15 de dezembro de 2015

O menino refugiado que não morreu afogado

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(...) ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário. Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egipto. Deuteronómio 10, 18-19

A crise dos refugiados
Para avaliar de uma forma adequada a crise dos refugiados, como qualquer outro tema e evitar as visões reducionistas a que levam os preconceitos e as xenofobias, não há como enquadrar o tema num contexto espácio temporal mais amplo. Um olhar histórico de maior amplitude geográfica diz-nos que desde que a raça humana nasceu em Africa, no vale de Rift à 5 milões de anos, não parou nunca de deslocar-se.

Dali povoou todos os continentes, e foi na interacção com os diferentes habitats que foram surgindo povos com diferenças fisiológicas, culturais e linguísticas. Estas características ficaram demarcadas em três grupos humanos, não raças pois todos vimos de um tronco comum: Negróide, Caucasianos e Mongolóide.

Nem sempre desenvolvimento significa progresso humano. Os nacionalismos, e a consolidação das fronteiras entre as nações nos séculos XIX e XX, fizeram mais difícil a natural deslocação e mistura de povos, aumentando o racismo e a xenofobia. No mundo antigo os povos moviam-se com relativa facilidade, não havia fronteiras bem definidas, nem guarda das mesmas. Por isso podemos dizer que não há raças, nem raças puras, todo o povo é formado por outros povos.

Costumamos marcar diferenças entre o povo português e os outros povos e, no entanto, também nós somos um povo constituído por várias etnias, por outros povos: Iberos, Celtas, Gregos, Fenícios, Cartagineses, Romanos, Judeus, Alanos, Suevos, Vândalos, Visigodos e Mouros.

Situação na Síria
Governada desde os anos sessenta pela família Al-Assad, a Síria pertence ao conjunto de países muçulmanos que têm resistido ao governo da Sharia. O atual presidente Bashar Al-Assad nem foi derrubado pela América, como Saldam Hussein, nem pela primavera Árabe e pela América como Kadhafi.

Porém ao abusar da força contra a Primavera Árabe, para se manter no poder, criou uma guerra civil complexa entre diferentes etnias e grupos religiosos que lutam, não já só contra o ditador, mas também entre si, em coligações que mudam todos os dias. Aproveitando-se desta confusão surge o Estado Islâmico, em zonas não controladas do Iraque e da Síria. Desta feita, os Sírios viram-se acurralados entre o regime, grupos rebeldes e o extremismo religioso do Estado Islâmico.

Não é difícil entender por que fogem do seu país. O regime de Bashar al-Assad mata impiedosamente civis, com armas químicas e bombas de tambor; O autodenominado Estado Islâmico comete todo tipo de atrocidades como sabemos, assassina todos os que não estejam com eles, tortura, crucifica, viola e submete mulheres e meninas à escravidão sexual; outros grupos como Jabhat al-Nusra fazem outro tanto. 

Os Sírios fogem de um lado para o outro dentro do seu próprio país; de facto, actualmente um terço da população da Síria é refugiada no seu próprio pais; outros 4 milhões deixaram o país, destes 95% vivem em países vizinhos como o Líbano, a Turquia, a Jordânia. Os estados mais ricos do Golfo persa não aceitaram nenhum refugiado, Arabia Saudita, Qatar, Emiratos Árabes, Baharain, Kuwait, Irão.

O mundo não estava preparado para uma crise de refugiados nesta escala, por isso muitos dos campos não tem suficientes recursos pelo que estas populações estão sujeitas à fome, ao frio e à doença. Perdendo a esperança alguns decidiram buscar asilo na Europa, depois de uma viagem por terra e por mar explorados por traficantes, chegam às costas de uma Europa que lhes vira as costas e que ergue muros para que não entrem. Há meses que debatem como reparti-los entre si e ainda não chegaram a um acordo.

Teorias da conspiração preconceitos, clichés, xenofobias e islamofobia
Circulam nas redes sociais opiniões para todos os gostos; pelo geral negativas, cheias de preconceitos clichés e racismo. Na sua grande maioria estas opiniões nada dizem sobre o tema; fazem mais luz sobre a personalidade de quem as cria e sustenta que do tema dos refugiados. Recolhi algumas delas para as expor.

Os países árabes que os ajudem – É certo que os países árabes mais ricos os do golf pérsico não os ajudaram, mas como acima ficou dito a esmagadora maioria dos refugiados vivem nos países árabes vizinhos da Síria.

Por outro lado, o médio oriente não é uma zona estável onde todos querem ir morar; se são xiitas temem os sunitas ou vice-versa, se são cristãos temem os dois, se são ateus os três. O facto de alguns não ajudarem devia a motivar mais a nossa ajuda.

 "Primeiro estão os nossos sem-abrigo!!!" os sem emprego, combater a pobreza infantil etc…  - Pobres sempre os tereis convosco, diz Jesus, desigualdades e problemas sempre os haverá, se esperamos solucionar primeiro estes, para depois nos dedicarmos aos outros, nada faremos nem por uns nem por outros. “Primeiro o pão que está no forno”, este é um problema urgente que requer uma solução já; há homens, mulheres e crianças extenuados depois de uma longa viagem a viver em campos, em condições infra-humanas, que não vão resistir este inverno.

"Se são refugiados, porque é que a maioria são homens?!" – Há mulheres e crianças, famílias inteiras entre os refugiados, mas é fácil de entender o facto de serem, muitos deles, homens. Na nossa imigração também iam primeiro os homens. Os homens vão em busca de um local melhor e de condições, para depois poderem trazer a família, sem a ter de a sujeitar a uma viagem que poderá ter como destino a morte.

“Os refugiados são um cavalo de Tróia do Estado Islâmico!" – A actual crise de refugiados é uma consequência directa da guerra civil na Síria. O que normalmente se entende por islamização da Europa, é um fenómeno que há muito acontece e em grande medida é mais um mito islamofobico, ou uma teoria da conspiração, que outra coisa.

Mesmo que a EU aceitasse os 4 milhões de refugiados, e todos eles fossem muçulmanos, a totalidade dos muçulmanos só aumentaria em 1%, passaria dos atuais 4% para 5%. Diz ainda a teoria da conspiração que os muçulmanos crescem mais que os cristãos; o caso é que uma vez aqui a taxa de crescimento é igual à dos outros europeus. Na Síria a população estava a decrescer antes da guerra civil.

Também dizem que aumenta a criminalidade. A experiência diz-nos que ao obter um emprego começam a descontar para o sistema e a Europa de facto precisa deles. Acetando-os, e integrando-os na nossa sociedade, temos mais a ganhar que perder.

Ante a dita, “potencial” Islamização da Europa, a Chanceler da Alemanha Ângela Merkel opina que, a melhor resposta não é fechar as portas, ou combater os que já entraram, mas sim voltar à Igreja, ter a coragem de ser cristãos, fomentar o diálogo, e aprofundar de novo a Bíblia. Isto nos diz a incontestável líder da Comunidade Europeia, filha de um pastor protestante, nomeada prémio Nobel da Paz 2015 pela sua resposta adequada à crise dos refugiados, apesar de, por isso mesmo, ter perdido popularidade no seu próprio país.

O menino refugiado que não morreu afogado foi, como todos sabemos, o menino Jesus. Para evitar a ira de Herodes, que queria matar o menino, a Sagrada Família fugiu para o Egipto. Afortunadamente o Egipto daquele tempo não era como a Europa de hoje, e o menino Jesus pôde crescer “em sabedoria e em graça” no Egipto até à morte do ditador.

Dejá vue
Quando a Alemanha se quis desfazer de 5 milhões de Judeus houve várias soluções, em cima da mesa, para o problema, antes da solução final que todos conhecemos. Uma dessas soluções era colocar os judeus em comboios para Espanha e dali em barcos para a América. As nações americanas recusaram-se a recebê-los e do Canadá veio a resposta, nenhum são demasiados.

Alguém pode achar um exagero estas comparações ou só o facto de ter mencionado este episódio da segunda guerra mundial. Mas as noticias dizem que esta é a principal crise de refugiados depois da segunda guerra mundial e não há muito, numa manifestação contra os refugiados no leste da Europa, uma das frases em cartaz lamentava os campos de concentração não estarem abertos.

Travar com as rodas ou travar com o motor
Quando nas auto-estradas encontramos descidas de mais de 6% é aconselhável travar com o motor e não com as rodas. Ao travar com o motor, reduzimos a velocidade na sua origem vencendo a inércia e a força da gravidade, de uma forma eficiente e segura; ao contrário, quando não atuamos na origem do movimento, mas na sua manifestação nas rodas, desestabilizamos o carro podendo causar um acidente, porque uma roda pode travar mais que a outra e porque nada fazemos quanto à inércia e força de gravidade, que continuam a empurrar o carro para a frente.

Travar com as rodas - É certo que temos que travar o movimento dos refugidos, mas devemos travá-lo na sua origem, não quando já estão às nossas portas. Quando a União Europeia tinha uma acordo com a Líbia de Kadhafi para impedir que os refugiados cruzassem o mediterrâneo, estava a travar com as rodas. A Inglaterra quer que eles fiquem em França, os Franceses querem que fiquem em Itália, os Italianos que fiquem na Grécia e os Gregos, como o resto dos europeus, querem que fiquem na Turquia. O mesmo se está agora a fazer, com o acordo com a Turquia, para impedir que passem para a europa; ou o que fazem alguns países que os deixam passar para que o problema o tenha o próximo país. Enquanto isto acontece alguns países, do leste europeu, estão já a construir muralhas nas suas fronteiras.

Travar com o motor – Seria procurar resolver o conflito na Síria, coisa que se apresenta difícil; os Sírios sozinhos já provaram, ao longo de 4 anos, que não conseguem; as potências mundiais são tão facciosas como as facções ao interior da Síria. A última conferência de paz, celebrada em Viena, revelou que o mundo em relação à Síria também está dividido numa espécie “fria guerra civil”; temo que enquanto esta não acabar, ou seja, enquanto os Estados Unidos, a Rússia e o Irão não se puserem de acordo, não acabarão as hostilidades na Síria e o fluxo de refugiados.

O menino refugiado que não morreu afogado
Já passaram alguns meses desde que o corpo de um menino refugiado deu à costa desencadeando um onda de solidariedade. Recordemos neste Natal que o menino Jesus, fugindo da ira de Herodes que o queria matar, também teve que buscar refúgio noutro país. Como foi para o bem da humanidade que a fuga da Sagrada Família teve sucesso, assim são e assim sejam todas as fugas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2015

Consagrado para a Missão

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Pe. Jorge em Etiópia com crianças e jovens doentes de poliomielite
Quem sou, de onde venho, a onde vou
Quero terminar esta reflexão sobre a vida consagrada com o meu próprio testemunho de sacerdote religioso consagrado para a Missão.

Sou natural de Loriga, uma vila do concelho de Seia, na Serra da Estrela. Há 30 anos que vivo ao serviço da Missão em vários países, Etiópia, Espanha, Inglaterra, Canadá, Estados Unidos e agora em Portugal.

Porque aos 6 anos de idade eu quis ser o que hoje sou, resulta-me difícil ajudar jovens adultos de 20 e mais anos no discernimento da sua vocação; e também me custa entender como tantos sacerdotes abandonam os Institutos Missionários Ad Gentes para serem padres diocesanos. Deixam de ser pescadores de homens, como Jesus queria que fossem os seus discípulos, para serem pastores de um rebanho cada vez mais diminuto.

É certo que a razão que me levou a escolher esta vida não é a mesma pela qual me mantenho nela. A minha vocação surgiu num dia em que um missionário visitou a minha escola e falou das suas aventuras em Africa com tanto entusiasmo que logo despertou, no meu coração de criança, a ânsia de vir um dia a ser aventureiro como ele. Mais tarde, é claro, descobri que o gosto pela aventura foi somente a isca que Deus usou para pescar, para Ele, o meu coração de menino. Fui pescado por Deus como um peixe para mais tarde me transformar, tal como os apóstolos, em pescador de homens.

Os sonhos de criança são incontornáveis; de tal forma estava eu irremovível desta minha resolução que cheguei a bater o pé ao meu pároco, que me queria mandar para o seminário diocesano. Não era o sacerdócio o que mais me atraia na altura, nem agora, mas sim a vida missionária. Depois de fracassadas tentativas de entrar nos Missionários do Verbo Divino em Tortosendo e nos Combonianos de Viseu, entrei para os Missionários da Consolata, em Vila Nova de Poiares, por sugestão do meu mesmo pároco que ante a minha insistência deu o braço a torcer.

“Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida”
Dentro da mesma Igreja existe uma igreja orante e uma militante, seguindo estas linhas, a Vida Consagrada na Igreja divide-se em duas grandes vertentes activa e contemplativa. Variando os carismas a vida contemplativa baseada fundamentalmente na regra de São Bento, “Ora et Labora” é uma vida completamente dedicada à oração e contemplação do mistério de Deus.

Hoje esta maneira de viver é muito contestada pelo frenesi dos tempos modernos, nos quais a vida humana parece justificar-se pelas obras, por aquilo que uma pessoa faz. Ante este cenário activista, a vida contemplativa vem nos recordar que mais importante é o ser que o ter e o fazer. Por mais anos que vivamos neste mundo, a fazer coisas, mais serão os anos em que viveremos contemplando a Deus no seu reino; e se assim é porque não começar já agora?

Dentro da vida activa os religiosos dedicam-se segundo o seu carisma a mil e uma actividades no campo da educação, da saúde física e mental, da promoção humana etc. O meu carisma, digo com orgulho citando o meu fundador o Beato José Allamano, é a vocação mais perfeita da Igreja, a Missão; é de facto a razão mesma pela qual e para a qual a Igreja existe: levar o evangelho a toda a criatura; levar Cristo a todos os povos e ou trazer todos os povos ao Seu conhecimento.

Há quem viva toda a sua vida no mesmo lugar, convivendo com as mesmas pessoas, fazendo sempre a mesma coisa. Há em Portugal párocos, que estão ao serviço da mesma comunidade há mais de 50 anos. Quanto a mim, cedo me dei conta de que a minha vida não seria vivida desta maneira. De facto desde os 10 anos, quando entrei para o Instituto, nunca estive mais de 3 ou 4 anos no mesmo sítio.

Vejo a minha vida com um puzzle de peças dispersas em sítios tão longe como dispares; com pessoas de varias etnias, línguas, povos e nações; quando esta chegar ao fim e todas as peças estiveram reunidas e colocadas no seu lugar, espero que, no seu conjunto, formem uma imagem que agrade a Deus. O missionário é uma pessoa sem eira nem beira, um peregrino sempre em caminho a quem o entardecer não o encontra onde o deixou o amanhecer, como diz Kalil Gibran no seu livro o Profeta.

Ser consagrado significa ser posto de parte, reservado para um serviço extraordinário que requer, da parte do candidato, colocar de lado o que configura e dá forma à vida da maior parte das pessoas. Os votos de pobreza, castidade e obediência são comuns a todos os consagrados; o consagrado, não possui bens materiais para dedicar-se exclusivamente ao cultivo de bens espirituais; ama universalmente com um amor que não exclui ninguém, pelo que o seu abraço é aberto; não busca poder, nem poleiro, nem fama nem nome; submete-se ao plano que Deus tem para ele, obedecendo-lhe através dos superiores e dos sinais dos tempos.

O consagrado para a missão, ecoa ainda hoje no seu interior aquelas palavras do mestre “ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura". Como as torres de TV o missionário aumenta o sinal, neste caso, o sinal da fé que vai passando de geração em geração, de povo em povo, de terra em terra.

Missionário, ontem, hoje e amanhã
Se soubesse aos 6 anos o que hoje sei, passados 30 anos da minha ordenação, voltaria a escolher a vida missionaria. Vejo-me de tal forma identificado com ela que aquela intuição que eu tive aos 6 anos, e a opção que fiz aos 10, não pode ter sido só humana; foi um autêntico chamamento de Deus. Nunca me senti galinha de capoeira mas águia, que voa bem alto sem limites de fronteiras, línguas, sem preconceitos contra outros povos e sem apego desmesurado e paralisante pela minha família, a minha terra, o meu pais e a minha cultura.

Recordo um dia, estando eu de férias e em vésperas de voltar para a Etiópia, o meu pai estava a tentar convencer-me que não devia regressar, que os anos que tinha estado na Etiópia eram suficientes que aqui também fazia missão etc etc. A minha mãe ouviu-o e disse-lhe em tom severo: “Cala-te homem que Deus pode-te castigar”, e o meu pai logo se calou. Deus, que já tem a minha mãe consigo, deve estar muito contente com ela pois não foi uma mãe galinha; foi uma mãe que soube superar o instinto materno, coisa que muitos pais de hoje não conseguem.

Quantas vocações se têm perdido para a vida religiosa e para o sacerdócio por causa de pais que se agarram aos seus filhos, privando-os da “liberdade dos filhos de Deus” e muitos destes pais até são católicos e praticantes; eu sempre me perguntei com que cara, vão aparecer diante de Deus, quando tudo fizeram para destruir a vocação à vida consagrada dos seus filhos e filhas.

A missão está no seu começo
Nunca ficarei no desemprego; foi o papa João Paulo II que o disse, a missão está no seu começo. O maior dos continentes está ainda sob-evangelizado pelo que trabalho não faltará. Por outro lado muitos dos países, que outrora eram cristãos, abandonaram a fé e vivem numa espécie de paganismo moderno adorando a vários deuses: já não baptizam os seus filhos, nem os mandam à catequese, pelo que um eventual contacto com o evangelho pode ser considerado tão primeira evangelização como aquela pessoa, que na distante Mongólia, onde praticamente não há cristãos, ouve falar de Cristo pela primeira vez.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de novembro de 2015

Vocações goradas

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Porque a nossa vida é espácio-temporal, Cristo só podia existir uma vez em carne humana. Mas Ele não veio só salvar os homens do seu tempo, e do seu país, mas sim toda a humanidade: todos os que tinham vivido antes Dele, por isso diz a escritura que desceu aos infernos depois da sua ressurreição, e todos os que iam viver depois Dele aos quais Ele mesmo faz referência, no episódio da aparição aos 12 e a Tomé, quando diz que são felizes os que acreditam sem terem visto; os que iam viver depois de Cristo, são ainda nomeados na oração sacerdotal quando Jesus pede pelos que vão acreditar no testemunho dos apóstolos.

Cristo, que é salvação para os homens de todos os tempos e de todos os lugares, tinha que arranjar forma para que essa salvação de facto fosse estendida de facto a todo tempo e a todo o lugar.

A Igreja é Cristo em todo tempo e todo lugar
Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos Mt 28, 20
A Igreja, corpo místico de Cristo, é a maneira que Jesus arranjou para estender a sua mensagem e ação no tempo e no espaço. Ele mesmo o disse, se tiverdes fé fareis tudo o que eu faço e obras ainda maiores. Deus não está limitado pelas coordenadas do tempo e do espaço; Cristo era Deus mas, em tanto em quanto viveu entre os homens, ficou também ele limitado por aquelas coordenadas.

Cristo é caminho, verdade e vida para os homens de todo tempo e lugar. A Igreja somos todos nós, mas dentro da igreja há carismas que precisam de um chamamento especial porque requerem uma especial consagração. Os sacerdotes e os religiosos estão ao serviço da Missão e da fraternidade universal porque consagram toda a sua vida a este serviço; como dizem os espanhóis põem toda a carne no assador.

É de supor que Cristo, continue a chamar e talvez mais ainda que antes pois, para os pastores o rebanho cresceu, para os pescadores de homens a messe é ainda maior (Mt 9,32-38);  e se Cristo continua a chamar, como é que hoje há cada vez menos missionários, gente disposta a deixar a sua terra e a sua família para levar o evangelho a outras latitudes e longitudes? Se Cristo continua a chamar porque é que o clero é cada vez mais idoso e há sacerdotes com 3 e 4 e até 5 e mais paróquias?

Tal como na parábola do semeador, o problema não está na semente nem no próprio semeador que é Cristo; o problema está nos diferentes terrenos onde esta semente cai. Cristo continua a chamar mas as respostas a esse chamamento são cada vez mais como a do jovem rico…

Maus exemplos
Uma das razões pela escassez de vocações são os maus exemplos, que alguns de nós religiosos e sacerdotes damos. É o tal escândalo dos pequeninos do qual o evangelho nos fala; cada um de nós pode ser uma pedra de calçada, que facilita o caminho, ou uma pedra de tropeço, que faz cair. Em grego escândalo significa mesmo pedra de tropeço.

É um facto que com o escândalo da pedofilia muita gente abandonou a Igreja; mas foram os “pequeninos” do evangelho que a abandonaram, os de fé pequena ou uma fé que precisava de crescer para se tornar adulta. Num cesto de maçãs é inevitável que haja alguma podre. Já assim aconteceu nos primórdios da Igreja com o grupo de 12 apóstolos que Jesus escolheu; um deles, Judas Iscariotes, era traidor.

Os que abandonaram a Igreja de Cristo, pelo escândalo de algum sacerdote demonstraram que a fé deles não era em Cristo mas no sacerdote em questão. Deitaram fora o menino com a água da banheira; desqualificaram a fé em Cristo e o próprio Cristo por causa do mau exemplo de um cristão.

O sacerdote é um sacramento, representa a Cristo e actua em nome de Cristo, mas não é Cristo. Como há bons actores e maus actores, há sacerdotes que representam bem a Cristo e outros que o representam mal. O sacerdote é um ícone de Cristo a nossa fé é em quem ele representa e não nele mesmo.

Jovens auto-referenciais
Não peças o que o teu país pode fazer por ti mas o que tu podes fazer pelo teu país. John F. Kennedy

Uma jovem de 17 anos dizia-me na escola: “em vez de acreditar em Deus eu acredito em mim mesma, aliás eu sou o deus de mim mesma”. Como esta, muitos jovens de hoje não têm ideais, são auto-referenciais, giram à volta de si mesmos. O mundo tem muito para oferecer e o jovem olha para o mundo, não como uma messe grande onde os trabalhadores são poucos mas sim, como um grande buffet de cosias belas e prazenteiras que não querem perder por nada. Para eles, aceder a estes bens é ganhar a vida, renunciar a eles ou ver-se privado deles é perder a vida. Assim pensando não podem entender o que Cristo disse: “Quem quiser ganhar a vida há-de perde-la, e quem a perder pelo evangelho há-de ganha-la (João 12, 25).

A maior parte dos santos da Igreja católica eram de famílias ricas, nobres e famosas, tinham tudo o que estes pobres jovens e hoje tanto desejam e tudo puseram de lado e tudo consideraram porcaria com tal de ter Cristo (Filipenses 3, 7-10). Tal como São Paulo estes jovens ricos belos e nobres, não renunciaram simplesmente às riquezas mas encontraram em Cristo uma riqueza maior e tal como o comerciante de perolas ao encontrar uma de grande valor colocou as outras de parte  (Mateus 13, 45-46) Pena que estes jovens nunca encontrem a Cristo.

Para o jovem de hoje, resulta muito difícil entender que a sua vida não é acerca dele mesmo; que a sua vida é um valor relativo, que o que lhe dá valor é o que faça ou não faça com ela. Bethoven sem a música seria um Zé Ninguém; o mesmo seria Picasso sem a pintura; os talentos individuais estão orientados antes de mais ao bem comum só depois ao bem individual. Não vivemos para ser felizes mas sim para ser uteis à sociedade e é na medida em que somos úteis que somos felizes, quando não, somos inúteis até para nós mesmos.
   
Que somos um ser social prova-o o facto de que quando partilhamos a nossa tristeza com um amigo ficamos menos tristes; ao contrário, ficamos mais alegres, quando partilhamos alegria. O bem social harmoniza-se com o bem individual e vice-versa; não se é feliz rodeado de infelicidade, nem se é feliz à custa dos outros mas só quando contribuo para a sua felicidade.

A felicidade é o efeito secundário do nosso altruísmo, sendo o efeito principal o bem dos outros. Ninguém toma um medicamento pelo efeito secundário mas pelo efeito principal; toda a nossa actuação tem um feedback, um retorno, um efeito boomerang; What goes around comes around.

Jesus diz de si mesmo: “Eu vim ao mundo para servir e não para ser servido”. É certo que ninguém diria, em público, que veio ao mundo para ser servido, no entanto se colocarmos a nossa hipocrisia de lado e formos honestos, connosco próprios, reconheceremos que não é o serviço que buscamos mas sim o poder, e o ser servidos pelos que estão abaixo de nós, por isso somos infelizes.

O caminho da grandeza é de facto o serviço, os grandes na nossa vida foram os que nos serviram e não os que se serviram de nós, ou nos dominaram. Os grandes para a humanidade foram também os que a serviram e não os que se serviram dela, como Hitler, Estaline e outros tantos ditadores…

Diabos de Deus os pais paternalistas
Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos-sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dias. E dizia claramente estas coisas. Pedro, desviando-se com Ele um pouco, começou a repreendê-lo. Mas Jesus, voltando-se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo-lhe: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens. Marcos 8, 31-33

Deus chama sempre, porém os poucos jovens que dizem que sim, depois de vencer a auto-referencialidade e o atractivo da sociedade de consumo, ainda têm que vencer aqueles de quem são mais próximos, os seus pais. Estes movidos mais pelo instinto materno, que um verdadeiro amor de pai e de mãe opõem-se a Deus tal como Pedro a Jesus. Como se opõem aos planos de Deus, o mesmo que Jesus chamou a Pedro, haveria que chama-lo a estes pais paternalistas, de facto Diabolus ou satanás significa opositor.

Há inúmeras histórias de pais que se opuseram, “com unhas e dentes”, a que os seus filhos seguissem a vida para a qual Deus os chamou. Um pai deixou de falar a uma filha por 30 anos por esta rejeitar o casamento e se fazer missionária. Outros pais, quando não conseguiram demove-los totalmente do chamamento de Deus modificaram-lhes a vocação missionaria em sacerdócio diocesano, para os terem mais debaixo das suas asas.

Um sacerdote cujo pai sendo médico obrigou o filho a seguir a carreira de medicina, ao terminar o curso, por amor e respeito ao pai, no dia em que se graduou, entregou o diploma ao seu pai dizendo: “aqui tens o que querias de mim, agora vou fazer o que Deus quer de mim…”.

Eu mesmo, sempre ficarei agradecido à minha mãe porque nem por activa nem por passiva me tentou desviar do meu caminho. Recordo que depois dos primeiros três anos de Etiópia, um dia ao ouvir o meu pai que tentava convencer-me a não voltar, com voz forte repreende-o: dizendo “cala-te homem que Deus pode-te castigar”. É certo que Deus não castiga, mas de qualquer maneira eu não queria estar na pele destes pais que um dia se terão de colocar diante Dele e justificar a sua posição de diabulos, opositores do seu desígnio para com os seus filhos.

Conselho aos pais
Muitas mães e pais nunca chegam a cortar o cordão umbilical, amam como um amor possessivo, paternalista que cria dependência e impotência, nunca saindo da vida dos filhos na qual querem sempre ter voz e voto, mesmo depois de casados.

A boa educação é aquela que visa a liberdade, a autonomia e independência dos educandos. O bom educador tem como objectivo o não ser mais necessário. Ao contrário, muitos pais querem sentir-se sempre fundamentais na vida dos filhos, acabando por anula-los.

Conselho aos filhos
A oposição dos que nos são mais queridos não é coisa que Jesus já não tivesse contemplado: 

Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim. Mateus 10, 34-37

E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus. Lucas 9, 59-62

Tal como outrora, Cristo continua a chamar. Os jovens porem, invadidos pelo ego dos seus pais, ofuscados pelas criaturas - o mundo de hoje que parece ter tanto para lhes oferecer, voltam as costas ao Criador e único Senhor de tudo e de todos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2015

A obediência é devida somente a Deus

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Importa mais obedecer a Deus do que aos homens. Actos 5, 29

Ao longo desta reflexão tive sempre o cuidado de me referir aos votos de pobreza, castidade e obediência, não só como coisa de monges, frades, padres e freiras, mas como valores humanos válidos para todos os que confrontam as suas vidas com o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De uma forma simplista, poderíamos então dizer que o voto de pobreza define e pauta a nossa relação com as coisas; o voto de castidade a nossa relação com os outros, e o voto de obediência a nossa relação com Deus. É certo que os três têm implicações com as três realidades mas, também é verdade que, para cada um deles, uma delas é predominante.

No que se refere à obediência, a título de exemplo, os apóstolos recusaram obedecer às autoridades mais altas do povo de Israel, o Sumo-sacerdote e o Sinédrio constituído por sacerdotes, escribas, fariseus e anciãos do povo, num total de 71 membros. Justificaram esta desobediência civil ao entender que deviam obedecer a Deus e não aos homens.

O nosso lugar no mundo
Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações (Mateus 6, 33-34).

É a obediência que nos faz despertar de altos sonhos de grandeza individual com a convicção de que, como cidadãos deste mundo, não estamos aqui para nós mesmos e que a nossa vida não é acerca de nós. A Obediência reconhece e valoriza, ao mesmo tempo, o direito e o dever de pertencer, participar e ter um lugar na história da humanidade.

É certo que cada um de nós é um ser autónomo, independente, livre, e no entanto a nossa individualidade não se explica por si mesma; eu não existiria sem a existência prévia e a coexistência do meu pai e da minha mãe. Somos ao mesmo tempo livres e interdependentes porque somos parte de uma família, de uma comunidade, de um país, da humanidade.

A um estudante foi-lhe dada a oportunidade de observar bactérias ao microscópio. Pôde de facto ver como uma geração destes seres vivos microscópicos nascia, crescia, se reproduzia e morria, deixando o seu lugar à geração seguinte. Viu, como nunca tinha visto antes, a vida transmitindo-se de geração em geração. Entendendo a lição subjacente a esta observação de que o valor da sua vida dependia do forma como ocupava o lugar que ocupava no amplio contexto do bem comum, afirmou, “comprometo-me durante a minha vida a não ser um elo fraco”.

Esta história sugere que a humanidade também é uma sucessão de gerações ligadas entre si como numa corrida de estafetas. Depois de encontrar o nosso lugar no mundo, para que a nossa vida seja produtiva e não só reprodutiva, deve tornar-se numa contribuição para o progresso da humanidade; devemos comprometer-nos a deixar cá mais do que o que cá encontramos. Neste contexto, a Obediência é, portanto, a minha participação, o meu grão de areia na construção de um mundo melhor, o Reino de Deus.

Ninguém se auto-realiza fora da comunidade ou contra a comunidade, pelo que não há auto-realização que não seja um contributo para a comunidade. Só nos sentimos bem, connosco próprios, quando os outros se sentem bem connosco. É valorizando os outros que nos valorizamos a nós mesmos, é reconhecendo os direitos dos outros que reconhecemos os nossos. Perifraseando Neil Armstrong, cada um dos nossos pequenos passos ou sucessos são um salto para a humanidade.

Para que assim seja, como sugere Jesus no texto acima citado, temos de procurar primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça; ou seja, em atitude de obediência, rejeitar a tentação de atender à satisfação das nossas necessidades, pois não é na sua satisfação que encontramos a felicidade e a auto-realização; aliás o texto até sugere que não nos devemos preocupar com esta satisfação, pois no processo de buscar o Reino de Deus ou seja, de realização da tarefa para a qual Deus nos chamou, encontramos a satisfação das nossas necessidades.

Como cristãos, todos nós formamos o corpo místico de Cristo, a Igreja; como tal, estamos chamados a actuar no aqui e agora da história da humanidade, as obras de salvação que ele começou há 2000 anos atrás. Cristo não podia viver duas vezes num corpo físico, por isso, e porque a sua salvação era para toda a humanidade e não só para os seus contemporâneos, os cristãos, de cada tempo e lugar, devem ser as pernas, os braços e a voz de Cristo. Nesta perspectiva, a obediência de cada cristão assemelha-se à submissão de todos, e de cada membro individual como sucede num corpo físico, para a harmonia e o bem comum de todo o corpo.

A sede do poder
Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?» Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado.». João 19, 10-11

Ao contrário de todos os povos, o povo de Israel nunca quis ter um rei. O único Rei era Deus, que em cada tempo suscitava um líder para governar e guiar o povo segundo os seus desígnios. Todos os que ao longo da história da humanidade tiveram poder davam-se conta que, de alguma forma, o seu poder vinha de Deus ou o tinham em representação de Deus, o único verdadeiramente Todo-poderoso. A associação e identificação de Deus com o poder, levou alguns imperadores de Roma autoproclamarem-se deuses.

Francisco Franco, caudilho de España por la gracia de Dios – Assim estavam cunhadas as pesetas durante o fascismo em Espanha. Reconhecendo Franco que não tinha legitimidade para ocupar o lugar que ocupava, pois nem era um presidente de república eleito, nem era filho de monarca, recorreu a este subterfugio que a seu modo confirma o facto de que verdadeiramente o poder vem de Deus, que o delega temporariamente a este ou aquele líder.

Isto mesmo quis dizer o Sto. Tomás Moro quando um dia, em oração, foi várias vezes interrompido por um mensageiro do Rei Henrique VIII que o queria ver de imediato. Com a calma que lhe era característica, o santo disse ao mensageiro, ide dizer a sua majestade que de momento me encontro ocupado com alguém superior a ele, o rei do Universo.

Dura lex sed lex – A lei é dura mas é a lei; o capricho, a arbitrariedade de um ditador ou de alguém que abusa do poder, que lhe foi conferido, e governa por decreto lei é bem mais dura. A lei ao ser, em princípio e por princípio igual para todos, faz a todos iguais perante ela. A supremacia da lei, ou a supremacia da Moral ou Ética, são imagem da supremacia de Deus, que como é Pai de todos nos faz a todos iguais perante Ele. É esta a base da dignidade da pessoa humana.

Voz do povo voz de Deus - Em democracia o poder reside no povo e sempre no povo. Este, periodicamente delega-o em pessoas que o representam no governo da nação. O mesmo sucede ao interno de uma Ordem Religiosa; o poder reside nos confrades que, também periodicamente o delegam, por eleições, na pessoa do superior ou Abade. No caso da vida religiosa o Abade representa ao mesmo tempo a vontade de Deus, e o compromisso que cada religioso assumiu com Deus, a comunidade e a Igreja em geral, quando fez os votos. Como o voto de obediência é feito a Deus, a Ele é também devida a obediência com a mediação ou por intermédio do Superior.

O voto de obediência
Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que me tem amor. João 14, 21

Desde a desobediência, de Adão e Eva, pela qual entrou o mal no mundo, a história de Israel pode ser lida como uma história onde se mistura a desobediência com a obediência. Para Jesus só pela obediência, à palavra ao coloca-la em pratica, é que se pode construir alguma coisa, de resto palavras inconsequentes, que não operam nada, leva-as o vento. (Mateus 7, 24-27)

Jesus apelou a todos os que o ouviram a aceitar e obedecer os seus ensinamentos, a incorpora-los na sua vida quotidiana, a fazer deles atitudes e comportamentos do dia-a-dia. No entanto, Jesus também chamou a 12 para deixar as suas vidas anteriores; empregos e famílias para se colocarem à Sua total disposição; a estes, disse-lhes detalhadamente como comportar-se, o que fazer, onde ir, como ir e o que dizer.

A Obediência é devida somente a Deus e o voto religioso de obediência não pode ser uma excepção. Não existe porque pertencemos a uma instituição que precisa de uma autoridade; mas porque precisamos de mediações entre nós e Deus. O voto, baseia-se então na fé de que a vontade de Deus vem através de um governo.

Por isso, o primeiro objectivo da obediência, o que mais importa, não é a estruturação da Comunidade mas a auto-realização de cada um dos seus membros; assim, obediência tem menos a ver com a submissão ou a renúncia à sua vontade e mais a ver com a afirmação da vontade de Deus, apesar dos desejos e forças contrárias que operam dentro de nós e também dentro dos superiores.

Não é a nossa vontade que antagoniza a Deus, quando decidimos livremente dedicar-nos ao Reino dos céus; muito pelo contrário, é o mal que reside dentro de nós, que em todo momento antagoniza a nossa opção fundamental. Em última análise, e tal como Jesus a coloca, a obediência é uma consequência do amor, Eu amo o Pai e actuo como o Pai me mandou. (João 14, 31)

Coordenador de carismas
Não vos deixeis tratar por 'mestres', pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis 'Pai', porque um só é o vosso 'Pai': aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por 'doutores', porque um só é o vosso 'Doutor': Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado. (Mateus 23, 8, 12)

Abade, primus inter pares, prior, provincial, superior, responsável, são alguns os títulos que ao longo da história se deram a essa pessoa que, eleita por todos, representa aquilo que prometemos a Deus, sacramento da autoridade divina a quem em última análise devemos obediência. Todos estes títulos de alguma forma vão em contra to texto acima citado pois colocam esta pessoa num nível superior aos outros.

No meu entender, o melhor título para este cargo, é o de coordenador de carismas, porque diferentes são os carismas de cada irmão ou irmã e para que todos esses carismas se harmonizem, com vistas a formação de um só corpo e ao bem comum, é necessário que exista um coordenador.

Como coordenador de carismas, a função do "superior" tem mais que ver com a comunidade como um todo que com cada um dos seus membros. Cada religioso, cada pessoa rege-se pela sua consciência, e esta, além de Deus, não deve satisfações a ninguém. Como seres autónomos livres e independentes, não precisamos que ninguém nos dite o que devemos ou não fazer.

Como o próprio conceito de coordenador de carismas indica, cada comunidade precisa de uma pessoa que tal como o mestre de uma orquestra, harmonize as diferentes individualidades para que vivam ao uníssono. Numa orquestra cada músico toca um instrumento diferente, uma música única e diferente das outras; cabe ao mestre, segundo uma partitura geral à qual ele mesmo obedece, fundir numa só melodia os contributos dos diferentes músicos.

Assim deve ser numa comunidade, cada um deve ser ante tudo autêntico, fiel a si mesmo e ao seu projecto ou Missão, tendo em conta que este não faz sentido se não se enquadra no contexto do bem comum. Cabe ao coordenador velar por este bem comum.

Em caso de conflito
Rebelar-se contra um tirano é obedecer a Deus, Benjamin Franklin

O Poder nem sempre corrompe, mas pode corromper também aquele que na comunidade tem a faculdade de coordenar os carismas de todos para o bem comum. Tanto o coordenador, como o membro da comunidade, devem estar permanentemente à escuta de Deus e em diálogo entre si, para que tanto a coordenação como a obediência sejam segundo a vontade de Deus.

Sempre se deve obedecer, quando o que nos é pedido vai de acordo ao nosso projecto e ao que prometemos a Deus. No entanto, se um membro de uma comunidade tem a certeza de que o seu coordenador demanda obediência por motivos que não se coadunam com a vontade de Deus, em consciência o membro da comunidade pode e deve desobedecer, pois nessa desobediência está obedecendo a Deus.

À falta desta certeza, em caso de dúvida é preferível obedecer; vai requerer certamente um acto de fé no coordenador mas a história da salvação, tal como nos é descrita na bíblia desde Abraão, está cheia de exemplos onde a questão da obediência se transforma, muitas vezes, numa questão de fé… ou acreditas, arriscas, confias e te lanças no vazio e no escuro ou não acreditas te retrais e ficas paralisado.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de outubro de 2015

Ser obediente é ser fiel

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Ser obediente é ser fiel aos compromissos assumidos
Depois de recuperar a liberdade relativamente às ataduras do nosso passado, e desta feita estar capacitados para poder comprometer ou investir o nosso tempo e as nossas energias numa opção fundamental, a obediência é agora uma questão de fidelidade aos compromissos assumidos.

Obediência à verdade
Já que purificastes as vossas almas pela obediência à verdade que leva a um sincero amor fraterno, amai-vos intensamente uns aos outros do fundo do coração (1 Pedro 1, 22).

Jesus não disse que era um dos caminhos, uma das verdades e uma das formas de viver a vida; só há um caminho, uma verdade e uma vida que é Jesus, assim como só há uma natureza humana, que permanece invariável ao longo dos séculos e dos milénios; por exemplo o que era amor há dois mil anos é amor hoje e será daqui a 5 mil anos se ainda existir a raça humana.

A Natureza humana não é uma moda susceptível de mudar com o tempo. Só assim faz sentido que o Céu tenha falado em Cristo uma vez por todas; só assim faz sentido que chamemos ao evangelho palavra de Vida Eterna, pois é a Palavra de Deus encarnada num tempo, há dois mil anos, mas é válida até ao fim dos tempos, para todo o tempo e para todo o lugar, pois a diversidade de culturas ou civilizações também não altera a natureza humana.

… Quem não junta comigo, dispersa. Lucas, 11, 23 - Como Jesus é a única forma de viver a vida, de acordo com a natureza humana por Deus criada, de alguma forma a liberdade é a obrigação de fazer o bem, de escolher este caminho e somos livres enquanto nele permanecermos, perdemos a liberdade quando dele saímos. Por obediência entendemos então a plena submissão à verdade pois é ela, e só ela, que nos faz e nos mantém livres. Não existe vida humana autêntica fora dos parâmetros da natureza humana que Deus criou o Evangelho estabelece.

Como Palavra de vida eterna, o evangelho delineia, ao mesmo tempo, a nossa natureza humana e ensina-nos como viver de acordo com ela. A obediência a esta palavra é imprescindível para que a nossa vida seja significativa tanto para nós como para os outros e o mundo em geral. É evidente que somos livres pelo que podemos rejeitar a única forma de vida; de certa maneira somos livres até usar a liberdade, pois no momento em que a usamos já não a temos e sofremos as consequências da nossa desobediência a qual traz consigo um abuso da natureza humana, tal como fizeram os nossos antepassados Adão e Eva.

Tomemos um exemplo da nossa natureza fisiológica. Em particular, beber vinho o qual não é intrinsecamente mau, como muitos fundamentalistas cristãos afirmam, indo ao ponto de reescrever o evangelho, criando um evangelho "seco", pois era sumo de uva e não vinho o que os apóstolos bebiam. Até que ponto uma ideologia, ou um problema social obriga a reinterpretar de uma forma diferente o evangelho.

Está demonstrado que beber com moderação, especialmente vinho tinto, longe de ser prejudicial à nossa saúde é benéfico. Como podemos definir ou quantificar a moderação? Moderação é quantificada pela quantidade de álcool que o nosso fígado pode processar com segurança.

Uma vez definida esta quantidade, os nossos hábitos de consumo têm que ser ajustados a este valor; beber para lá desta quantidade é desafiar e desobedecer a nossa natureza fisiológica, arruinando a nossa saúde.

Volto a citar Erich Fromm no seu livro, "Ter e ser”: “a satisfação ilimitada dos nossos desejos não produz bem-estar; não é o caminho para a felicidade e nem mesmo um meio de obter o máximo prazer." Daí, afirmar o prazer para além da realidade é o mesmo que negá-lo, um "contraditio em terminis".

Jesus de Nazaré modelo de obediência
Jesus veio ao mundo pela obediência de Maria, enquanto crescia em Nazaré era obediente aos seus pais (Lucas 2, 51). Na vida adulta, em todo o momento, faz a vontade do Pai e não a sua; a vontade do pai tinha-se tornado a sua comida (João 4, 34) e tanto foi esta comunhão, entre o pai e o filho, que "O filho não faz nada na sua própria, mas apenas o que ele vê o pai fazer" (João 5,19).

A carta aos Hebreus (5, 8) sugere que a obediência de Jesus não era inata, mas o resultado de um processo de aprendizagem no qual o sofrimento desempenhou um papel importante, sendo a morte o ponto culminante (Filipenses 2:8). Na vida de Jesus de Nazaré, o processo de aprendizagem da obediência corre em paralelo com dois outros processos de aprendizagem: a consciência da sua identidade, como Filho de Deus, e a da sua missão, como o Redentor da humanidade.

"O pai ama o filho e colocou todas as coisas nas suas mãos" (João 3, 35). Longe de se sentir forçado, obedecer ao Seu Pai era para Jesus algo conatural com sua natureza e a sua identidade. Em essência era algo que ele tinha escolhido, a sua opção fundamental motivada pelo amor que Ele tem pelo Seu Pai, porque Ele e o Pai são um só (João 10,30).

Obediência é fidelidade
Era uma vez um homem que gostava tanto de possuir ouro que se tinha tornado uma obsessão devoradora. O ouro ocupava a sua mente e o seu coração de tal forma que tudo o que não fosse ouro não existia; quando ia às compras só tinha olhos para as montras das ourivesarias, não via mais nada, nem ninguém; não via as pessoas, nem o azul do céu, nem o ruído da cidade, nem o perfume das flores.

Um dia, não resistiu mais, irrompeu numa ourivesaria e começou a encher os bolsos de anéis, pulseiras e fios de ouro, dispunha-se a fugir quando foi agarrado. Estupefactos os polícias perguntaram-lhe: “como pensavas que ias poder escapar com a ourivesaria cheia de gente?” Ao que ele respondeu: “que gente? Eu não vi ninguém só vi o ouro”.

Como devemos obediência à nossa natureza fisiológica, devemos obediência também à nossa natureza sobrenatural, que é nossa vocação ou nossa opção fundamental, como fez Jesus. Todo o nosso tempo e energias devem ser dedicados à vocação que escolhemos, com a mesma determinação do amante de ouro da história.

Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus (Lucas 9, 62). Obediência é sermos fiéis aos compromissos assumidos, ao que Deus nos chamou a fazer, àquilo a que decidimos dedicar as nossas vidas. O amor leva ao compromisso matrimonial, mas depois, é este compromisso que guarda e nutre o amor.

Guarda as regras, que as regras te guardarão a ti
Na vida, obedecemos muitas mais vezes do que gostaríamos de admitir, obedecemos ao nosso corpo, quando este está com fome e pede comida, quando tem sede e pede água; obedecemos a estas e muitas outras directivas referentes a necessidades fundamentais e fazemo-lo sem levantar questões, porque sabemos que é para o nosso próprio bem.

Alem das necessidades fisiológicas, temos também necessidades sociais; como seres sociais que somos, nascemos e crescemos em interação com os outros, com quem formamos grupos; a existência e a permanência destes grupos exigem que haja regras, que definem a identidade e os objectivos do mesmo. Estas regras são obedecidas por todos os membros, não só porque foram decididas por eles, mas porque o grupo satisfaz as necessidades sociais de cada um dos membros, buscando ao mesmo tempo o bem comum.

Para qualquer lado que nos viremos há regras para serem observadas. Na vida, somos livres de escolher o jogo que queremos jogar; uma vez escolhido temos de obedecer às suas regras, guardando estas regras elas guardam-nos a nós dando-nos sentido de pertença e segurança.

A alternativa seria não escolher, mantendo todas as opções abertas, acampar num cruzamento, não investindo nem comprometendo o nosso tempo e energias num projecto como, na parábola dos talentos, fez o servo néscio que escondeu o talento recebido. É certo que seriamos livres mas um dia, perto do fim das nossas vidas olhando para trás, ficaríamos com a impressão de nunca ter vivido pois não teríamos escrito nenhuma história e teríamos gasto o tempo, e as energias, em futilidades e em mantermo-nos vivos.

Mais que sobreviver, a vida humana é implicar, comprometer o nosso tempo e energia num projecto de utilidade social. O que é bom para a comunidade é bom para nós. Quando não somos úteis aos outros somos inúteis até para nós mesmos; a nossa vida só será significativa para nós se for significativa para os outros.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2015

A Rotunda do Relógio

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Como sugere o artigo anterior, sobre a obediência, quando o nosso comportamento deixa de ser reactivo, ou seja uma resposta incontrolável a um estímulo accionado fora de nós, para ser proactivo, ou seja planeado e decidido livremente pela nossa razão, quando nos possuímos e conscientemente estamos ao comando do nosso comportamento, então somos livres, podemos fazer o que queiramos, ou melhor dito, o que Deus quer de e para nós.

Chegados a este momento, sentimos como se tivéssemos a vida nas nossas mãos; sentimo-nos cheios de tempo e energia para dedicar a algo. Quando falamos da castidade, chegamos à conclusão que a vida era de facto composta por tempo + energia + opção fundamental. Também os animais e as plantas, em geral todos os seres vivos, são constituídos por tempo e energia regulados pela natureza; sós os humanos são conscientes de si mesmos, e conscientes de um tempo e uma energia que cabe a eles e não à natureza regular
, usar, dar sentido e ocupação.

Trabalhai não tanto pelo pão que perece mas pelo que permanece até à vida eterna (Jo 6,27)
 Trabalhai não tanto pelo pão que perece… mas também – Depois de multiplicar os pães as multidões, pensando ter encontrado a galinha dos ovos de ouro, foram à procura de mais pão, tal como a Samaritana vinha todos os dias ao poço à procura de mais água. Jesus aconselhou-os que para esse pão, que nos mantem vivos, eles teriam que trabalhar. “Deus alimenta as aves do Céu mas não lhes vai deitar a comida ao ninho”, elas têm que sair e colectar essa comida que Deus providencia para elas na natureza. Quem não quer trabalhar que não coma, diz São Paulo, o pão que sustenta a nossa vida física deve sair do nosso suor e esforço.

Como a vida dos outros seres vivos, a nossa vida não pode reduzir-se ao círculo vicioso de trabalhar para comer e comer para trabalhar, ou pão e circo como diziam os romanos, pão e diversão. Estar vivos e viver não são a mesma coisa; não vivemos para estar vivos mas sim estamos vivos para viver. Sobre este pano de fundo como é triste, e sem sentido, a vida daqueles que gastam o seu tempo e as suas energias buscando meios de vida, ou seja, gastam a vida a preservar a vida, a manter-se vivos como se dessa forma a pudessem manter para sempre. 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?' Lc 12, 20

Daí a advertência de Jesus de trabalhar não tanto pelo pão, que perece, mas guardar algum tempo e energias para trabalhar para o pão que permanece para a vida eterna; e mais que algum tempo, o evangelho sugere que esta seja a actividade principal da nossa vida: Não vos preocupeis, dizendo: 'Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?' Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. (Mt 6, 31-33)

Jesus é o pão nós somos o pão
O discurso de Jesus sobre a eucaristia acaba com a declaração de que é ele o pão e portanto quem comer da sua carne, e beber do seu sangue, é que tem a vida eterna; coisa que os judeus, e muitos dos discípulos de Jesus, não conseguiram tragar por saber-lhes a canibalismo e vampirismo; por esta razão abandonaram o mestre ficando só Pedro, que falando em nome dos restantes reconheceu que aquelas palavras de Jesus eram palavras de vida eterna, ou seja, palavras que conduziam à vida eterna.

A natureza do pão que permanece para a vida eterna, que alimenta e torna possível a vida eterna, é diferente da do pão que alimenta esta vida e que perece. Tal como a água, que Jesus promete à Samaritana, este pão também brota desde dentro.

Por outro lado Jesus sendo caminho, verdade e vida, é a pessoa a que devemos imitar para estar na verdade e ter uma vida autêntica, no único caminho que leva ao Pai e à vida eterna. Por isso tal como Jesus foi pão também nós estamos chamados a ser pão. Somos tempo e energia que alimenta e dá vida a um valor ou uma causa humana, a uma opção fundamental. E tal como Cristo estamos também nós chamados a “poner toda la carne en el asador” como se diz em Espanha.

A opção fundamental como compromisso
A opção fundamental é uma decisão que se toma sobre o conjunto da nossa vida, é o objectivo, a meta do nosso viver, que dá sentido, cor e sabor a todos e cada um dos dias da nossa vida. É a chama que é mantida pelo combustível da nossa vida, energia e tempo. É o ponto de apoio da alavanca que levanta o mundo, no princípio de Arquimedes. É a motivação, a inspiração que reúne todos os nossos recursos e os coloca ao serviço de uma meta, de um alvo por nós escolhido.

A vida é feita de muitas opções e decisões; são elas que dão cor, sabor, aroma e sentido à nossa vida. Estas pequenas opções geralmente referem-se a um ou mais aspectos de nossa vida; podem afectar-nos muito ou pouco mas não chegam a afectar o conjunto da nossa vida. A opção fundamental é a decisão das decisões, a opção mestra, a mãe de todas as opções porque se refere a toda a vida presente e futura; na maior parte das vezes é irreversível; é a razão do nosso viver, é a causa que vamos alimentar com o nosso tempo e energia; é a boca para a qual nós somos o pão.

A causa, ou opção fundamental, que Nelson Mandela alimentou com a sua vida foi o fim do apartheit na Africa do sul; para Beethoven foi a música; para Picasso a pintura; para Gandhi a independência da India de uma forma não violenta; para uns pais são os filhos; para os professores são os alunos; para os médicos são os doentes…. Mais que uma profissão a vida é uma missão.

Não há vida sem compromisso
Vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido. Dalai Lama

Quando chega o momento para escolher a nossa opção fundamental estamos na encruzilhada da nossa vida, ou como é mais actualizado pensar pelo menos na Europa, estamos na rotunda da nossa vida. Não podemos estar aí para sempre, nem por mais tempo do que é adequado. Frequentemente quando permanecemos demasiado tempo indecisos, a vida acaba por decidir por nós, ou o governo como acontece em alguns países a respeito das uniões de facto dos jovens; depois de um tempo o estado considera-os casados. Em Lisboa existe uma rotunda chamada “rotunda do relógio”; enquanto permanecemos indecisos o tempo passa e algumas oportunidades não aparecem segunda vez na vida….

"I want to keep all my options open"– Costumava eu ouvir os jovens nos Estados Unidos e no Canadá. Durante a infância, e a primeira juventude, de facto tudo está em aberto. Manter todas as opções em aberto seria como ser uma estátua no centro de um cruzamento, ou andar à roda numa rotunda, como um burro à nora. Seria estar vivo sem viver e morrer sem nunca ter vivido.

Para quem não sabe para onde ir não há ventos favoráveis – “You can't have your cake and eat it too”; “Não se pode ter o sol na eira e a chuva no prado”. Num cruzamento, ou numa rotunda, escolher um estrada, dizer que sim a uma estrada, significa dizer que não a todas as outras. Não se pode contemporizar; a vida acaba por penalizar fortemente os que pretendem viver mais que uma vida; frequentemente quem tudo quer tudo perde… Casar-se com uma mulher, significa dizer não a todas as outras; ordenar-se sacerdote, significa dizer que não ao casamento. Imigrar para um país, significa deixar o próprio país. Todos estivemos, ou estaremos, um dia no cruzamento ou na rotunda das nossas vidas: o dia em que tomamos a vida nas nossas próprias mãos e decidimos o que fazer com ela.

É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, (…) Ninguém ma tira, sou Eu que a ofereço livremente. Jo 10, 17-18 - Eramos livres enquanto parados no cruzamento decidíamos que estrada tomar; somos livres enquanto rodamos numa rotunda sem escolher uma estrada; a vida é um dom e os dons só doando-se podem ser vividos. Não temos opção, de facto, ou damos a vida ou ela nos é tirada, como àquele que escondeu o talento. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. (Mt 16, 25)

Outros valores mais altos se levantam, Camões – A liberdade absoluta não existe, nem serviria nenhum interesse. Somos livres até ao momento em que sacrificamos voluntariamente essa liberdade, num compromisso com a vida, a sociedade e o mundo. A partir do momento em que sacrificamos a nossa liberdade começamos a obedecer ao nosso compromisso. A liberdade, como a vida, existe para ser entregue. Uma vez que nos doamos já não nos possuímos, pelo que, viver é obedecer…
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de setembro de 2015

A Verdade vos fará livres

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Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu. Mateus 5, 16

Depois de expor, em artigos anteriores, os votos de pobreza e castidade, completo o tripé sobre o qual assenta a vida religiosa reflectindo sobre o voto de obediência. O religioso está chamado a ser um farol, a guiar os seus semelhantes para o Céu vivendo, no aqui e agora, a mesma vida que se viverá no céu eternamente; está chamado a encarnar os valores do Reino e a guiar a humanidade nas relações: riqueza-desprendimento com a sua vivência do volto de pobreza; amor-sexo com a sua vivência do voto de castidade; e poder-liberdade-fidelidade com o voto de obediência.

Conhecer a verdade
Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres. João 8 31-32

Administradores, não proprietários – Na Igreja é-nos dito que a vida não é nossa, que é um dom de Deus; nós não fizemos nada para a ter, nem fomos consultados se queríamos ou não viver. Na sua totalidade a vida é de facto um dom. Mas por quanto respeita à primeira parte desta vida, o tempo em que vivemos na terra, ela mais que dom é empréstimo. No livro do Genesis diz que Deus fez um boneco de barro e que lhe soprou nas narinas e que aquele começou a viver. Mas da mesma forma que sopra, retira esse sopro divino quando morremos.

Que a vida é um empréstimo está claro na parábola dos talentos. Todo o empréstimo deve render juros; a nossa vida tem que dar lucro; tem que ser produtiva; pode não ser reprodutiva, mas tem de ser produtiva. Temos de deixar neste mundo mais do que o que cá encontramos; temos de fazer a diferença, ser parte da solução e não parte do problema; que a nossa vida seja um contributo para a solução, para um mundo melhor, e não um contributo para a o problema, ou seja um mundo pior do que era antes de cá chegarmos. Como sugere a parábola dos talentos, temos de fazer algo com a nossa vida, não a podemos entregar tal qual a recebemos.

Todo o bom administrador tem os “livros” em dia pois não sabe nem o dia nem a hora em que, o patrão ou um fiscal do governo, pode vir inspeccionar as suas contas. Por isso devemos de fazer relatórios periódicos da nossa administração. Para isso a Igreja tem um sacramento, o sacramento da penitência; os que recorrem a este sacramento, prestam periodicamente contas das entradas e das saídas, e assim sabem se estão a crescer economicamente ou se estão a caminhar para a banca rota. É também um exercício de autocrítica, imprescindível para o crescimento como pessoa a todos os níveis.

Construtores, não arquitectos - Toda a pessoa que vem a este mundo vem com um projecto. Vem porque Deus assim o quis. As circunstâncias do seu nascimento não interessam: nem retiram nem acrescentam dignidade. Tão filho de Deus é o nascido por amor como o nascido por acidente, o nascido de prostituta, o nascido de uma noite de prazer e até o nascido de uma violação; toda a vida humana que vem a este mundo, desde a sua concepção até à morte natural, é viável e portanto inviolável.

Deus escreve direito por linhas tortas. Para os seus desígnios serve-se tanto do nossos bem como do nosso mal. Para Ele não há filhos ilegítimos nem de sangue azul; para todos é Pai; todos, iguais em dignidade, são herdeiros da vida eterna.

Assim como não se constrói nenhuma casa, nas nossas cidades e aldeias, antes de ser devidamente desenhada e projectada, nenhuma vida vem a este mundo sem que Deus tenha traçado para ela um projecto; sem que Ele tenha desenhado um plano.

Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça Jo 15, 16 - Não somos portanto nós que desenhamos o nosso destino; estamos chamados a ser uma casa construída sobre a rocha, se ouvirmos a palavra, ou seja, se conhecermos o plano que diz respeito à nossa vida e o pusermos em prática, se o executarmos tal e qual ele está desenhado.

Como não somos proprietários da nossa vida também não somos os seus arquitectos, mas sim os seus pedreiros ou mestre-de-obras. O arquitecto de tudo e de todos, o criador é Deus; o desenho, o projecto, ou plano da nossa vida está com ele, para o conhecermos temos de o consultar periodicamente, à medida que vamos construindo a nossa vida, a nossa casa.

O construtor que não consulta o arquitecto periodicamente corre o risco de construir algo que não está de acordo com o projecto. Como é embaraçoso sempre que isto acontece nas nossas cidades, casas às quais não é dada a autorização para serem habitadas, chegando mesmo a ser destruídas, porque não foram edificadas em conformidade com o desenho: Pior embaraço é apresentar-se diante de Deus com uma vida vivida contra a sua vontade.

A consulta periódica, contínua e constante que o construtor deve fazer ao arquitecto chama-se oração. Jesus passava noites inteiras em oração para saber qual era a vontade de Deus a seu respeito. Outro tanto devemos fazer nós, pois é a sua vontade e não a nossa que devemos actuar. É Ele que nos chama, que nos dá a vocação e os talentos suficientes para que a nossa vida seja viável; numa profissão ou numa missão.

Como o construtor só pede as instruções para o alicerce, se está nos alicerces, e não para o telhado, pois ainda não chegou o tempo de o construir, a oração deve ser um processo contínuo e constante que acompanha a construção a par e passo. A visão da totalidade e do conjunto, o desenho assim como a maqueta do plano, só Deus a tem e só no fim a veremos e seremos confrontados com ela e por ela. Quem nunca reza, nunca sabe qual é o plano de Deus a seu respeito.

O verdadeiro discípulo de Cristo é um obediente, pois já o mestre era obediente ao Pai. Quem me ama cumpre os meus mandamentos; o discípulo é o que que ouve a palavra e a põe em prática. Permanecer fiéis à mensagem do mestre, significa portanto obedecer aos ditames dessa mensagem. 

A verdade leva à liberdade, a liberdade leva à verdade
Dominar-se a si mesmo é o maior dos impérios…
Como pode alguém dizer-se livre se é governado pelos próprios prazeres? Sócrates
Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Jo 14, 6
Antes de nos podermos submeter a um projecto traçado por Deus e ser um contributo real para o mundo; antes de nos podermos entregar, de alma e de coração, a esse projecto pelo qual nos doamos a nós mesmos ao serviço de uma causa, temos de nos possuir: ninguém dá o que não tem, se não nos possuímos não nos podemos doar.

Para nos podermos possuir temos de submeter dentro de nós forças antagónicas, que não obedecem à nossa razão; temos de chegar a ser senhores de nós mesmos, vencendo a guerra civil que todo homem tem dentro de si.

Ao repreendermos um adolescente é frequente ouvirmos: “eu posso fazer o que quero com a minha vida”; muitas vezes os que assim dizem são, precisamente, os que menos poder têm para fazer com a própria vida o que querem. Não existe liberdade para… sem liberdade de… Não somos livres para fazer o que quer que seja se não nos possuímos interiormente; se não estamos livres de vícios, maus hábitos, manias e todo tipo de comportamentos repetitivos, obsessivos e excêntricos, que mais que a nossa inteligência, governam a nossa vida do dia-a-dia e a cada momento decidem o que fazer.

Um homem pode deixar que um mau hábito se assenhoreie dele, de tal forma que não consiga libertar-se. Pode deixar-se amarrar e dominar por um prazer, de tal forma que não tenha força para se soltar. Completamente escravizado pela auto-indulgência, uma pessoa pode chegar à esquizofrenia de, ao mesmo tempo, amar e odiar os seus maus hábitos. O que foi apanhado na rede, na teia do vício perdeu por completo o poder para fazer o que quer. Como diz Jesus ninguém que peca pode dizer que é livre.

A liberdade é para a alma o que o pão é para o corpo. Mas se a liberdade é um valor humano, como todos os outros valores, não é algo com o qual nascemos mas sim algo que vamos conquistando com esforço, sangue, suor e lágrimas.

Uma vida em Presente Prefeito
Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio (…) Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. (…) Quero fazer o bem, mas é o mal que eu não quero, que acabo por fazer. Rom. 7:15-21

Para nos podermos possuir temos de nos conhecer. Em termos de gramática é uma ilusão pensar que a nossa vida decorre no Presente simples, quando 90% do nosso comportamento é influenciado pelo nosso passado. Na realidade, o tempo do verbo em que vivemos é o Presente Prefeito (que não existe em português e que se refere a uma acção que começou no passado e continua no presente).

Vivemos num presente que é frequentemente invadido pelos assuntos não resolvidos do nosso passado. Um passado do qual não somos conscientes, mas que continua a reproduzir-se no nosso presente quando, alheio à nossa vontade, alguma circunstância ou evento o acciona. Desta forma temos a impressão de que caminhamos por um terreno minado e que sem querer podemos accionar uma bomba, ou que funcionamos e nos comportamos em piloto automático.

Conhece-te a ti mesmo – A máxima socrática soa aqui em toda a sua exuberância. Só posso aspirar a ser livre, a possuir-me a mim mesmo para me poder doar se me conhecer. O que conheço de mim mesmo posso controlar, pois todo o conhecimento implica controlo; o que não conheço de mim mesmo controla-me, e alheio à minha vontade, faz-me viver preso a um piloto automático.

A nossa verdade, a nossa identidade, tem uma dimensão histórica, é algo que tem vindo a ser construído. Por isso, tal como as árvores que precisam de crescer para baixo, a fim de poderem crescer para cima, também nós, para podermos crescer como pessoas, temos de visitar o nosso passado.

Como a árvore estende as suas raízes em profundidade para encontrar alimento, assim nós devemos estender o nosso conhecimento, até ao princípio da nossa vida, a fim de compreender totalmente como chegamos a ser o que somos, e assim estar capacitados para nos tornarmos no que Deus nos chama a ser.

Depois de nos apropriamos do nosso passado, e sermos conscientes de tudo o que de bom e de mau fizemos ou nos aconteceu, devemos fugir à tentação de negar, o que quer que seja, e assumir e fazer-se responsáveis da nossa história.

…Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres. Porque conhecemos a verdade do nosso passado, e dele nos fazemos responsáveis, temos agora poder para controlar a sua influência no nosso presente. Desta feita, já não andamos sobre um terreno minado, nem somos conduzidos na vida por um piloto automático; somos livres porque o nosso comportamento é directamente decidido pela nossa razão. Assim podemos agora dispor do nosso tempo e energias e comprometê-los numa causa da nossa escolha.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de agosto de 2015

Em Espírito e Verdade

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Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.» Jesus declarou-lhe: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. (…) Mas chega a hora - e é já - em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. João 4, 19-21, 23

Em duas simples palavras – Espírito e Verdade - Jesus revela à Samaritana e a todos nós a essência da oração. Como Deus é um ser espiritual, está em todo o lado, a oração não precisa de um lugar específico; Deus transcende todos os lugares e ao mesmo tempo é imanente a todos eles. Não sendo condicionada pela
especificidade do lugar, a oração é condicionada pela nossa forma de ser e estar na vida. Só pode rezar, só se pode encontrar com Deus, quem vive e permanece na verdade.

Yahweh, o Deus dos nómadas
Greg Retallack fez um estudo, no qual estabelece uma relação entre a identidade do deus adorado num templo particular e a localização desse mesmo templo. Por exemplo, os nómadas vivendo em solos pobres adoravam Hermes, o deus mensageiro e mediador; os povos instalados em terrenos férteis tendem a adorar deuses da fertilidade como Hera. Retallack conclui que os deuses da Grécia antiga não surgem de uma cidade imaginária e poética, chamada Olimpo, mas personificam a forma de vida daquelas gentes; no fundo, os antigos adoravam os próprios meios de subsistência, ou melhor dito, adoravam Aquele que eles acreditavam garantir esses meios.

Deus é um ser espiritual - Obrigados a guiar os seus rebanhos à procura de novos pastos, os povos dedicados à pastorícia, como o povo Judeu, são necessariamente nómadas. Enquanto os povos sedentários construíam grandes templos e grandes estátuas para representar as suas crenças; os nómadas, para não ter que carregar ídolos pesados nas suas deslocações, conceptualizaram a Deus como sendo um Ser ao mesmo tempo transcendente e imanente.

Transcendente porque ao ser Criador de tudo e de todos, não pode ser representado por nada do que existe; para os nómadas qualquer forma material de representar a Deus é idolatria. Imanente pois está no coração de cada coisa e cada pessoa, logo, fácil de transportar.

Os Turkana, no norte do Quénia, usam a mesma palavra para dizer céu e Deus. Da mesma forma os Mongóis, os Turcos e os Tártaros adoravam Tengri, o Deus do céu azul. Deus, tal como o Céu, está em todo lugar. Uma realidade que é ao mesmo tempo transcendente e imanente não pode ser de natureza material mas sim espiritual.

Deus é um ser pessoal – Longe de tudo e de todos, ao guardarem os seus rebanhos os pastores passam muito tempo sozinhos; a solidão, o medo e a insegurança leva-os a estabelecer uma relação como esse Ser espiritual; um Ser que se preocupa, que protege e que quer ter uma relação pessoal com cada membro do povo. Os deuses dos povos sedentários são materialistas e chamam o povo a ter mais. Os deuses dos nómadas são espirituais e chamam o povo a desinstalar-se e desligar-se dos bens materiais para cultivar o espirito e ser mais.

Templos do Espirito Santo  (1 Cor 3, 16)
Respondeu-lhe Jesus: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. João 14, 23

Deus, um ser espiritual, criou-nos à sua imagem e semelhança; por isso somos, ao mesmo tempo, um corpo, ou seja, temos uma dimensão física e um espirito, temos uma dimensão espiritual. O nosso corpo é o que temos em comum com as outras criaturas que Deus criou; o nosso espirito é o que temos em comum com o Criador.

Como somos intrinsecamente templo do Espirito Santo, não precisamos de mais nenhum templo para nos encontrarmos com Deus; só precisamos de guardar silêncio e fazer um exercício de introspecção entrando dentro de nós mesmos.

O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele se arraigue na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Bento XI

Não há oração sem silêncio, nem silêncio sem oração, um leva ao outro. A prática diária da meditação tem benefícios para a saúde em geral, tanto física como psicológica e espiritual. Reduz o stress, a tensão alta, ajuda a concentração, a dormir, a vencer a ansiedade, a asma, o cancro. A meditação é para a alma o que o exercício é para o corpo. Não tem contra-indicações só tem benefícios a todos os níveis.

Que é a verdade?
(…) Para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» João 18 37-38

Como não espera pela resposta, mais que pergunta, a afirmação de Pilatos é um amargo desabafo de alguém enfastiado, que não encontra sentido nem conforto na filosofia e no “modus vivendi” dos gregos e romanos do tempo. Esta mesma pergunta foi respondida por Jesus aos seus discípulos, quando Ele mesmo se apresentou a eles como “caminho verdade e vida” (João 14,6)

Jesus veio ao mundo para dar testemunho da verdade, ou seja, para mostrar aos homens como se vive a verdade e em verdade no dia-a-dia. Neste sentido, Como Cristo é a verdade, o metro padrão de humanidade, o que quer ser autenticamente humano, mede-se com Cristo. A oração, sobretudo a oração bíblica ou “Lectio Divina”, é de facto o acto de medir-se com Cristo.

Medir-se com Cristo é encontrar a verdade das nossas vidas; algo assim como ligar um GPS que nos diz onde estamos, o que somos, onde devemos chegar, o que nos falta para lá chegar e o caminho até lá.

Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. Mateus 5,23-24

Quando nos medimos com Cristo não encontramos só a nossa verdade a nível individual, mas também a nossa verdade como membros de uma comunidade. Rezar, portanto, não tem só a dimensão vertical de amar a Deus mas também a horizontal de amar o próximo. Quando me encontro com Deus fico a conhecer os meus défices de amor ao próximo porque Deus sempre pergunta como o fez a Caim, onde está o teu irmão. (Genesis 4,9)

Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, cobrador de impostos. O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: 'Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. Lucas 18,10-11

Também há quem viva a oração e a participação nos actos litúrgicos como autojustificação das suas vidas na falsidade. O fraco conhecimento de si mesmos leva a um fraco conhecimento de Deus e vice-versa. Sem autocritica não há progresso na vida espiritual, estas pessoas que vivem a religião como opio substituem a autocritica pela autojustificação.

A minha verdade
Quando vires um gigante, examina antes a posição do sol, para certificar-te de que não é a sombra de um anão. Von Hardenberg

Deus revela-se a quem está em contacto com a sua realidade. Quem possui uma falsa imagem de si mesmo terá também uma falsa imagem de Deus; tal pessoa vive fora de si, ao perder o contacto consigo mesma perdeu o contacto com Deus. Perifraseando a afirmação de Hardenberg há muitos anões, que não aceitando a sua realidade, projetam para fora de si mesmos a imagem do gigante que pretendem ser. Tantas vezes se escondem e projectam, nessa imagem idealizada e irreal de si mesmos, que chegam a identificar-se com ela e verdadeiramente pensar que são essa sombra.

Não há complexos de superioridade, o fanfarrão e orgulhoso que projecta para fora de si uma imagem de ser superior, na realidade vê-se e sente-se inferior; ao não aceitar essa inferioridade procura escondê-la, não só dos outros, mas até de si próprio; então enche-se de si mesmo, como a rã que queria ser maior que um boi, para colmatar o vazio que sente. Se estamos chamados a ser Templo do Espírito Santo, não podemos encher-nos de nós próprios; por isso Deus não habita naqueles que não são humildes porque estão cheios de si mesmos.

Quando perdemos o contacto com a nossa realidade, a nossa verdade, então também perdemos contacto com Deus porque Deus não pode relacionar-se com alguém que não existe. Deus só se relaciona comigo, quando estou em contacto com a minha realidade; quando sou honesto comigo mesmo, não desculpando os meus pecados nem escondendo de mim próprio os meus defeitos; quando sou autêntico, não me refugiando em falsas imagens de mim.

Possuir uma imagem falsa de mim mesmo leva a possuir uma imagem falsa de Deus. A consequência é que se eu não sou eu, Deus não é Deus. Assim sendo, a oração não é possível pois ando divorciado da minha verdade.

Deus íntimior timo meo
Conta-se que Deus querendo ser o resultado de uma busca com algum grau de dificuldade, consultou os seus anjos sobre o melhor lugar para esconder-se dos homens. O anjo sugeriu de fazer-se enterrar no fundo da Terra, Deus achou, tarde ou cedo o homem acabaria por escava-lo e encontra-lo. Nas profundezas do oceano, sugeriu outro anjo, também não pois o homem um dia terá a capacidade de explorar o fundo dos oceanos e facilmente o encontraria. Já sei, disse o próprio Deus, vou esconder-me no fundo do coração do próprio homem, ele buscará em todos os lugares menos ali….

Dizia Sto. Agostinho que Deus esta para além do meu íntimo. Como Júlio Verne, na sua viagem ao centro da Terra, para chegar até Deus eu tenho que empreender uma viagem de introversão ao centro de mim mesmo e mais além dele. É por isso que a oração é um exercício de autoconsciência e autoconhecimento. Tal como Deus, o ser humano também é um mistério para si mesmo; quem reza aumenta ao mesmo tempo o conhecimento de si mesmo e o conhecimento de Deus.

O conhecimento de Deus e o conhecimento de nós próprios são partes do mesmo processo. Não é possível conhecer-se sem conhecer a Deus, nem conhecer a Deus sem conhecer-se; porque Deus está para além de mim, para chegar até ele tenho de passar por mim mesmo.

Yoga, Reiki, Zen e meditação transcendental
Buda era indiano e hindu portanto formado e versado no politeísmo e na parafernália de um número ilimitado de deuses. Por reacção a tudo isto fundou o Budismo, uma “religião”, ou melhor dito uma espiritualidade ateia. O budismo tradicional é uma via para a iluminação, para a auto perfeição individual e até egoísta, pois não contempla os outros nem a nossa relação com eles.

Hoje no Ocidente o Budismo vem-nos fornecido misturado com outras filosofias, em forma de sincretismo religioso da New Age. Para a New Age, Deus não é um ser pessoal mas sim uma energia, da qual todos podemos participar. O homem é só uma partícula dessa energia, vivendo no espaço e no tempo. Se Deus não existe como pessoa o ser humano também não é pessoa.

É certo que para nós isto é errado; Deus é muito mais que uma energia é um ser espiritual e pessoal. Um ser que buscou sempre revelar-se ao Homem e assim o fez de uma forma limitada ao longo da história da humanidade, acabando por encarnar-se na criatura que criou para um maior conhecimento e interacção.

Para discernirmos qual a melhor atitude em relação às práticas espirituais do extremo oriente, tomemos como exemplo a reacção da Igreja á teoria da evolução das espécies de Darwim. Pio XII aceitou as conclusões de Darwin, na sua encíclica Humanae Generis, como o próprio Darwin o fez pois era religioso e continuou a acreditar em Deus Criador e Salvador depois das suas descobertas. É irrelevante que Deus tenha criado directamente o ser humano ou pensasse nele ao fim de uma processo evolutivo….

Neste sentido podemos, também, desligar as práticas do budismo e outras práticas espirituais do extremo oriente da sua ideologia ou filosofia ateia. “O que não mata engorda” diz o nosso povo na sua simplicidade, e Jesus diz “Quem não é contra nós é por nós” Marcos 9,40

Nestas férias, com tempo livre, busquemos a ajuda destas técnicas orientais e não demos ouvidos àqueles, cristãos fundamentalistas fanáticos, que gostam de deitar fora o menino com a água da banheira.

Podemos desculpar-nos de não ter ido à Missa um Domingo porque não havia Igreja no alto da montanha ou nas profundezas do vale, na praia fluvial ou na praia marítima onde nos encontrávamos; mas não temos desculpa de não nos termos encontrado com Deus em Espírito e connosco próprios em verdade.

Onde é que eu poderia ocultar-me do teu espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir aos céus, Tu lá estás; (…) Se voar nas asas da aurora ou for morar nos confins do mar mesmo aí a tua mão há-de guiar-me e a tua direita me sustentará. Se disser: "Talvez as trevas me possam esconder, ou a luz se transforme em noite à minha volta", nem as trevas me ocultariam de ti e a noite seria, para ti, brilhante como o dia.- Salmo 139, 7,12
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de julho de 2015

Castidade: Luzes e sombras

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TERRA SANTA: Barco no mar da Galileia
Também pode acontecer que a sensibilidade desborde. O desejo de prazer sexual pode um dia ser mais forte que a força de vontade e o casto ser seduzido. Para aqueles que se preocupam verdadeiramente pela sua castidade, isto significa experimentar dolorosamente, uma e outra vez a sua miséria; mas também um dar-se conta que a castidade está no espírito e não na carne. Se olharmos cuidadosamente para o fundo do nosso coração, veremos que mesmo quando somos com pena, arrastados à experiência do amor carnal, o nosso coração pode ser como nunca fiel ao Senhor (…) Se, no fundo, não fosse fiel, não lhe causaria tanto sofrimento o pensar que não o é. (…) Errar é o mestre do não errar. RONDET, M. RAGUIN

Depois de, ao longo de 4 crónicas, expor a natureza da virtude da castidade e de cantar o quão sublime é este voto para Igreja, para o mundo e cultura em geral, não queria ficar só pelo mundo das ideias e dos ideais. Nós, gentes de Igreja, frequentemente falamos destes temas de uma forma genérica, idealista, e damos a impressão de que são fáceis. Nesta última cronica sobre o tema quero descer à realidade, aos problemas e dificuldades que acarreta a vivência deste voto. Não quero nem ignorar, nem esconder, nem varrer para debaixo do tapete a vivência real do voto, pois se o fizer invalido tudo o que disse antes.

Castidade falsa
A castidade é virtude em alguns, mas em muitos outros, quase um vício. Esses podem abster-se e ser continentes, mas a carente cadela sensualidade contamina com inveja tudo o que fazem. Até ao cume da sua virtude e ao frio interior da sua alma os segue esta besta descontente e irrequieta. E como sabe a manhosa sensualidade mendigar uma migalha de espírito, quando lhe é negada um bocado de carne! Vós amais as tragédias e tudo o que parte o coração? Mas eu desconfio de vossa cadela. Os vossos olhares parecem-me muito cruéis, e buscais avidamente por sofredores. A vossa volúpia não se teria apenas disfarçado e agora se chama compaixão? Nietzsche

A vivência da castidade, como uma continência física e formal, faz recordar a obediência coagida que o irmão mais velho do filho pródigo tinha ao seu pai, assim como o descompromisso com a vida daquele que escondeu o talento. Nietzsche explica este tipo de castidade com uma hábil subtileza; é que de facto uma energia sexual, mal sublimada, escapa-se ao controlo consciente do individuo e manifesta-se, no talante da pessoa pseudo casta, de mil e uma formas.

Já que não pode ter carne, ou seja já que não se pode manifestar naturalmente na carne, porque é reprimida pela continência voluntariosa do individuo, a sensualidade mendiga uma migalha de espirito, ou seja contenta-se com manifestações sucedâneas substitutivas; é como uma sublimação ao contrário ou negativa.

Omnia munda mundis – Para os puros, tudo é puro e purificam tudo o que tocam; para os impuros, tudo é impuro e conspurcam tudo o que tocam: ou seja, a forma como se relacionam com as pessoas deixa antever que a sua sensualidade não está sublimada, mas simplesmente reprimida, e como tal manifesta-se, de uma forma inconsciente para eles, nas relações que têm com as pessoas. É isto que diz Nietzsche de uma forma repulsiva: a sensualidade desbocada é como uma cadela a salivar que lambuzeia tudo o que toca.

Neste texto, Níetzsche, revela a sua profundidade como psicanalista. Com efeito, qualquer paixão insatisfeita, e mal canalizada, tem tendência a auto compensar-se de mil e uma formas, envenenando a alma. Em consequência, os pseudo castos são irascíveis, neuróticos, mal-humorados, duros, frios, orgulhosos, intransigentes e egocêntricos. A miúdo, no seu talante e no seu comportamento, revelam um cem número de manias e excentricidades.

Limites da sublimação
É claro que o processo de substituição, ou canalização de energia, não pode ser continuado até ao infinito, como também não pode sê-lo a transformação de calor em energia mecânica nas nossas máquinas. Sigmund Freud

Freud refere-se à máquina a vapor, a única conhecida naquele tempo, que fazia uma espécie de sublimação, ou seja transformava o calor, proveniente da caldeira de água aquecida pelo carvão, em energia mecânica. Segundo Freud é impossível sublimar a totalidade do calor; ou seja transformar todo o calor gerado em energia mecânica; algum calor tem de seguir o seu curso natural. Freud dá ainda o exemplo do agricultor que estava a treinar o seu burro a viver sem comer e quando pensava que já o tinha conseguido o burro morreu.

O mesmo acontece com a metáfora da barragem; muita água pode ser canalizada para os campos, outra para a produção de energia, mas há dias, quando a chuva é muita, em que se têm que abrir as comportas e deixar ir a água livremente, pelo leito natural do rio para o mar, ou perdemos a barragem.

Usando ainda a metáfora da barragem; quando chove muito é preciso largar água; a castidade de facto resulta mais difícil nos anos jovens, quando chove muita testosterona e progesterona no organismo; não era por outra coisa que São Francisco de Assis para resistir à tentação se rebolava nu na neve…

Ao comprometerem-se socialmente com as estruturas da civilização os seres humanos, segundo Freud, sacrificam uma parcela da sua felicidade individual pelo interesse comum. Isto é essencialmente uma decisão económica: trocamos a gratificação imediata pela estabilidade a longo prazo. Por outras palavras, renunciamos ao prazer a pronto pagamento e por inteiro, por um pagamento a prestações durante um longo período de tempo.

Depois de descrever e se mostrar favorável ao mecanismo da sublimação, Freud alerta para o facto de que uma repressão excessiva do Eros produz sofrimento e neurose. Em geral, o celibato total, diz ele, produz pessoas bem “comportadinhas”, mas sem vitalidade; não produz pensadores sagazes, arrojados libertadores ou intrépidos reformistas. E acrescenta que a relação e o equilíbrio entre o que é possível sublimar e a actividade sexual necessária varia, naturalmente, de individuo para individuo.

Para aqueles que sentem que os défices e fracassos da prática celibatária invalidam-na inteiramente, eu digo com Freud, “Ninguém como eu, que presume de lutar contra as forças das trevas dentro de nós, pode esperar sair ileso da luta. (Freud, 1905/1953). Apesar de seu historial de falhas e traições, as realizações e conquistas do celibato em nome da raça humana são substanciais, e eu prevejo que assim vai continuar. PETER GAY The historian, 1986

A castidade verdadeira, não é uma continência reprimida e neurótica de alguém que se aparta da vida. O verdadeiramente casto, como se compromete com a vida, pode até sujar alguma vez as mãos e aprender do erro. Santo não é aquele que nunca se suja mas aquele que sempre se lava.

Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível (Mt, 19,26)
Na verdade, esta Lei, que hoje te prescrevo, não é muito difícil para ti nem está fora do teu alcance. Deuteronómio 30, 11

Para a sociedade e para a cultura, o ideal de castidade é que o casto seja totalmente casto; a ciência, sobre a natureza do Eros, diz que isto não é possível sem criar neurose e outras deficiências comportamentais. Como a cultura só entende e aceita a castidade total, ao não haver uma materialização cultural da sublimação, de acordo com os dados da ciência, o casto ou celibatário está por sua conta na resolução desta incongruência.

Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, compreenda. Mateus 19, 12

Os que se fizeram eunucos pelo reino não estão por conta e risco próprios. Porque escolheram buscar primeiro o Reino sabem que o resto lhes será dado por acréscimo (Mateus 6, 33). Os que escolheram sacrificar pelo Reino a sua afectividade, sabem que podem contar e contam de facto com a ajuda da graça divina que transforma o humanamente impossível em perfeitamente possível.

Os que escolheram sacrificar pelo Reino a sua afectividade fizeram-no na esperança e na certeza de que o resto, as ajudas de custo, lhes seriam dados por acréscimo. “Deus dá o frio consoante a roupa; não chama ninguém a uma Missão sem o equipar com os talentos necessários para a desempenhar bem. A castidade por Deus só é possível com Deus.

Castidade verdadeira
Em verdade, existem os castos do fundo do ser: eles são mais mansos de coração, riem com mais gosto e mais frequentemente do que vós. Riem também da castidade, e perguntam: “Que é a castidade? Não é a castidade uma tolice? Mas essa tolice veio a nós, não fomos a ela. Oferecemos abrigo e afecto a essa visitante: agora ela habita connosco — que permaneça o tempo que quiser!”
Nietzsche

O casto, é sempre um casado com uma causa humana ou cultural à qual devota todo o seu ser, tempo e energias, como se de uma mulher e filhos se tratasse; pode ser a ciência, a medicina, o ensino, a educação, a justiça, os pobres, a revolução, a liberdade, a aventura. A população mundial não pára de crescer; por isso o mundo não precisa tanto de pais biológicos como de pais e mães “adoptivos”; ou seja de pessoas que, renunciando à paternidade e maternidade biológicas, se dedicam aos outros de alma e coração como outrora Jesus de Nazaré e tantos depois dele…

Qualquer causa humana bem justifica o sacrifício da nossa energia afectiva. De facto há pessoas que começaram a dedicar parte do seu tempo e energia a um projecto humano e depois acabaram por dedicar-se plenamente e ele, a “poner toda la carne en el asador” como se diz na Espanha. Mahatma Gandhi era um homem casado; quando entendeu que o seu projecto de vida requeria toda a sua energia fez com a sua esposa um voto de castidade.

Pe. Jorge Amaro. IMC