, de oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores. É preciso deixar bem claro que os nossos sacrifícios não têm o valor redentor do sacrifício de Cristo, nem aumentam a sua eficácia. Portanto, e neste sentido, nada falta ao sacrifício de Cristo que foi perfeito e a perfeição não é aperfeiçoável.

As nossas aflições individuais, a nossa cruz, o sofrimento com que a vida nos depara, pode ser vivido com sentido ou sem sentido. O cristão que em todos os aspetos da sua vida vê em Cristo o caminho a verdade e a vida configurando a sua vida à Dele, associa também o seu sofrimento ao Dele. Os apóstolos ficaram contentes quando começaram a sofrer por Cristo. Atos 5,41

Associando os nossos sofrimentos aos de Cristo estamos-lhe a dar um sentido, pelo que serão mais fáceis de suportar, e um bom uso pois damos-lhe um valor redentor. O ponto principal é que nossos sofrimentos não são desperdiçados se podemos juntá-los ao sacrifício de Cristo; Eles se tornam de grande valor.

O inferno evita-se com o purgatório
O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: "Penitência, Penitência, Penitência!" (Terceira parte do segredo)

São as palavras do anjo com a espada de fogo. A Nossa Senhora mostra aos pastorinhos o inferno como possibilidade na outra vida e o inferno em que se tinha tornado mundo no século XX. Para evitar tanto um como o outro a alternativa é a penitência. O inferno evita-se com o purgatório tanto nesta vida como na outra; de facto na tradição católica o purgatório está entre o Céu e o inferno.

Cristo expiou pelos nossos pecados, pelo que nós não precisamos já de expiar por eles; por outro lado Deus perdoa e esquece, para quê então o purgatório? Somos nós que não perdoamos e esquecemos nem aos outros nem a nós mesmos; o purgatório é uma exigência da nossa natureza. Vemos isso no Evangelho no episódio da conversão de Zaqueu:

…”de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.». (Lucas 19,8) Jesus já tinha perdoado a Zaqueu não lhe exigiu nada como preço desse perdão; o que Zaqueu ofereceu como expiação foi da sua livre vontade e como consequência da sua conversão e de ter obtido perdão, e não como requisito desta.

“Pænitemini et credite evangelioArrependei-vos e acreditai no evangelho - (Mc 1, 15). A penitência, o sacrifício faz parte do processo de conversão, como o deserto medeia entre o Egito do Pecado e a Terra Prometida da Graça. Quanto mais puros vamos desta vida, menos purgatório precisamos na outra vida. O purgatório pode ser já feito aqui e agora. Tanto se é feito aqui ou na outra vida a bem-aventurança permanece válida: Só os puros de coração verão a Deus.

Sobre a natureza do fogo purificador a irmã Lúcia diz anos mais tarde, que não se trata de um fogo físico sustentado por qualquer combustível, mas sim do fogo do amor divino comunicado por Deus às almas. Diz ainda que um ato perfeito de amor como por exemplo o martírio, leva a pessoa diretamente ao céu pois purifica de imediato todos os pecados até ali cometidos.

Jacinta a boa pastora
Um dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.
– Jacinta – perguntei-lhe – para que vais aí, no meio das ovelhas?
– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.

Jacinta encarna o aspeto sacrificial da mensagem de Fátima; ela a seu modo imita Jesus bom pastor, que se preocupa e busca a ovelha perdida, e depois a traz aos ombros de volta ao rebanho. Muitos foram os sacrifícios que Jacinta ofereceu pelos pecadores durante os três anos que se sucederam às aparições. E quando, já na cama estava a viver a sua paixão, a Nossa Senhora perguntou-lhe se ainda queria sofrer mais para converter mais pecadores, ela respondeu que sim. Como Cristo bom Pastor, ela a pequena pastorinha também deu a vida pelas ovelhas do Senhor.

A visão do inferno afetou de tal maneira a Jacinta que mesmo a brincar não deixava de se interrogar e perguntar à Lúcia: E se a gente rezar muito por os pecadores, Nosso Senhor livra-os de lá? E com os sacrifícios também? Coitadinhos! Havemos de rezar e fazer muitos sacrifícios por eles!

A expressão, pobres pecadores foi cunhada em Fátima; sempre que se fala de pecadores, a mensagem de Fátima refere-se aos pecadores como pobres que tem o mesmo sentido afetivo de “coitadinhos” usado por Jacinta. Os pecadores são tratados com afeto, pelo Anjo na oração à Santíssima Trindade, por Maria depois da visão do Inferno e pelos mesmos pastorinhos.

Jacinta, a mais sentimental dos três, é a que melhor espelha a misericórdia e a solicitude amorosa de Deus pelos pecadores que percorre os dois Testamentos da Bíblia: Porventura me hei-de comprazer com a morte do pecador - oráculo do Senhor Deus - e não com o facto de ele se converter e viver? Ezequiel 18,23.

Em Jesus de Nazaré, a misericórdia de Deus encarna-se em ações concretas; Jesus, ao contrário dos fariseus que os criticavam e fugiam deles, com medo a serem contaminados, buscava a sua companhia, tocava-os, curava-os e comia com eles e por fim entregou-se por eles como vitima imolada sendo comida na eucaristia e na cruz, corpo entregado e sangue derramado.

Os pastorinhos em especial Jacinta na sua curta vida e Lúcia na sua longa vida entenderam e  associaram os seus sacrifícios à paixão de Cristo fazendo-se eco desta mesma, dando-lhes aqueles um sentido e uma utilidade, para atualizar ou sublinhar no aqui e agora a paixão de Cristo redentora da humanidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2017

Fátima: As orações da Nossa Senhora

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Foram três as orações que os três pastorinhos aprenderam de Maria; simples e fáceis de memorizar, elas encerram em si toda a mensagem de Fátima. Por isso, ao repeti-las pessoalmente no nosso íntimo, ou liturgicamente em comunidade, transformam-se no sacramento da mensagem de Fátima, porque a evocam e representam. Portanto, como estas três orações contêm em si a mensagem, a sua recitação não só nos faz recordar a mensagem como também nos exorta a vivê-la

A primeira oração mais uma vez, depois da aparição do anjo, refere-se ao mistério da Santíssima Trindade. As aparições de Fátima começam com a Trindade e encerram com a Trindade. Maria revela aos pastorinhos a identidade de Deus uno e trino, um só Deus em três pessoas distintas. Ao contrário das outras duas orações, esta. não foi ensinada diretamente pela Nossa Senhora;
Mas sim inspirada pelo Espirito Santo, e recitada pelas crianças de uma forma quase autómata pelas crianças diante de Senhora.

A segunda oração é uma oração sacrificial, ou seja, a aplicação prática de uma parte da mensagem de Fátima - a penitência, que no contexto da mensagem de Fátima significa oferecimento de nós mesmos pelos outros, pela conversão dos pecadores.

A terceira oração é a mais conhecida universalmente pois é repetida por todos os católicos que rezam o terço entre mistério e mistério. Pede pela salvação universal em especial por aqueles que estão mais longe dela.

1ª Oração comunicada aos videntes num impulso íntimo
… Abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:

Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento.

E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: «Abbá! - Pai!» Gálatas, 4, 6 – As crianças viram-se em Deus e em Deus viram, ao mesmo tempo, a Sua identidade como sendo Uno e Trino assim como a identidade deles mesmos, dos pastorinhos como sendo filhos queridos de Deus. Inundados pela luz de Deus, são guiados e inspirados pelo Espírito que, como diz São Paulo aos Gálatas, dentro do íntimo das três crianças grita “Abbá Pai! – Ó Santíssima Trindade!…”. Como diz ainda o apostolo aos Romanos (8,16) Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus.

Neste momento, e logo na primeira aparição os pastorinhos tiveram a visão beatifica de Deus como Uno e Trino e eles mesmos, dentro dessa luz, como filhos adotivos de Deus Pai. No alto do monte, a serra de Aire, naquele momento de transfiguração, não podemos esquecer que eram três as crianças e que ao analisarmos o carácter e personalidade de cada uma delas nos damos conta que cada uma pertence a um centro diferente; Lúcia é cerebral, Jacinta é emocional e Francisco visceral ou instintivo; pelo que podemos concluir que, naquele encontro, encontra-se a trindade humana com a Trindade divina; ou seja a natureza humana nas três personalidades básicas em que se revela, com a natureza divina nas três pessoas em que é constituída.

Esta oração é ao mesmo tempo trinitária e eucarística; é impressionante como da visão beatifica que os pastorinhos sentiram imersos na luz de Deus, imediatamente passam para a adoração, para o amor do Santíssimo sacramento da Eucaristia, ou seja, da revelação celestial, passam para a encarnação histórica de Deus, há dois mil anos, em Jesus de Nazaré e a Sua presença sacramental na hóstia consagrada, no aqui e agora das nossas vidas.

Disse-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, 'mostra-nos o Pai'? João 14, 8-10

A oração implica que na adoração do Santíssimo sacramento adoramos também a Santíssima Trindade. Quem vê a Jesus vê o Pai, e quem ama o Filho ama o Pai. A oração do cristão é portanto sempre uma oração Trinitária. O Santíssimo Sacramento é não só a representação do sacrifício do Filho, mas também o do Pai que no-lo enviou e entregou, como parece sugerir uma imagem muito popular de Deus Pai e o Espirito Santo, representado pela pomba, por detrás da cruz onde está crucificado Cristo.

2ª Ó Jesus, é por Vosso amor,
– Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial quando fizerdes alguns sacrifícios: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria". Ao dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um grande mar de fogo.

Penitência e oração é o resumo da mensagem de Fátima; já falamos do tema da oração concentrado na oração Trinitária e Eucarística, falamos agora da segunda parte da mensagem a penitência que, tal como a oração, é mencionado em todas as aparições. Como Jesus deu a vida pelos seus amigos, como Jesus se ofereceu, pela salvação do mundo, quereis também vós, pergunta a Nossa Senhora aos pastorinhos, oferecer-vos, associar-vos ao sacrifício do meu filho, fazer-vos eco, neste ano de 1917, do sacrifício ocorrido há quase dois mil anos? As crianças disseram logo que sim.

É uma oração insólita porque é subtilmente inteligente; não é uma oração contemplativa como a que já comentamos, mas uma oração que vem da prática, supõe a prática aliás, é uma oração para recitar exclusivamente depois dessa praxis; neste sentido, não é uma oração para todos recitarem e em qualquer situação, mas só para alguns e após uma prática muito concreta.

Como diz a Senhora esta oração é para ser recitada antes, durante e depois de cada sacrifício oferecido. Esta oração é a varinha de condão que transforma uma contrariedade normal da vida num sacrifício oferecido a Deus. Esta oração acrescenta uma mais valia, um valor acrescentado, um juro às vicissitudes do dia a dia, dá-lhes um sentido, uma motivação. Transforma cada uma das nossas dores no ato de abraçar a cruz de Cristo pelo bem da humanidade.

«Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Lucas 9,23
Por isso esta oração não é para ser usada no culto nem na liturgia; não é para ser recitada na Igreja ou no contexto de união íntima com o Senhor; é, ao contrário, uma oração recitada na vida e para a vida. É uma exortação a abraçar cada contrariedade da vida, transformando-o com e, por intermédio desta oração, num “Sacrifício agradável a Deus”; é também, por outro lado uma aplicação prática do evangelho de Lucas.

Sofrer com razão e motivação, custa bastante menos que sofrer sem sentido. Por isso ao oferecermos a Deus os sacrifícios com os quais a vida nos depara, acabamos por sofrer menos. Encontramos conforto no mesmo sacrifício ao sabermos que vai fazer bem a alguém.

Depois de comprometidos com Maria, de se oferecerem a Deus suportando todos os sofrimentos e contrariedades inerentes à vida, e em especial aqueles como consequência de serem testemunhas do eco do Evangelho em Fátima, os pastorinhos não perdiam nenhuma ocasião de se sacrificarem pela conversão dos pecadores.

Se um se esquecia o outro lembrava; estando na prisão de Ourém, terminado o Terço, a Jacinta voltou para junto da janela a chorar.
 – Jacinta, então tu não queres oferecer este sacrifício a Nosso Senhor? – Ihe perguntei.
– Quero; mas lembro-me de minha mãe e choro sem querer.

Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados. Romanos 8,17

Como diz São Paulo, se somos filhos, somos irmãos do Senhor e co-herdeiros, da herança eterna. Se partilhamos da glória do Senhor também devemos partilhar dos meios que levaram a Cristo à sua glória, o sofrimento. Como toda relação de amizade é preciso estar às duras e às maduras, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. “Quem se obriga a amar obriga-se a padecer” diz o proverbio.

 3ª Ó meu Jesus, perdoai-nos…
Quando rezais o Terço, dizei depois de cada mistério: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem"… (da vossa misericórdia)

Por fim a oração que a Virgem Maria nos disse que incluíssemos entre mistério e mistério. A oração foi precedida da visão do inferno, que deve permanecer na nossa consciência como possibilidade de condenação.

... perdoai-nos… – a Bíblia diz-nos que o homem justo peca sete vezes por dia, que é o mesmo que dizer que ninguém é justo diante de Deus. Somos todos pecadores, e quem afirma não ter nenhum pecado é um mentiroso, como diz a Bíblia. Assim sendo, sempre que nos colocamos diante de Deus sem qualquer pecado que precise de ser perdoado, não significa que não pecámos, significa simplesmente que a nossa consciência moral não está fazendo seu dever de nos acusar e apontar os nossos defeitos.
... livrai-nos do fogo do inferno – só Deus tem o poder de nos salvar da condenação eterna isto mesmo fez Ele gratuitamente pela da morte de seu filho. Na representação do inferno como um mar de fogo, a Nossa Senhora tem em conta o conceito e a imagem que as crianças tinham dele, seguindo o princípio tomista: Quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur - tudo o que é recebido, é recebido de acordo com a capacidade do receptor.

A forma como entendemos o inferno, no entanto, não é como uma tortura eterna, como parece sugerir o mar de fogo, mas como uma morte eterna e um retorno ao nada para aqueles que nada fizeram, cujas vidas se resumem a nada e nada é o que eles acreditavam que existe para além da morte.

... levai todas as almas para o céu – como sempre na mensagem de Fátima, não nos podemos ocupar e preocupar unicamente com a nossa própria salvação, mas também com a dos outros. A Espiritualidade de Fátima não é sobre perfeição pessoal mas com carinho para aqueles que levam uma vida que está errada que não leva a nenhuma parte. Sendo assim, a espiritualidade de Fátima é então uma espiritualidade missionária; oramos pelos outros e pela sua salvação.

O mesmo princípio tomista também se aplica aqui pois acreditamos na ressurreição do corpo, não só da alma. Apesar da antropologia bíblica não ser dualista, a maioria, se não todos, orações litúrgicas da Igreja retratam a natureza humana como corpo e alma, seguindo assim a antropologia grega.

... especialmente aqueles que mais precisarem da vossa misericórdia - especialmente aqueles que mais longe estão da salvação; esta sempre foi a grande preocupação de Jesus: eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento. (Lucas 5,32)
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de setembro de 2017

Fátima: As orações do Anjo

2 comentários:
Além da insistente exortação da Nossa Senhora a rezar o terço, e à pratica dos primeiros Sábados, no decorrer das aparições as crianças aprenderam orações que resumem e ilustram todos os aspetos da mensagem de Fátima. Mediante estas orações, a mensagem, de doutrina, passa a prática espiritual, quando rezadas em privado, e até a liturgia, quando rezadas em comunidade.

Aprendidas do Anjo e da Senhora do Rosário por Lúcia, Francisco e Jacinta, estas orações atualmente parte de uma tradição orante que salienta a adoração a Deus, particularmente na sua presença eucarística, e a disponibilidade do crente para o compromisso com a missão redentora de Cristo.

Tanto as ensinadas pelo anjo, como as ensinadas pela Nossa Senhora, o conteúdo das orações não versa sobre Maria, mas sim sobre o mistério de Deus e à redenção da humanidade. A Nossa Senhora em Fátima, revela desta forma, qual é o seu verdadeiro papel e lugar na história da salvação: aquele de apontar aos homens os caminhos de Deus e o de referir a Deus as necessidades dos homens. São cinco as orações de Fátima, e, como dissemos, nenhuma é dirigida a Nossa Senhora.

Doutrinalmente Fátima é a mais completa das aparições pois toca os pontos principais da teologia católica; o mistério da Santíssima Trindade que aparece já nas aparições do anjo; a Eucaristia, a oração, a penitência, a reparação, a escatologia, o ministério pontifício, a comunhão dos Santos etc..

Meu Deus, eu creio
Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. / Peço-Vos perdão para os que não creem, / não adoram, não esperam e não Vos amam.

Uma oração simples e singela, mas completa; um convite ao cristão a viver as três dimensões do tempo humano, Passado - Presente - Futuro inspirando-se nas três virtudes teologais, Fé – Esperança – Caridade.  A vida humana decorre exclusivamente no presente; um presente que quando está cheio de Caridade, inspirada no passado da dos nossos pais, torna-se em razão da Esperança que nos projeta para o futuro sem medo nem ansiedade.

A virtude da Fé: “Eu Creio” – A fé é a pedra filosofal que nos faz ver a vida e a realidade com outros olhos. A fé é um passo que damos para além do que é racional e razoável; é um risco, uma decisão, uma opção fundamental. É a chave que abre a porta da Salvação; salvação que significa Céu para o futuro, mas que no presente, no aqui e agora, se traduz em paz, felicidade, e sentir-se bem, fisicamente, espiritualmente, psicologicamente e moralmente.

A virtude da Esperança: “Espero” – A virtude teologal da Esperança é a fé projetada no futuro que confere um sentimento de segurança no momento presente. O cristão não precisa de ansiolíticos porque não tem ansiedade; perfeitamente ancorado na fé que se traduz, no presente, no aqui e agora, em caridade para com Deus e o próximo. “Quem não deve não teme” diz o proverbio; o cristão não teme porque não está em dívida com ninguém, nem com Deus, nem com os homens..

A fé também assegura os cristãos que por pior, ou melhor que seja o momento presente, tudo é passageiro e a sua é uma história com um fim feliz. O fim feliz da sua história já está assegurado na morte e Ressurreição do Senhor. Se temos a fé que nos permite acreditar que até os cabelos da nossa cabeça estão contados, como diz o evangelho, vivemos na certeza de que ainda que o momento presente possa ser de sofrimento e angustia, o melhor está para vir e a nossa história terá um fim feliz. Assim sendo, o medo e a ansiedade desaparecem e os altos e baixos da nossa vida são vividos na esperança e na fé na providencia divina e não no temor.

“Por fim o meu coração Imaculado triunfará” – Nesta fé e nesta esperança viveram os pastorinhos; em especial a Lúcia que em breve ia perder a companhia dos seus primos. Ao aperceber-se que ia ficar sozinha no mundo, a Lúcia deve ter sentido uma enorme tristeza, o que levou a Senhor a perguntar-lhe,: “E tu sofres muito por isso”? De seguida, a modo de consolo e conforto disse, “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio, e o caminho que te conduzirá a Deus”; Ou ao Céu que já lhe tinha sido prometido a ela a Jacinta e ao Francisco logo na primeira aparição.

A virtude da Caridade: Adoro… e Amo-Vos – Só vivemos no presente, inspirados no passado e confiantes no futuro. O presente da nossa vida deve ser cheio de caridade; a caridade, o amor só pode ser vivido no momento presente. “Não guardes para amanhã o que podes e deves fazer hoje”. As boas intenções não salvam ninguém, nem a nós mesmos. A caridade não pode ser projeto, mas ação no momento presente. A caridade não pode ser adiada.

Adoro - O momento presente deve ser cheio de amor a Deus. Encontrar tempo e buscar um lugar para estar com Ele, como Jesus fazia e como Francisco de Fátima também fazia isolando-se das suas companheiras, detrás de algum cabeço ou matorral, ou passando o tempo da escola na Igreja de Fátima consolando o Deus escondido.

Amo-vos – Quando amamos a Deus de todo coração como Pai, olhamos para o outro com outros olhos; já não é o nosso inimigo, o nosso rival a quem tememos ou invejamos, mas sim o nosso irmão a quem desejamos todo o bem do mundo. Neste sentido o amor a Deus não existe sem o amor ao próximo e vice-versa, por isso, para Jesus, os dois fazem parte de um único mandamento do amor.

Fátima Missionária – “Peço-Vos perdão” … Para além de exortar a vida dos cristãos nas virtudes da Fé, Esperança e Caridade, esta oração deixa bem claro que o cristão não vive para si mesmo nem sequer para a perfeição pessoal; o cristão vive para os outros, os outros são sempre parte integrante da sua vida pessoal. Daí preocupar-se com eles como se preocupava Jesus que veio para os enfermos e não para os sãos, que não criticava os maus, os pecadores, mas acolhia-os com misericórdia. Como a Jacinta quando dizia,” Coitadinhos dos pecadores” …

Peço-vos perdão - porque não evangelizei, porque não saí fora de mim mesmo, porque vivi de portas para dentro fazendo da fé um segredo a levar para a sepultura. Como dizia Karl Rahner Deus na sua infinita misericórdia salvará aqueles que sem culpa pessoal, não ouviram falar Dele, não O conheceram e, por isso, não tiveram oportunidade de encontrar-se pessoalmente com Cristo; mas salvará aqueles que tinham por dever de ir e falar-lhes Dele e de O dar a conhecer?

Neste sentido, Fátima é verdadeiramente missionária, não só por ser um apelo à evangelização, mas por obrigar os cristãos a considerarem-se pecadores por não serem missionários, e, portanto, pedirem perdão porque a sua inatividade, leva os outros a não crerem, esperarem e amarem. Este sentimento de culpa deveria levar os cristãos a ecoar na sua consciência as palavras de São Paulo, o maior evangelizador de todos os tempos: “Ai de mi se não evangelizar”.

 Peço-vos perdão –não só porque não evangelizei, mas ainda escandalizei; não só não fui um degrau para os outros se sentirem edificados e subir em direção a Ti, mas fui um escândalo, uma pedra de tropeço, um empecilho.

Na história da minha vocação como em todas as histórias de vocações, foi o conhecimento de uma pessoa que encarnava essa vocação específica que me levou a desejar ser como ele ou como ela. O mesmo se passa com a evangelização de hoje e de sempre; em primeira instância, o encontro com Cristo, nunca é um encontro com a sua doutrina, ou mesmo a sua palavra, mas sim o encontro com um dos seus seguidores, com um daqueles que encarna a sua palavra e a sua doutrina.

O encontro com aquele que se afirma cristão, nunca é neutro; se as suas atitudes, palavras e obras correspondem ao que se diz ser, ele mesmo sem querer já está a evangelizar. Ao contrario se não existe concomitância entre o que se diz ser e a sua vivência, não só não evangeliza como até escandaliza, traumatiza. E, se esta for uma primeira experiência, ou seja se este é o primeiro encontro com um cristão, já dificilmente se converterá ao cristianismo.

Em todos os sentidos e em todas as áreas as primeiras experiências são extremamente importantes. A nossa forma de viver, o nosso comportamento ou é atraente e edificante, ou é repelente e escandalizante.

Santíssima Trindade
Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, / adoro-Vos profundamente / e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, / Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, / presente em todos os sacrários da terra, / em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças / com que Ele mesmo é ofendido.
E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração / e do Coração Imaculado de Maria, / peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

O evangelho de São João tem um prólogo no qual resume, concentra, e interpreta de antemão toda a doutrina de Jesus de quem vai falar a seguir. Esta oração de alguma forma é uma “overture”, um introito à mensagem que a Virgem vai transmitir às crianças. Tudo o que ela vai comunicar, esmiuçadamente, já se encontra aqui concentrado nesta oração que o anjo ensinou e convidando as crianças a rezar com ele.

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo - Com a construção da Basílica da Santíssima Trindade, Fátima ficou completa arquitetonicamente. Possui agora uma arquitetura que é a expressão topográfica da mensagem de Fátima concentrada nesta oração de invocação da Santíssima trindade.

A Basílica da Santíssima Trindade, edificada em forma redonda simbolizando a eternidade de Deus, agora a porta entrada do Recinto correspondendo assim ao primeiro anúncio do Anjo, um ano antes da Nossa Senhora aparecer. Do lado direito temos o sacrifício de Cristo, que abriu a porta da salvação para a humanidade; popularmente chamada a Cruz alta.

No centro do recinto, como no centro da história humana, está Cristo dourado, nossa vida e nossa esperança, vivo e ressuscitado a abençoar o mundo tal como o viram as crianças na última aparição. Ao lado esquerdo está o lugar da aparição da Nossa Senhora, sempre ao lado de Jesus seu filho como esteve aos pés do seu berço e da sua cruz.

A Capelinha e o Cristo dourado são o lugar mais baixo do recinto, depois voltamos a subir para a basílica da Senhora do Rosário uma subida pronunciada. Basílica que é o uma torre apontada para o céu em forma de Senhora de Fátima como ela coroada com uma coroa dourada de glória, a mesma que espera a todos e cada um dos seus filhos se acolhemos o seu conselho nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

Em conclusão, um ano antes de a Senhora aparecer, o anjo que se apresentou como anjo da Paz e Anjo de Portugal, ensinou aos pastorinhos, uma oração evocativa da identidade Daquele que se iria revelar mais tarde por intermédio da Sua mãe, a rainha do Céu, da Terra e de Portugal.

adoro-Vos profundamente – Adorar significa submeter-se; ao adorar a Deus, todo o meu ser se submete a Ele pelo que nada há em mim que se oponha à sua vontade e aos desígnios.  É uma adoração profunda, porque brota desde as raízes do meu ser onde reconheço a minha origem em Deus, como diz o salmo 87 “todas as minhas fontes estão em ti”

e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, / Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, / presente em todos os sacrários da terra – Não se trata de recordar a Deus o ato salvífico de Cristo, ou seja, dar a vida pelos seus amigos. É o reavivar a nossa memória, pois, tal como o povo Judeu no deserto, a nossa tendência é esquecer rapidamente os prodígios e as maravilhas que o Senhor fez por nós. O sacrário é o sacramento, o recordatório das graças recebidas assim como o reservatório de graças a receber se a Ele aderimos. É, portanto, esta oração uma exortação à comunhão do corpo e Sangue do Senhor assim como à adoração eucarística

em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças / com que Ele mesmo é ofendido. – Esta adoração eucarística faz ecoar em nós e no mundo inteiro aquele supremo ato de amor de Deus pela humanidade há dois mil anos. Que o nosso amor e firme adesão ao mistério salvífico de Cristo contrabalance os ultrajes e os sacrilégios que são manifestações de ódio, dos inimigos de Cristo.

Mas pior que isto é a indiferença, a falta de amor o ignorar. Dizem que a indiferença é bem pior que o ódio. Esta indiferença é manifestada nos tempos pós-modernos pela nova forma de ateísmo chamada agnosticismo: o não querer saber, o não se importar, o “tanto se me dá como se me dê”, o viver como se Deus não existisse, o ser, o estar e viver alheio ao Seu amor por nós, o votar-lhe as costas. Quem odeia já amou e pode voltar a amar, mas o indiferente nunca amou e pode nunca vir a amar,

E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração / e do Coração Imaculado de Maria, / peço-Vos a conversão dos pobres pecadores. – Ao recordar os méritos de Cristo e de Maria sua mãe recordamos a nossa falta de mérito pela qual, como já na primeira oração ensinada pelo anjo, pedimos a conversão dos pecadores e o perdão pela falta do nosso compromisso para com esta conversão.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de setembro de 2017

Fátima: A terceira parte do Segredo à luz da profecia de Jonas

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Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado coração triunfará” Aparição de 13 de julho de 1917.

O conteúdo da terceira parte do segredo, que, por décadas, manteve o mundo em “suspense”, era, de alguma forma já conhecido, pois estava implícito nas palavras da Senhora acerca da Rússia. Era, portanto, como aqueles tesouros bem escondidos por estarem onde as pessoas menos esperam que estejam.

O terceiro segredo, como se lhe chamou, é a terceira parte de um único segredo, e não é se não uma ilustração simbólica das palavras da Nossa Senhora, para o caso de a Rússia não ser consagrada ao seu Imaculado Coração. Tudo o que o segredo diz aconteceu, até ao dia em que de facto a Rússia foi consagrada.

A profecia de Jonas
Como o segredo de Fátima era fundamentalmente uma profecia, qualquer profeta do Antigo Testamento pode oferecer-nos uma chave de leitura hermenêutica. Entre todos os profetas escolhemos Jonas porque este, mais que os outros, é um claro exemplo do que em essência é uma profecia, e que função cumpre dentro da palavra revelada.

Como sabemos, depois de alguma relutância e até manifesta oposição, Jonas foi enviado por Deus a Nínive com a profecia de que a cidade seria arrasada se não se convertessem e fizessem penitência. Como a destruição da cidade era precisamente o que Jonas queria, podemos imaginar a pouca convicção com que pregou durante os três dias que levou a atravessar a cidade. Contra todas expectativas a cidade converteu-se e não foi destruída.

A profecia de Fátima
Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! Primeira cena da terceira parte do segredo

Examinemos agora cada uma das imagens que compõem a terceira parte da profecia:

O Anjo de espada flamejante em riste – Representa o juízo final, a possibilidade de condenar-se no caso de não se converter. Como a espada suspensa de Damocles, é uma fatalidade que pode acontecer. Faz recordar o discurso de Josué no livro do Deuteronómio (30, 15) ponho ante ti a vida e a felicidade e a morte e a condenação. A possibilidade de reduzir o mundo a um monte de cinzas já não é ficção, mas pura realidade. Como hoje o homem é senhor do seu destino, é ele, portanto, que forjou a mais destruidora espada flamejante a bomba atómica.

Penitência, Penitência, Penitência! - O sentido da visão não é mostrar o que irremediavelmente vai acontecer no futuro, mas sim o que pode acontecer, e os meios para que não aconteça, é um alerta. Se o intuito desta profecia fosse revelar o destino irreversível do mundo, não faria qualquer sentido que o anjo gritasse penitência três vezes, no sentido de evitar a catástrofe. Nem faria sentido esta ou qualquer profecia se não houvesse forma de evitar o destino. Ninguém tem interesse em saber nem o dia, nem a hora, nem a forma como vai morrer; e Deus seria sadista se o revelasse.

Ao lado esquerdo de Nossa Senhora – A visão mostra-nos o poder oposto à destruição, representada na imagem esplendorosa da Virgem Maria à direita do Anjo. Representando, portanto, o anjo de espada em riste a morte, e Nossa Senhora a vida, a visão apela à nossa liberdade. Ou seja, o que vamos ver na cena seguinte, não é a irreversibilidade de um futuro que não pode ser mudado e vai acontecer tal qual está descrito, mas sim o contrário a imagem de um futuro que pode ser evitado e, portanto, não acontecer se fizermos o que nos aconselha o anjo.

O propósito da visão não é mostrar em filme um futuro irrevocavelmente fixo, mas ao contrário, orientar, iluminar e guiar a nossa liberdade e as nossas energias e recursos no sentido oposto e evitar a catástrofe. Tal como a pregação da destruição da cidade de Nínive levou os seus habitantes a fazer penitência, o mesmo pretende esta visão.

E vimos n'uma luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho;

chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus. Segunda cena da terceira parte do segredo

A cidade representa a história humana, a montanha, o caminho ascendente para a cruz, redenção para toda a humanidade. O Santo Padre, bispos sacerdotes, religiosos e religiosas e pessoas seculares, subindo uma montanha representam a Igreja na história da humanidade, no seu caminho ascendente para o Céu.  A história da salvação inserida na história da humanidade.

Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus. – É uma clara referencia ao livro do Apocalipse, 7, 14 os que vêm da grande tribulação, lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro. Salvam-se todos os que são regados pelo sangue dos mártires, em tanto em quanto que este sangue, como sempre se disse, é semente de cristãos.

Ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho - O caminhar pela história em direção a Cristo, representado pela cruz, é lento, e pelo caminho alguns vão caindo vítimas do mal. Em particular, a visão representa a via sacra de um século de perseguição e morte, que o nazismo, o fascismo e em especial o ateísmo militante moveram aos crentes. Nesta visão o papa é alvejado e morto como muitos mártires.

Quando, após a tentativa de assassínio em 13 de maio de 1981, o Papa João Paulo II na sua cama de convalescença no policlínico Gemelli pediu que lhe trouxessem o texto do segredo, era inevitável que ele não visse nele o seu destino, e um futuro que não aconteceu por um triz. E não aconteceu porque Maria não o quis; nas palavras do papa ela desviou a bala que passou a poucos milímetros de órgão vitais. Mais uma vez fica claro que o futuro não é imutável, e que a fé, a penitência e a oração podem influenciar a história, e que em definitiva a oração é mais poderosa que as balas e a fé, que move montanhas, mais poderosa que o poder destrutivo dos exércitos.

Podemos agora compreender a aflição da pobre Jacinta, que viu tudo isto sem saber qual seria o desfecho final. De certo ela fez o que o anjo, na mesma visão, a todos aconselha, penitencia e oração. De alguma maneira também ela sabia que este futuro tão negro, até mesmo a morte do papa que na visão se dá como certa, podia ser evitada com a sua oração e penitência pessoais; esta a razão pela qual nunca cessou de rezar pela Santo Padre. Se Jacinta tivesse a certeza de que o futuro, visto na visão, não podia ser evitado não teria rezado pelo papa como o fez o resto da sua vida.

Num encontro que a irmã Lúcia teve, no dia 27 de abril de 2000, com o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, aquela refere que concorda plenamente com esta interpretação oficial da Igreja, segundo a qual, a terceira parte do segredo consiste numa visão profética, comparável a outras da bíblia, cujo conteúdo consiste na perseguição movida, à Igreja e aos crentes, pelo ateísmo militante inspirado e promovido pela Rússia durante o século XX.

Também concorda com a interpretação pessoal do Papa João Paulo II: Foi uma mão materna que guiou a trajetória da bala e o Santo Padre agonizante deteve-se no limiar da morte. Continua a Lúcia: Não sabíamos o nome do Papa, Nossa Senhora não nos disse o nome do Papa. Não sabíamos se era Bento XV, Pio XII, Paulo VI ou João Paulo II, mas que era o Papa que sofria e isso fazia-nos sofrer a nós também… em especial a Jacinta que dizia muitas vezes: Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por Ele.

Já, mas ainda não…
Os acontecimentos, aos quais se refere a terceira parte do segredo, parecem ser agora parte do passado. Cardeal Sodano

O Reino dos céus está já presente no meio de nós, mas ainda não na sua plenitude, diz a teologia com respeito ao Reino de Deus e à sua presença na história da humanidade. Inspirados no Cardeal Sodano, assim como no então perfeito da Sagrada Congregação para a Fé, o Cardeal Ratzinger, podemos dizer que, por um lado, e contrariamente aos profetas da desgraça amantes de apocalipses e teorias da conspiração, esta terceira parte do segredo tal como as duas primeiras, é história.

Por outro lado, ao contrário, das duas primeiras partes do segredo, que visavam coisas concretas que não podem voltar a acontecer, a terceira parte do segredo é menos concreta e totalmente concretizável no tempo e no espaço e parece apelar a um arquétipo que se tem repetido, continuamente se repete e pode repetir; o anjo de espada flamejante está ainda aí; a liberdade humana exortada a escolher entre o caminho do bem e da vida, o mal e a morte sempre estará aí; a Igreja caminhante num mundo adverso e o martírio de alguns dos seus membros é uma realidade que se repte em todo o tempo e lugar.

Por fim, o meu Imaculado coração triunfará …
Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: Eu já venci o mundo!» João 16, 33

Um coração aberto a Deus, purificado pela penitência e oração, é mais forte que as armas e os exércitos de toda a espécie; Foi o coração de Maria purificado do pecado original no momento da sua conceição, e comprometido na anunciação do anjo com o projeto de salvação de Deus, que trouxe o redentor à humanidade. A semente desse Reino já está presente no meio de nós desde a vinda de Cristo à dois mil anos. Quando o nosso coração é purificado como o de Maria, também nós damos à luz a Cristo no nosso ser na nossa forma de viver e atuar, e desta feita fazemo-lo presente no nosso tempo e lugar, com toda a sua potência de saúde, paz e amor entre os homens.
Pe. Jorge Amaro, IMC




1 de agosto de 2017

Fátima: Segredo ou Profecia?

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Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: 'Vem lá a chuva'; e assim sucede. E quando sopra o vento sul, dizeis: 'Vai haver muito calor'; e assim acontece. Hipócritas, sabeis interpretar o aspeto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?»
Lucas 12, 54-56

Incultos como eram, os pastorinhos de Fátima, desconheciam o conceito de profecia por isso, chamaram segredo ao que a Senhora lhes comunicou sobre o futuro, assim como as duas visões que tiveram na aparição do dia 13 de julho de 1917. Portanto, o que popularmente é conhecido como “O segredo de Fátima” deve entender-se como a Profecia de Fátima. É neste sentido que o ainda Cardeal Joseph Ratzinger se referiu a Fátima, como sendo a mais profética das aparições modernas.

Profecia e sinais dos tempos
Seguindo o evangelho de Lucas, acima citado, os profetas eram pessoas que estavam bem despertos e atentos aos sinais dos tempos. Ou seja, ao presente impregnado de um futuro que já se antevia aqui e agora. Uma coisa é ver, outra coisa é interpretar e ver sinais do futuro incrustados no momento presente.

Por exemplo, muita gente ao longo dos séculos, tem visto como o vapor de uma panela de água a ferver pode atirar com o testo, e não viram mais que isso mesmo, uma panela de água a ferver; o Senhor James Watt, porém, olhou mais além do fato insignificante, e na tentativa de aproveitar o poder do vapor, construiu a máquina a vapor, que é a primeira máquina construída pelo homem.

A profecia liga o presente ao futuro - no sentido de que o futuro já dá noticia de si mesmo, e já se encontra no momento presente em forma de sinais dos tempos que só os de mente desperta podem perceber; os que olham para o mundo com olhos quem vêm por detrás e mais alem do que é obvio, e, por outro lado, estão sempre em contacto com o Senhor do Tempo: presente, passado e futuro que é Deus.

A profecia liga o futuro ao presente - no sentido de que o futuro não está irreversivelmente fixo, mas é de alguma maneira interativo e suscetível de ser mudado. de facto, o objetivo da profecia na bíblia, é alertar-nos acerca de um futuro que está nas nossas mãos evitar, pois temos liberdade e poder para o modificar e escrever a historia diferentemente. Neste sentido o futuro não é um comboio que perdeu os freios e não já há forma de o deter, mas sim um cavalo a galope perfeitamente domado cujas rédeas estão na nossa mão.

História do segredo
“O segredo da Senhora”, como as crianças lhe chamavam, consta de três partes claramente distintas; a primeira trata-se da visão do inferno, a segunda do ateísmo militante da Rússia, e a terceira de uma representação simbólica do ateísmo militante ao longo do século XX.

O segredo ou profecia, está composto por duas visões, que correspondem à primeira e a terceira parte do segredo, com um discurso intermédio da Virgem, a segunda parte, acerca do ateísmo militante da Rússia. Comunicado pela Senhora aos três pastorinhos no dia 13 de julho de 1917, literariamente o segredo foi escrito em duas épocas diferentes; a primeira e a segunda parte do segredo foram escritas no dia 31 de agosto de 1941, a terceira a 3 de janeiro de 1944.

Passaram-se, portanto, 24 e 27 anos respetivamente desde que em 1917 as crianças afirmaram pela primeira vez que eram depositárias de um segredo que não revelariam. Nos interrogatórios, aos que as crianças foram submetidas, por curiosidade que é inata à natureza humana, as perguntas sobre o segredo eram as mais repetidas. Primeiro ofereciam ouro, prata e dinheiro para as ludibriar a revelar tal segredo e quando não conseguiram seguiram-se as ameaças de morte e a tortura psicológica na prisão de Ourem. As crianças nunca cederam.

1ª Parte: Visão do inferno
Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor.

Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

A existência do inferno é um dado incontornável da nossa fé. Se arrancássemos da bíblia todas as páginas em que o inferno vem mencionado, ficaríamos sem dúvida com uma bíblia mais pequena, mas já não seria Bíblia Sagrada que relata a Palavra de Deus. Há cada vez mais teólogos, que negam a sua existência, alegando que existe só como o zero na matemática, para ajudar nas contas, em virtude de uma coerência lógica, mas que não há lá ninguém. Se há ou não há não sabemos nem nos interessa; o inferno é a possibilidade de não se salvar; é o lugar teológico do mal, assim como o Céu o lugar teológico do bem.

Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.' Lucas 16, 19-31

Na parábola do Rico e do pobre Lázaro temos uma visão do inferno que, no contexto da parábola, tem a mesma função pedagógica que a visão dos pastorinhos de Fátima. Na visão do Inferno a Nossa Senhora quis reafirmar que ele existe e que é real a possibilidade de não se salvar. A descrição pormenorizada deste, com todos os detalhes das almas a caírem lá dentro e do sofrimento das mesmas no meio do fogo, mais a presença dos demónios que tanto apavorou os pastorinhos, tem um intuito pedagógico e funciona como um alerta, para os que nesta vida não seguem a Cristo como caminho, verdade e vida.

Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma. Mateus 10, 28

Na Bíblia há duas formas de representação do inferno; o inferno como tortura eterna e o inferno como morte eterna. A visão mais comum, a que aparece mais vezes, é a do inferno como morte eterna, ou seja, regressar ao nada quem nada foi, nada fez na vida, não serviu a nada nem a ninguém, e, em vez de acreditar em Deus e na vida eterna, não acreditou em nada para além da morte.

É inconcebível que, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, condenasse a uma eternidade de sofrimento e tortura a quem na temporalidade, por mais longa que fosse, tenha vivido no pecado; nem os tribunais humanos são assim tão severos. Não haveria nenhuma proporção entre o crime e a pena.

As poucas vezes, portanto, em que na Bíblia o inferno aparece como sofrimento eterno, tem um intuito meramente pedagógico, baseado na realidade de que os seres humanos temem mais o sofrimento que a morte. Pelo que, o inferno como tortura eterna, tem uma força motivacional para mudar de vida muito superior ao inferno concebido como morte eterna, que se coaduna mais com o que realmente será.

Como visão profética do inferno é mais apelativa a visão deste como tortura eterna. Os pastorinhos, portanto, não viram o inferno conforme ele é, mas sim como o imaginavam, inspirados no que lhes foi dito em inúmeras pregações, naqueles tempos, nas quais o inferno como sofrimento era tema quase obrigatório.
   
2ª Parte: A II Guerra Mundial e o ateísmo militante da Rússia
— Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior.

Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados.

Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

A Nossa Senhora propõe a devoção ao Imaculado Coração de Maria como antídoto para combater o mal em todas as frentes, individual e social. Se Salvação é a visão real de Deus, que supera a visão beatifica à qual alguns nesta terra têm acesso, a proposta desta devoção não é outra coisa que o eco do evangelho de São Mateus 5, 8:  Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Um coração que se purgou e purificou de todo mal e corrupção vê a Deus.

Um coração assim limpo, não está dividido, e está pronto a comprometer-se unilateralmente e incondicionalmente; é, desta forma, uma réplica do coração Imaculado de Maria que como ela diz, “Eis a serva do Senhor faça-se em mim segundo a sua Palavra”. O coração é o centro motor da atividade humana, onde os pensamentos ganham motivação e impulso para se transformarem em obras ou comportamento. Quando o nosso coração pertence a Cristo, tarde ou cedo poderemos dizer como o apostolo, Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de julho de 2017

Fátima: Lúcia a Mensageira

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Perfil humano
Nasceu em 22 de março de 1907, última dos sete filhos de António dos Santos, irmão da Sra. Olimpia mãe do Francisco e da Jacinta; era sã e robusta, mas não era de feições delicadas, era até um pouco rude. De rosto moreno e arredondado, nariz um pouco achatado, boca larga de lábios grossos; o único atrativo físico vinha-lhe dos olhos pretos, grandes e expressivos.

Mas o que lhe faltava em beleza física tinha a Deus recompensado em beleza interior. Era muito responsável, desde muito pequena qualquer tarefa lhe podia ser confiada; era uma educadora de divertindo as crianças com jogos e historias por ela contadas, tanto da bíblia como dos santos, como lendas daquela terra. Fazia procissões, cantava os versos da Igreja e ensinava catequese.

Naquele tempo a primeira comunhão só se fazia aos 10 anos; Lúcia, porém, comungou aos 6 anos porque com a memoria prodigiosa que tinha, sabia o catecismo todo de cor. Alem da memoria era também muito inteligente e criativa em atividades e divertimentos para distrair as crianças, pelo que todas as crianças, não só a Jacinta e o Francisco, tinham por ela um atrativo especial.

Ao contrário de Jacinta e de Francisco era vivaz, extrovertida e mexida, uma líder natural. O qual não a impedia de chegar a ser tão meiga e afetiva como Jacinta, uma afeição que manifestava a diariamente em especial com a sua mãe, quando voltava de pastorear as ovelhas cobria a mãe de abraços, beijos e mimos.

«A Lúcia era muito divertida - refere-nos uma outra sua companheira, Teresa Matias. - Era muito amiga de nos fazer jeito, de maneira que muito gostávamos de estar com ela; de mais, era muito inteligente, cantava e dançava bem e sabia-nos ensinar cantigas. Todos nós lhe obedecíamos. Passávamos assim horas e horas a cantar e a dançar que até nos esquecíamos de comer.

Como ela própria diz nas suas memórias, eram muito amigas de dançar e de festas. O dia 13 de junho era um dia sempre muito esperado por Lúcia pois se festejava de maneira especial na aldeia. A Dona Maria Rosa, conhecendo a filha, sabia que não trocaria as festas por coisa nenhuma. Mas é claro que se enganou. As aparições mudaram a forma de ser de Jacinta e de Francisco e também de Lúcia.

Jacinta e Francisco sofreram pela doença e os pequenos sacrifícios que eles inferiam de ocasiões como não comer não beber etc. Lúcia não precisava de buscar sacrifícios pois o sofrimento vinha ter com ela todos os dias. Foi a que mais sofreu a incredulidade dos que não acreditavam nas aparições, pelo que teve de suportar vexames troças, ameaças e até bofetadas.

Naquele 13 de Maio de 1919 quando o governo queria impedir os peregrinos de ir à Cova da Iria dois guardas agarraram a Lúcia, que para lá também se dirigia, e disseram um para o outro em voz alta: aqui estão covas abertas. Com uma das nossas espadas cortamos-lhe a cabeça e aqui a deixamos, já enterrada. Assim acabamos com isto duma vez para sempre.

Ao ouvir estas palavras, julguei-me realmente chegada ao meu último momento; mas fiquei tanto em paz como se nada fosse comigo. Passado um momento, em que pareceu ficarem pensativos, o outro respondeu: – Não, não temos autorização para isso.

Em especial sofreu por causa da incredulidade do seu pároco e das suas irmãs e mãe. Esta última mesmo depois de ser curada por especial favor de Nossa senhora chegou a afirmar: que coisa! Nossa Senhora curou-me e eu parece que ainda não acredito! Não sei como isto é!

Lúcia e o Eneagrama
A mente – sentimento - instinto são os três filtros pelos quais acostumadamente entendemos a realidade, nos relacionamos com ela e com os outros. Todos buscamos uma única coisa segurança; os sentimentais ou emocionais buscam relacionar-se e ser aceitados e amados pelos outros e assim encontrar o equilíbrio interior; os viscerais confiam nos seus instintos, na sua intuição ou sexto sentido; os cerebrais usam a mente para tentar entender, pois conhecimento significa poder.

Francisco era visceral instintivo, sentia-se bem consigo mesmo buscava a natureza, abstraindo-se de tudo e de todos, buscando uma única relação, estar com o “Jesus escondido” para o consolar. Jacinta era sentimental, dependente da relação com os outros sobretudo com a sua amiga intima, Lúcia; descobriu o sofrimento como forma de amor e nele viu o seu contributo para a salvação de muitos.

Lúcia era claramente cerebral, usava a mente para entender tudo e todos os que a rodeavam e o que acontecia; como tal não era 6 pois os seis são bastante inseguros e cheios de dúvidas; Lúcia parece bem firme no terreno e segura de si mesma. Apesar daquele episódio de dúvida de se as aparições seriam coisa do demónio, mas a dúvida não surgiu espontaneamente na sua mente, foi la colocada pelo seu pároco em quem ela confiava cegamente.

Também não é um 5 pois ao contrário do Francisco que se retirava Lúcia gostava de estar sempre no meio de gente por ser extrovertida e inquisitiva e desenvolta e criativa sempre buscando novos jogos ou atividades para entreter as crianças.

O número que melhor se aproxima à sua forma de ser por irónico que pareça é o 7. Precisamente o número que, de entre todos os números do eneagrama, foge do sofrimento. E no entanto, foi a que mais sofreu enquanto ao crédito das aparições; os três eram vexados pelo povo em geral, mas enquanto Jacinta e Francisco, pelo menos em casa, estavam a salvo e na rua estavam protegidos pela autoridade do seu pai o Sr. Marto, Lúcia em casa era maltratada pela mãe e pelas irmãs e tida como embusteira e mentirosa; na rua a sua mãe não lhe importava que até lhe batessem se com isso ela dissesse a verdade.

Por outro lado, quanto ao oferecer sacrifícios voluntários, não era tão zelosa como os dois primos. Lúcia de alguma forma nem é tão sofredora com Jacinta nem tão adoradora como Francisco. Lúcia vive nas relações sociais e na diversão por isso era tão boa com as crianças. Ninguém entretém tanto nem melhor que um numero 7; sempre preparados para a palhaçada, os jogos, as danças…

Neste sentido Lúcia, apesar de ser a líder dos três, e a vidente mais importante do grupo, não se nota que encarne no imediato um aspeto específico da mensagem de Fátima, como Jacinta a penitência e Francisco a oração, e em especial, a adoração ao Santíssimo Sacramento.

A razão pode ter a ver com o facto de que Francisco e Jacinta sabiam que não lhes restava muito tempo de vida por isso viviam de uma forma escatológica como as suas mentes e os seus corações postos não já neste mundo, mas no mundo que iria vir, ansiando ver Nossa Senhora a qual lhes tinha dito que pronto os levaria para o Céu, e que o Francisco tinha de rezar muitos terços ainda para lá poder entrar.

Quanto a Lúcia, como muito tempo por diante parece ter vivido a mensagem de Fátima na sua totalidade como um todo e no anonimato, ao longo de muitos anos recluída como religiosa de clausura.

Vida longa em anos curta em eventos
A vida de Francisco e de Jacinta foi de veras curta; ao contrario, a de Lúcia seria muito longa. Sozinha abandonada por todos em especial pelos seus dois amigos confortava-se em repetir o que a Senhora lhe tinha dito, Não tenhas medo! ... Eu ficarei contigo! ... Sempre! ... O meu Imaculado Coração será o teu refúgio! ... e o caminho que te conduzirá até Deus!  ..

Depois da morte de Jacinta dia 17 de junho de 1921 Lúcia foi afastada de Fátima para paradeiro desconhecido do povo, o colégio das irmãs Doroteias no Porto, com o consentimento desta e da mãe tanto para analisar sem a presença dela os acontecimentos como para ver se o povo deixava de acorrer à Cova da Iria e visitar a única vidente ainda viva.

Tocada pelas aparições, a vida de Lúcia foi longa em anos, mas curta em acontecimentos. Do colégio do Porto passa para o postulantado das irmãs Doroteias em Pontevedra e dali para o noviciado em Tuy que termina a 3 de outubro de 1928. Demora-se por Espanha até ao ano 1946 em que volta a Portugal e visita Fátima e a sua família.

Dali recebe a autorização do Papa Pio XII para deixar as Doroteias e realizar o seu sonho primigénio o fazer-se Carmelita; entrou então para o Carmelo de Sta. Teresa em Coimbra o dia 25 de março de 1948 onde levou uma vida de oração e penitência até à sua morte, ocorrida a 13 de fevereiro 2005, como 98 anos.

Lúcia a mensageira
Se Francisco era o contemplativo, o ser orante pois dedicava à oração muitas horas; se Jacinta que como numero 4 faz seu, o drama da humanidade perdida, oferecendo-se e juntando os seus sofrimentos aos de Cristo pela redenção dos pecadores; o que é ou quem é Lúcia para a mensagem de Fátima?

Lúcia é a comunicadora, porque só ela tem uma relação plenamente interativa com Nossa Senhora só ela pergunta e responde só ela dialoga com a Senhora. Lúcia é o porta voz do céu; a mensageira, de alguma maneira a evangelista que anos mais tarde coloca por escrito a vida e ditos tanto da Senhora nas aparições como a forma com os seus primos encarnaram a mensagem de Fátima, da qual ela é, para a posteridade, a testemunha, a depositária e a custódia.

Obedecendo ao Bispo de Leiria, Lúcia colocou por escrito o segredo, que fechou em envelope e enviou ao Papa, juntamente com as suas memorias das aparições nas quais descreve também, de modo biográfico, a vida, ditos e obras dos seus primos e de si mesma.

Como vidente foi, até à sua morte, a intérprete e a exegeta da mensagem de Fátima. Este papel ficou bem claro nas tentativas que os papas desde Pio XII até João Paulo II, fizeram de consagrarem a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Todos os papas o fizeram, mas todos evitavam nomear a Rússia e algumas vezes não era feita a consagração em união com todos os bispos do mundo.

A Lúcia, se assim o entendesse, não hesitava em dizer que não era como Nossa Senhora queria. Por fim, aquela que o papa João Paulo II fez, a 25 de março de 1984, ante a imagem oficial de Fátima e o ícone de Kasan em Roma, obteve o assentimento de Lúcia, que afirmou: a consagração foi feita e foi aceite.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de junho de 2017

Fátima: Jacinta a Reparadora

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Perfil humano
Jacinta de Jesus Marto nasceu a 11 de março de 1910. Como Francisco, tinha o rosto redondo e feições duma regularidade perfeita; boca pequena, lábios finos, mento breve, corpinho bem proporcionado. «Não era, contudo, tão cheia como o Francisco - diz-nos a mãe.

Era muito vaidosa, gostava de se vestir bem, andava sempre bem penteada e colocava flores no cabelo. Como a prima gostava de dançar ao toque do pífaro do seu irmão Francisco. Divertia-se nos jogos e ao contrario do seu irmão tinha mau perder. Muito centrada em si mesma, era ela que tinha que escolher os jogos ou os castigos, e nisso era intransigente.

Por outro lado, não era um espírito livre e independente como a sua prima Lúcia. Era mais dependente e nesse sentido vivia encostada à sua prima com quem tinha uma amizade invulgar, nada fazia sozinha, um dia sem Lúcia era um dia triste e sem sentido.

Moralmente era irreprochável, como o seu irmão tinha sido formada e formatada para nunca mentir; chegou a repreender a mãe quando esta dizia alguma mentira piedosa. Então a mãe mentiu-me? Disse que ia aqui e foi para acolá? ... Isso de mentir é feio! Se não queria dizer a verdade calava-se e não havia ninguém que lhe arrancasse uma palavra. Um dia em que a Lúcia cansada de tantos interrogatórios se escondeu, os visitantes perguntaram a Jacinta pelo seu paradeiro; esta para não mentir calou-se:  que é que respondeste quando te perguntaram por mim? perguntou a Lúcia, - Calei-me bem caladinha! Porque eu sabia onde tu estavas e mentir é pecado.

O aspeto mais importante e mais vincado na sua personalidade é a sensibilidade; Jacinta era tão sensível que até parecia de porcelana; emocionava-se muito facilmente tinha o coração nas mãos. Já aos 5 anos, pedia uma e outra vez que a sua prima lhe contasse a história da Paixão do Senhor; ao ouvir narrar os sofrimentos do Nosso Divino Redentor - diz-nos a Lúcia - enternecia-se e chorava muito, e em pranto dizia – “Coitadinho de Nosso Senhor - repetia - eu não hei-de fazer nunca nenhum pecado; não quero que Jesus sofra mais.  (…)

Muitas vezes dizia, Gosto tanto de dizer a Jesus que o amo! Quando Lho digo muitas vezes, parece que tenho lume no peito, mas não me queimo. (…) gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que nunca me canso de lhes dizer que Os amo. repetia muitas vezes. Jacinta possuía uma alma requintada, cheia de finíssimos sentimentos, dizia o pai dela.

Amava as ovelhas e designava a cada uma delas pelo seu nome. Havia a pomba, a estrela, a mansa, a branquinha - os nomes mais lindos do seu vocabulário. Os cordeiritos brancos eram o seu enlevo.
«Sentava-se com eles ao colo - diz a Lúcia - abraçava-os, beijava-os e, à noite, trazia-os ao colo para casa, para que não se cansassem e para fazer como o Bom Pastor que ela tinha visto numa pequena estampa que lhe tinha sido oferecida».

Jacinta no Eneagrama
Com uma mensagem para todo género humano, Maria apareceu em Fátima a três crianças que representam essa humanidade; uma humanidade incompleta que perscruta e se relaciona com a realidade e os outros desde um prisma redutivo e redutor. Lúcia era claramente cerebral; a memoria e a inteligência é o seu forte. Francisco é visceral instintivo não se dedica muito ao pensamento vive da visão da perceção e da contemplação; para ele poucas coisas importam. Jacinta é sentimental, toda ela é emoção sensibilidade.

Que numero poderia ela ser? Um dois não pois tem uma personalidade básica bastante egocêntrica, não própria do 2; um três também não porque não parece buscar o sucesso nem ser pragmática; a meu ver Jacinta no Eneagrama é um 4.

Lúcia conhece a Jacinta mais que ninguém e descreve-a, de facto como sendo bastante egocêntrica absorvida por si mesma. De facto, como adiante veremos, a conversão de Jacinta vem na descentralização da sua vida quando se dá conta que o centro da sua vida não é ela, mas Ele o Jesus que sofre e que precisa de ser reparado. Então entende: quem me queira seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.

Como os 4, Jacinta é exageradamente sentimental trágica e romântica; sonhadora individualista; de gosto requintado pelo estético, como acima fica manifestado na sua a relação com os cordeirinhos imitando a Jesus o bom pastor; como todos os 4 foge do ordinário. Jacinta não acompanhava mais ninguém a não ser a sua querida Lúcia, porque achava as outras crianças groseiras que diziam asneiras, ordinárias; odiava a falta de integridade. Em casa, ela preferia a companhia de seu pacífico irmão Francisco e evitando, a qualquer custo, a companhia de seu irmão mais velho, João.

Outra caraterística dos 4 que encontramos na Jacinta, o medo de ficar sozinha e abandonada como manifestou quando esteve na prisão de Ourém e a sua ida para o hospital da Dona Estefânia em Lisboa onde ela vinca e sublinha que vai morrer sozinha, coisa que ele sublinha com trágicas e dramáticas conotações, próprio dos quatro no eneagrama.

le coeur a ses raisons que la raison ne connaît pas – O coração tem as suas razões que a razão desconhece. Depois do encontro com o pároco Lúcia que, como a sua mãe, o tinha como homem santo e de respeito, por ser cerebral e racional, começou a duvidar de si mesma e da sua perceção; talvez o pároco tivesse razão e as aparições fossem mesmo coisas do demónio. Jacinta, porem, como via e conhecia com o coração, opôs-se à Lúcia e defendeu convictamente a veracidade das aparições.

Como o pároco colocou o demónio na cabeça de Lúcia, esta chegou a sonhar e ter pesadelos com ele, num dos sonhos via o diabo arrastando-a para o inferno e rindo-se dela. Chegado o dia 13 de julho negou-se a ir à Cova da Iria, os primos choravam e imploravam que fosse pois eles não queriam ir sozinhos; Jacinta sobretudo dizia que tinha pena de Nossa Senhora, que iria ficar desgostada com eles. Ao chegar o meio-dia hora das aparições, como por milagre os medos da Lúcia dissiparam-se e lá foi ela com os primos em direção à Cova da Iria, passando por milhares de pessoas que já para lá se dirigiam.

Jacinta a reparadora
"Compreendi que o Amor encerra todas as Vocações e que o Amor é tudo!... então, num transporte de alegria delirante, exclamei: encontrei finalmente a minha vocação, a minha vocação é o Amor! No Coração da Igreja Minha Mãe, eu serei o Amor, assim serei tudo, assim o meu sonho será realizado."  Sta. Teresa do menino Jesus

Gosto tanto de sofrer por amor de Nosso Senhor e de Nossa Senhora! Eles gostam muito de quem sofre para converter os pecadores. Jacinta

Se a pequena Jacinta tivesse conhecido a Santa Teresa do menino Jesus, de certo se reveria e identificaria com ela. Dissemos que cada pastorinho encarna na sua vida e na história da sua conversão um aspeto da mensagem de Fátima. Se Francisco encarna o amor, pela oração e pela consolação do Senhor ao passar tempos infinitos com Ele, Jacinta é o coração da mensagem de Fátima.

Dos três, é a que mais empatia tem pelos corações dilacerados de Jesus e de Maria pelos ultrajes e pecados com que são ofendidos. Desde o momento em que se dá conta dos corações quebrados de Jesus e de Maria, Jacinta oferece-se a emenda-los com a cola do seu amor. O amor é de facto a única cola que pode unir os humanos entre si e com Deus, e reparar os corações, fendidos e ofendidos.

“Quem se obriga a amar, obriga-se a padecer” – Ou como diz Jesus “Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos” . Jacinta apercebe-se muito bem disto e por isso aceita alegremente todos os sofrimentos que se lhe apresentam para reparar o coração ofendido do Senhor.

Assim quando chorava na prisão de Ourém com saudades dos seus pais, bastava a sugestão dos outros dois a que oferecesse esse sacrifício para imediatamente enxugar as lágrimas e alegremente e com certo prazer oferecer o sacrifício. Chegava a dizer Jesus deve estar contente comigo pois custou-me um bocadinho.

Quando já ela e Francisco estavam doentes de cama, chamou com urgência a Lúcia para lhe dizer: Olha, Lúcia - dizia-lhe a Jacinta toda alvoraçada - Nossa Senhora veio-nos ver e disse que vinha buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se ainda queria converter mais pecadores (por meio do sofrimento). Eu disse-lhe que sim. Agora, dizia ela a Jesus, podes converter muitos pecadores, porque sofro muito! Dizia ela num desabafo a Jesus depois da operação a sangue frio.

Só Deus sabe o que ela sofreu no hospital de Ourem onde foi operada sem anestesia; só Deus sabe o que sofreu com a ferida aberta no peito que já deitava pus. E, no entanto, o seu corpo foi encontrado incorrupto quando o corpo foi exumado em 1935 para a causa da beatificação.

Com a sua morte na cruz, Cristo restaurou o género humano, e reparou a nossa união com o Pai. Jacinta que gostava de imitar a Jesus bom pastor no meio do rebanho, levando aos ombros a ovelha perdida, acabou por imita-lo nos três anos de duração da sua vida publica, nos sofrimentos da sua paixão e na solidão da sua agonia e morte. três anos depois das aparições, Jacinta morreu sozinha no hospital com uma ferida aberta no peito tal como Jesus.

Na sua curta vida, Jacinta não só imitou a Cristo bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, mas imitou também a Cristo como cordeiro imolado que tira os pecados do mundo pois a conversão dos pecadores era a única motivação do seu sofrimento e da sua curta vida. E parafraseando um soneto de Camões, mais serviria ela se para tão longo amor tão curta a sua vida. Faleceu três anos depois das aparições o dia 20 de fevereiro de 1920 com 10 anos de idade.
Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de junho de 2017

Fátima: Francisco o Contemplativo

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Perfil humano
Francisco de Jesus Marto nascido a 11 de junho de 1908 em Aljustrel, lugar pertencente à freguesia de Fátima, Concelho de Ourém. Filho de Manuel Pedro Marto e de sua mulher Olímpia de Jesus dos Santos.

Irmão de Jacinta que como esta não apresentava as caraterísticas rudes da sua prima Lúcia. Era robusto de cara redonda e bochechuda um tanto morena de lábios breves como a irmã; mas ao contrário desta, era muito meigo, calmo e pacífico, sem ser um “paz d’alma”, ao contrário, era enérgico, forte, resoluto e gozava de boa saúde.

Como todas as crianças da sua idade, Francisco gostava de brincar; porém ao contrário da sua irmã, não tinha mau perder, até parecia que não queria ganhar; de facto quando alguém quebrava as regras do jogo ou teimava em negar-lhe os direitos, cedia sem resistir limitando-se a dizer, «Julgas que foste tu que ganhaste? Pois seja! A mim pouco se me dá!”.

E quando algum se aproveitava da sua calma para lhe roubar alguma coisa, dizia, «Deixá-lo lá, pouco me ralo”. Era tão pacífico que até “dava nervos” à sua prima Lúcia; ela podia ordenar-lhe qualquer coisa e ele fazia sem questionar.

Não era nada medroso podia ir de noite sozinho a qualquer sítio escuro sem mostrar receio ou sequer contrariedade. Brincava com os lagartos e as cobras que encontrava; fazia-os enrolar em volta do seu pau e dava-lhes a beber nos buracos das pedras o leite das ovelhas. Era apaixonado pela musica que exercitava tocando o seu pífaro nas horas calmas e como Jacinta era amante das flores e da natureza.

Moralmente era irrepreensível - «Uma manhã - conta-nos a Sra. Olímpia - ia ele a sair com o gado e eu digo-lhe assim: - Vai hoje para o Oiteirinho da madrinha Teresa, que ela não esta cá, foi à Aldeia. E logo a responder: - Ah, isso é que eu não faço! Não tive mão em mim que não lhe chegasse uma bofetada. Mas ele não se acobardou. Voltou-se para mim e assim a modo muito sério, sai-se com esta: - Então, é a minha mãe que me está a ensinar a roubar?

Francisco e o Eneagrama
Segundo os psicólogos, existem três centros de inteligência, o cérebro, o coração e o corpo; somos, portanto, cerebrais, emocionais ou viscerais/instintivos; se bem que todos nós lemos a realidade e nos relacionamos com ela e com os outros desde os três centros de inteligência, sempre temos um que é “default” ou preferencial em relação aos outros dois.

Na teoria psicológica do Eneagrama, há nove tipos de personalidade, três para cada um dos três centros de personalidade que acima mencionamos; cada tipo de personalidade é identificado por uma compulsão ou tendência específica, da qual a pessoa, não é consciente, e que influencia ou determina o seu comportamento.

Casualidade ou providência, os três pastorinhos representam muito bem esses três centros. A Lúcia é cerebral, a Jacinta é emocional, e o Francisco visceral ou instintivo. Cada um deles encarna a mensagem de Fátima à sua maneira segundo a sua personalidade básica e centro de inteligência.

Dentro do seu centro instintivo, Francisco não é certamente um 8, cuja compulsão ou tendência  é ser forte, ou um 1 cuja compulsão é ser perfeito, mas sim clarissimamente um 9, cuja compulsão é a busca de paz e harmonia evitando o conflito a toda custa.

Os noves tendem a esquecer-se de si mesmos acomodando-se às agendas dos outros. A Lúcia nas suas memórias nota isto do Francisco que ele obedece sem questionar quase como, um autómato. Os noves são brilhantes "pacificadores", porque aprenderam a minimizar os conflitos.  Também notamos isso no Francisco, para evitar o conflito é até capaz de se privar de algo de que gosta, como nota o seguinte episodio:

Em certa ocasião a prenda para o Francisco foi um lencinho com a imagem de Nossa Senhora da Nazaré, que ele, todo satisfeito, foi mostrar aos companheiros. Ora o Lencinho, a certa altura, desapareceu. - «Tinha muita estima nele - diz a mãe - e falava nisso vezes sem conta. Quando, todavia, lhe disseram que o lenço estava em poder de outro pequeno que teimava que era dele, não fez força para o readquirir: - «Que fique com ele! A mim não me importa o lenço».

Os Noves evitam o conflito a todo custo e buscam tranquilidade, paz e harmonia (interna e externa). Francisco vive desapegado de tudo e de todos um pouco na estratosfera; poucas são as coisas que verdadeiramente lhe importam. Silencioso, a leste de tudo e de todos ensimesmado contemplativo.

Eucarístico e contemplativo
«Eu gostei muito - dizia - de ver o Anjo e ainda mais de ver Nossa Senhora. Mas do que mais gostei foi de ver Nosso Senhor naquela luz que a Virgem nos pôs no coração. Gosto muito de Deus ... Mas Ele está tão triste por causa de tantos pecados ... Nós não devemos fazer nem o mais pequeno pecado! ... » (…) «Daqui a pouco Jesus vem buscar-me para ir para o Céu com Ele e então fico sempre a vê-Lo e a consolá-Lo. Que bom! ... Francisco

Nós estávamos a arder, naquela luz que é Deus, e não nos queimávamos. - Passava assim horas em adoração ao santíssimo como lhe chamava ele “Jesus escondido”. Penitência e oração resumem a mensagem, de Fátima; ambos Francisco e Jacinta fazem penitência e oração, mas Francisco está mais inclinado à oração e Jacinta à penitencia.  Enquanto Jacinta se ocupava em salvar almas por meio da sua penitência, Francisco só pensava em consolar Jesus com a sua oração e presença.

Tal como Jesus, com os apóstolos, de vez em quando desaparecia sem ninguém se dar conta deixava a companhia da irmã e da prima e escondia-se detrás de uma parede ou ia para um lugar ermo e lá rezava sozinho. Quando o encontravam Lúcia e Jacinta:  – Francisco, por que não me dizes para rezar contigo e mais a Jacinta? – Gosto mais – respondia – de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor que está tão triste.

Já depois das aparições, conta Lúcia que quando ia à escola, por vezes, ao chegar a Fátima, dizia-me: – Olha: tu, vai à escola. Eu fico aqui na igreja, junto de Jesus escondido. Não me vale a pena aprender a ler; daqui a pouco vou para o Céu. Quando voltares, vem por cá chamar-me.

Apesar do amor pela eucaristia, pelo “Jesus escondido”, o Pároco de Fátima recusava dar-lhe a comunhão. Mas enquanto este lha recusou não lha recusou o anjo e ao comungar Francisco exclamou: Eu sentia que Deus estava em mim, mas não sabia de que maneira.

Depois das aparições a vida dos dois irmãos muda drasticamente, Jacinta não perde uma ocasião para oferecer todo os sacrifícios a Deus pela conversão dos pecadores, Francisco por seu lado não perde uma ocasião para se isolar da irmã, da prima e das outras crianças e passa largas horas sozinho rezando o terço consolando a Jesus. Dizia: – Vocês não venham para aqui; deixem-me estar sozinho.
– Mas que estás aqui a fazer tanto tempo? – Estou a pensar em Deus que está tão triste, por causa de tantos pecados! Se eu fosse capaz de Lhe dar alegria!

“Vivo sem viver em mim e tão lata vida espero que morro porque não morro” Sta Teresa de Ávila

Tão adentrado estava já Francisco, na relação com o seu “Jesus escondido” que já não pensava nem queria outra coisa. Todo tempo era pouco para estar com Ele, e para O consolar.  Um dia perguntaram-lhe se queria ser carpinteiro, militar, doutor, ou mesmo padre; não quero ser nada respondeu; e que queres ser então, perguntaram a seguir, não quero ser nada, quero morrer e ir para o céu.

Quando Francisco e Jacinta já estavam doentes um em cada quarto da casa, era a Lúcia que levava e trazia as mensagens entre ambos. Como era sabido que Francisco morreria antes que a sua irmã, a Jacinta manda-lhe dizer que não se esquecesse de rezar por ela e pela Lúcia, ao que Francisco respondeu que tinha medo de se esquecer quando visse Nosso Senhor. Seria de facto tanta a alegria e felicidade que a visão daquele que até ali era só o “Jesus escondido” lhe iria causar que absorto por Ele iria ficar coma mente varrida de todo pensamento.

E para o céu foi de facto no dia 4 de abril de 1919 dois anos depois das aparições e algum tempo de convalescença durante a qual os seus pais tinham fé de que se iria salvar. Um dia sua madrinha Teresa prometeu que se a Nossa Senhora o curasse Lhe ofereceria o seu peso em trigo, ao que o Francisco respondeu com um sorriso angélico, “A Nossa Senhora não lhe fará essa graça”. A qualquer palavra de esperança de melhoras respondia, “É inútil, Nossa Senhora quer-me no Céu consigo” E não o dizia resignadamente ou tragicamente mas sorrindo, bem disposto e alegre.
Pe. Jorge Amaro, IMC




15 de maio de 2017

Fátima e a sua relevância para o mundo

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Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé. Aparição de 13 de julho

O século XX foi, sem lugar a dúvidas, o século mais sangrento da história da humanidade. O Deus de Israel que viu o sofrimento do seu povo escravo no Egipto, não podia contemplar tantos horrores impávido e sereno. Naquele tempo enviou Moisés neste tempo enviou Maria, aquela que desde as bodas de Caná está atenta às necessidades do seu povo, e desde a visitação à sua prima nunca cessou de visitar os seus filhos.

Com efeito, desde a primeira aparição da Nossa Senhora em Fátima a 13 de maio de 1917 até depois do atentado do Papa João Paulo II a 13 de maio de 1981 na praça de São Pedro em Roma, Fátima esteve no centro como chamada de atenção a esta humanidade sofredora.

Fátima, comunismo e consagração da Rússia
 (…) virei pedir que o Papa faça a Consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração. Aparição de 13 de julho

De todos os pedidos de Nossa Senhora aos pastorinhos este foi sem dúvida o mais espinhoso. Desde Pio XII, a 31 de outubro de 1942, até ao Papa Francisco, a 13 de outubro de 2013, já lá vão sete tentativas de consumar o pedido. Foram muitos os subterfúgios nesta consagração para de alguma forma se dar a entender que se estava a consagrar a Rússia, sem nunca nomear o seu nome por razões diplomáticas e ecuménicas obvias. José Milhazes, no seu livro A Mensagem de Fátima na Rússia, afirma que uma imagem de Fátima chegou a ser levada clandestinamente para a Praça Vermelha, nos anos 70.

A irmã Lúcia chegou a “protestar” dizendo que, no ato de dedicação de 13 de maio de 1982, a Rússia não aparecia como sendo o objeto da consagração. E continuou a dizer: “A Consagração da Rússia não foi feita como Nossa Senhora pediu”.

A 25 de março de 1984 o Papa, mandou vir a imagem oficial da capelinha de Fátima e o famoso ícone russo de Kasan, que estava também em Fátima, na Igreja ortodoxa do Exército Azule, depois de recitar a fórmula da consagração agregou, “Iluminai especialmente aqueles povos de quem esperais a nossa consagração e dedicação”. Esta foi a fórmula mais explícita de quantas consagrações se fizeram e a irmã Lúcia, finalmente, concordou que a Rússia tinha sido consagrada como pedira Nossa Senhora.

Apenas um ano depois a conversão da Rússia acontece; acede ao poder Mikhail Gorbatchov o qual lançou as reformas da Perestroika que em russo significa precisamente conversão. Com esta revolução o país colocava de lado o ateísmo militante e a liberdade religiosa foi instaurada no país. 

O cardeal Joachim Meisner, arcebispo de Berlim até à queda do muro, disse na altura” Para mim é óbvio que a revolução antissoviética se iniciou em Fátima com a virgem e as três crianças”. Tal como as muralhas de Jericho, (Josué 6, 20) a força da oração conseguiu o que nenhuma outra força conseguiu incluindo a militar.

Fátima e o Nazismo
Não só o comunismo se sentiu atacado por Fátima, também o Nazismo se sentiu incomodado, de facto o ofício central para a segurança do Reich chegou a afirmar que “Toda a propaganda de Fátima se orienta na sua estrutura total contra os fundamentos do Nacional Socialismo (Nazismo)”.

A mensagem de Fátima é explícita na condenação do comunismo como militância ateística, nada diz contra a revolução social que o comunismo trouxe; também não há nada explícito contra o nazismo como ideologia, só se fala da segunda guerra mundial e do muito mal que iria causar. Apesar de Fátima ser explicita contra a ideologia ateia da revolução Russa, os aliados não queriam usar Fátima contra a Rússia por estar com eles aliada contra a Alemanha Nazi. Desta feita instrumentalizaram a mensagem de forma a tronar-se uma arma contra o Nazismo

Mais explicitamente o Pe. Luís G. da Fonseca reescreveu o texto do segundo segredo: assim, onde se falava da consagração da Rússia colocou consagração do mundo; e em vez de Rússia difundirá os seus erros pôs-se “uma propaganda impia difundirá no mundo os seus erros promovendo guerras”; desviou-se assim a atenção da Rússia para a Alemanha em 1942. Historicamente, portanto, Fátima também serviu de arma de arremesso dos aliados contra o nazismo.

Fátima e a guerra fria
A cúpula azul da Igreja ortodoxa, por detrás da basílica de Fátima, não passa ainda hoje despercebida se bem que já não está pintada de azul.  Chamou-se de facto durante décadas o exército azul. Organização religiosa que serviu aos norte-americanos e ditadores latino-americanos para satanizar e combater o comunismo. Chegou a ter 25 milhões de associados, o seu nome contrapõe-se claramente ao exercito vermelho da URSS.

Era de certo um exército pacifista, mas o Kremlin sempre desconfiou que se tratasse de um ninho de agentes da CIA. Fundado pelo Padre americano Colgan que sintetizou a mensagem de Fátima em três preceitos: Devoção ao Imaculado Coração de Maria, reza do terço diariamente e cumprimento dos deveres do Estado.

As imagens peregrinas de Fátima
A primeira partiu de Portugal em 1946, a pedido de um pároco de Berlim que propôs que a imagem percorresse todas as capitais europeias até à Rússia. Seguiram-se outras viagens em 1948 para a África, em 1949 para a América, em 1953 para a Coreia do Sul, em plena guerra a Senhora Branca da Paz era mais uma vez uma arma de arremesso contra o comunismo.

Foi precisamente neste ano que no Cairo se organizou uma das maiores manifestações marianas conhecidas no país, por ironia a imagem desfilou no carro da embaixada russa.

Fátima e a religião muçulmana
Diz a lenda que Fátima era o nome de uma donzela árabe capturada por Dom Afonso Henriques, em luta contra os mouros e dada em matrimónio a um dos seus guerreiros D. Gonçalo Hermingues, que dela se tinha prendado, na condição de que ela aceitasse livremente o matrimónio e converter-se ao cristianismo.

Fátima aceita, e depois da instrução conveniente é batizada com o nome de Oureana (que deu origem à cidade hoje chamada de Ourém). A bela princesa, entretanto, morreu na flor da idade, e D. Gonçalo, desolado, entregou-se a Deus na abadia cisterciense de Alcobaça, a 30 km de Ourém.

Fátima desde sempre foi um nome muito comum no mundo árabe, porque assim se chamava a filha querida do Profeta Maomé. Fátima é objeto de veneração e respeito por todos os muçulmanos, por ser a filha mais chegada ao seu pai e o ter apoiado nas suas dificuldades; o mesmo fazia com o seu marido e filhos; foi também a única filha do profeta que teve filhos varões que viveram mais além da infância, e fundaram dinastias em países como o Egipto.

Poucos cristãos sabem que a Nossa Senhora é venerada pelos muçulmanos. De facto, quando Maomé entrou na Meca e os seus soldados começaram a destruir todos os ídolos, ele abraçou uma estátua da Nossa Senhora para que os soldados não a destruíssem também.

O livro do Alcorão contém toda uma sutra (capítulo) acerca de Maria; ela é também o único nome de mulher neste livro. Todas as outras mulheres das quais o livro fala não as menciona pelo seu nome, como faz com Maria, mas sim pela sua função. Por exemplo não se fala de Sara, mas sim da mulher de Abraão.

Maria é venerada no Alcorão como virgem e mãe do profeta Isa (Jesus) o que, tanto para muçulmanos como para cristãos, é Ele que há-de vir no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos, pode ser que a intervenção da Senhora de Fátima ainda não tenha terminado, e ainda tenha uma palavra a dizer nas relações entre muçulmanos e cristãos.

É um facto que nas suas viagens peregrinas, a Senhora de Fátima tem suscitado a curiosidade e despertado uma veneração entre os árabes por ter o nome de Fátima. Não é, portanto, de todo impossível que Maria venerada por cristãos e muçulmanos, em especial debaixo da invocação de Senhora de Fátima, aproxime uns e outros.
Pe. Jorge Amaro, IMC