15 de novembro de 2017

Fátima: "Rezai o Rosário todos os dias"

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Em Portugal chama-se terço, o que nos demais países se chama Rosário. O que nós rezávamos, de facto, era um terço do Rosário que completo seriam três terços, somando o total de 150 Ave Marias. 150 são também o número de Salmos, do livro com o mesmo nome, que faz parte da literatura sapiencial do Antigo Testamento.

De aí alguém dizer que o rosário completo era o breviário do povo ou dos leigos que não podiam como os clérigos e os religiosos rezar a salmodia.

O rosário completo eram, portanto, três terços que se rezavam meditando no primeiro os Mistérios Gozosos, que correspondiam ao nascimento e infância de Jesus: no segundo os mistérios Dolorosos, que correspondiam à Sua Paixão e Morte: no terceiro os mistérios Gloriosos que correspondiam à sua Ressurreição e Ascensão aos Céus.

A Igreja tardou em descobrir que o Rosário estava incompleto com tão só a meditação dos mistérios da encarnação nascimento, paixão e morte e Ressurreição do Senhor. Faltava a vida pública na qual Jesus de Nazaré, pela sua pregação, as suas atitudes e forma de viver e atuar, modela para nós o homem novo, aquele que é caminho verdade e vida para todo o ser humano.

Com a criação e integração dos Mistérios Luminosos pelo Papa João Paulo II numa carta apostólica intitulada Rosarium Virginis Mariae, escrita em 2002, a lógica dos três terços serem um Rosário completo desfez-se. O Rosário completo são agora quatro “terços” de 50 Avé Marias cada um fazendo o total de 200 e não de 150 como era antes.

Em concordância com esta nova realidade, ao que antes chamávamos “Terço”, deveríamos agora chamar Quarto, pois ao incluir a vida pública de Jesus nos Mistérios Luminosos, são agora quatro os mistérios a contemplar. Como não vamos rebatizar o “Terço de “Quarto”, o melhor seria abandonarmos esta palavra, e, no seu lugar, como o resto da cristandade sempre fez, usar a palavra Rosário.

A Composição do Rosário
Chama-se “Rosário”, porque as 150, agora 200, ave-marias, entrelaçadas em grupos de 10, com a oração do Pai Nosso, do Glória e as meditações dos mistérios da vida de Jesus, e da nossa redenção, formam uma “Coroa de Rosas”, que se oferece a Maria, Mãe do Senhor e nossa Mãe.

Os vinte mistérios da vida do Senhor repartem-se em quatro series de 5 mistérios cada uma. Em cada Rosário, rezamos apenas os cinco mistérios de uma destas series:

Nos Mistérios Gozosos, meditamos o começo da redenção da humanidade, desde a anunciação a Maria, e a encarnação do filho de Deus no seu seio, até à adolescência de Jesus.

Nos Mistérios Luminosos, meditamos os momentos mais importantes da vida pública de Jesus, desde a sua investidura no Batismo até à instituição da Eucaristia como memorial da sua paixão. É nos anos da Sua vida pública que Jesus verdadeiramente, se revela como sendo a Luz do Mundo (Jo 8, 12), pelas suas atitudes ante as mais diversas situações da vida em que se foi encontrando, pela doutrina que ensinou, e pelos seus atos.

Nos Mistérios Dolorosos, meditamos o processo a paixão e morte de Jesus, desde a sua agonia no jardim das Oliveiras até ao ultimo suspiro no alto da cruz. Quando dizemos que Jesus morreu pelos nossos pecados, quer dizer que saldou a dívida que nós eramos incapazes de pagar; mas também quer dizer que os pecados dos que intervieram na sua morte ainda hoje se cometem, pelo que podemos concluir que foi o pecado de toda a humanidade que o matou.

Nos Mistérios Gloriosos, meditamos o triunfo de Jesus sobre a morte com a Sua Ressurreição. A morte foi vencida assim como o pecado que a causa. Depois da Ressurreição de Jesus, a morte já não é o destino final da humanidade, mas sim uma passagem para a vida eterna. A vida de Jesus que começa com o Sim de Maria ao plano de Deus termina agora com a glorificação daquela que é para todos, modelo de vida cristã.

O Pai Nosso – O Pai Nosso, que intercala cada mistério, é muito mais do que uma simples oração que o Senhor nos ensinou para recitar ocasionalmente. Ela contém o mais importante do Evangelho de uma forma resumida; é neste sentido todo um Evangelho de bolso pois contem o que devemos conhecer e praticar.

Como é composto por vários enunciados, sem relação uns com os outros, pode ser olhada como uma lista, como as listas de compras que fazemos para não nos esquecermos de nada. Esta lista diz respeito ao protocolo da nossa relação com Deus, ou seja, como deve estar estruturada a nossa oração; como nos devemos dirigir a Deus, como louvá-Lo, o que devemos pedir, em que ordem, quando e como. Portanto, mais que uma oração, é fundamentalmente um guia pratico de oração e vida.

A Ave Maria – Divide-se em duas partes; a primeira é bíblica e é composta pelas saudações do Anjo Gabriel e da Sua prima Isabel; a segunda tem origem na fé da Igreja, não se sabe como nem quando nem onde começou a ser usada. Por isso a Ave-maria representa a perfeita união entre a Bíblia como Palavra de Deus e a Igreja como comunidade dos crentes.

Num movimento ascendente, a primeira parte, decalcada da Bíblia, é constituída por 5 escadas que sobem até Jesus. Num movimento descendente a segunda parte é constituída também por 5 escadas que descem até a realidade humana, a nossa morte.

Não pode ser entendida pelos advogados de “sola fide sola scriptura solus christus” pois nela se unem de uma forma harmoniosa a Escritura, a Palavra de Deus, descrita na primeira parte, com a Tradição, ou seja, a história da fé da comunidade cristã ao longo dos tempos plasmada na segunda parte. “Jesus” alfa e Omega, principio e fim e centro da história é a cerneira que une as duas partes.

Gloria ao Pai – É a invocação de Deus como Uno e Trino. Uma só divindade em três pessoas diferentes unidas num triângulo de amor. É a solução à dialética da filosofia grega entre o uno e o múltiplo. Esta oração também nos recorda que feito à imagem e semelhança de Deus, o ser humano também é uno e trino: não existe nem subsiste fora da família.

Origem e história do Rosário
Como instrumento de oração as contas do rosário, têm a sua origem na India, no terceiro século antes de Cristo. No cristianismo foram os padres do deserto do terceiro e quarto século que começaram a usar instrumento de contagem de orações, sobretudo do Pai-Nosso.

Por outro lado, na antiguidade os gregos e os romanos costumavam coroar, com uma coroa de Rosas, as estátuas dos seus deuses como prova de amor e gratidão. Talvez baseada nesta tradição as mulheres cristãs que eram levadas ao martírio iam vestidas a rigor levando nas suas cabeças uma coroa de rosas, como símbolo de alegria e entrega caminhando ao encontro do esposo, Cristo. Depois do seu martírio os cristãos recolhiam estas coroas e rezavam, uma oração por cada rosa, pela alma dos mártires.

A Lúcia e a Jacinta de Fátima gostavam de usar flores no cabelo. No dia das aparições os três vestiam as melhores roupas que tinham como se fossem à missa ao Domingo; as duas meninas colocavam flores no cabelo em especial a Jacinta que foi fotografada usando uma coroa de rosas na cabeça por ocasião das aparições.

A oração do rosário surge no ano 800 à sombra dos mosteiros como saltério dos leigos. Foi só no ano 1214, no entanto que a Igreja recebeu o rosário na sua forma presente. A tradição diz que foi dado à Igreja por Santo Domingos de Gusmão que por sua vez o recebeu da Virgem Maria como arma poderosa contra os inimigos da fé.

O rosário ganhou grande pujança depois da batalha naval de Lepanto, na qual os cristãos venceram os turcos eliminando para sempre o perigo dos muçulmanos subjugarem o cristianismo. Antes da batalha, o Papa Pio V pediu aos cristãos que rezassem o rosário para apoiarem a frota cristã, pelo que depois da vitória, foi instituída a festa da Senhora das Vitórias no dia da batalha a 7 de outubro de 1571, mais tarde mudada para Senhora do Rosário.

As aparições marianas, em especial a de Fátima no seu insistente apelo a rezar o Rosário todos os dias, fizeram desta prática um distintivo dos católicos em contraposição com o resto da cristandade, os ortodoxos e os protestantes.

Modo de rezar o Rosário
Em cada dia da semana meditamos uns mistérios diferentes; assim Segunda Feira e Sábado meditamos os mistérios Gozosos; terça feira e sexta-feira meditamos os mistérios dolorosos, Quarta Feira e Domingo os mistérios Gloriosos, reservando a Quinta Feira para os mistérios Luminosos.

Há vários modos de rezar o terço, mas a maior parte das pessoas inicia com o sinal da cruz, seguido do Credo, de um Pai-Nosso uma Ave-Maria e um Gloria. Terminadas estas orações introdutórias, anuncia-se o primeiro mistério seguido ou não de uma pequena meditação e secundado por uma dezena de ave-marias precedidas de um Pai-Nosso.

Depois da decima Ave-Maria de cada dezena, reza-se o Gloria seguido de várias jaculatórias, dependendo do lugar e de quem reza e termina-se com a oração que a Nossa Senhora em Fátima recomendou aos pastorinhos que rezassem depois de cada mistério: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem"… (da vossa misericórdia). Por fim rezam-se três Ave-Marias pelas intenções do Santo Padre para assim estarmos unidos a toda a cristandade, nele representada, e termina-se com a Salve Rainha precedida ou não, segundo o tempo que se dispõe, pela Ladainha da Nossa Senhora.

A importância do Rosário
O Rosário é ao mesmo tempo uma oração mariana e Cristo-Centrica porque repetidamente invocamos Maria como Mãe de Deus e nossa Mãe, e lhe pedimos que se junte a nós na nossa oração ao Pai, ao recitarmos o Pai Nosso e à Santíssima Trindade ao recitarmos o Glória, e nos ajude a meditar e contemplar os mistérios da vida do Seu filho, nosso irmão mais velho e nosso salvador, dos quais ela também faz parte.

Em Fátima, como nas demais aparições marianas, Maria não atrai nenhuma atenção para si mesma, mas sim e exclusivamente para o Seu filho. O seu contentamento não lhe vem de a louvarmos, mas sim de louvarmos o seu filho. Como diz o provérbio, “Quem o meu filho beija, minha boca adoça”.

Não se ama o filho sem se amar a mãe, por isso todo o amor dirigido ao filho indiretamente é dirigido à mãe. Assim como todo louvor dado à mãe se dirige ao filho como foi o caso daquela mulher que no meio da multidão, levantou a voz para dizer a Jesus, Bem-aventurada aquela que te deu à luz, e os seios que te amamentaram!” (Lucas 11, 27)

O Rosário não é uma oração de Ação de Graças, nem uma oração de petição, nem sequer uma oração de lamentação como alguns salmos da bíblia. O Rosário, é fundamentalmente uma oração de meditação e contemplação. De facto, anunciamos e enunciamos cada mistério dizendo neste mistério contemplamos….

Conta-se que um dia alguém confessou ao Papa João XXIII a dificuldade de rezar o terço pois frequentemente se distraía no rezo maquinal e rotineiro das Ave-Marias, ao que o papa respondeu, para que serve o Rosário se não para nos distrairmos?

Ao ser uma oração contemplativa, a recitação repetitiva de Ave-marias no Rosário tem a mesma função que os mantras na espiritualidade Budista; ocupam a mente impedindo que esta salte de um pensamento para outro, permitindo e facilitando a contemplação dos mistérios da vida do senhor.

A finalidade, portanto, não é colocar a nossa atenção em cada Ave-Maria e Pai-Nosso que rezamos, mas sim ocupar a mente com estas orações como se tratassem de mantras e saltar assim para a contemplação do divino.

O Rosário e Fátima
Nas aparições de Fátima, Nossa Senhora pediu aos pastorinhos que rezassem o Rosário todos os dias, não numa ou duas aparições, mas em todas as ocorridas em de 1917, assim como nas que ocorreram em Tuy e Pontevedra à irmã Lúcia. Porquê o Rosário, pergunta-se esta, por ser uma oração acessível a todos, pequenos e grandes sábios e ignorantes.

Naquela região, e um pouco por todo o Portugal, a recitação do Rosário era parte integrante dos serões da província, antes ou depois da Ceia ao calor da lareira, o pai ou a mãe lideravam a reza e ninguém pedia a bênção do pai e da mãe e se ia deitar antes de terminar mesmo que o sono já fizesse cair as cabeças.

Família que reza unida mantêm-se unida; a Televisão qual cavalo de Troia veio perturbar a candura e harmonia do lar e o terço foi substituído pelas telenovelas. Talvez esta seja uma das razões pela qual, somos um dos países com uma das mais altas taxas de divorcio, 70%.

Os pastorinhos que já rezavam o Rosário, mas apressadamente, passaram a reza-lo como a Senhora queria. Em especial o Francisco a quem a Senhora disse que tinha de rezar muitos terços para ir para o Céu.

Com efeito o terço identificou Francisco na sua vida pois havia dias que rezava dez terços, e também identificou as suas ossadas quando o seu corpo foi exumado. Entre tantas ossadas enterradas na mesma sepultura comum, o Ti Marto, pai de Francisco, identifico os ossos do seu filho pois agarrado a eles estava o Rosário ainda intacto que o Francisco usava.

Penitência e oração pedia Maria em Fátima tanto por nós como pelos outros. O Rosário catapulta-nos para a contemplação do Mistério de Deus, sobretudo do Verbo incarnado. Por isso, meditando ou não meditando, distraídos ou não, os que amam profundamente o Rosário e não podem deixar passar um dia sem o recitar, são, “ipso facto”, verdadeiramente pessoas de oração.
Pe. Jorge Amaro, IMC
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1 de novembro de 2017

Fátima: A Oração como Missão

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A Penitência e a Oração são o cerne da mensagem e espiritualidade de Fátima. O objetivo principal da Penitência e Oração, que Maria pede aos pastorinhos em Fátima, não é o aperfeiçoamento pessoal. A Nossa Senhora não exorta as três crianças a fazerem sacrifícios e a rezar pela sua santificação pessoal; por isso, espiritualidade de Fátima não é uma espiritualidade egocêntrica, ou seja, um conjunto de praticas espirituais que têm como objetivo o benefício, ou perfeição de quem as pratica; não é por isso comparável à ascética dos monges, que sim tem como finalidade a santificação, a mística e a visão beatifica.

Muito pelo contrário, tanto a penitência como a oração que Maria pede aos pastorinhos, têm um fim muito concreto e específico: a da conversão dos “pobres pecadores” e o desagravo do Sagrado Coração de Jesus e do Coração Imaculado de Maria; é, portanto, uma espiritualidade “altruísta”.

É certo que nestas práticas os pastorinhos se santificaram, mas não as praticaram para se santificar, mas sim para contribuir ao bem espiritual de outros. Não foi para salvar-se que as praticaram, mas sim para salvar os outros. Neste sentido tanto a sua oração pessoal como a sua penitência eram o seu contributo para a missão universal de salvação.

Até quando os pastorinhos resolveram não pecar mais, a razão fundamental que os levou a esta resolução não foi o ser santos, mas sim para não ofenderem mais a Nosso Senhor; ou seja, até no evitar o pecado, o objetivo é altruísta; os pastorinhos não pecaram por amor a Deus. Os videntes nunca fizeram nada cujo objetivo fosse a santidade.

A oração de intercessão
Abraão aproximou-se e disse: «E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? Talvez haja cinquenta justos na cidade; matá-los-ás a todos? Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir? (…) Se encontrar em Sodoma cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles. Génesis 18, 23-33

E acontecia que, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec. Êxodo 17, 11

Os dois grandes patriarcas da nossa fé, Abraão e Moisés, experimentaram o valor e a eficácia da oração de intercessão a Deus pelo povo. Mais tarde cabe aos sacerdotes, descendentes de Aarão, esta tarefa de pedir a Deus pelo bem-estar do povo. A sociedade medieval cristã estava dividida em classes e cada classe tinha uma tarefa específica; os nobres defendiam o clero e o povo, o clero intercedia pelos nobres e pelo povo, e o povo sustentava materialmente o clero e os nobres.

Hoje a oração não é tarefa exclusiva de uma classe de pessoas, mas todos estão chamados a rezar. A oração não é só um meio para expressarmos o nosso amor a Deus. De facto, a oração tanto expressa o nosso amor a Deus como o nosso amor ao próximo, quando rezamos por ele. A oração pode ser a nossa resposta a Deus, que nos pergunta onde está o teu irmão (Génesis 4,9). Ao contrário de Caim devemos sentir-nos guardiães do nosso irmão, preocuparmo-nos por ele, querer o seu bem, atuar em seu favor, não só nas obras, mas também na oração, intercedendo por ele a Quem lhe pode fazer mais bem do que eu, especialmente onde eu não posso chegar.

A oração do Pai “Nosso” e da Ave Maria, assim como a maior parte das orações, nunca excluem os outros; podemos rezá-las na privacidade do nosso quarto e no íntimo do nosso coração, os outros estão sempre lá, pois a Deus nos dirigimos em plural como comunidade; e o que quer que peçamos, nestas ou noutras orações, não o pedimos para nós somente, mas para a toda a comunidade dos crentes.

O capitulo 17 do Evangelho de São João apresenta a chamada oração sacerdotal, que é a oração mais longa de toda a bíblia. Na segunda e a terceira parte dessa oração Jesus pede ao Pai pelos seus discípulos e depois por todos os crentes; ponto importante nesta oração é a unidade entre todos; é nesta unidade de sermos todos membros do corpo místico de Cristo que assenta a oração de interseção. 

A comunhão dos santos é uma crença muito querida do catolicismo; esta consta da solidariedade que se estabelece entre todos os batizados, vivam eles no espaço e no tempo, ou para além destes, no purgatório ou no seio de Deus. É com base nesta comunhão que o povo português tem um afeto especial em rezar e oferecer o sacrifício da Eucaristia pelas almas mais abandonadas do purgatório; aqueles que não têm ninguém que interceda por elas.

Quando já tinha decidido não ir hoje a cortar o cabelo, comecei a escutar com insistência uma voz no meu interior que me dizia que tinha de ir; como eu recusava a voz fez-se cada vez mais insistente até ser uma obsessão. Decidi então aceder e fui. Ao entrar o barbeiro surpreendeu-me dizendo estava agora mesmo a rezar para que o senhor viesse hoje.

"... A oração é o complemento mais eficaz depois da medicina tradicional, superando a acupuntura, ervas, vitaminas e outros remédios alternativos." Washington Post, March 24, 2006

É difícil quantificar a eficácia da oração; nas aparições de Fátima são muitas as intenções que Lúcia apresenta à Senhora e ela mesmo respondia que algumas as satisfazia outras não. Ante esta realidade, só temos uma certeza que é mais fácil que os nossos pedidos sejam atendidos se os formulamos que se não os formulamos. No entanto, quer os nossos pedidos sejam atendidos quer não, é a vontade de Deus que se cumpre; uma vontade que devemos aceitar incondicionalmente, porque Deus, porque é Pai, sabe, muito mais que nós, o que nos convém e verdadeiramente nos faz falta

Mateus 5, 44 - Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; - Até o inimigo deixa de ser inimigo quando tenho a coragem de rezar por ele como o evangelho nos manda. É de facto algo misterioso que todos podemos experimentar; no momento em que conseguimos rezar pelos que nos querem mal, cessa o nosso ódio por eles.

Francisco e Jacinta reparadores da humanidade
No Verão de 1916, enquanto os três brincavam no quintal da casa da Lúcia, junto ao Poço do Arneiro o Anjo aparece-lhes e diz-lhes:
– Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

À distancia do tempo, a irmã Lúcia interpreta esta interpelação do Anjo não como uma repreensão por estarem a brincar, mas como uma chamada de atenção para algo de suprema importância, a oração. Esta chamada de atenção deve ainda ecoar nos nossos corações porque como cristãos perdemos o tempo em mil e uma coisa, como a Marta do Evangelho, e não escolhemos o mais importante… sentar-se, parar no meio do frenesi dos nossos dias e como Maria, a irmã de Marta, dirigir-nos a Ele que é tudo em todos.

Os pastorinhos responderam fielmente à chamada de atenção do Anjo e um ano depois às exortações da Senhora, em rezar e oferecer sacrifícios, de tudo o que podiam, como lhes tinha sugerido o Anjo, pela conversão dos pecadores. Tomaram essa tarefa como uma missão, e encarnaram-na em conformidade com a sua personalidades e carácter:

Jacinta sendo emocional, e sem descuidar a oração, sobretudo a eucarística ao Jesus escondido, era mais dada aos sacrifícios, pois tinha muita pena dos pecadores, queria salvar quantos mais melhor. Francisco como era mais instintivo, sem descuidar como a irmã os sacrifícios, era mais dado à oração; estava particularmente sensibilizado pela tristeza de Jesus e passava horas e horas a sós com Ele para o consolar.

Oração & Sacrifício é um binómio inseparável, como a teoria e a praxis. Rezar sem fazer sacrifícios é comparável aquela personagem do Evangelho que diz “Senhor, Senhor”, mas nada faz para encarnar a Palavra, ou seja pô-la em pratica (Mateus 7,21).

Por outro lado, o sacrifício sem oração não seria cristão; por isso mais tarde a Virgem Maria ensina aos pastorinhos uma oração que deve acompanhar todos os sacrifícios que fazem: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria".

Usando uma carta dos correios como alegoria para explicar a relação entre o sacrifício e a oração, o sacrifício é o texto da carta, a oração é o envelope onde está escrita a direção à qual é dirigida a carta, neste caso a Deus para interceder pelos “pobres pecadores”.

Francisco consolador do Senhor
Um dia a Lúcia perguntou a Francisco:
– Francisco, por que não me dizes para rezar contigo e mais a Jacinta?
– Gosto mais – respondia – de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor que está tão triste.
Um dia, perguntei-lhe:
– Francisco, tu, de que gostas mais: de consolar a Nosso Senhor ou converter os pecadores, para que não (vão) fossem mais almas para o inferno?
– Gostava mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora, ainda no último mês, se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor e depois converter os pecadores, para que não O ofendessem mais.

Francisco reconhece simultaneamente a transcendência de Deus e o júbilo pela sua presença. Confessa: «do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!». Francisco Sente-se «a arder, naquela luz que é Deus [...]. e afirma Como é Deus! Não se pode dizer!».

É esta união com Deus que o faz perceber a dor que lhe provocam as ofensas humanas. Dá-lhe pena por «Ele estar tão triste» e, por isso, brota nele a resposta enternecedora: «Se eu O pudesse consolar! ( Cfr. Conferencia episcopal Portuguesa 2017)

Será talvez a parte mais contemplativa da mensagem de Fátima. Francisco era de facto um contemplativo, afastava-se dos outros companheiros, teria vocação de monge se tivesse vivido. No entanto a contemplação que faz a sua oração, de manhãs inteiras na igreja de Fátima diante do Jesus escondido, enquanto Jacinta e Lúcia iam à escola, não era para se sentir bem na companhia de Deus, mas sim para consolar Jesus triste pelas ofensas dos pecadores.

Devoção ao Imaculado Coração de Maria
… A Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. [A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono].

O mundo moderno frio e tecnológico é pouco dado aos símbolos. Para melhor entendermos o que significam o Coração de Jesus e o Coração de Maria, é de ajuda que nos adentremos no mundo da poesia.  Todos conhecemos a expressão de “falar com o coração na mão” que segundo o dicionário significa: Estar muito aflito, muito angustiado, preocupado ou nervoso com alguma assunto ou alguma situação. Pois assim se apresentam o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria; angustiados e preocupados pela situação da humanidade.

No sentido bíblico, e também na mensagem de Fátima, o coração não é somente o músculo de forma arredondada, que coloca o sangue em movimento, mas também o símbolo do mais íntimo do homem, onde se conjugam os pensamentos, os afetos e a vontade.

O Sagrado Coração de Jesus – A imagem de Jesus, com o coração diante do peito e às vezes na mão, quer ser uma representação gráfica para deixar bem patente, o quanto Jesus nos amou nos homens do seu tempo a ponto de sofrer e dar a vida por eles, seus amigos e pela humanidade inteira neles representada. A devoção a esta imagem tem inspirado a cristandade desde as aparições a Sta. Margarida em 1675. Estas visões não estão descabidas de sentido histórico e bíblico se pensamos que verdadeiramente foi o soldado que abriu o peito de Jesus e nos mostrou o seu coração.

O Imaculado Coração de Maria – A imagem de Maria, representada como a de Jesus com o coração diante do peito, significa o amor e dedicação e padecimento pelo seu filho desde a sua conceção até à morte na cruz; já crucificado e antes de morrer, Jesus entrega-nos a sua mãe como nossa mãe, começando assim a paixão Desta pelos irmãos do seu filho.

A virgem Maria comunica aos pastorinhos em Fátima que o seu filho quer estabelecer esta devoção na terra, sendo também esta uma das razões pela qual a Lúcia ficaria ainda algum tempo em vida. Também esta imagem não está descabida de sentido histórico e bíblico se pensamos no vaticínio do velho Simeão em relação à Virgem Maria: “uma espada atravessará a tua alma”.

Amor com amor se paga” – A devoção ao coração de Jesus, como ao Coração Imaculado de Maria, como todas as devoções e atos de amor a Deus não se justificam pelo facto de que Deus precise deles. Somos nós os que precisamos, pelo facto de que só quando nos abrimos ao amor de Deus é que o amor de Deus produz frutos na nossa vida.

Enquanto permanecemos de costas voltadas para Deus, o seu amor, que não cessa nunca, não produz nenhum efeito nas nossas vidas. Por outro lado, não é possível ao mesmo tempo estar abertos ao amor de Deus sem o amar, por isso o provérbio faz todo sentido; Deus precisa do nosso amor para nos amar. Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. João 14,23

O Imaculado Coração de Maria é medianeiro de todas as graças; foi este coração, imaculado por ter sido concebido sem pecado, que acedeu ao plano de Deus, concebendo o Seu filho para salvação da humanidade. Por ser medianeira da Graça primigénia que é Cristo, também em graças menores, Maria é sempre medianeira entre a Terra e o Ceu.

Por isso, Jacinta fervente devota do coração Imaculado de Maria, exorta a sua prima Lúcia que propague essa devoção que por essa razão fica mais algum tempo em vida:

Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no Mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas. Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria; que Ihas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria, que Deus Lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria…
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de outubro de 2017

Fátima: O Sacrificio como Missão

4 comentários:
– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos!
– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Tema central da mensagem de Fátima
Na primeira aparição, logo após as apresentações e a petição aos pastorinhos de virem ali nos seis meses seguintes, a Nossa Senhora perguntou-lhes se queriam oferecer-se a si mesmos pela salvação dos pecadores.

Fátima faz-se eco da forma como a comunidade cristã interpretou a morte de Jesus o qual se ofereceu como cordeiro sem mancha para expiar os pecados da humanidade. Jesus não deu por nós a vida só no ato da sua morte, toda a sua vida foi uma vida para os outros; veio para servir e não para ser servido (Marcos 10, 45). Jesus na sua vida combateu o pecado e o mal nas suas mais variadas formas; ao fim foi o mesmo pecado que o matou; morreu não só pelos nossos pecados, mas também a causa do nosso pecado.

Jesus lutou contra o pecado da mesma forma que o nosso corpo luta contra a doença. Quando uma bactéria ou vírus invade o nosso corpo, um glóbulo branco chamado neutrófilo persegue estes invasores depois dos anticorpos os terem identificado e marcado para serem destruídos. Por um processo chamado fagocitose, o neutrófilo captura e devora o invasor e morre. Também Jesus assumiu o pecado da humanidade, morrendo neste mesmo processo, mas salvando a humanidade da morte eterna

O que Maria pede aos pastorinhos é a solidariedade e participação na paixão de Cristo no seu ato único de reparação dos pecados da humanidade. A participação no mistério da redenção de Cristo com o nosso sacrifício voluntário, de sujeitos passivos e alheios, faz-nos proactivos em relação não só à nossa salvação como à salvação dos outros.

Este tema central da mensagem de Fátima é também o mais difícil de entender nos nossos dias. Mas tal como Maria em Lourdes veio reafirmar o dogma da Imaculada Conceição, em Fátima vem reafirmar a teologia, para muitos obsoleta e retrograda, da expiação e reparação. Mas como pode uma pessoa reparar os próprios pecados e os pecados dos outros?

Jesus morreu para expiar os pecados da humanidade
O salário do pecado é a morte (Romanos 6,23) – É a ordem das coisas, não há atos inócuos ou neutros; o que não promove a vida, leva à morte. O bem promove a vida o mal leva à morte como consequência lógica, esta é uma verdade irrefutável. Vemos prova disso em cada má ação que praticamos; como diz o provérbio, “o mal fica com quem o pratica”; o castigo acompanha a má ação como o anexo acompanha o email.

Não há obra má que pratiquemos que não seja sucedida por um castigo, que não provém de Deus, mas sim da mesma ordem das coisas, como consequência logica da má ação praticada. Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nem perdoa nem esquece; o mal que fazemos contra a nossa natureza humana ou contra a natureza do planeta paga-se e bem caro.

Se Jesus de Nazaré só fosse um profeta e nada mais, a sua morte seria vista como a morte individual do justo. Mas como Jesus, para além de ser verdadeiro homem é também verdadeiro Deus, a sua morte já não pode ser interpretada ou vista como um acontecimento meramente pessoal, mas sim um acontecimento que tem repercussões na humanidade por Ele criada e Nele representada. Como Jesus ressuscitou, a sua morte serviu para matar a morte; aquela morte eterna à qual a humanidade estava abocada.

Jesus morreu pelos nossos pecados, no sentido de que foram os nossos pecados que o mataram; mas como Jesus não permaneceu morto, mas ressuscitou, os nossos pecados mataram-se a si mesmos; a sua morte foi, portanto, o fim da morte como consequência do pecado.

Deus não pode negar a ordem das coisas por Ele criadas; como vimos acima, pertence a essa ordem das coisas que com o pecado vai o castigo e o castigo é a morte. Sem a intervenção divina, seriamos com um comboio sem freios que corre para um destino mortal irreversível.

João 15, 3 - Sem mim nada podeis fazer - Se pelas nossas próprias forças fossemos capazes de nos salvar, não teria sido necessária a vinda de Cristo ao mundo. O pecado colocou-nos no fundo de um poço sem possibilidade de sair; em areias movediças nas quais quanto mais nos movemos mais nos enterramos; em buraco feito no gelo estaladiço que cobre a água de um lago, que parte quando nos apoiamos nele. Do mal e do pecado não podemos sair sozinhos.

João 1.29 – Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. –  João Batista que apesar de ser filho de sacerdote atua fora do sistema sacrificial do templo oferecendo o perdão dos pecados por intermédio de um batismo de purificação, aponta a Jesus como sendo o verdadeiro cordeiro de Deus que vem substituir o sacrifício de cordeiros do Templo de Jerusalém. Só quem não tem pecado, pode pagar pelos pecados dos outros.

O sacrifício de Cristo é um sacrifício perfeito porque ele mesmo é o sacerdote, a vítima, o altar e o Templo onde se oferece. Se algo é perfeito não pode ser igualável pelo que o sacrifício de Cristo, e só o sacrifício de Cristo é suficiente para pagar pelos pecados de toda a humanidade presente passada e futura.

No sacrifício de Cristo, a justiça de Deus, a ordem natural das coisas é satisfeita; alguém pagou o preço do pecado que é a morte; por outro lado também é satisfeita a bondade, a graça e o amor de Deus pois não fomos nós que pagámos mas sim o seu filho.

Associar-se ao sacrifício de Cristo
Misteriosa solidariedade - Tanto somos solidários no mal, como somos solidários no bem. A ideia de que pertencemos todos ao Corpo Místico de Cristo, não é só uma ideia piedosa, mas também científica; o ser humano vem de um tronco comum; há laços que unem toda a Humanidade desde o seu aparecimento sobre a Terra. "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade" disse, quando pôs o pé na Lua; Neil Armstrong. Não foi uma empresa de franco atirador, nem na sua execução nem no seu significado; em realidade, nele, por ele, e com ele a Humanidade chegou à Lua.

Inconsciente espiritual coletivo – Freud descobriu uma instância no interior da nossa personalidade chamada - inconsciente, constituído pelo que foi vivido experimentado, recalcado, escondido, esquecido, nos primeiros anos da nossa vida quando ainda não eramos conscientes de nós mesmos. Este material influencia o nosso pensar, sentir e atuar de uma forma automática e fora do nosso controle; às vezes aflora à consciência em forma de linguagem corporal, lapsus linguae, e em especial em sonhos.

Para além deste inconsciente individual, a um nível ainda mais profundo, Jung, discípulo de Freud, defende que existe um inconsciente coletivo. O material que o constitui, já não tem que ver com as minhas vivências individuais, mas sim com o que a humanidade como um todo viveu.

Cada uma das nossas obras entra a formar parte de uma base de dados coletiva de tal forma que qualquer individuo da espécie humana está, à nascença capacitado para fazer os atos mais heroicos que já foram feitos assim como os mais criminosos e deploráveis, sem precisar de nenhuma aprendizagem. Desta forma o individual influência o coletivo e o coletivo influência o individual.

Efeito borboleta - Pequenas e até irrisórias causas podem ter grandes efeitos ou consequências. Os efeitos de um grande furacão que aqui se faz sentir podem ter sido causados pelo esvoaçar de uma borboleta milhares de quilómetros de aqui, que ao perturbar o equilíbrio, fez cair a primeira peça do efeito dominó. Assim se explicam também as grandes avalanches de neve que sepultam casas e aldeias.

Na vida humana não há atos inócuos, neutros e sem consequências que não tenham tarde ou cedo repercussões, positivas ou negativas, no resto da humanidade, consoante o ato seja positivo ou negativo. 

Mateus 16:24 - Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; - Todo sacrifício é imolação do nosso Ego tudo o que fazemos pelos outros todo é altruísmo, é um sacrifício do ego. Só negando o meu ego posso eu afirmar o outro, o alter ego. Depois do sacrifício de Cristo os sacrifícios que valem aos olhos de Deus não são o dom de algo que me pertence, como eram os sacrifícios da antiga lei, a imolação de cordeiros e cabritos, mas sim a imolação de mim mesmo.

Tertuliano 197 DC - O sangue de mártires é semente de cristãos – pelo martírio o cristão configura a sua vida a Cristo de uma forma quase absoluta, pelo que é via direta para o Reino de Deus. Por outro lado, não só ganha ele individualmente, a Igreja também ganha, pelo seu testemunho em repetir, renovar e atualizar na sua vida a paixão de Cristo no aqui e agora da história. É sobretudo edificante e encorajante para os novos cristãos, para os que ainda estão num processo de conversão a Cristo.

Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja. Colossenses 1, 24

Este é o texto que tem sido citado para dar fundamento bíblico à prática pedida por Nossa Senhora logo na primeira aparição, de oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores. É preciso deixar bem claro que os nossos sacrifícios não têm o valor redentor do sacrifício de Cristo, nem aumentam a sua eficácia. Portanto, e neste sentido, nada falta ao sacrifício de Cristo que foi perfeito e a perfeição não é aperfeiçoável.

As nossas aflições individuais, a nossa cruz, o sofrimento com que a vida nos depara, pode ser vivido com sentido ou sem sentido. O cristão que em todos os aspetos da sua vida vê em Cristo o caminho a verdade e a vida configurando a sua vida à Dele, associa também o seu sofrimento ao Dele. Os apóstolos ficaram contentes quando começaram a sofrer por Cristo. Atos 5,41

Associando os nossos sofrimentos aos de Cristo estamos-lhe a dar um sentido, pelo que serão mais fáceis de suportar, e um bom uso pois damos-lhe um valor redentor. O ponto principal é que nossos sofrimentos não são desperdiçados se podemos juntá-los ao sacrifício de Cristo; Eles se tornam de grande valor.

O inferno evita-se com o purgatório
O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: "Penitência, Penitência, Penitência!" (Terceira parte do segredo)

São as palavras do anjo com a espada de fogo. A Nossa Senhora mostra aos pastorinhos o inferno como possibilidade na outra vida e o inferno em que se tinha tornado mundo no século XX. Para evitar tanto um como o outro a alternativa é a penitência. O inferno evita-se com o purgatório tanto nesta vida como na outra; de facto na tradição católica o purgatório está entre o Céu e o inferno.

Cristo expiou pelos nossos pecados, pelo que nós não precisamos já de expiar por eles; por outro lado Deus perdoa e esquece, para quê então o purgatório? Somos nós que não perdoamos e esquecemos nem aos outros nem a nós mesmos; o purgatório é uma exigência da nossa natureza. Vemos isso no Evangelho no episódio da conversão de Zaqueu:

…”de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.». (Lucas 19,8) Jesus já tinha perdoado a Zaqueu não lhe exigiu nada como preço desse perdão; o que Zaqueu ofereceu como expiação foi da sua livre vontade e como consequência da sua conversão e de ter obtido perdão, e não como requisito desta.

“Pænitemini et credite evangelioArrependei-vos e acreditai no evangelho - (Mc 1, 15). A penitência, o sacrifício faz parte do processo de conversão, como o deserto medeia entre o Egito do Pecado e a Terra Prometida da Graça. Quanto mais puros vamos desta vida, menos purgatório precisamos na outra vida. O purgatório pode ser já feito aqui e agora. Tanto se é feito aqui ou na outra vida a bem-aventurança permanece válida: Só os puros de coração verão a Deus.

Sobre a natureza do fogo purificador a irmã Lúcia diz anos mais tarde, que não se trata de um fogo físico sustentado por qualquer combustível, mas sim do fogo do amor divino comunicado por Deus às almas. Diz ainda que um ato perfeito de amor como por exemplo o martírio, leva a pessoa diretamente ao céu pois purifica de imediato todos os pecados até ali cometidos.

Jacinta a boa pastora
Um dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.
– Jacinta – perguntei-lhe – para que vais aí, no meio das ovelhas?
– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.

Jacinta encarna o aspeto sacrificial da mensagem de Fátima; ela a seu modo imita Jesus bom pastor, que se preocupa e busca a ovelha perdida, e depois a traz aos ombros de volta ao rebanho. Muitos foram os sacrifícios que Jacinta ofereceu pelos pecadores durante os três anos que se sucederam às aparições. E quando, já na cama estava a viver a sua paixão, a Nossa Senhora perguntou-lhe se ainda queria sofrer mais para converter mais pecadores, ela respondeu que sim. Como Cristo bom Pastor, ela a pequena pastorinha também deu a vida pelas ovelhas do Senhor.

A visão do inferno afetou de tal maneira a Jacinta que mesmo a brincar não deixava de se interrogar e perguntar à Lúcia: E se a gente rezar muito por os pecadores, Nosso Senhor livra-os de lá? E com os sacrifícios também? Coitadinhos! Havemos de rezar e fazer muitos sacrifícios por eles!

A expressão, pobres pecadores foi cunhada em Fátima; sempre que se fala de pecadores, a mensagem de Fátima refere-se aos pecadores como pobres que tem o mesmo sentido afetivo de “coitadinhos” usado por Jacinta. Os pecadores são tratados com afeto, pelo Anjo na oração à Santíssima Trindade, por Maria depois da visão do Inferno e pelos mesmos pastorinhos.

Jacinta, a mais sentimental dos três, é a que melhor espelha a misericórdia e a solicitude amorosa de Deus pelos pecadores que percorre os dois Testamentos da Bíblia: Porventura me hei-de comprazer com a morte do pecador - oráculo do Senhor Deus - e não com o facto de ele se converter e viver? Ezequiel 18,23.

Em Jesus de Nazaré, a misericórdia de Deus encarna-se em ações concretas; Jesus, ao contrário dos fariseus que os criticavam e fugiam deles, com medo a serem contaminados, buscava a sua companhia, tocava-os, curava-os e comia com eles e por fim entregou-se por eles como vitima imolada sendo comida na eucaristia e na cruz, corpo entregado e sangue derramado.

Os pastorinhos em especial Jacinta na sua curta vida e Lúcia na sua longa vida entenderam e  associaram os seus sacrifícios à paixão de Cristo fazendo-se eco desta mesma, dando-lhes aqueles um sentido e uma utilidade, para atualizar ou sublinhar no aqui e agora a paixão de Cristo redentora da humanidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2017

Fátima: As orações da Nossa Senhora

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Foram três as orações que os três pastorinhos aprenderam de Maria; simples e fáceis de memorizar, elas encerram em si toda a mensagem de Fátima. Por isso, ao repeti-las pessoalmente no nosso íntimo, ou liturgicamente em comunidade, transformam-se no sacramento da mensagem de Fátima, porque a evocam e representam. Portanto, como estas três orações contêm em si a mensagem, a sua recitação não só nos faz recordar a mensagem como também nos exorta a vivê-la

A primeira oração mais uma vez, depois da aparição do anjo, refere-se ao mistério da Santíssima Trindade. As aparições de Fátima começam com a Trindade e encerram com a Trindade. Maria revela aos pastorinhos a identidade de Deus uno e trino, um só Deus em três pessoas distintas. Ao contrário das outras duas orações, esta. não foi ensinada diretamente pela Nossa Senhora;
Mas sim inspirada pelo Espirito Santo, e recitada pelas crianças de uma forma quase autómata pelas crianças diante de Senhora.

A segunda oração é uma oração sacrificial, ou seja, a aplicação prática de uma parte da mensagem de Fátima - a penitência, que no contexto da mensagem de Fátima significa oferecimento de nós mesmos pelos outros, pela conversão dos pecadores.

A terceira oração é a mais conhecida universalmente pois é repetida por todos os católicos que rezam o terço entre mistério e mistério. Pede pela salvação universal em especial por aqueles que estão mais longe dela.

1ª Oração comunicada aos videntes num impulso íntimo
… Abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:

Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento.

E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: «Abbá! - Pai!» Gálatas, 4, 6 – As crianças viram-se em Deus e em Deus viram, ao mesmo tempo, a Sua identidade como sendo Uno e Trino assim como a identidade deles mesmos, dos pastorinhos como sendo filhos queridos de Deus. Inundados pela luz de Deus, são guiados e inspirados pelo Espírito que, como diz São Paulo aos Gálatas, dentro do íntimo das três crianças grita “Abbá Pai! – Ó Santíssima Trindade!…”. Como diz ainda o apostolo aos Romanos (8,16) Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus.

Neste momento, e logo na primeira aparição os pastorinhos tiveram a visão beatifica de Deus como Uno e Trino e eles mesmos, dentro dessa luz, como filhos adotivos de Deus Pai. No alto do monte, a serra de Aire, naquele momento de transfiguração, não podemos esquecer que eram três as crianças e que ao analisarmos o carácter e personalidade de cada uma delas nos damos conta que cada uma pertence a um centro diferente; Lúcia é cerebral, Jacinta é emocional e Francisco visceral ou instintivo; pelo que podemos concluir que, naquele encontro, encontra-se a trindade humana com a Trindade divina; ou seja a natureza humana nas três personalidades básicas em que se revela, com a natureza divina nas três pessoas em que é constituída.

Esta oração é ao mesmo tempo trinitária e eucarística; é impressionante como da visão beatifica que os pastorinhos sentiram imersos na luz de Deus, imediatamente passam para a adoração, para o amor do Santíssimo sacramento da Eucaristia, ou seja, da revelação celestial, passam para a encarnação histórica de Deus, há dois mil anos, em Jesus de Nazaré e a Sua presença sacramental na hóstia consagrada, no aqui e agora das nossas vidas.

Disse-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, 'mostra-nos o Pai'? João 14, 8-10

A oração implica que na adoração do Santíssimo sacramento adoramos também a Santíssima Trindade. Quem vê a Jesus vê o Pai, e quem ama o Filho ama o Pai. A oração do cristão é portanto sempre uma oração Trinitária. O Santíssimo Sacramento é não só a representação do sacrifício do Filho, mas também o do Pai que no-lo enviou e entregou, como parece sugerir uma imagem muito popular de Deus Pai e o Espirito Santo, representado pela pomba, por detrás da cruz onde está crucificado Cristo.

2ª Ó Jesus, é por Vosso amor,
– Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial quando fizerdes alguns sacrifícios: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria". Ao dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um grande mar de fogo.

Penitência e oração é o resumo da mensagem de Fátima; já falamos do tema da oração concentrado na oração Trinitária e Eucarística, falamos agora da segunda parte da mensagem a penitência que, tal como a oração, é mencionado em todas as aparições. Como Jesus deu a vida pelos seus amigos, como Jesus se ofereceu, pela salvação do mundo, quereis também vós, pergunta a Nossa Senhora aos pastorinhos, oferecer-vos, associar-vos ao sacrifício do meu filho, fazer-vos eco, neste ano de 1917, do sacrifício ocorrido há quase dois mil anos? As crianças disseram logo que sim.

É uma oração insólita porque é subtilmente inteligente; não é uma oração contemplativa como a que já comentamos, mas uma oração que vem da prática, supõe a prática aliás, é uma oração para recitar exclusivamente depois dessa praxis; neste sentido, não é uma oração para todos recitarem e em qualquer situação, mas só para alguns e após uma prática muito concreta.

Como diz a Senhora esta oração é para ser recitada antes, durante e depois de cada sacrifício oferecido. Esta oração é a varinha de condão que transforma uma contrariedade normal da vida num sacrifício oferecido a Deus. Esta oração acrescenta uma mais valia, um valor acrescentado, um juro às vicissitudes do dia a dia, dá-lhes um sentido, uma motivação. Transforma cada uma das nossas dores no ato de abraçar a cruz de Cristo pelo bem da humanidade.

«Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Lucas 9,23
Por isso esta oração não é para ser usada no culto nem na liturgia; não é para ser recitada na Igreja ou no contexto de união íntima com o Senhor; é, ao contrário, uma oração recitada na vida e para a vida. É uma exortação a abraçar cada contrariedade da vida, transformando-o com e, por intermédio desta oração, num “Sacrifício agradável a Deus”; é também, por outro lado uma aplicação prática do evangelho de Lucas.

Sofrer com razão e motivação, custa bastante menos que sofrer sem sentido. Por isso ao oferecermos a Deus os sacrifícios com os quais a vida nos depara, acabamos por sofrer menos. Encontramos conforto no mesmo sacrifício ao sabermos que vai fazer bem a alguém.

Depois de comprometidos com Maria, de se oferecerem a Deus suportando todos os sofrimentos e contrariedades inerentes à vida, e em especial aqueles como consequência de serem testemunhas do eco do Evangelho em Fátima, os pastorinhos não perdiam nenhuma ocasião de se sacrificarem pela conversão dos pecadores.

Se um se esquecia o outro lembrava; estando na prisão de Ourém, terminado o Terço, a Jacinta voltou para junto da janela a chorar.
 – Jacinta, então tu não queres oferecer este sacrifício a Nosso Senhor? – Ihe perguntei.
– Quero; mas lembro-me de minha mãe e choro sem querer.

Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados. Romanos 8,17

Como diz São Paulo, se somos filhos, somos irmãos do Senhor e co-herdeiros, da herança eterna. Se partilhamos da glória do Senhor também devemos partilhar dos meios que levaram a Cristo à sua glória, o sofrimento. Como toda relação de amizade é preciso estar às duras e às maduras, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. “Quem se obriga a amar obriga-se a padecer” diz o proverbio.

 3ª Ó meu Jesus, perdoai-nos…
Quando rezais o Terço, dizei depois de cada mistério: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem"… (da vossa misericórdia)

Por fim a oração que a Virgem Maria nos disse que incluíssemos entre mistério e mistério. A oração foi precedida da visão do inferno, que deve permanecer na nossa consciência como possibilidade de condenação.

... perdoai-nos… – a Bíblia diz-nos que o homem justo peca sete vezes por dia, que é o mesmo que dizer que ninguém é justo diante de Deus. Somos todos pecadores, e quem afirma não ter nenhum pecado é um mentiroso, como diz a Bíblia. Assim sendo, sempre que nos colocamos diante de Deus sem qualquer pecado que precise de ser perdoado, não significa que não pecámos, significa simplesmente que a nossa consciência moral não está fazendo seu dever de nos acusar e apontar os nossos defeitos.
... livrai-nos do fogo do inferno – só Deus tem o poder de nos salvar da condenação eterna isto mesmo fez Ele gratuitamente pela da morte de seu filho. Na representação do inferno como um mar de fogo, a Nossa Senhora tem em conta o conceito e a imagem que as crianças tinham dele, seguindo o princípio tomista: Quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur - tudo o que é recebido, é recebido de acordo com a capacidade do receptor.

A forma como entendemos o inferno, no entanto, não é como uma tortura eterna, como parece sugerir o mar de fogo, mas como uma morte eterna e um retorno ao nada para aqueles que nada fizeram, cujas vidas se resumem a nada e nada é o que eles acreditavam que existe para além da morte.

... levai todas as almas para o céu – como sempre na mensagem de Fátima, não nos podemos ocupar e preocupar unicamente com a nossa própria salvação, mas também com a dos outros. A Espiritualidade de Fátima não é sobre perfeição pessoal mas com carinho para aqueles que levam uma vida que está errada que não leva a nenhuma parte. Sendo assim, a espiritualidade de Fátima é então uma espiritualidade missionária; oramos pelos outros e pela sua salvação.

O mesmo princípio tomista também se aplica aqui pois acreditamos na ressurreição do corpo, não só da alma. Apesar da antropologia bíblica não ser dualista, a maioria, se não todos, orações litúrgicas da Igreja retratam a natureza humana como corpo e alma, seguindo assim a antropologia grega.

... especialmente aqueles que mais precisarem da vossa misericórdia - especialmente aqueles que mais longe estão da salvação; esta sempre foi a grande preocupação de Jesus: eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento. (Lucas 5,32)
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de setembro de 2017

Fátima: As orações do Anjo

2 comentários:
Além da insistente exortação da Nossa Senhora a rezar o terço, e à pratica dos primeiros Sábados, no decorrer das aparições as crianças aprenderam orações que resumem e ilustram todos os aspetos da mensagem de Fátima. Mediante estas orações, a mensagem, de doutrina, passa a prática espiritual, quando rezadas em privado, e até a liturgia, quando rezadas em comunidade.

Aprendidas do Anjo e da Senhora do Rosário por Lúcia, Francisco e Jacinta, estas orações atualmente parte de uma tradição orante que salienta a adoração a Deus, particularmente na sua presença eucarística, e a disponibilidade do crente para o compromisso com a missão redentora de Cristo.

Tanto as ensinadas pelo anjo, como as ensinadas pela Nossa Senhora, o conteúdo das orações não versa sobre Maria, mas sim sobre o mistério de Deus e à redenção da humanidade. A Nossa Senhora em Fátima, revela desta forma, qual é o seu verdadeiro papel e lugar na história da salvação: aquele de apontar aos homens os caminhos de Deus e o de referir a Deus as necessidades dos homens. São cinco as orações de Fátima, e, como dissemos, nenhuma é dirigida a Nossa Senhora.

Doutrinalmente Fátima é a mais completa das aparições pois toca os pontos principais da teologia católica; o mistério da Santíssima Trindade que aparece já nas aparições do anjo; a Eucaristia, a oração, a penitência, a reparação, a escatologia, o ministério pontifício, a comunhão dos Santos etc..

Meu Deus, eu creio
Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. / Peço-Vos perdão para os que não creem, / não adoram, não esperam e não Vos amam.

Uma oração simples e singela, mas completa; um convite ao cristão a viver as três dimensões do tempo humano, Passado - Presente - Futuro inspirando-se nas três virtudes teologais, Fé – Esperança – Caridade.  A vida humana decorre exclusivamente no presente; um presente que quando está cheio de Caridade, inspirada no passado da dos nossos pais, torna-se em razão da Esperança que nos projeta para o futuro sem medo nem ansiedade.

A virtude da Fé: “Eu Creio” – A fé é a pedra filosofal que nos faz ver a vida e a realidade com outros olhos. A fé é um passo que damos para além do que é racional e razoável; é um risco, uma decisão, uma opção fundamental. É a chave que abre a porta da Salvação; salvação que significa Céu para o futuro, mas que no presente, no aqui e agora, se traduz em paz, felicidade, e sentir-se bem, fisicamente, espiritualmente, psicologicamente e moralmente.

A virtude da Esperança: “Espero” – A virtude teologal da Esperança é a fé projetada no futuro que confere um sentimento de segurança no momento presente. O cristão não precisa de ansiolíticos porque não tem ansiedade; perfeitamente ancorado na fé que se traduz, no presente, no aqui e agora, em caridade para com Deus e o próximo. “Quem não deve não teme” diz o proverbio; o cristão não teme porque não está em dívida com ninguém, nem com Deus, nem com os homens..

A fé também assegura os cristãos que por pior, ou melhor que seja o momento presente, tudo é passageiro e a sua é uma história com um fim feliz. O fim feliz da sua história já está assegurado na morte e Ressurreição do Senhor. Se temos a fé que nos permite acreditar que até os cabelos da nossa cabeça estão contados, como diz o evangelho, vivemos na certeza de que ainda que o momento presente possa ser de sofrimento e angustia, o melhor está para vir e a nossa história terá um fim feliz. Assim sendo, o medo e a ansiedade desaparecem e os altos e baixos da nossa vida são vividos na esperança e na fé na providencia divina e não no temor.

“Por fim o meu coração Imaculado triunfará” – Nesta fé e nesta esperança viveram os pastorinhos; em especial a Lúcia que em breve ia perder a companhia dos seus primos. Ao aperceber-se que ia ficar sozinha no mundo, a Lúcia deve ter sentido uma enorme tristeza, o que levou a Senhor a perguntar-lhe,: “E tu sofres muito por isso”? De seguida, a modo de consolo e conforto disse, “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio, e o caminho que te conduzirá a Deus”; Ou ao Céu que já lhe tinha sido prometido a ela a Jacinta e ao Francisco logo na primeira aparição.

A virtude da Caridade: Adoro… e Amo-Vos – Só vivemos no presente, inspirados no passado e confiantes no futuro. O presente da nossa vida deve ser cheio de caridade; a caridade, o amor só pode ser vivido no momento presente. “Não guardes para amanhã o que podes e deves fazer hoje”. As boas intenções não salvam ninguém, nem a nós mesmos. A caridade não pode ser projeto, mas ação no momento presente. A caridade não pode ser adiada.

Adoro - O momento presente deve ser cheio de amor a Deus. Encontrar tempo e buscar um lugar para estar com Ele, como Jesus fazia e como Francisco de Fátima também fazia isolando-se das suas companheiras, detrás de algum cabeço ou matorral, ou passando o tempo da escola na Igreja de Fátima consolando o Deus escondido.

Amo-vos – Quando amamos a Deus de todo coração como Pai, olhamos para o outro com outros olhos; já não é o nosso inimigo, o nosso rival a quem tememos ou invejamos, mas sim o nosso irmão a quem desejamos todo o bem do mundo. Neste sentido o amor a Deus não existe sem o amor ao próximo e vice-versa, por isso, para Jesus, os dois fazem parte de um único mandamento do amor.

Fátima Missionária – “Peço-Vos perdão” … Para além de exortar a vida dos cristãos nas virtudes da Fé, Esperança e Caridade, esta oração deixa bem claro que o cristão não vive para si mesmo nem sequer para a perfeição pessoal; o cristão vive para os outros, os outros são sempre parte integrante da sua vida pessoal. Daí preocupar-se com eles como se preocupava Jesus que veio para os enfermos e não para os sãos, que não criticava os maus, os pecadores, mas acolhia-os com misericórdia. Como a Jacinta quando dizia,” Coitadinhos dos pecadores” …

Peço-vos perdão - porque não evangelizei, porque não saí fora de mim mesmo, porque vivi de portas para dentro fazendo da fé um segredo a levar para a sepultura. Como dizia Karl Rahner Deus na sua infinita misericórdia salvará aqueles que sem culpa pessoal, não ouviram falar Dele, não O conheceram e, por isso, não tiveram oportunidade de encontrar-se pessoalmente com Cristo; mas salvará aqueles que tinham por dever de ir e falar-lhes Dele e de O dar a conhecer?

Neste sentido, Fátima é verdadeiramente missionária, não só por ser um apelo à evangelização, mas por obrigar os cristãos a considerarem-se pecadores por não serem missionários, e, portanto, pedirem perdão porque a sua inatividade, leva os outros a não crerem, esperarem e amarem. Este sentimento de culpa deveria levar os cristãos a ecoar na sua consciência as palavras de São Paulo, o maior evangelizador de todos os tempos: “Ai de mi se não evangelizar”.

 Peço-vos perdão –não só porque não evangelizei, mas ainda escandalizei; não só não fui um degrau para os outros se sentirem edificados e subir em direção a Ti, mas fui um escândalo, uma pedra de tropeço, um empecilho.

Na história da minha vocação como em todas as histórias de vocações, foi o conhecimento de uma pessoa que encarnava essa vocação específica que me levou a desejar ser como ele ou como ela. O mesmo se passa com a evangelização de hoje e de sempre; em primeira instância, o encontro com Cristo, nunca é um encontro com a sua doutrina, ou mesmo a sua palavra, mas sim o encontro com um dos seus seguidores, com um daqueles que encarna a sua palavra e a sua doutrina.

O encontro com aquele que se afirma cristão, nunca é neutro; se as suas atitudes, palavras e obras correspondem ao que se diz ser, ele mesmo sem querer já está a evangelizar. Ao contrario se não existe concomitância entre o que se diz ser e a sua vivência, não só não evangeliza como até escandaliza, traumatiza. E, se esta for uma primeira experiência, ou seja se este é o primeiro encontro com um cristão, já dificilmente se converterá ao cristianismo.

Em todos os sentidos e em todas as áreas as primeiras experiências são extremamente importantes. A nossa forma de viver, o nosso comportamento ou é atraente e edificante, ou é repelente e escandalizante.

Santíssima Trindade
Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, / adoro-Vos profundamente / e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, / Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, / presente em todos os sacrários da terra, / em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças / com que Ele mesmo é ofendido.
E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração / e do Coração Imaculado de Maria, / peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

O evangelho de São João tem um prólogo no qual resume, concentra, e interpreta de antemão toda a doutrina de Jesus de quem vai falar a seguir. Esta oração de alguma forma é uma “overture”, um introito à mensagem que a Virgem vai transmitir às crianças. Tudo o que ela vai comunicar, esmiuçadamente, já se encontra aqui concentrado nesta oração que o anjo ensinou e convidando as crianças a rezar com ele.

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo - Com a construção da Basílica da Santíssima Trindade, Fátima ficou completa arquitetonicamente. Possui agora uma arquitetura que é a expressão topográfica da mensagem de Fátima concentrada nesta oração de invocação da Santíssima trindade.

A Basílica da Santíssima Trindade, edificada em forma redonda simbolizando a eternidade de Deus, agora a porta entrada do Recinto correspondendo assim ao primeiro anúncio do Anjo, um ano antes da Nossa Senhora aparecer. Do lado direito temos o sacrifício de Cristo, que abriu a porta da salvação para a humanidade; popularmente chamada a Cruz alta.

No centro do recinto, como no centro da história humana, está Cristo dourado, nossa vida e nossa esperança, vivo e ressuscitado a abençoar o mundo tal como o viram as crianças na última aparição. Ao lado esquerdo está o lugar da aparição da Nossa Senhora, sempre ao lado de Jesus seu filho como esteve aos pés do seu berço e da sua cruz.

A Capelinha e o Cristo dourado são o lugar mais baixo do recinto, depois voltamos a subir para a basílica da Senhora do Rosário uma subida pronunciada. Basílica que é o uma torre apontada para o céu em forma de Senhora de Fátima como ela coroada com uma coroa dourada de glória, a mesma que espera a todos e cada um dos seus filhos se acolhemos o seu conselho nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

Em conclusão, um ano antes de a Senhora aparecer, o anjo que se apresentou como anjo da Paz e Anjo de Portugal, ensinou aos pastorinhos, uma oração evocativa da identidade Daquele que se iria revelar mais tarde por intermédio da Sua mãe, a rainha do Céu, da Terra e de Portugal.

adoro-Vos profundamente – Adorar significa submeter-se; ao adorar a Deus, todo o meu ser se submete a Ele pelo que nada há em mim que se oponha à sua vontade e aos desígnios.  É uma adoração profunda, porque brota desde as raízes do meu ser onde reconheço a minha origem em Deus, como diz o salmo 87 “todas as minhas fontes estão em ti”

e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, / Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, / presente em todos os sacrários da terra – Não se trata de recordar a Deus o ato salvífico de Cristo, ou seja, dar a vida pelos seus amigos. É o reavivar a nossa memória, pois, tal como o povo Judeu no deserto, a nossa tendência é esquecer rapidamente os prodígios e as maravilhas que o Senhor fez por nós. O sacrário é o sacramento, o recordatório das graças recebidas assim como o reservatório de graças a receber se a Ele aderimos. É, portanto, esta oração uma exortação à comunhão do corpo e Sangue do Senhor assim como à adoração eucarística

em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças / com que Ele mesmo é ofendido. – Esta adoração eucarística faz ecoar em nós e no mundo inteiro aquele supremo ato de amor de Deus pela humanidade há dois mil anos. Que o nosso amor e firme adesão ao mistério salvífico de Cristo contrabalance os ultrajes e os sacrilégios que são manifestações de ódio, dos inimigos de Cristo.

Mas pior que isto é a indiferença, a falta de amor o ignorar. Dizem que a indiferença é bem pior que o ódio. Esta indiferença é manifestada nos tempos pós-modernos pela nova forma de ateísmo chamada agnosticismo: o não querer saber, o não se importar, o “tanto se me dá como se me dê”, o viver como se Deus não existisse, o ser, o estar e viver alheio ao Seu amor por nós, o votar-lhe as costas. Quem odeia já amou e pode voltar a amar, mas o indiferente nunca amou e pode nunca vir a amar,

E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração / e do Coração Imaculado de Maria, / peço-Vos a conversão dos pobres pecadores. – Ao recordar os méritos de Cristo e de Maria sua mãe recordamos a nossa falta de mérito pela qual, como já na primeira oração ensinada pelo anjo, pedimos a conversão dos pecadores e o perdão pela falta do nosso compromisso para com esta conversão.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de setembro de 2017

Fátima: A terceira parte do Segredo à luz da profecia de Jonas

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Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado coração triunfará” Aparição de 13 de julho de 1917.

O conteúdo da terceira parte do segredo, que, por décadas, manteve o mundo em “suspense”, era, de alguma forma já conhecido, pois estava implícito nas palavras da Senhora acerca da Rússia. Era, portanto, como aqueles tesouros bem escondidos por estarem onde as pessoas menos esperam que estejam.

O terceiro segredo, como se lhe chamou, é a terceira parte de um único segredo, e não é se não uma ilustração simbólica das palavras da Nossa Senhora, para o caso de a Rússia não ser consagrada ao seu Imaculado Coração. Tudo o que o segredo diz aconteceu, até ao dia em que de facto a Rússia foi consagrada.

A profecia de Jonas
Como o segredo de Fátima era fundamentalmente uma profecia, qualquer profeta do Antigo Testamento pode oferecer-nos uma chave de leitura hermenêutica. Entre todos os profetas escolhemos Jonas porque este, mais que os outros, é um claro exemplo do que em essência é uma profecia, e que função cumpre dentro da palavra revelada.

Como sabemos, depois de alguma relutância e até manifesta oposição, Jonas foi enviado por Deus a Nínive com a profecia de que a cidade seria arrasada se não se convertessem e fizessem penitência. Como a destruição da cidade era precisamente o que Jonas queria, podemos imaginar a pouca convicção com que pregou durante os três dias que levou a atravessar a cidade. Contra todas expectativas a cidade converteu-se e não foi destruída.

A profecia de Fátima
Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! Primeira cena da terceira parte do segredo

Examinemos agora cada uma das imagens que compõem a terceira parte da profecia:

O Anjo de espada flamejante em riste – Representa o juízo final, a possibilidade de condenar-se no caso de não se converter. Como a espada suspensa de Damocles, é uma fatalidade que pode acontecer. Faz recordar o discurso de Josué no livro do Deuteronómio (30, 15) ponho ante ti a vida e a felicidade e a morte e a condenação. A possibilidade de reduzir o mundo a um monte de cinzas já não é ficção, mas pura realidade. Como hoje o homem é senhor do seu destino, é ele, portanto, que forjou a mais destruidora espada flamejante a bomba atómica.

Penitência, Penitência, Penitência! - O sentido da visão não é mostrar o que irremediavelmente vai acontecer no futuro, mas sim o que pode acontecer, e os meios para que não aconteça, é um alerta. Se o intuito desta profecia fosse revelar o destino irreversível do mundo, não faria qualquer sentido que o anjo gritasse penitência três vezes, no sentido de evitar a catástrofe. Nem faria sentido esta ou qualquer profecia se não houvesse forma de evitar o destino. Ninguém tem interesse em saber nem o dia, nem a hora, nem a forma como vai morrer; e Deus seria sadista se o revelasse.

Ao lado esquerdo de Nossa Senhora – A visão mostra-nos o poder oposto à destruição, representada na imagem esplendorosa da Virgem Maria à direita do Anjo. Representando, portanto, o anjo de espada em riste a morte, e Nossa Senhora a vida, a visão apela à nossa liberdade. Ou seja, o que vamos ver na cena seguinte, não é a irreversibilidade de um futuro que não pode ser mudado e vai acontecer tal qual está descrito, mas sim o contrário a imagem de um futuro que pode ser evitado e, portanto, não acontecer se fizermos o que nos aconselha o anjo.

O propósito da visão não é mostrar em filme um futuro irrevocavelmente fixo, mas ao contrário, orientar, iluminar e guiar a nossa liberdade e as nossas energias e recursos no sentido oposto e evitar a catástrofe. Tal como a pregação da destruição da cidade de Nínive levou os seus habitantes a fazer penitência, o mesmo pretende esta visão.

E vimos n'uma luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho;

chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus. Segunda cena da terceira parte do segredo

A cidade representa a história humana, a montanha, o caminho ascendente para a cruz, redenção para toda a humanidade. O Santo Padre, bispos sacerdotes, religiosos e religiosas e pessoas seculares, subindo uma montanha representam a Igreja na história da humanidade, no seu caminho ascendente para o Céu.  A história da salvação inserida na história da humanidade.

Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus. – É uma clara referencia ao livro do Apocalipse, 7, 14 os que vêm da grande tribulação, lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro. Salvam-se todos os que são regados pelo sangue dos mártires, em tanto em quanto que este sangue, como sempre se disse, é semente de cristãos.

Ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho - O caminhar pela história em direção a Cristo, representado pela cruz, é lento, e pelo caminho alguns vão caindo vítimas do mal. Em particular, a visão representa a via sacra de um século de perseguição e morte, que o nazismo, o fascismo e em especial o ateísmo militante moveram aos crentes. Nesta visão o papa é alvejado e morto como muitos mártires.

Quando, após a tentativa de assassínio em 13 de maio de 1981, o Papa João Paulo II na sua cama de convalescença no policlínico Gemelli pediu que lhe trouxessem o texto do segredo, era inevitável que ele não visse nele o seu destino, e um futuro que não aconteceu por um triz. E não aconteceu porque Maria não o quis; nas palavras do papa ela desviou a bala que passou a poucos milímetros de órgão vitais. Mais uma vez fica claro que o futuro não é imutável, e que a fé, a penitência e a oração podem influenciar a história, e que em definitiva a oração é mais poderosa que as balas e a fé, que move montanhas, mais poderosa que o poder destrutivo dos exércitos.

Podemos agora compreender a aflição da pobre Jacinta, que viu tudo isto sem saber qual seria o desfecho final. De certo ela fez o que o anjo, na mesma visão, a todos aconselha, penitencia e oração. De alguma maneira também ela sabia que este futuro tão negro, até mesmo a morte do papa que na visão se dá como certa, podia ser evitada com a sua oração e penitência pessoais; esta a razão pela qual nunca cessou de rezar pela Santo Padre. Se Jacinta tivesse a certeza de que o futuro, visto na visão, não podia ser evitado não teria rezado pelo papa como o fez o resto da sua vida.

Num encontro que a irmã Lúcia teve, no dia 27 de abril de 2000, com o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, aquela refere que concorda plenamente com esta interpretação oficial da Igreja, segundo a qual, a terceira parte do segredo consiste numa visão profética, comparável a outras da bíblia, cujo conteúdo consiste na perseguição movida, à Igreja e aos crentes, pelo ateísmo militante inspirado e promovido pela Rússia durante o século XX.

Também concorda com a interpretação pessoal do Papa João Paulo II: Foi uma mão materna que guiou a trajetória da bala e o Santo Padre agonizante deteve-se no limiar da morte. Continua a Lúcia: Não sabíamos o nome do Papa, Nossa Senhora não nos disse o nome do Papa. Não sabíamos se era Bento XV, Pio XII, Paulo VI ou João Paulo II, mas que era o Papa que sofria e isso fazia-nos sofrer a nós também… em especial a Jacinta que dizia muitas vezes: Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por Ele.

Já, mas ainda não…
Os acontecimentos, aos quais se refere a terceira parte do segredo, parecem ser agora parte do passado. Cardeal Sodano

O Reino dos céus está já presente no meio de nós, mas ainda não na sua plenitude, diz a teologia com respeito ao Reino de Deus e à sua presença na história da humanidade. Inspirados no Cardeal Sodano, assim como no então perfeito da Sagrada Congregação para a Fé, o Cardeal Ratzinger, podemos dizer que, por um lado, e contrariamente aos profetas da desgraça amantes de apocalipses e teorias da conspiração, esta terceira parte do segredo tal como as duas primeiras, é história.

Por outro lado, ao contrário, das duas primeiras partes do segredo, que visavam coisas concretas que não podem voltar a acontecer, a terceira parte do segredo é menos concreta e totalmente concretizável no tempo e no espaço e parece apelar a um arquétipo que se tem repetido, continuamente se repete e pode repetir; o anjo de espada flamejante está ainda aí; a liberdade humana exortada a escolher entre o caminho do bem e da vida, o mal e a morte sempre estará aí; a Igreja caminhante num mundo adverso e o martírio de alguns dos seus membros é uma realidade que se repte em todo o tempo e lugar.

Por fim, o meu Imaculado coração triunfará …
Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: Eu já venci o mundo!» João 16, 33

Um coração aberto a Deus, purificado pela penitência e oração, é mais forte que as armas e os exércitos de toda a espécie; Foi o coração de Maria purificado do pecado original no momento da sua conceição, e comprometido na anunciação do anjo com o projeto de salvação de Deus, que trouxe o redentor à humanidade. A semente desse Reino já está presente no meio de nós desde a vinda de Cristo à dois mil anos. Quando o nosso coração é purificado como o de Maria, também nós damos à luz a Cristo no nosso ser na nossa forma de viver e atuar, e desta feita fazemo-lo presente no nosso tempo e lugar, com toda a sua potência de saúde, paz e amor entre os homens.
Pe. Jorge Amaro, IMC




1 de agosto de 2017

Fátima: Segredo ou Profecia?

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Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: 'Vem lá a chuva'; e assim sucede. E quando sopra o vento sul, dizeis: 'Vai haver muito calor'; e assim acontece. Hipócritas, sabeis interpretar o aspeto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?»
Lucas 12, 54-56

Incultos como eram, os pastorinhos de Fátima, desconheciam o conceito de profecia por isso, chamaram segredo ao que a Senhora lhes comunicou sobre o futuro, assim como as duas visões que tiveram na aparição do dia 13 de julho de 1917. Portanto, o que popularmente é conhecido como “O segredo de Fátima” deve entender-se como a Profecia de Fátima. É neste sentido que o ainda Cardeal Joseph Ratzinger se referiu a Fátima, como sendo a mais profética das aparições modernas.

Profecia e sinais dos tempos
Seguindo o evangelho de Lucas, acima citado, os profetas eram pessoas que estavam bem despertos e atentos aos sinais dos tempos. Ou seja, ao presente impregnado de um futuro que já se antevia aqui e agora. Uma coisa é ver, outra coisa é interpretar e ver sinais do futuro incrustados no momento presente.

Por exemplo, muita gente ao longo dos séculos, tem visto como o vapor de uma panela de água a ferver pode atirar com o testo, e não viram mais que isso mesmo, uma panela de água a ferver; o Senhor James Watt, porém, olhou mais além do fato insignificante, e na tentativa de aproveitar o poder do vapor, construiu a máquina a vapor, que é a primeira máquina construída pelo homem.

A profecia liga o presente ao futuro - no sentido de que o futuro já dá noticia de si mesmo, e já se encontra no momento presente em forma de sinais dos tempos que só os de mente desperta podem perceber; os que olham para o mundo com olhos quem vêm por detrás e mais alem do que é obvio, e, por outro lado, estão sempre em contacto com o Senhor do Tempo: presente, passado e futuro que é Deus.

A profecia liga o futuro ao presente - no sentido de que o futuro não está irreversivelmente fixo, mas é de alguma maneira interativo e suscetível de ser mudado. de facto, o objetivo da profecia na bíblia, é alertar-nos acerca de um futuro que está nas nossas mãos evitar, pois temos liberdade e poder para o modificar e escrever a historia diferentemente. Neste sentido o futuro não é um comboio que perdeu os freios e não já há forma de o deter, mas sim um cavalo a galope perfeitamente domado cujas rédeas estão na nossa mão.

História do segredo
“O segredo da Senhora”, como as crianças lhe chamavam, consta de três partes claramente distintas; a primeira trata-se da visão do inferno, a segunda do ateísmo militante da Rússia, e a terceira de uma representação simbólica do ateísmo militante ao longo do século XX.

O segredo ou profecia, está composto por duas visões, que correspondem à primeira e a terceira parte do segredo, com um discurso intermédio da Virgem, a segunda parte, acerca do ateísmo militante da Rússia. Comunicado pela Senhora aos três pastorinhos no dia 13 de julho de 1917, literariamente o segredo foi escrito em duas épocas diferentes; a primeira e a segunda parte do segredo foram escritas no dia 31 de agosto de 1941, a terceira a 3 de janeiro de 1944.

Passaram-se, portanto, 24 e 27 anos respetivamente desde que em 1917 as crianças afirmaram pela primeira vez que eram depositárias de um segredo que não revelariam. Nos interrogatórios, aos que as crianças foram submetidas, por curiosidade que é inata à natureza humana, as perguntas sobre o segredo eram as mais repetidas. Primeiro ofereciam ouro, prata e dinheiro para as ludibriar a revelar tal segredo e quando não conseguiram seguiram-se as ameaças de morte e a tortura psicológica na prisão de Ourem. As crianças nunca cederam.

1ª Parte: Visão do inferno
Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor.

Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

A existência do inferno é um dado incontornável da nossa fé. Se arrancássemos da bíblia todas as páginas em que o inferno vem mencionado, ficaríamos sem dúvida com uma bíblia mais pequena, mas já não seria Bíblia Sagrada que relata a Palavra de Deus. Há cada vez mais teólogos, que negam a sua existência, alegando que existe só como o zero na matemática, para ajudar nas contas, em virtude de uma coerência lógica, mas que não há lá ninguém. Se há ou não há não sabemos nem nos interessa; o inferno é a possibilidade de não se salvar; é o lugar teológico do mal, assim como o Céu o lugar teológico do bem.

Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.' Lucas 16, 19-31

Na parábola do Rico e do pobre Lázaro temos uma visão do inferno que, no contexto da parábola, tem a mesma função pedagógica que a visão dos pastorinhos de Fátima. Na visão do Inferno a Nossa Senhora quis reafirmar que ele existe e que é real a possibilidade de não se salvar. A descrição pormenorizada deste, com todos os detalhes das almas a caírem lá dentro e do sofrimento das mesmas no meio do fogo, mais a presença dos demónios que tanto apavorou os pastorinhos, tem um intuito pedagógico e funciona como um alerta, para os que nesta vida não seguem a Cristo como caminho, verdade e vida.

Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma. Mateus 10, 28

Na Bíblia há duas formas de representação do inferno; o inferno como tortura eterna e o inferno como morte eterna. A visão mais comum, a que aparece mais vezes, é a do inferno como morte eterna, ou seja, regressar ao nada quem nada foi, nada fez na vida, não serviu a nada nem a ninguém, e, em vez de acreditar em Deus e na vida eterna, não acreditou em nada para além da morte.

É inconcebível que, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, condenasse a uma eternidade de sofrimento e tortura a quem na temporalidade, por mais longa que fosse, tenha vivido no pecado; nem os tribunais humanos são assim tão severos. Não haveria nenhuma proporção entre o crime e a pena.

As poucas vezes, portanto, em que na Bíblia o inferno aparece como sofrimento eterno, tem um intuito meramente pedagógico, baseado na realidade de que os seres humanos temem mais o sofrimento que a morte. Pelo que, o inferno como tortura eterna, tem uma força motivacional para mudar de vida muito superior ao inferno concebido como morte eterna, que se coaduna mais com o que realmente será.

Como visão profética do inferno é mais apelativa a visão deste como tortura eterna. Os pastorinhos, portanto, não viram o inferno conforme ele é, mas sim como o imaginavam, inspirados no que lhes foi dito em inúmeras pregações, naqueles tempos, nas quais o inferno como sofrimento era tema quase obrigatório.
   
2ª Parte: A II Guerra Mundial e o ateísmo militante da Rússia
— Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior.

Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados.

Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

A Nossa Senhora propõe a devoção ao Imaculado Coração de Maria como antídoto para combater o mal em todas as frentes, individual e social. Se Salvação é a visão real de Deus, que supera a visão beatifica à qual alguns nesta terra têm acesso, a proposta desta devoção não é outra coisa que o eco do evangelho de São Mateus 5, 8:  Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Um coração que se purgou e purificou de todo mal e corrupção vê a Deus.

Um coração assim limpo, não está dividido, e está pronto a comprometer-se unilateralmente e incondicionalmente; é, desta forma, uma réplica do coração Imaculado de Maria que como ela diz, “Eis a serva do Senhor faça-se em mim segundo a sua Palavra”. O coração é o centro motor da atividade humana, onde os pensamentos ganham motivação e impulso para se transformarem em obras ou comportamento. Quando o nosso coração pertence a Cristo, tarde ou cedo poderemos dizer como o apostolo, Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de julho de 2017

Fátima: Lúcia a Mensageira

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Perfil humano
Nasceu em 22 de março de 1907, última dos sete filhos de António dos Santos, irmão da Sra. Olimpia mãe do Francisco e da Jacinta; era sã e robusta, mas não era de feições delicadas, era até um pouco rude. De rosto moreno e arredondado, nariz um pouco achatado, boca larga de lábios grossos; o único atrativo físico vinha-lhe dos olhos pretos, grandes e expressivos.

Mas o que lhe faltava em beleza física tinha a Deus recompensado em beleza interior. Era muito responsável, desde muito pequena qualquer tarefa lhe podia ser confiada; era uma educadora de divertindo as crianças com jogos e historias por ela contadas, tanto da bíblia como dos santos, como lendas daquela terra. Fazia procissões, cantava os versos da Igreja e ensinava catequese.

Naquele tempo a primeira comunhão só se fazia aos 10 anos; Lúcia, porém, comungou aos 6 anos porque com a memoria prodigiosa que tinha, sabia o catecismo todo de cor. Alem da memoria era também muito inteligente e criativa em atividades e divertimentos para distrair as crianças, pelo que todas as crianças, não só a Jacinta e o Francisco, tinham por ela um atrativo especial.

Ao contrário de Jacinta e de Francisco era vivaz, extrovertida e mexida, uma líder natural. O qual não a impedia de chegar a ser tão meiga e afetiva como Jacinta, uma afeição que manifestava a diariamente em especial com a sua mãe, quando voltava de pastorear as ovelhas cobria a mãe de abraços, beijos e mimos.

«A Lúcia era muito divertida - refere-nos uma outra sua companheira, Teresa Matias. - Era muito amiga de nos fazer jeito, de maneira que muito gostávamos de estar com ela; de mais, era muito inteligente, cantava e dançava bem e sabia-nos ensinar cantigas. Todos nós lhe obedecíamos. Passávamos assim horas e horas a cantar e a dançar que até nos esquecíamos de comer.

Como ela própria diz nas suas memórias, eram muito amigas de dançar e de festas. O dia 13 de junho era um dia sempre muito esperado por Lúcia pois se festejava de maneira especial na aldeia. A Dona Maria Rosa, conhecendo a filha, sabia que não trocaria as festas por coisa nenhuma. Mas é claro que se enganou. As aparições mudaram a forma de ser de Jacinta e de Francisco e também de Lúcia.

Jacinta e Francisco sofreram pela doença e os pequenos sacrifícios que eles inferiam de ocasiões como não comer não beber etc. Lúcia não precisava de buscar sacrifícios pois o sofrimento vinha ter com ela todos os dias. Foi a que mais sofreu a incredulidade dos que não acreditavam nas aparições, pelo que teve de suportar vexames troças, ameaças e até bofetadas.

Naquele 13 de Maio de 1919 quando o governo queria impedir os peregrinos de ir à Cova da Iria dois guardas agarraram a Lúcia, que para lá também se dirigia, e disseram um para o outro em voz alta: aqui estão covas abertas. Com uma das nossas espadas cortamos-lhe a cabeça e aqui a deixamos, já enterrada. Assim acabamos com isto duma vez para sempre.

Ao ouvir estas palavras, julguei-me realmente chegada ao meu último momento; mas fiquei tanto em paz como se nada fosse comigo. Passado um momento, em que pareceu ficarem pensativos, o outro respondeu: – Não, não temos autorização para isso.

Em especial sofreu por causa da incredulidade do seu pároco e das suas irmãs e mãe. Esta última mesmo depois de ser curada por especial favor de Nossa senhora chegou a afirmar: que coisa! Nossa Senhora curou-me e eu parece que ainda não acredito! Não sei como isto é!

Lúcia e o Eneagrama
A mente – sentimento - instinto são os três filtros pelos quais acostumadamente entendemos a realidade, nos relacionamos com ela e com os outros. Todos buscamos uma única coisa segurança; os sentimentais ou emocionais buscam relacionar-se e ser aceitados e amados pelos outros e assim encontrar o equilíbrio interior; os viscerais confiam nos seus instintos, na sua intuição ou sexto sentido; os cerebrais usam a mente para tentar entender, pois conhecimento significa poder.

Francisco era visceral instintivo, sentia-se bem consigo mesmo buscava a natureza, abstraindo-se de tudo e de todos, buscando uma única relação, estar com o “Jesus escondido” para o consolar. Jacinta era sentimental, dependente da relação com os outros sobretudo com a sua amiga intima, Lúcia; descobriu o sofrimento como forma de amor e nele viu o seu contributo para a salvação de muitos.

Lúcia era claramente cerebral, usava a mente para entender tudo e todos os que a rodeavam e o que acontecia; como tal não era 6 pois os seis são bastante inseguros e cheios de dúvidas; Lúcia parece bem firme no terreno e segura de si mesma. Apesar daquele episódio de dúvida de se as aparições seriam coisa do demónio, mas a dúvida não surgiu espontaneamente na sua mente, foi la colocada pelo seu pároco em quem ela confiava cegamente.

Também não é um 5 pois ao contrário do Francisco que se retirava Lúcia gostava de estar sempre no meio de gente por ser extrovertida e inquisitiva e desenvolta e criativa sempre buscando novos jogos ou atividades para entreter as crianças.

O número que melhor se aproxima à sua forma de ser por irónico que pareça é o 7. Precisamente o número que, de entre todos os números do eneagrama, foge do sofrimento. E no entanto, foi a que mais sofreu enquanto ao crédito das aparições; os três eram vexados pelo povo em geral, mas enquanto Jacinta e Francisco, pelo menos em casa, estavam a salvo e na rua estavam protegidos pela autoridade do seu pai o Sr. Marto, Lúcia em casa era maltratada pela mãe e pelas irmãs e tida como embusteira e mentirosa; na rua a sua mãe não lhe importava que até lhe batessem se com isso ela dissesse a verdade.

Por outro lado, quanto ao oferecer sacrifícios voluntários, não era tão zelosa como os dois primos. Lúcia de alguma forma nem é tão sofredora com Jacinta nem tão adoradora como Francisco. Lúcia vive nas relações sociais e na diversão por isso era tão boa com as crianças. Ninguém entretém tanto nem melhor que um numero 7; sempre preparados para a palhaçada, os jogos, as danças…

Neste sentido Lúcia, apesar de ser a líder dos três, e a vidente mais importante do grupo, não se nota que encarne no imediato um aspeto específico da mensagem de Fátima, como Jacinta a penitência e Francisco a oração, e em especial, a adoração ao Santíssimo Sacramento.

A razão pode ter a ver com o facto de que Francisco e Jacinta sabiam que não lhes restava muito tempo de vida por isso viviam de uma forma escatológica como as suas mentes e os seus corações postos não já neste mundo, mas no mundo que iria vir, ansiando ver Nossa Senhora a qual lhes tinha dito que pronto os levaria para o Céu, e que o Francisco tinha de rezar muitos terços ainda para lá poder entrar.

Quanto a Lúcia, como muito tempo por diante parece ter vivido a mensagem de Fátima na sua totalidade como um todo e no anonimato, ao longo de muitos anos recluída como religiosa de clausura.

Vida longa em anos curta em eventos
A vida de Francisco e de Jacinta foi de veras curta; ao contrario, a de Lúcia seria muito longa. Sozinha abandonada por todos em especial pelos seus dois amigos confortava-se em repetir o que a Senhora lhe tinha dito, Não tenhas medo! ... Eu ficarei contigo! ... Sempre! ... O meu Imaculado Coração será o teu refúgio! ... e o caminho que te conduzirá até Deus!  ..

Depois da morte de Jacinta dia 17 de junho de 1921 Lúcia foi afastada de Fátima para paradeiro desconhecido do povo, o colégio das irmãs Doroteias no Porto, com o consentimento desta e da mãe tanto para analisar sem a presença dela os acontecimentos como para ver se o povo deixava de acorrer à Cova da Iria e visitar a única vidente ainda viva.

Tocada pelas aparições, a vida de Lúcia foi longa em anos, mas curta em acontecimentos. Do colégio do Porto passa para o postulantado das irmãs Doroteias em Pontevedra e dali para o noviciado em Tuy que termina a 3 de outubro de 1928. Demora-se por Espanha até ao ano 1946 em que volta a Portugal e visita Fátima e a sua família.

Dali recebe a autorização do Papa Pio XII para deixar as Doroteias e realizar o seu sonho primigénio o fazer-se Carmelita; entrou então para o Carmelo de Sta. Teresa em Coimbra o dia 25 de março de 1948 onde levou uma vida de oração e penitência até à sua morte, ocorrida a 13 de fevereiro 2005, como 98 anos.

Lúcia a mensageira
Se Francisco era o contemplativo, o ser orante pois dedicava à oração muitas horas; se Jacinta que como numero 4 faz seu, o drama da humanidade perdida, oferecendo-se e juntando os seus sofrimentos aos de Cristo pela redenção dos pecadores; o que é ou quem é Lúcia para a mensagem de Fátima?

Lúcia é a comunicadora, porque só ela tem uma relação plenamente interativa com Nossa Senhora só ela pergunta e responde só ela dialoga com a Senhora. Lúcia é o porta voz do céu; a mensageira, de alguma maneira a evangelista que anos mais tarde coloca por escrito a vida e ditos tanto da Senhora nas aparições como a forma com os seus primos encarnaram a mensagem de Fátima, da qual ela é, para a posteridade, a testemunha, a depositária e a custódia.

Obedecendo ao Bispo de Leiria, Lúcia colocou por escrito o segredo, que fechou em envelope e enviou ao Papa, juntamente com as suas memorias das aparições nas quais descreve também, de modo biográfico, a vida, ditos e obras dos seus primos e de si mesma.

Como vidente foi, até à sua morte, a intérprete e a exegeta da mensagem de Fátima. Este papel ficou bem claro nas tentativas que os papas desde Pio XII até João Paulo II, fizeram de consagrarem a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Todos os papas o fizeram, mas todos evitavam nomear a Rússia e algumas vezes não era feita a consagração em união com todos os bispos do mundo.

A Lúcia, se assim o entendesse, não hesitava em dizer que não era como Nossa Senhora queria. Por fim, aquela que o papa João Paulo II fez, a 25 de março de 1984, ante a imagem oficial de Fátima e o ícone de Kasan em Roma, obteve o assentimento de Lúcia, que afirmou: a consagração foi feita e foi aceite.
Pe. Jorge Amaro, IMC