15 de maio de 2018

CNV - Sentir sem subterfúgios

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O que são as emoções ou sentimentos?
Sentimentos ou emoções, são sinais que recebemos do nosso corpo ou do nosso espírito alertando-nos para o estado atual das nossas necessidades, satisfeitas ou insatisfeitas.

Como provem tanto do corpo como do espírito, podem constar, de sorrisos, olhares, expressões faciais, dores de cabeça ou estômago, e emoções como raiva, medo, frustração, culpa, deceção.

Só há uma natureza humana que não muda, nem ao longo do tempo, de geração em geração, nem ao longo do espaço, de cultura em cultura ou civilização, os sentimentos ou emoções como as necessidades que lhes são subjacentes são universais, todas as pessoas têm as mesmas emoções ou sentem os mesmos sentimentos, por elas derivam dessa natureza humana que não muda.

A chave para identificar e expressar sentimentos é concentrarmo-nos em palavras que descrevam a nossa experiência interior, em vez de palavras que descrevem as nossas interpretações das ações dos outros. Por exemplo: "Eu sinto-me só" descreve uma experiência interior, enquanto que "Sinto que você não me ama" descreve uma interpretação dos sentimentos do outro.

Sentimentos e pensamentos
Os pensamentos são processos cognitivos ou intelectuais que visam a descoberta da verdade; seguem um procedimento dialético, logico e dedutivo que parte de uma ou mais premissas e leva a uma conclusão que às vezes é uma decisão. Os pensamentos podem ser abstratos, mas a maior parte das vezes são sobre realidades qualificáveis, quantificáveis e verificáveis.

Quanto à sua natureza, podem incluir crenças, ideais, opiniões, projetos. Os sentimentos são o que de mais pessoal e intransferível existe no ser humano; os pensamentos podem ser copiados os sentimentos não, de alguma forma têm “copy right”.

Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point – Como muito bem entendeu Pascal, os sentimentos são mais difíceis de definir, pois não surgem da cabeça, mas vêm do profundo do nosso ser. Não são provocados por nós, ou seja, não estão sujeitos à nossa vontade; não há nada que eu possa fazer para sentir uma emoção particular; os sentimentos afloram à nossa consciência, automaticamente sem querermos e sem serem anunciados, são imprevisíveis. Precisamente por causa disto os sentimentos ou emoções não era objeto de estudo de nenhuma ciência nem mesmo da psicologia.

De certa forma, não somos responsáveis pelos nossos sentimentos pois não temos nenhum poder sobre eles nem os podemos produzir, nem os podemos evitar nem os podemos apagar; no entanto, eles são nossos, porque vêm do interior de nós e não são provocados por outras pessoas ou circunstâncias.

Quando afloram à nossa consciência não nos queda outra alternativa que os assumir e fazer-nos responsáveis por eles. Eles são alertas valiosos mensageiros do nosso estado tanto físico como moral e espiritual. Ignora-los é estar divorciado de si mesmo, é não saber a quantas andamos, é estar perdidos. Os nossos sentimentos são um dedo apontado para uma necessidade satisfeita ou insatisfeita.

Espiritualmente, os sentimentos são um pouco como a própria vida: como não temos poder sobre a nossa vida, também o não temos sobre os nossos sentimentos; não podemos comandá-los, não podemos deixar de sentir ou começar a sentir qualquer sentimento especial; tal como com a vida a única coisa que podemos fazer é administrá-los.

Ao fazê-lo podemos optar por ignorar, reprimir, esconder ou expressá-los; para isso, precisamos ter alguma inteligência emocional a fim de ser capazes de identificar e nomear os nossos sentimentos. Alguns são hábeis nesta tarefa, porém a maioria em virtude da nossa educação e formação cultural, somos emocionalmente analfabetas.

Os cerebrais tendem a ver o mundo a preto e branco, não gostam da imprecisão. Entendem que as pessoas são muito incertas e inconstantes, pelo que tendem a concentrar-se mais em coisas tangíveis, fáceis de conceptualizar, buscando a verdade, quantificando e qualificando, aplicando regras gerais. As pessoas cerebrais são vistas pelas sentimentais como frias, sem coração, pedantes e robôs calculistas.

Os emocionais ou sentimentais estão mais voltados para as relações e considerações sociais; estão à escuta do seu coração e têm em conta os sentimentos dos outros. Para os sentimentais as coisas materiais valem tanto em quanto estão ao serviço da existência humana que é o mais importante.

No trabalho são sociáveis e prestáveis, as decisões estão mais baseadas em valores humanos que em regras gerais. Para os cerebrais, os sentimentais não são pessoas em quem se possa confiar pois os sentimentos são volúveis.

No interior da pessoa humana, os pensamentos e sentimentos, estão abocados a entenderem-se; pois estão tão interligados que uma confusão emocional é também uma confusão mental; as pessoas emocionalmente sensíveis tendem a ver e experimentar o mundo através das suas emoções. Outros sentem, mas não conseguem nomear ou identificar nem as emoções, nem as razões ou causas delas. Por outro lado, como as suas emoções são a sua principal maneira de experimentar os eventos de vida, podem chegar a rotular os seus pensamentos como emoções.

Por exemplo, quando alguém diz, "Eu sinto-me estúpido," tanto o pensamento como o sentimento estão expressados inadequadamente. Entendendo a expressão como pensamento seria " Eu sou estúpido"; como sentimento tem que ver com vergonha, tristeza ou dor. Se uma pessoa sente emoções, mas não as consegue rotular, torna-se mais difícil lidar com elas. Os rótulos ou etiquetas são fundamentais na gestão das emoções.

Alfabetismo emocional – O afetivo é efetivo
A nossa cultura não nos treina a identificar sentimentos e frequentemente não sabemos como nos sentimos; não temos palavras para expressar o que sentimos emocionalmente ou sentimentalmente, pelo que somos iliteratos.

Ser letrado emocionalmente significa saber diferenciar entre pensamentos e sentimentos, assim como ser capaz de nomear os nossos e os sentimentos dos outros, avaliar a sua intensidade, o que os causa e o que fazer com eles, assumindo a responsabilidade por quanto os nossos sentimentos possam afetar os outros. É também ser capaz de lidar com as nossas emoções e as dos outros, com vista a melhorar a qualidade de vida de ambos. A alfabetização emocional consiste em fazer com que as nossas emoções atuem em nosso favor e não contra nós.  Melhora as relações humanas, cria laços afetivos entre as pessoas, facilita o trabalho em grupo, possibilita a cooperação entre indivíduos desenvolvendo o sentido de comunidade.

Todos temos algo a aprender sobre as nossas emoções. Algumas pessoas crescem com um alto nível de alfabetização emocional, outros são emocionalmente analfabetos. As emoções existem como parte essencial da natureza humana; quando estamos desconectados delas, perdemos um aspeto fundamental do nosso potencial humano. É no reconhecimento e gestão dos nossos sentimentos, e na resposta adequada às emoções dos outros, que aumentamos o nosso poder pessoal, tanto na vida profissional como na vida privada.

Ser literato emocionalmente significa estar capacitado para identificar as emoções que eu e os outros sentimos, a sua intensidade, o que as causa e o que fazer como elas; ser literato emocionalmente significa saber como lidar com as nossas emoções, porque as compreendemos. Também significa desenvolver empatia e aprender a assumir a responsabilidade pela forma como as nossas emoções afetam os outros.

Os jornais estão cheios de histórias de como pessoas bem-sucedidas e inteligentes cometem graves erros emocionais, acabando por arruinar a sua vida. Emoções como a raiva, o medo, a vergonha, o prazer sexual, fazem pessoas espertas comportarem-se estupidamente.

Verdadeira fortaleza
Não descubras o teu peito/ por maior que seja a dor /pois quem o seu peito descobre/ de si mesmo é traidor.

Todos em geral, mas mais os varões em especial, crescemos ignorando as nossas emoções ou sentimentos, na crença de que é vergonhoso, fraco e assustador falar sobre eles. O que fazemos connosco fazemos com os outros, pelo que igualmente, desprezamos e ignoramos as emoções e os sentimentos dos outros quando estes têm a coragem de os expressar.

A nossa cultura tende a reservar a vivência dos sentimentos para o seio da família; fora desta, na vida profissional, no trabalho e nas relações sociais públicas, não se devem expressar pois estas requerem-se funcionais, neutrais, inócuas, impessoais; no mundo da vida pública não se aconselha a que nos envolvamos pessoalmente, pelo que usamos um cem numero de máscaras, que faz de nós robots e das nossas relações uma farsa.

Como os sentimentos dizem mais de nós que os pensamentos, a tendência é esconde-los, pois seria dar parte de fraco mostrar o nosso lado vulnerável e ser presa fácil nas mãos dos outros. Só nos abrimos com os amigos e mesmo com estes estamos de pé atrás por se são falsos; “Livre me Deus dos meus amigos que dos meus inimigos me livro eu”.

Quando vires a sombra de um gigante, olha a posição do sol pra ver se não se trata da sombra de um anão.Friedrich Novalis

Aplicamos a lógica que funciona entre os animais; diz-se que um cão pode farejar o nosso medo e quando isto acontece atacar-nos mais facilmente. Escondemos a nossa debilidade projetando uma identidade que não é a nossa. Um jogo que pode não ser bem-sucedido, pois se o outro se dá conta terá todo o gosto de nos tirar o tapete debaixo dos pés e assim teremos que assumir a nossa verdadeira identidade com vergonha e desonra.

Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte. 2 Cor 12, 10

Longe de ser contraproducente, revelar os nossos sentimentos, para Rosenberg é uma mais valia e cita vários exemplos para provar o que já São Paulo se tinha dado conta dois mil anos antes. Quando assumimos as nossas debilidades com valentia então somos fortes pois estamos na verdade e não há posição mais vulnerável que colocar-se na mentira e projeta-la para os outros.

Rosenberg refere a visita que fez a uma escola secundária, para falar da linguagem não-violenta; ao entrar numa sala de aulas os alunos, que até então estavam animados a conversar uns com os outros, ficaram em silêncio; Rosenberg disse bom dia e ninguém respondeu, o silêncio era sepulcral; “senti-me desconfortável” diz mas prosseguiu de uma forma profissional como se nada fosse. A classe não parecia interessada no seu discurso e cada um fazia as suas coisas; o desconforto ia aumentando, mas Rosenberg ignorava-o.

Por fim um aluno confrontou-o dizendo, “Tu não gostas de negros, pois não? Ao que ele teve de responder “sinto-me nervoso, mas não porque sejais negros, mas sim porque não conheço nenhum de vocês e estava ansioso se iria ou não ser aceite”. Esta expressão de vulnerabilidade foi a varinha de condão que transformou uma classe desinteressada no tema numa classe participativa e interessada.

Houve um tempo em que se dizia os homens não choram, nem em psicologia eram estudadas as emoções pois entendia-se que era impossível abordá-las cientificamente. Depois que vimos lágrimas nos olhos de algumas figuras públicas em especial políticos; depois de que Daniel Goleman publicou um livro chamado A Inteligência Emocional que foi um “best seller”; os sentimentos são agora mais valorizados e já não são tão conectados com fraqueza, mas sim com humanidade. Ser humano é ser capaz de compaixão e misericórdia ante o próprio sofrimento e o sofrimento dos outros.

Os psicopatas podem facilmente operar sem as restrições que limitam os outros mortais. Podem mentir, roubar, extorquir, mutilar e matar sem se sentirem culpados. Quando ganham poder sobre outras pessoas, podem tornam-se extremamente perigosos. Recordemos o imperador romano, Calígula, Adolf Hitler ou Joseph Stalin. A história está repleta de exemplos que se encontram em todas as facetas da vida individual, familiar, na política, nos negócios, nas ruas etc.

Lista de sentimentos quando as nossas necessidades não estão satisfeitas
Zangado – irritado – em causa – confuso - dececionado – desanimado - angustiado - envergonhado frustrado - indefeso - infeliz – impaciente - irritado - solitário - nervoso - oprimido - perplexo relutante – triste - desconfortável - confuso

Lista de sentimentos quando as nossas necessidades estão satisfeitas
Maravilhado - confortável - otimista - confiante - energético – repleto- inspirado – alegre - feliz esperançoso – orgulhoso - aliviado – grato - surpreendido - sensibilizado - confiante

Identificação de sentimentos
Expressão de sentimentos que contem uma autoavaliação
Sinto que não fui tratado justamente - Rosenberg adverte que frequentemente confundimos pensamentos como sentimentos; por isso quando a expressão “Eu sinto… é seguida por qualquer outra palavra que não um adjetivo, não estamos a expressar sentimentos, mas sim pensamentos ou opiniões: “Sinto-me como se estivesse a falar com uma parede” é uma pensamento disfarçado de sentimento. Por outro lado, para expressar um sentimento nem precisamos de dizer eu sinto, podemos expressa-lo diretamente: sinto-me irritado pode dizer-se simplesmente “estou irritado.

“Sinto que sou um fracasso como guitarrista” – Não estou expressando um sentimento, mas uma autocrítica depreciativa da minha habilidade como guitarrista. O sentimento seria, “sinto-me frustrado (impaciente, dececionado), comigo mesmo a respeito do meu desempenho na minha ultima atuação.

Expressão de sentimentos que contem uma avaliação dos outros
Sinto que não sou importante para o meu patrão” – Está é uma descrição de como eu acho que o meu patrão me avalia, não a genuína expressão de um sentimento que seria, “Sinto-me triste ou desencorajado”. Quando expressamos sentimentos os outros não fazem parte da equação, pois como dissemos os sentimentos são o que há de mais pessoal e privado. Os outros podem espoletar em nós sentimentos, mas a causa destes está sempre me nós e não nos outros.

“Sinto-me incompreendido” – Eis mais uma avaliação da capacidade de compreensão do outro; o sentimento seria, “Sinto-me ansioso, ou irritado.

“Sinto-me ignorado” – Mais uma vez esta é a uma interpretação negativa das ações dos outros. A mesma situação ou evento poderia ter duas leituras opostas; se gostamos da pessoa que nos ignora sentimo-nos magoados, pois queríamos estar envolvidos, mas se não gostamos da pessoa que nos ignora até nos sentimos aliviados.

Para evitar confusões, evitemos a expressão “Eu sinto… para não caímos na tentação de expressar um pensamento ou uma avaliação; ao contrário usemos o nosso vocabulário emocional e expressemos diretamente o adjetivo que melhor qualifique o nosso estado de espírito: Estou confuso, estou preocupado…

Como se relaciona a observação com os sentimentos
Depois de ter expressado ao nosso interlocutor o que objetivamente observámos, implicamo-nos pessoalmente nessa observação não imitindo uma crítica ou uma avaliação, mas sim expressando o sentimento que a observação espoleta em nós, nomeando a emoção ou o sentimento que sentimos, sem nenhuma apreciação moral, o qual permite conectar com a pessoa em questão num espírito de mútuo respeito e cooperação.

Devemos executar esta etapa com o objetivo de identificar com precisão a sensação ou emoção que nós, ou a outra pessoa, estamos experimentando naquele preciso momento; não com o intuito de envergonhar o outro pelo seu sentimento nem para tentar impedi-lo de sentir o que sente. Como os sentimentos são difíceis de colocar em palavras devemos fazer isto tentativamente consultando e certificando-nos junto do nosso interlocutor se estamos certos ou errados. Vejamos alguns exemplos:
  • Já só falta uma hora para o início do programa, vejo que aceleraste o passo, (observação) estás nervoso. (indaga acerca do sentimento do outro)?
  • "Vejo o teu cão a correr e a ladrar sem trela (observação). Tenho medo. (sentimento)"
  • "Vi que o teu nome não foi mencionado nos agradecimentos (observação). Ficaste ressentido porque não te apreciam e valorizam como mereces?" (indaga acerca do sentimento do outro)
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de maio de 2018

CNV - Observar sem julgar

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Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Lucas 6, 37

Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. Mateus 18, 3

O símbolo da justiça, assim como o seu significado, é universalmente conhecido; senhora de olhos vendados que significa neutralidade e imparcialidade; balança na mão para avaliar e sopesar equitativamente os atos imputáveis; de espada na mão que denota o poder para executar uma sentença.

Porém se olharmos para esta mesma figura com os olhos puros de uma criança, que desconhece a sua carga simbólica e cultural, ela pode representar a forma como nos comportamos. Avaliamos, e sentenciamos os outros, guiados por preconceitos, pois temos os olhos vendados à realidade observável.

As observações são o que podemos ver e ouvir que identificamos como o estímulo às nossas reações. O objetivo é descrever objetivamente, concretamente e com neutralidade ao que estamos reagindo tanto quanto uma câmara de vídeo pode captar o momento. Isso ajuda a criar uma realidade partilhada com a outra pessoa. A observação é o contexto para a nossa expressão de sentimentos e necessidades e pode mesmo não ser necessária se ambas as pessoas estão esclarecidas sobre o contexto.

A chave para uma observação a fazer é separar os nossos próprios julgamentos, avaliações ou interpretações da nossa descrição do que aconteceu. Por exemplo, se dizemos: "És antipático", a outra pessoa pode discordar, enquanto se dissermos: "Hoje não me cumprimentaste ao entrares na sala" a outra pessoa é mais provável reconhecer o momento em que é descrito.

Quando somos capazes de descrever o que podemos ver ou ouvir em linguagem de observação sem misturar nenhuma avaliação, aumentamos a probabilidade de que a pessoa que nos vai ouvir este primeiro passo responda ou não imediatamente à nossa observação, fica certamente mais disposta a ouvir os nossos sentimentos e necessidades; ao contraio se expressamos uma avaliação ou critica fica logo o caldo entornado.

A linguagem não violenta ajuda-nos a distinguir uma observação de uma avaliação e a purificar as nossas observações de todo juízo moralístico toda e qualquer avaliação negativa ou positiva. É numa observação desprovida de preconceitos, avaliações e apreciações moralísticas e no feedback da mesma, à pessoa cujo comportamento observamos, que assenta a comunicação não violenta.

O feedback de uma boa observação para ser genuíno, deve ser como um espelho que espelha verdadeiramente o acontecido sem interpretar, analisar, sem tirar nem pôr. Quando, ainda que veladamente ou sub-repticiamente deixamos que as nossas observações contenham uma apreciação, análise, interpretação ou crítica, a outra pessoa imediatamente se coloca à defensiva pelo que a comunicação já está envenenada e abocada ao fracasso.

O nosso ser demasiado rápidos em imitir juízos, faz-nos perder dados observáveis; pode ajudar-nos o que Jesus diz sobre ser como crianças; ou seja, nós deveríamos recuperar algumas das qualidades que perdemos quando crescemos; e uma dessas qualidades é os olhos puros de uma criança a sua visão não-subjetiva das coisas não manchada por qualquer bagagem cultural ou preconceito.

Ao contrario das crianças, os adultos enchem-se frequentemente de preconceitos e opiniões sobre tudo e sobre todos; parecem usar o tipo de palas que os cavalos usam para reduzir o seu campo de visão e olharem só para a frente; desenvolvem cataratas nos olhos e cera nos ouvidos pelo que só veem e ouvem o que querem e como querem; assim sendo, a perceção a interpretação e a avaliação são uma e a mesma coisa.

Observação segundo NVC
Para Rosenberg uma observação é a descrição do que está acontecendo no preciso momento em que observamos e relatamos a nossa observação; trata-se de um relatório feito pelos nossos cinco sentidos exteriores, visão, audição, tato, sabor e olfato juntamente com o nosso pensamento e visão interior desprovida de avaliações e preconceitos.

Uma observação não violenta consiste, portanto, no relatório dos fatos tal como são percebidos pela nossa experiência sensorial, num determinado contexto de tempo e lugar específicos, livre de qualquer tipo de análise e avaliação.

É difícil observar sem avaliar sobretudo quando não gostamos do que observamos; quando o que observamos despoleta a nossa ira ou o nosso apreço. Tendemos a envolver-nos pessoalmente no observado, e frequentemente nos precipitamos em juízos temerários dos quais nos arrependemos mais tarde, e para os quais já não há remédio se os expressámos; como diz o povo “Palavra fora da boca é pedra fora da mão”

Por causa da nossa formatação violenta, é inevitável que aflorem interpretações e avaliações à nossa consciência acerca de tudo o que observamos.  Quando isto acontece, para evitar conflitos, a CNV manda que guardemos para nós as avaliações, como se fosse um mau pensamento; na eventualidade de formular em voz alta uma avaliação, devemos fazer-nos responsáveis por ela.

A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar...
Jiddu Krishnamurti

Observar sem avaliar é “dar o benefício da dúvida”, ou seja, duvidar da nossa avaliação, do nosso pensamento inquisitivo e das suas conclusões quase naturais para nos mantermos na pura observação natural e naturalista. Julgar e avaliar é encaixilhar, é tirar uma fotografia, é enquadrar, arquivar. Como diria Heraclito, o filósofo grego do devir continuo, a realidade não é estática, mas sim dinâmica.

A nossa mente tende a operar debaixo da filosofia mecanicista da física de Newton, para quem a natureza funciona como um relógio exato. A nossa preguiça mental prefere um mundo onde tudo funciona matematicamente e inexoravelmente segundo as leis da natureza, onde as exceções são a vergonha da regra, portanto desdenháveis. Um mundo de normalidade, de constantes sem variáveis, perfeitamente previsível e controlável.

Este pode ter sido o mundo de Newton, mas não é o nosso mundo que se encontra melhor representado e explicado pela magia da física quântica e pelo princípio da incerteza e acaso de Heisenberg. As variáveis podem agora ser tantas quantas as leis levando-nos à confusão, mas este é o nosso mundo.

Para viver em sintonia como este novo mundo dinâmico e em constante mudança, devemos mudar a nossa cosmovisão e a nossa linguagem. Não podem ser estáticas nem absolutas, mas relativas e dinâmicas. A CNV retira o foco do que somos da nossa identidade da nossa personalidade, apelido etc para o colocar no que somos no momento, ou seja como nos sentimos, o que se passa connosco A linguagem estática está fixada no passado, a CNV é dinâmica e está fixada no presente.

Aprendendo a traduzir sentenças e interpretações em língua de observação afasta-nos do pensar em termos de certo/errado pensar-se e ajuda-nos a assumir a responsabilidade pelas nossas reações direcionando nossa atenção para nossas necessidades como a fonte de nossos sentimentos, em vez de para a outro pessoa.

O clássico exemplo de Rosenberg
Rosenberg conta que um dia fora chamado a uma escola onde os professores estavam completamente enfrentados e em perene conflito com o diretor. Ao perguntar, numa reunião com os docentes, “O que é que o diretor faz que entra em conflito com as vossas necessidades?”, Rosenberg pedia uma observação concreta do comportamento do diretor, mas tudo o que lhe foi referido eram avaliações: “Ele é um fala barato”, outro, “O diretor fala demasiado”. Ao serem delatadas como avaliações um outro professor tentou comprazer Rosenberg dizendo “Ele pensa que só ele tem boas ideias”. Por fim um outro diz “Nas reuniões ele quer ser sempre o centro das atenções”.

Incapazes de referir um comportamento concreto do diretor, que fosse isento de avaliações, foi convocada uma reunião na qual, o próprio Rosenberg, se deu conta de que o que encrespava os nervos dos professores era o facto de que o diretor aproveitava qualquer assunto em discussão para fazer uma longa divagação por histórias da sua infância e juventude, que os levava para fora do tema em discussão, aumentando exponencialmente o tempo das reuniões.

Este é só um exemplo da nossa incapacidade de relatar o que observamos sem o contaminar com a nossa avaliação; às vezes, como é o caso destes professores, a avaliação invade de tal modo as nossas mentes que até nos esquecemos do comportamento original que a despoletou. 

Avaliar sem se fazer responsável
Seguindo o livro de Rosenberg vejamos alguns exemplos onde a observação tem implícita uma avaliação para darmo-nos conta de quão difícil é, na vida do dia a dia, separar as duas.

És demasiado generoso - esta é uma observação prenhada de uma avaliação; o sujeito desta afirmação pretende ser o metro padrão do que é menos generoso, mais, ou até demasiado; como tal faz uma afirmação categórica, pretensamente objetiva, sem se responsabilizar ou implicar nela.

Ao reparar que deste todos os chocolates sem ficar com nenhum, penso que foste demasiado generoso. – Esta seria a forma de traduzir a afirmação em pura observação. Fazemos referencia a um facto sem cair na tentação de o interpretar. Mas se o queremos interpretar então fazemo-nos responsáveis por essa interpretação, ou seja, eu acho ou para mim isso é ser demasiado generoso, deixando assim a realidade aberta a outras interpretações.

Uso e abuso de verbos que avaliam
O João está sempre a adiar – Esta observação contem uma generalização, mesmo que já tenhamos apanhado o João a adiar, não quer dizer que sempre adie; é a mesma situação daquele que matou um cão e depois o chamam mata-cães. As generalizações são sempre injustas assim como etiquetar uma pessoa mesmo que tenha um comportamento recorrente.

O mais nocivo de todos os verbos dentro da linguagem não violenta é o verbo ser, porque batiza as pessoas, amarrando-as a uma etiqueta que as impede de crescer e progredir. O abuso deste verbo na educação de crianças leva-as a ser o que os outros querem que elas sejam. O verbo ser amarra as pessoas a identidades estáticas; cada vez que etiquetamos alguém metemos essa pessoa numa numa camisa de forças, prisão perpétua da qual não permitimos nunca que saia.

Somos um ser em construção em continuo crescimento num devir continuo, em continuo processo em continua evolução o verbo ser não nos define pois não somos pedras não somos seres estáticos somos seres vivos; o verbo ser só serve para definir coisas mortas e quando define coisas vivas mata-as.

O João só estudou para o exame de física na noite anterior – O antídoto da generalização que leva ao etiquetar é referir-nos ao caso em concreto. Desta forma observamos ou fazemo-nos eco de algo que aconteceu, e somos fieis à realidade, deixando que seja o João a tirar conclusões do seu comportamento em relação à incidência ou reincidência do seu comportamento.

A Mónica é feia – Denota que temos em nós o padrão de beleza e que no caso da Mónica constituímo-nos em porta voz de 7 mil milhões de pessoas.

A aspeto da Mónica não me atrai – Desta maneira faço-me responsável pela minha apreciação que é só minha, por tanto não extensiva a mais ninguém. Já os romanos diziam “de gustibus non este disputandur”, e o nosso povo, “Quem o feio ama bonito lhe parece”.

Profetas da desgraça
O trabalho dela não vai ser aceite – Manifestamos muitas vezes nas nossas afirmações a pretensão de ser profetas, e quase sempre profetas da desgraça. Com certa malícia e prazer no mal dos outros fazemos prognósticos negativos acerca dos seus pensamentos, ideias, sentimentos, intenções, desejos e ações. É certo que esta não é uma observação, mas uma avaliação à priori cujo intuito pode ser o de humilhar a pessoa em questão, ou fazê-la retroceder nos seus intentos, ou mesmo influenciá-la negativamente para que fracasse.

Eu não acho que o trabalho dela seja aceite – Seria a tradução CNV da avaliação; quem avalia faz-se responsável pela sua avaliação desta forma se retira peso e importância ao que se diz.

Se não fizeres refeições equilibradas vais perder a tua saúde – Aqui está uma observação que nem um médico em medicina deveria fazer pois confunde predição com certeza. A medicina não é uma ciência exata como a matemática; são muitos os fatores que incorrem na saúde ou na doença pelo que esta observação podendo conter algo de verdade não é toda a verdade.

Se as tuas refeições não forem equilibradas, temo que a tua saúde possa ser afetada – Esta afirmação está mais de acordo com a verdade por quanto a dieta é só um dos muitos fatores que incorrem tanto para o estado de saúde como para o estado de doença.

Generalizações
Os estrangeiros são desleixados -  eis o exemplo de uma generalização; é talvez o defeito mais ocorrente no nosso dia a dia. Palavras como “sempre” “nunca” quase sempre são seguidas de uma generalização. Uma generalização é a universalização da nossa experiência. Se formos suficientemente humildes damo-nos conta que a nossa experiência é muito limitada no espaço e no tempo pelo que não podem nem deve ser universalizada.

É a base do racismo, sexismo universalizar e generalizar as nossas experiências quando fazemos observações osbre grupos de pessoas: os homens…  as mulheres… os negros…  os ciganos… os ingleses…

A família de estrangeiros que vive no numero 24 descuida o seu jardim – O antídoto da generalização é ser especifico no tempo e no lugar delimitando a nossa afirmação ou observação a um tempo, lugar e comportamento concreto; “contra factos não há argumentos”.

O Óscar é um mau jogador – Uma generalização muito ouvida nos círculos futebolísticos e nas discussões acaloradas entre adeptos. Denota frustração, mas nada tem a ver com a verdade.

O Óscar não marcou golos nos últimos 5 jogos – Traduzida para afirmação aceite nos cânones da linguagem não violenta fazemos referência aos factos e abstemo-nos de conclusões precipitadas. O mesmo jogador ao marcar um golo decisivo para um campeonato, seria imediatamente apreciado de forma distinta.

Exemplos de observações com ou sem avaliações
•    O João estava zangado comigo ontem sem nenhuma razão. - Avaliação
•    Ontem à noite a Nancy roeu as unhas enquanto via a televisão. - Observação
•    Sam não pediu a minha opinião durante a reunião. - Observação
•    O meu pai é um bom homem. - Avaliação
•    A Clara trabalha muito. - Avaliação
•    O Henrique é agressivo. - Avaliação
•    Carlos foi o primeiro todos os dias desta semana. - Observação
•    O meu filho, muitas vezes, não escova os dentes. - Avaliação
•    O Lucas disse-me que não fico bem de amarelo. - Observação
•    A minha tia protesta quando eu falo com ela. – Avaliação

Os puros de coração verão a Deus
Se a tua vista é para ti ocasião de queda, arranca-a e lança-a para longe de ti: é melhor para ti entrares com uma só vista na Vida, do que, tendo os dois olhos, seres lançado na Geena do fogo. Mateus 18, 9

A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas! Mateus 6, 22-23

Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Mateus 5, 8

Como sugere Jesus, os nossos olhos estão doentes e como tal são ocasião de queda; não vemos objetivamente, mas só o que queremos ver; não vemos sem interpretar, por isso os nossos olhos não são janelas para o mundo, lâmpadas para iluminar as coisas tal qual elas são. Precisamos de purificar o nosso coração e a nossa mente, só assim veremos a Deus e a realidade tal qual ela é e desta forma contribuiremos para a harmonia nas relações humanas e a paz no mundo.

Avaliação ou juízos de valor em CNV
Como é possível viver sem avaliar o comportamento dos outros e o nosso próprio? Não há qualquer tipo de avaliação em CNV? Sim há, em CNV abstraímo-nos de avaliações moralísticas que são feitas em linguagem estática e que são parte do jogo quem está certo quem está errado, quem tem razão quem a não tem quem é mau e quem é bom; avaliações que criticam o comportamento dos outros, e os julga como bons, maus honestos desonestos, egoístas altruístas etc.

A avaliação do observável em CNV está centrada no presente, no aqui e agora, avalia atos concretos e não atitudes genéricas, e é feita de uma forma dinâmica, ou seja, está focada no que está acontecendo em nós e nos outros no campo dos sentimentos e necessidades. Em CNV, o nosso comportamento observável, o que dizemos ou fazemos em concreto, e o dos outros, num determinado momento, é avaliado em tanto em quanto vai ou não ao encontro das nossas necessidades, nos faz sentir ou não sentir bem.

A comunicação violenta assenta em avaliações estáticas e moralísticas as quais quando proferidas colocam as pessoas na defensiva porque as classifica e divide em duas categorias: os bons que merecem ser elogiados e recompensados e os maus que merecem ser repreendidos e punidos. Em CNV, a avaliação baseia-se no que está acontecendo no presente em tanto em quanto vai ou não vai ao encontro das necessidades e valores de todos os envolvidos na interação.
Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de abril de 2018

CNV - Os quatro cavaleiros da Não-Violência

1 comentário:
(…) vi que apareceu um cavalo branco; o cavaleiro levava um arco e foi-lhe dada uma coroa. Depois, partiu vencedor para novas vitórias. (…) saiu outro cavalo, que era vermelho; e ao cavaleiro foi dado o poder de retirar a paz da terra e de fazer com que os homens se matassem uns aos outros. (…)  Na visão apareceu um cavalo negro. (…). Na visão apareceu um cavalo esverdeado. O cavaleiro chamava-se «Morte»; e o «Abismo» seguia atrás dele….  Apocalipse 6, 1-8

Fome peste guerra morte, são os quatro cavaleiros do Apocalipse, ambos os quatro são causas e consequências de si mesmos e uns dos outros. A fome causa a peste, a peste causa a fome, ambos provocam guerras, ambos causam a morte. O mundo já conheceu estes cavaleiros e está sempre em perigo de os conhecer outra vez e chegar à autodestruição.

Marshall Rosenberg propõe a linguagem não violenta, ou compassiva, como alternativa, uma alternativa à matriz da violência sobre a qual está montada a nossa forma de viver, de pensar e as relações que estabelecemos entre nós. 

Fome, peste, guerra e morte são os quatro cavaleiros da violência que leva ao apocalipse. A observação, o sentimento, a necessidade e a petição, são os cavaleiros que vão fazer da violência obsoleta e capitanear o mundo para um futuro de harmonia e paz entre todos os seres humanos.

Observação
Trata-se de descrever a realidade o mais objetivamente possível tal como os meus cinco sentidos a captam: o que vejo, o que ouço, o que cheiro e provo com o paladar, o que toco sem julgar, criticar, avaliar ou interpretar. Por exemplo em vez de dizer a alguém “És rude, que nos colocaria num curso de colisão com a pessoa e dificultaria o relacionamento posterior, podemos dizer: “Quando chegaste não te ouvi dizer bom dia” se tivesse dito “Quando chegaste não disseste bom dia” seria julgar também, porque a pessoa pode ter dito e eu não ter ouvido.

Porque alguém matou um cão a nossa tendência é chama-lo mata cães o resto da sua vida; julgamos uma pessoa por um único ato. A crítica, a avaliação, o julgamento, e a interpretação bloqueia a comunicação pois quase sempre é injusta e a pessoa sente-se coagida, arquivada, aprisionada pelo rótulo que lhe colocámos, não a deixamos ser ela mesma, nem progredir; não nos relacionamos com ela, mas com uma imagem que nós fizemos dela; uma imagem que pode mais ao menos servir o nosso mesquinho objetivo, mas não o da comunicação genuína e saudável. Esta é a forma de fazer um inimigo não um amigo.

Resulta-nos muito difícil fazer uma observação objetiva, nua e crua, porque a maior parte das vezes projetamos nas nossas observações, os nossos interesses, a nossa inveja, o nosso ódio, ou pelo contrário o nosso louvor sobre o ato que observamos. É assim que tem funcionado o mundo, por isso falar de uma outra forma é verdadeiramente uma revolução coperniciana.

A observação desprovida de critica, avaliação, julgamento, interpretação é dinâmica, pois permanece aberta; ao misturamos uma avaliação ou interpretação, o observado, ou seja, uma pessoa em ação, perde dinamismo e fica fechada, imóvel, estática, como quem faz uma fotografia. Por isso a NVC evita o verbo Ser e usa verbos de ação no seu lugar.

Sentimento
Depois de observar sem analisar, e declarar certo ou errado bom ou mau, o ato seguinte é conectar com os nossos sentimentos fugindo do pensamento, pois o pensamento é quase sempre tendencioso e viciado no avaliar e interpretar, para depois criticar e julgar. Os sentimentos dizem mais de nós mesmos que os pensamentos. Se não consigo conectar comigo mesmo dificilmente conseguirei conectar com o outro.

Sentimentos representam a nossa experiência emocional e sensações físicas associadas com as nossas necessidades satisfeitas ou insatisfeitas. Como adiante veremos ao falar de necessidades, os sentimentos estão para as necessidades como o fumo está para o fogo. Qualquer sentimento ou emoção sentida fala-nos de uma necessidade satisfeita ou insatisfeita.

Nesta etapa o nosso objetivo é identificar, nomear e conectar com os nossos sentimentos. O pensamento deve, portanto, ser autorreflexivo, desviado do outro e ser colocado ao serviço dos nossos sentimentos ajudando-nos a interpreta-los e a identificá-los.

Depois de interpretar o que nos vai no coração, podemos, devemos expressar os nossos sentimentos evitando cair na armadilha e autoengano de responsabilizar os outros por eles. A expressão “Sinto-me só” é uma genuína expressão do sentimento interior de solidão. Porém se digo “Sinto que não me amas” é uma ilegítima tentativa de descrição e interpretação dos sentimentos do outro, acompanhada de uma acusação implícita.

Devemos expressar os nossos sentimentos assumindo por completo a responsabilidade pela nossa experiência; isto ajuda os outros a ouvir o que é importante para nós, sem se sentirem criticados ou acusados, aumentando a probabilidade de que a sua resposta seja empática e satisfaça assim as necessidades de ambos.

Necessidade
O terceiro elemento da comunicação não violenta, é a necessidade que está intrinsecamente ligada ao elemento anterior. Quando um sentimento aflora à nossa consciência devemos saber que é apenas um mensageiro, enviado pela nossa natureza humana, para nos alertar de uma necessidade que está ou não está a ser satisfeita. Por isso o que deve ser feito imediatamente é descobrir qual é essa necessidade e fazer-nos responsável por ela.

Uma vez mais ao sermos conscientes dos nossos sentimentos a nossa tendência é não assumir a responsabilidade por eles, acusando os outros de nos sentirmos desta ou da outra forma; as ações dos outros podem ter despoletado os nossos sentimentos, cometemos um grave erro, no que respeita à comunicação não violenta, se pensamos que foram os outros que causaram esses sentimentos. A única causa dos nossos sentimentos, é a satisfação ou insatisfação das nossas necessidades.

Quando conseguimos conectar os nossos sentimentos com as nossas necessidades perfeitamente identificadas, demos um passo importante na comunicação não violenta, ao evitar culpabilizar os outros ou a nós mesmos. A expressão genuína das nossas necessidades, cria uma oportunidade muito provável para que o nosso interlocutor possa sentir empatia e contribuir para a sua satisfação.

As necessidades são universais; todos os seres humanos têm as mesmas necessidades, pois elas provêm de algo que é transversal a todos os seres humanos, de todo tempo e lugar, a natureza humana que permanece invariável ao longo dos tempos e ao largo das distintas culturas dos povos que habitam este planeta.

No contexto da comunicação não violenta, como Rosenberg gosta de dizer, elas referem-se ao que há demais vivo em nós; o que é mais central e importante para nós, os nossos desejos mais profundos.

A compreensão, identificação e conexão com as nossas necessidades ajudam-nos a melhorar a nossa relação connosco mesmos, promovendo um maior entendimento com os outros, aumentando exponencialmente o grau de probabilidade de que as devidas ações sejam tomadas para que as necessidades de todos sejam satisfeitas.

A comunicação não violenta leva sempre ao que em inglês se chama “a win, win situation”, ou seja, um resultado final benéfico para todas as partes envolvidas; todos ganham ninguém perde.

Pedido
Os seres humanos não são ilhas; temos uma dimensão individual, somos únicos, irrepetíveis e indivisíveis, livres e independentes, mas também temos uma dimensão social pela qual sempre somos parte de uma família, de um grupo, de uma instituição, de um país. Porque esta é a nossa natureza, a satisfação de muitas, se não de todas, das necessidades individuais envolvem, de alguma forma, no seu processo os outros.

Cientes e conscientes das nossas necessidades, o próximo passo é pensar numa estratégia, numa ação que no nosso entender leva à satisfação dessas necessidades; e, como há pessoas que podem estar envolvidas, certificar-se acerca da sua disponibilidade para participar na estratégia que delineamos para satisfazer as nossas necessidades desta forma. Como todos os seres humanos vivemos num plano de igualdade uns com os outros, antes de chegar à formulação de uma petição devemos certificar-nos também da existência ou não existência de empatia. O afetivo é efetivo e o não afetivo é inefetivo.

São petições, solicitações, o que fazemos e não demandas, ordens ou requisições. Entre estas duas há uma linha divisória muito fina. Muito depende das palavras que escolhemos ao formular a petição; também do tom de voz usado, as palavras adequadas podem ser expressadas num tom de voz inadequado, que aos ouvidos da outra pessoa soa a demanda ou ordem; muitas vezes só sabemos se demos uma ordem ou fizemos uma petição depois da resposta do outro.

 Devemos estar preparados para um “não”. Um não a uma ordem tem consequências punitiva; um não a uma petição não deveria intimidar-nos, desequilibrar-nos ou desencorajar-nos, mas sim ser motivo para um maior diálogo com a pessoa.  Devemos ser capazes de reconhecer que um “não" é uma expressão de uma necessidade que impede a outra pessoa dizer "Sim".

Para aumentar a probabilidade de que a nossa petição tenha aceitação junto do outro, esta deve ser clara, concreta e não genérica no que respeita ao tempo e à ação a executar, realista e realizável. Por exemplo, “gostaria que sempre fosses pontual” não é exequível e pode soar a ordem; ao contrário, “estarias disposto a gastar 15 minutos comigo para falar sobre o que te poderia ajudar a chegar às 09:00 às nossas reuniões? " é concretizável.

Se alguém aceita o nosso pedido por medo, culpa, vergonha, obrigação, ou o desejo de recompensa, fica comprometida a qualidade da relação e confiança entre ambos. Tarde ou cedo os dois pagarão esta aceitação violenta, pois fundamentalmente cria um credor e um devedor. Em linguagem não violenta ninguém se humilha, ninguém se exalta; ninguém perde ninguém ganha, ninguém pede favores ninguém faz favores.

O Processo da Comunicação não violenta
Boca - A comunicação não violenta processa-se ao nível da boca, no que dizemos e como o dizemos, neste caso devemos expressar honestamente as nossas observações com precisão, os nossos sentimentos, as nossas necessidades e em base a estas as nossas solicitações. A comunicação não violenta ajuda-me a descobrir e a interpretar o que está vivo em mim, o que se passa comigo, de forma a melhor comunicar comigo mesmo, na gratuidade, compaixão e empatia.

Ouvido – A comunicação não violenta não se processa só no que eu expresso pela minha boca ou linguagem corporal, mas sim pela forma como eu ouço as observações, infiro os seus sentimentos e as suas necessidades assim como as suas solicitações. A comunicação não violenta ajuda-me a descobrir e a interpretar o que está vivo no outro, e o que se passa com ele, de forma a melhor comunicar com ele, na gratuidade compaixão e empatia.

Portanto os quatro elementos da comunicação não violenta são usados, tanto na nossa expressão, como ouvindo com empatia a expressão dos outros. Expressar honestamente observações, sentimentos, necessidades e apelos e ouvir empaticamente observações, sentimentos, necessidades e apelos.

Observação - As ações ou factos concretos que estamos observando e que potencialmente podem afetar o nosso, ou fazem referência, ao nosso bem-estar.
Sentimentos – Como nos sentimos em relação ao que estamos observando; que sentimentos despoleta em nós o que estamos observando.
Necessidades – Descoberta ou tomada de consciência dos valores, desejos, necessidades, que são a verdadeira causa dos nossos sentimentos, e não o que estamos observando nem a quem estamos observando.
Pedidos - As ações concretas ou atos que solicitamos ao outro, ou outros, a fim de satisfazer as nossas necessidades e enriquecer as vidas de ambos.

Articulação dos quatro componentes
A CNV é um edifício com três bases e quatro pilares. As três bases são a compaixão e a empatia e a gratuidade que bem se podem resumir no mandamento do amor ao próximo como a ti mesmo. Neste sentido, poderíamos dizer que a CNV é uma teoria geral do amor ao próximo como a ti mesmo, ou uma forma de o aplicar no nosso dia a dia.

Uma outra metáfora para explicar como se conjugam na CNV os quatro pilares com a empatia e a gratuidade, seria o funcionamento de um motor. O combustível explosivo, o que o motor gasta e o faz andar, é a Gratuidade ou dar do coração; Observação Sentimento Necessidade Pedido, são os quatro pistons, o que no motor se move; para que estes se movam incessantemente, necessitam de estar lubrificados, envoltos no óleo da Empatia ou compaixão.

Na forma como funcionam, os motores de combustão interna, seja de gasóleo de gasolina ou de gaz, são também chamados motores de quatro tempos:  Admissão – Compressão – Explosão – Escape: No primeiro tempo o pistão desce e permite  a admissão de uma mistura de combustível com ar; no segundo o pistão sobre e comprime a mistura; no terceiro momento a mistura explode empurrando o pistão para baixo provocando o movimento do motor; nesse mesmo impulso o pistão sobre expulsando os gases residuais da combustão, e o ciclo recomeça de novo.

Como já estabelecemos uma analogia entre os componentes da Comunicação Não-Violenta e os componentes de um motor de combustão interna, podemos agora utilizar agora o funcionamento de um pistão nos seus quatro momentos analogia dos quatro momentos da CNV. Assim à admissão de combustível corresponde à observação que consta da recolha e admissão de informação do exterior que vai provocar a nossa reação; à compressão do combustível corresponde aos sentimentos que a observação provoca ou estimula, assim como o empurrar para baixo no sentido das necessidades que são as verdadeiras causas dos sentimentos; a explosão do combustível corresponde à ignição que o sentimento comprimido provoca na necessidade que lhe corresponde.

A explosão é no motor de combustão interna o que provoca o movimento; no motor da CNV também é, de facto necessidades ou os valores são a motivação fundamental do comportamento tanto humano como animal. Quando o sentimento encontra e ignita a necessidade dá-se a combustão ou a explosão que vai motivar o quatro momento que é o sair para fora de si; no motor é a exaustão ou escape em CNV é a formulação de um pedido.

O ser humano é composto por cabeça, tronco e membros; deixando os membros de fora, ou seja, os braços e as mãos para atuar as pernas e os pés para deslocar-se, ficamos com a essência do ser humano a cabeça e o tronco. Na cabeça coloca-se a funções do observar e inquirir ou pedir; na parte superior do tronco o sentir na inferior o necessitar. Na CNV o ser humano resume-se a sentimentos e necessidades, sendo os sentimentos somente o detetor ou o termómetro das necessidades que indica que aquelas, as necessidades estão ou não satisfeitas.

Para Rosenberg, o que verdadeiramente nos define não são os pensamentos (crenças, ideias, projetos e opiniões), mas os sentimentos e as necessidades; a estes, se refere a expressão tantas vezes por ele repetida, “O que em nós está vivo”, o que se passa contigo, neste precioso momento.

A observação, o primeiro componente da CNV, só serve para me dar conta ou fazer-me consciente do que se passa comigo ou com o outro a nível intelectual; só depois de me conectar empaticamente comigo mesmo e com o outro a que estou em condições de formular um pedido. A cabeça é para observar e pedir, não para avaliar nem julgar nem definir, nem a si mesmo nem os outros. Esta é a formula: Quando te vejo… / “Quando te ouço dizer…” (Observa: ação ou afirmação) “Sinto…” (Partilha sentimento), “Porque necessito de…” (revela necessidade) “Importas-te de...” (faz um pedido). Vejamos como se articulam os 4 componentes no seguinte dialogo:

Depois do jantar a esposa diz ao marido:
- Querido hoje durante todo o dia, tenho-me sentido um pouco só e desamparada; o único pensamento que me reconfortava era a lembrança daqueles serões que passávamos no sofá abraçados a ver um filme. Tenho necessidade de reeditar uma dessas noites e voltar a sentir o que sentia. Queres dar-me esse prazer?

- Gostaria, eu também me lembro desses serões com saudade, porém hoje é a final entre o Benfica e o Porto, e eu já prometi aos meus amigos que iria ver o jogo com eles; importas-te que deixemos o filme para amanhã?

Se a esposa não usa CNV dirá que o marido não a ama, que dá mais importância a um jogo que a ela etc.. Se em vez usa CNV, não ouve um “Não” às suas necessidades, mas um “Sim” às necessidades do marido com as quais em empatiza; porque o ama e como o ama como a si mesma, a satisfação das necessidades do marido é tão importante quanto a satisfação das suas, que neste caso apenas ficam adiadas por um dia. Se o marido cedesse à esposa reprimindo as suas necessidades e fizesse por culpa ou obrigação o que a esposa queria os dois acabariam por pagar uma fatura bem pesada.

Aqui entra outra vez a filosofia do amor ao próximo como a ti mesmo; dentro desta filosofia, as necessidades do outro são tão minhas como as minhas, porque amar como diz São Tomás de Aquino, é querer o bem do outro. Por outro lado, não se pode ser feliz sozinho nem à custa do outro, mas só com o outro; em CNV não há ganhadores e perdedores, ou ganham todos ou perdem todos.

Conclusão
Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. Apocalipse 21, 1

Estes são os quatro cavaleiros da nova ordem internacional, de um novo Céu e de uma nova terra; a verdadeira Terra Prometida, o Reino de Justiça e Paz onde a violência, como meio para estabelecer a paz, se tronou obsoleta, pois as necessidades de todos estão satisfeitas. No livro do apocalipse a palavra “Mar” representa o mal, pelo que nessa terra de fartura e felicidade o mal já não existe. E como os instrumentos de guerra se transformaram em instrumentos de paz, (Isaías 2,4) o lobo pasta agora com o cordeiro; não haverá mais mal nem destruição (Isaías 65, 25)
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de abril de 2018

CNV - Gratuidade, combustível da Comunicação não-violenta

1 comentário:
Santa Páscoa!
Compaixão é o conceito fundador e inspirador da comunicação não-violenta. Quando Rosenberg percebeu que não estava tendo muito sucesso na prática da psicoterapia individual, estudou as religiões do mundo na busca pelo significado e o sentido da vida e descobri que todos elas afirmam que devemos viver com compaixão; que devemos ser misericordiosos e compassivos como Deus que nos criou é.

Gratuidade
O que eu quero na minha vida é compaixão, um fluxo entre mim e os outros com base numa entrega mútua, do fundo do coração. MARSHALL B. ROSENBERG

Recebestes de graça, dai de graça. Mateus 10, 8

É a compaixão que nos impulsiona propulsiona a dar com o coração, com alegria, livremente, sem esperar nada em troca, sem querer nada em troca e certificando-se de que o fazemos de forma que o outro não sente que fica em dívida connosco.

Se a empatia é o lubrificante, o óleo do motor ou o ambiente que facilita o movimento incessante dos quatro pistões no motor da comunicação não-violenta, a gratuidade ou o dar naturalmente ou do coração, é o combustível que torna possível a combustão e a explosão dentro dos cilindros movendo os pistões.

Parece que Rosenberg pode ter tirado o seu conceito "dar do fundo do coração", da sua própria experiência de vida. Ele conta a história que estando ele esperando um comboio numa estação, avistou um trabalhador negro, que se preparava para comer uma laranja depois de terminar o almoço de marmita. Ao dar-se conta que um menino sentado ao colo da sua mãe não tirava os olhos da laranja, o trabalhador levantou-se limpou a laranja, deu-lhe um beijo e ofereceu-a ao menino. Edificado pelo gesto Rosenberg teve a oportunidade de perguntar ao trabalhador mais tarde a razão pela qual ele deu um beijo à laranja ao que este respondeu: “Nunca dês nada a ninguém a não ser do fundo do coração”.

Utilizaremos a palavra “gratuidade” quando ele fala de “natural giving” - dar com naturalidade ou dar naturalmente e “giving from the heart” - dar do coração. Gratuidade é de facto dar do coração, amar é amar incondicionalmente “with no sttrings attached” como se diz em inglês, sem reservas e sem segundas intenções. Sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita como sugere o evangelho (Mateus 6, 1-4)

Uma vez satisfeitas as necessidades físicas, ser amado e amar é a primeira e a mais importante necessidade humano; sem a plena satisfação desta necessidade, não existe vida humana. No entanto experimentamo-la de forma diferente nas diferentes fases da vida. Quando somos crianças o prioritário é ser amado; enquanto que quando somos adultos, a necessidade primária é amar, dar livremente e, incondicionalmente, do fundo do coração, sem qualquer tipo de compulsão ou obrigação.

Se um adulto sente mais necessidade de ser amado que de amar, como vemos nas telenovelas, não é verdadeiramente um adulto pois ainda possui a imaturidade afetiva própria de uma criança ou um adolescente.

Por outro lado, o conceito de gratuidade diz não só respeito ao dar, também diz respeito ao receber. Frequentemente quando recebemos, sentimo-nos na obrigação de retribuir. Não vive o espírito de gratuidade quem dá com segundas intenções, para receber em troca ou para aumentar a sua popularidade, nem quem recebe e se sente obrigado ou em dívida com quem lhe deu.

No capítulo "Dar do fundo do coração, do seu livro, Rosenberg cita a letra de uma canção que diz tudo o que há a saber sobre gratuidade; de acordo com a canção, receber e dar significam o mesmo por quanto damos ao receber e recebemos ao dar.

Nunca me sinto mais presenteado
Do que quando recebes algo de mim
Quando compreendes a alegria que sinto
ao dar-te algo

E sabes que o meu dar não é
para que fiques em dívida comigo,
Mas porque quero viver o amor
que sinto por ti.

Receber gratuitamente
pode ser a maior doação.
Não há forma de separar
as duas coisas.

Quando me dás,
Eu dou-te o meu receber.
Quando recebes de mim, sinto-me tão
presenteado.

O mesmo dizia São Francisco de Assis na sua famosa oração pela paz muitos seculos antes:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Gratuidade nas linguas neolatinas
Nas línguas neolatinas respondemos grazie, gracias, em português respondemos obrigado, que provavelmente vem do inglês “I am much obliged” e que desvirtua o espírito de gratuidade. Em Portugal todos dizemos obrigado quando somos agraciados por alguém; só os pobres, que não podem retribuir, dizem “Que Deus te pague”; não se sentem obrigados pois supõe que quem o agraciou sabe que não lhe pode retribuir. É por isso que que faz sentido o conselho que Jesus nos dá no evangelho de convidar para os nossos banquetes aqueles que não nos podem retribuir, (Lucas 12, 14-12-14).

Quem ama o outro condicionadamente engana-se que ama o outro, mas no fundo ama-se a si mesmo e não o outro. Projeta-se no outro, espelha-se naquele no qual quer ver o que em si não vê. O seu amor é somente uma manipulação do outro. Gratuidade é amar e ser amado sem condições, deixando o outro ser ele mesmo. Quando o outro se apercebe deste amor incondicional coloca de parte a ansiedade, libertando-se da necessidade de ter um bom desempenho ou ser bem-sucedido.

O amor incondicional é pouco comum mesmo entre pais e filhos.  De facto, não são poucos os pais que condicionam o amor pelos filhos ao seu sucesso escolar e ou profissional; estes filhos crescem confundindo amor com sucesso pagando mais tarde na vida um alto preço por este erro. O que ama incondicionalmente é sempre bem-sucedido na vida; o que, acima de tudo, busca o sucesso fá-lo frequentemente a expensas do amor, podendo chegar a ser vitorioso na profissão, mas derrotado na vida. Porque viver é amar…

Quando alguém declara que nos ama, por palavras ou por gestos, ficamos logo de pé atrás e resulta-nos difícil aceitar esse amor sem medo de cair numa armadilha ou contrair uma dívida com juros altos e difícil de pagar, ficando à mercê de um caprichoso gerente de banco que em qualquer momento pode apresentar a fatura.

Como “Gato escaldado de água fria tem medo”, as experiências negativas do passado, sobretudo as da infância, colocam-nos tão à defensiva que muitas vezes acabamos por bloquear até aqueles que nos presenteiam com o seu amor incondicional. Ficámos tão desvalidos com as experiências negativas do passado que agora não nos sentimos merecedores de verdadeiro amor, pelo que bloqueamos todo amor que venha ao nosso encontro. Levantamos uma barreira de resistência e descrédito, pois tememos a sedução, a exploração. Quantas vezes um amor livre de condições encontra o nosso coração defensivamente congelado. 

O egoísmo não compensa nem ao egoísta
A roda de um moinho só se move se a água passar por ela. Se o primeiro de vários moinhos ao longo de um regato retivesse a água só para si, de nada lhe serviria, pois, a sua roda também não se moveria. Não há nenhuma vantagem em ser o primeiro no regato nem nenhuma desvantagem em ser o último, pois tanto o primeiro como o último só se movem se a água correr. Ou se movem todos os moinhos, ou não se move nenhum.

O mesmo se passa no contexto da comunicação não-violenta; como ninguém pode ser feliz à custa da infelicidade dos outros, ou ganham todos ou perdem todos; se a minha pretensa felicidade faz outros infelizes nunca pode ser uma verdadeira felicidade; tarde ou cedo o mal que causo aos outros faz retorno. Por isso a CNV é pratica a filosofia do win-win, no sentido de que todos ganham quando um ganha, e todos perdem quando um perde. O egoísmo nunca compensa, não convém nem ao egoísta.

É por isso que em comunicação não-violenta as necessidades dos outros são assumidas como minhas também. Neste sentido, a CNV é uma aplicação prática do mandamento do amor ao próximo como a ti mesmo; assim como da regra de ouro de todas as religiões do mundo que diz “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”. O cristianismo é a única religião que tem uma versão positiva desta regra: “O que queres que os outros te façam a ti, fá-lo tu a eles” Mateus 7, 12

A compaixão leva à gratuidade
Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.» Lucas 19, 1-9

Acusar, etiquetar as pessoas só as leva a fechar-se defensivamente no seu reduto, confirmando-as e reforçando-as e fazendo-as mais fortes nas suas atitudes.  Não se vence a violência com violência; a única paz que se consegue pela violência é a paz do cemitério; a violência não é solução para nenhum problema e cria muitos outros; é, portanto, completamente contraproducente. O ódio só pode ser vencido com amor; pretender vencer o ódio com ódio é como apagar fogo com fogo.

“Sê o que desejas ver nos outros” dizia Gandhi; tal como a violência gera violência, a compaixão gera compaixão e induz à gratuidade. No contexto da justiça retributiva, Zaqueu não merecia a compaixão de Jesus nem o presente da sua visita, mas o castigo. “Com vinagre não se caçam moscas”, castigos, etiquetas, críticas e insultos não fariam Zaqueu mudar de vida e de perspetiva.

Foi a compaixão não merecida, incondicional, que moveu Zaqueu a ser compassivo para com aqueles para quem tinha sido cruel, e fazer restituição voluntariamente, sem ninguém lha ter pedido, àqueles a quem tinha roubado.

Um dia, uma mãe veio para suplicar a Napoleão pela vida do filho. O jovem tinha cometido uma infração grave. A lei era clara. Justiça exigia a sua morte. O Imperador estava determinado a garantir que a justiça fosse feita. Mas a mãe insistiu, 'Vossa Excelência, eu vim implorar misericórdia, não justiça.'
 - Mas ele não merece misericórdia, retorqui Napoleão
- Excelência, disse a mãe, não seria misericórdia se a merecesse
- Assim seja, disse Napoleão. Terei misericórdia dele. E libertou-o

Quando somos compassivos com aqueles que não merecem, ativamos neles a compaixão, que está bem escondida, esquecida e cheia de pó e teias de aranha no fundo do seu coração. Sabemos que o que foi abusado, fisicamente ou sexualmente, facilmente se transforma ele mesmo num abusador, passando o resto da vida a vingar-se em inocentes dos abusos primigénios dos primeiros anos da sua vida de inocente. Só a compaixão gratuita pode salvar a pessoa deste círculo vicioso que destrói a sua vida e as vidas dos que com ele se relacionam.

O que bloqueia a compaixão
Eis algumas afirmações que frequentemente ouvimos e que a nosso ver mais servem para justificar e racionalizar o uso da violência e continuar o jogo de quem está certo e de quem está errado.

É dar parte de fraco, as pessoas aproveitar-se-iam de mim se eu fosse compassivo – O poder do amor é mais forte que o amor pelo poder. Ninguém nos pode tirar a nossa dignidade se não lha dermos; ninguém nos pode obrigar a fazer nada. Podem subjugar o nosso corpo, mas não a nossa alma, a nossa integridade, a nossa pessoa. Como a compaixão desarma os poderosos, os benefícios da compaixão são tanto para a pessoa compassiva como para a pessoa que recebe a compaixão.

Há pessoas que não merecem compaixão – Não entramos no jogo de quem merece e quem não merece; a compaixão, se fosse merecida já não seria compaixão, mas justiça. Deus faz chover sobre justos e injustos; todo ser humano é, pelo simples facto de ser humano, merecedor de compaixão. E provavelmente quanto mais mau mais merecedor é, pois só pela compaixão pode sanar da sua maldade.

Ser compassivo para com os que procederam mal é deixa-los impunes – Ser compassivo não significa que aceitamos comportamento rude, traição, violação, injustiças sistêmicas, ou crueldade, ofensas, crimes. Significa, no entanto, que aceitamos que estas coisas acontecem; que nos podemos defender delas assertivamente, mas não agressivamente, condenando o ato não o ator. A violência não justifica o uso de violência, pois esta não soluciona nenhum problema e faz o problema maior pois a violência tende a escalar.

A linguagem que nos aliena uns dos outros
Gratuidade é contribuir livre e incondicionalmente para a vida, felicidade e autorrealização dos outros e deixar que os outros contribuam para a nossa vida, felicidade e autorrealização sem sentir-se em dívida para com eles.

Tudo o que fazemos na vida que não seja por pura gratuidade; tudo o que fazemos por medo a ser punidos ou para receber um prémio, ou par agradar a alguém; movidos pelo sentimento de culpa, ou por um sentido de dever e obrigação, ambas as partes envolvidas neste tipo de transação ou relação acabam por pagar um alto preço que acabará por destruir a relação; pois se estabelece um tipo de relação doentia, como a que existe entre o masoquista e o sadista, que só permanece enquanto os dois forem doentes, mas ninguém vive feliz na doença.

Diagnósticos, julgamentos, rótulos, análise, crítica, comparações… Todo pensar em termos de este merece um prémio, ou uma recompensa, aquele merece um castigo. Tudo o que fazemos por mera obediência; todo pensar em termos de negação de responsabilidade, a culpa não é minha; negação de escolha, não tive outra hipótese, não há plano B; é linguagem violenta que nos aliena e degrada.

Julgamentos e rótulos – Os julgamentos e rótulos arquivam o outro; frequentemente não é justo, pois julgamos o outro por uma só ação que generalizamos. Não deixamos o outro ser o que é, fixamos a identidade do outro. Se algo a linguagem não violenta rejeita é o verbo ser. Todos somos um ser em construção; qualquer definição estática do outro é sempre preconceituosa.

Prémios e castigos – Tanto o bem como o mal ficam com quem o pratica, ou seja, têm os seus benefícios ou malefícios em si mesmos como o anexo de um email. Evitar fazer algo por medo a ser apanhado, por exemplo, não é suficiente travão para evitar fazer o mal pois um dia virá em que me sinta seguro de que ninguém me vê, supere o medo, e farei o mal. Não devo fazer o mal por estar convencido que é mal. Da mesma forma que fazer isto ou aquilo para receber um prémio, também não é gratuidade é como quem trabalha para um salário; o dia em que não haja prémio não o faço.

O castigo pode ser uma simples repreensão em público que me envergonharia, e o prémio pode ser um simples elogio, mas é a mesma coisa.

"És muito bom!" "Bom trabalho!" "És uma pessoa gentil." Os elogios, para quem os recebe, podem transformar a pessoa em aditiva que faz o que faz não por gosto próprio, mas para receber elogios; podem ser ocasião de falsa humildade ao negar a importância do que fez dizendo “não foi nada” ou levá-lo a pensar que é melhor do que ninguém; pelo lado de quem os faz, os elogios são muitas vezes uma forma de manipular o outro ganhando-o para os nossos interesses obscuros. Por exemplo o patrão que diz ao operário que sem ele a empresa vai à falência, seguidamente pede-lhe horas extraordinárias.

A recompensa no evangelho
(...) porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos?  - Mateus 5, 46

«Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu.Mateus 6, 1

Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então, a vossa recompensa será grande e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom até para os ingratos e os maus.  - Lucas 6, 35

Jesus exorta os seus discípulos a praticar a gratuidade; a fazer as coisas por elas mesmas sem esperar uma recompensa imediata; mas como o bem fica com quem o pratica assim como o mal, uma certa “recompensa” segue o ato esta é a que recebemos no Céu. Revela maturidade psíquica aquele que consegue resistir ao prazer imediato ou satisfação imediata e adia um e outro; Jesus pede-nos que adiemos para o Céu o prémio ou recompensa do que fazemos na terra. É isto mesmo que significa “Atesourai tesouros no Céu…” (Mateus 6, 20

Comparações – Os espanhóis dizem que as comparações são odiosas. Quando nos comparamos aos outros ou ao que convencionalmente é tido como o inteligente, o belo, o bem constituído, deixo de ser eu mesmo (só posso ser eu mesmo) para ter inveja e tentar imitar o outro. Esqueço-me que no ser eu mesmo ninguém me pode bater. As comparações vêm por virtude da competição a competição é de por si violenta; quando aceitamos os outros e a nós mesmos como somos não há motivos para competir, pois só podemos ser o que somos e no ser o que somos ninguém pode ser melhor que nós.

Negação de escolha – Todas as expressões que começam com “Eu tenho que…” são uma negação de escolha e da liberdade dos filhos de Deus. Desta maneira manifestamo-nos como escravos do dever. Para a linguagem não violenta o dever não existe; só fazemos o que gostamos com vista a viver plenamente e abundantemente. O que fazemos por obrigação não será bem feito e tarde ou cedo deixamos de o fazer. Pelo contrário como diz o proverbio, “quem corre por gosto não cansa”.

Rosenberg, nos seus livros e palestras, dá o exemplo daquela mulher que tinha que ir embora pois tinha que ir cozinhar e ela não gostava de cozinhar; até que baseada na linguagem não violenta um dia anuncia na família que não iria continuar a cozinhar; dias mais tarde os filhos agradeceram que a mãe tivesse deixado de cozinhar, pois nem a comida era boa e estavam fartos de ouvir as suas queixas pois o fazia por obrigação.

Negação de responsabilidade – Obrigaram-me a fazê-lo, o uso abusivo da obediência para negar responsabilidade; Rosenberg cita aqui os oficiais dos campos de concentração nazi que mandaram milhares de pessoas para as câmaras de gás sem se sentirem culpáveis, pois negavam a responsabilidade pessoal no assunto. Em linguagem não violenta todos somos responsáveis dos nossos atos, pelo que ninguém nos pode obrigar a fazer o que a nossa consciência nos diz que é errado.

A nossa consciência moral é o que nos faz verdadeiramente livres, pelo que só fazemos o que ela nos dita; somos autónomos; não nos exaltamos sobre ninguém, nem nos humilhamos a ninguém porque os nossos atos são mandados desde dentro da nossa consciência, sempre somos responsáveis por eles e mais ninguém.

A nossa consciência moral, bem formada e informada, é o que nos torna verdadeiramente livres, então apenas fazemos o que nos diz para fazer. Nós não nos elevamos acima de ninguém, nem nos submetemos a ninguém; como pessoas livres, independentes e autónomas, as nossas ações brotam do interior da nossa consciência e por ela são guiadas; assim sendo, ela e nenhuma outra instância, é responsáveis pelos nossos atos. A nossa consciência moral só responde perante Deus, nisto consiste a liberdade dos filhos de Deus (Romanos 8,21)

A gratuidade em ação na forma como agradecemos e somos agradecidos
Viver em gratuidade significa que nada fazemos que seja motivado por coação, dever, obrigação, por medo a ser repreendidos ou castigados ou na ansia de receber louvores e prémios. Tudo o que fazemos é por puro amor, pela alegria e prazer que sentimos ao contribuir para o nosso bem e o bem dos outros.

Tanto o “bem” como o “mal” ficam com quem os praticam; ou seja, o castigo pelo mal praticado é inerente à própria pratica do mal, não vem desde fora; não vem certamente de Deus. Como alguém disse Deus sempre perdoa e esquece; os humanos umas vezes sim outras vezes não; a Natureza seja ela a natureza física como a humana, nem perdoa nem esquece; “Quem semeia ventos colhe tempestades”. Da mesma forma o prémio pela pratica do bem é inerente à mesma pratica como o anexo de um email.

Como em CNV não fazemos nada para sermos louvados ou recompensados, também não recompensamos nem louvamos os outros pelo que fazem. Nem temos fome dos louvores dos outros e não os esperamos como feedback do bem que fazemos, nem os usamos os como isco para caçar os outros e fazendo-os adictos aos nossos louvores com o fim de os manipular e controlar.

Longe destes jogos psicológicos, tal como em vez de pedir ou exigir desculpas pelos nossos erros e os dos outros, fazemos luto, em vez de louvar e ser louvados celebramos; tanto os nossos como os acertos e conquistas dos outros.

Tanto o dar como no receber gratuitamente, segue o paradigma dos quatro componentes da linguagem não violenta. Assim, expressamos e sentimos gratuidade, agradecemos e somos agradecidos:
  1. O que é que eu fiz em concreto que contribuiu para o enriquecimento da vida do outro… O que é que o outro fez especificamente que enriqueceu a minha vida.
  2. Como te sentes quando pensas no que fizeste ao outro… Como te sentes quando pensas no que o outro te fez…
  3. Que necessidade ou valor foi satisfeito pelo que fizeste ao outro…. Que necessidade ou valor foi satisfeito pelo que o outro te fez…

Exemplo: quando me ofereceste ajuda esta manhã, senti-me grato porque dou muito valor à interajuda entre os membros da nossa equipa. Expressar gratuidade não é o mesmo que agradecer, por isso é importante tanto para quem faz a ação como para quem a recebe expressar gratuidade; expressar como aquela ação enriqueceu a minha vida: a pessoa que fez a ação também precisa de ter algum feeback do que faz.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de março de 2018

CNV: A Empatia lubrificante da comunicação não violenta

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Os componentes da linguagem não violenta, como já foi dito, são quatro: observação sentimentos necessidades - pedidos. O objetivo da linguagem não violenta é estabelecer relações baseadas na empatia e na gratuidade de forma a que as necessidades de todos sejam satisfeitas. A compaixão e a gratuidade são a filosofia de fundo na qual os quatro componentes operam, o meio em que operam e o objetivo final. Neste sentido a compaixão e gratuidade são ao mesmo o princípio, o meio e o fim da linguagem não violenta

Os Alquimistas da Idade Média buscavam a pedra filosofal porque acreditavam que esta pedra tinha o condão de transformar em ouro tudo o que tocasse. Para a linguagem não violenta, a pedra filosofal é a empatia; ela é a varinha de condão que faz possível que os quatro componentes funcionem e as pessoas vivam em gratuidade, harmonia e entendimento.

A comunicação não-violenta funciona como um motor de carro de quatro pistões; os quatro pistões são os quatro componentes da CNV: observações – sentimentos – necessidades – pedidos. O contínuo movimentos destes, para cima e para baixo, dentro dos respetivos cilindros ativado pela explosão do combustível é o que mantém o motor funcionando e o carro em movimento. A gratuidade, ou o dar do coração, como diz Rosenberg, é o combustível que torna possível a combustão, explosão e movimento dos pistões.  No entanto, para que estes funcionem sem parar e com um mínimo de desgaste, é preciso que estejam envolvidos e embebidos em óleo. Este óleo que facilita e torna possível todo o processo sem sobreaquecimento nem desgaste, é em CNV a Empatia.

O que é a empatia?
Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Mateus 9, 36

Em linguagem não violenta, empatia, termo usado pela psicologia em geral é semelhante ao “unconditional positive regard”, termo usado por Carl Rogers, significam fundamentalmente o mesmo. É sair de si, ver a realidade como o outro a vê, é sentir com, é fazer nosso, o sofrimento dos outros; é aceitar e apoiar uma pessoa independentemente do que tenha dito ou feito. Ser empático, é ser sensível ao sofrimento próprio e dos outros comprometendo-se a aliviá-lo ou evitá-lo.

Expressar as nossas próprias observações, sentimentos, necessidades e solicitações aos outros é uma parte da NVC. A segunda parte é a empatia: o processo de conexão com o outro adivinhando os seus sentimentos e necessidades. A conexão empática pode acontecer às vezes silenciosamente, mas em tempos de conflito, comunicar à outra pessoa, que compreendemos os seus sentimentos e que nos importam as suas necessidades pode ser um poderoso ponto de viragem e a solução do conflito. Porém, demonstrar que temos tal entendimento não significa necessariamente que tenhamos que concordar em agir de maneiras que conflituem com as nossas necessidades.

A linguagem da NVC muitas vezes ajuda a relacionar-nos com os outros, mas o coração de empatia está na nossa capacidade de conectar com compaixão com a nossa própria humanidade e com a humanidade dos outros. Oferecendo a nossa presença empática, neste sentido, é uma estratégia (ou pedido) através do qual podemos satisfazer as nossas próprias necessidades. É um presente para outra pessoa e para nós mesmos, a nossa presença completa.

Quando usamos NVC para conectar empaticamente, usamos os mesmos quatro componentes sob a forma de uma pergunta, já que nunca sabemos, com toda a certeza, o que se passa dentro do outro. A outra pessoa será sempre a autoridade final sobre o que acontece dentro de si mesma. A nossa empatia pode satisfazer a necessidade de entendimento do outro, ou pode até ajudar à sua própria autodescoberta. Podemos perguntar algo como: Quando tu vês, ouves…. Sentes-te... Porque necessitas... Gostarias de…?

Empatia e auto empatia
“Charity begins at home” É difícil a empatia ou benevolência pelos outros se não a tenho por mim mesmo. Se não me amo incondicionalmente a mim mesmo jamais poderei amar os outros incondicionalmente. Tanto a expressão dos nossos próprios sentimentos e necessidades como os palpites empáticos dos sentimentos e necessidades dos outros baseiam-se numa consciência particular que é o coração da NVC. Esta consciência é nutrida pela prática da auto empatia.

Em auto empatia, trazemos a mesma compaixão atenção para nós mesmos que damos aos outros quando os ouvimos usando o NVC. Isso significa dar-se conta de quaisquer interpretações e julgamentos que nos fazemos a nós mesmos dificultando a clareza da nossa consciência em termos dos nossos sentimentos e necessidades. Essa consciência interior e clareza a nível de sentimentos e necessidades ajuda-nos a expressar-nos aos outros e a recebê-los com empatia.

A prática da NVC implica a intenção de conectar-se com compaixão connosco mesmos e com os outros, e uma capacidade de manter a nossa atenção no momento presente – que inclui estar ciente de que, às vezes neste presente momento estamos recordando o passado, ou a imaginar uma possibilidade futura.

 A auto empatia muitas vezes é fácil, como nos damos conta das nossas sensações, emoções e necessidades, para sintonizar a como nós somos. No entanto, em momentos de conflito ou reatividade aos outros, podemos nos encontrar relutantes a conectar connosco mesmos com compaixão, e podemos vacilar na nossa capacidade de nos mantermos no momento presente.

A auto empatia em momentos como este tem o poder de transformar o nosso estado desconectado do ser e voltar-nos para a nossa intenção compassiva e atenção orientada para o presente. Com a prática, muitas pessoas acham que a auto empatia sozinha às vezes resolve conflitos interiores e conflitos com outros pois transforma a nossa experiência de vida.

Autoestima – Ser capaz de desmontar a autocrítica, o julgamento e o sentimento de culpabilidade, e identificar, conectar-me com as minhas necessidades, valores e o que é importante para mim.  Como diz Rosenberg, a autocrítica, o sentimento de culpabilidade e o julgamento são dramáticas expressões de necessidades não satisfeitas. Se consigo descobrir e identificar essas necessidades ou valores, posso reformular esses sentimentos negativos, e começar a sentir-me bem comigo mesmo em virtude de ter conseguido conectar com o meu real e verdadeiro eu.

Empatia pelos outros – Para melhor conseguir sentir e expressar empatia pelos outros, convém seguir a título de conselho os avisos das passagens de nível: Pára – Escuta - Olha. O outro pode dirigir-se a nós em forma de julgamento, crítica, buscando culpar-nos por algo que se passa consigo. Mas se os nossos ouvidos de comunicação não-violenta estão ligados, não é critica o que ouvimos, mas sim uma expressão dramática de uma necessidade insatisfeita. Então, tudo que precisamos fazer é olhar para além da forma de expressão violenta - a crítica, para nos concentrarmos no conteúdo dessa expressão, que é a necessidade insatisfeita.

A linguagem violenta do nosso interlocutor tem de ser traduzida por uma linguagem não violenta, ou seja, não devo personalizar e encaixar as acusações como se me fossem dirigidas a mim; ao contrario, devo desculpar a forma como foram feitas, para me concentrar psicanaliticamente no seu conteúdo e dar-me conta de que não são senão frustrações e expressões dramáticas de necessidades não satisfeitas.

Identificar essas mesmas necessidades requer tempo, requer que eu pare para pensar, respirar fundo, para ter tempo de traduzir e identificar essas necessidades que podem estar nas entrelinhas de um desabafo, uma acusação ou um insulto.

Para não manter a outra pessoa à espera do resultado final dos nossos cálculos posso pensar alto e tentar adivinhar, perguntando tentativamente ao meu interlocutor quais são os seus sentimentos as suas necessidades, o que é mais importante para ele; de certo o meu interlocutor ou concorda, com a interpretação e compreensão que faço do seu discurso, ou me ajuda, esclarecendo-me; esta tentativa de ambos tentarem compreender o que se passa faz com que o meu interlocutor se acalme e ele mesmo conecte com as suas necessidades e lentamente abandone os sentimentos negativos e a violência das palavras.

O coração de empatia está na nossa capacidade de conectar com a nossa própria humanidade e com a humanidade dos outros; com o que há de mais real e de mais vivo em nós e nos outros sem críticas, julgamentos, sentimentos de culpa, pretensões ou subterfúgios.

A linguagem não violenta ajuda-nos a conectar uns com os outros e connosco mesmos de forma a deixar aflorar a nossa empatia natural. É esta empatia que inspira, forma, informa e guia a observação, os sentimentos, as necessidades e as petições que nós fazemos a nós próprios e aos outros. A empatia é a teoria geral da linguagem não violenta e ao mesmo tempo o meio para chegar à harmonia e entendimento entre todos. É, como já dissemos, como o óleo do carro, que envolve as peças em movimento do motor para evitar sobreaquecimento atritos e desgaste.

Pela empatia observamos sem avaliar, culpar ou etiquetar; sentimos e fazemo-nos responsáveis pelos nossos sentimentos sem acusar e exortamos os outros a também tomarem responsabilidade pelos seus; expressamos as nossas necessidades ou valores, o que é importante para nós sem subterfúgios e criamos as condições ou o ambiente para que os outros façam o mesmo; fazemos petições sem pretensões, demandas, obrigações, ou chantagens criando o ambiente para que os outros façam o mesmo.

O cérebro humano é uno e trino
A teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, diz-nos que a vida neste planeta evoluiu de um tronco comum, pelo que todas as formas de vida estão interligadas ao longo de muitos milhões de anos desde que a vida apareceu no mar. Os estados anteriores da evolução não se perderam, mas estão presentes ainda em nós. Desta forma a neurociência diz-nos que temos três cérebros: o reptílico, o mamífero, e o cerebral. Estes encontram-se organizados em forma de matrioska ou boneca russa: o cerebral contem o mamífero que por sua vez contem o reptílico.

O cérebro reptílico – Situa-se no final da medula, é o mais primitivo e ocupa a parte mais interna e central do nosso cérebro. Permaneceu inalterado pela evolução, pelo que o partilhamos com todos os animais que têm espinha dorsal. É responsável pelas funções relativas à sobrevivência, desde o batimento cardíaco, a digestão e locomoção básica ao comportamento sexual. Funciona segundo o princípio de estímulo – resposta automática que pode ser de luta – fuga – imobilização.

Sinónimos destas reações básicas no nosso dia a dia são: Desejo – aversão – ignorância; amor – ódio – indiferença; esperança – medo – desinteresse. Altamente territorial, adquire e defende o seu território pela luta. O motor deste cérebro, é “Might is right”, o poder está certo ou justifica-se.

O cérebro Mamífero – Corresponde ao telencéfalo, estrutura na qual se encontra o hipocampo e as amígdalas, que proporcionam ao mamífero uma maior consciência de si mesmo e do ambiente que o rodeia, dos amigos e dos inimigos. Como os mamíferos cuidam mais tempo da sua prole, do instinto surgem as emoções não só em relação aos filhos, mas também aos da própria espécie, nascendo assim a vida em grupo.

O cérebro racional - O último passo na evolução do cérebro aconteceu há cerca de cem milhões de anos, com o surgimento do córtex cerebral. O córtex cerebral ou cérebro racional não está presente apenas nos seres humanos. Seres inteligentes como golfinhos, baleias, macacos também possuem esta última etapa da evolução cerebral.

Porém, o homem possui o cérebro racional mais desenvolvido pelo qual as emoções como sensações corporais, e comuns aos outros mamíferos, ao serem mediadas por uma compreensão maior e mais racional, transformam-se em sentimentos, como o amor, a compaixão, a empatia.

Como perdemos as estribeiras
Quando estamos calmos funcionamos com o neocórtex, pensamos criticamente, resolvemos problemas, somos criativos e empáticos com os outros; ao contrário quando estamos stressados ou nos apercebemos de um comportamento menos positivo por parte de alguém, perdemos a conexão com o neocórtex, deixamos de sentir empatia e automaticamente nos ligamos ao cérebro mais primitivo o reptílico ficando reduzidos a três opções, ataca, foge ou esconde-te.

O stress ativa uma reação antiga concebida pela natureza para nos ajudar a enfrentar o perigo – o cérebro reptílico. Não podemos sentir empatia por um leão que corre na nossa direção, ou seja ver as coisas desde a sua perspetiva, ao contrário, ou atacamos, ou fugimos ou nos escondemos. Porém o leão pode estar disfarçado numa criança de 5 anos, que raivosamente bate o pé e grita que não quer lavar os dentes. Imediatamente deixamos de ver a criança e vemos o leão e reagimos contra ela como se de um leão se tratasse. Tal como Dom Quixote arremeteu, de lança em riste, contra moinhos de vento pensando que eram o inimigo.

Se em momentos como este conseguirmos lembrar que todo comportamento é uma tentativa de satisfação de uma necessidade, conseguimos desconectar o cérebro reptílico e manter-nos no córtex. Proveniente do nosso cérebro de réptil, muito do nosso comportamento é reativo, primeiro falamos ou atuamos só depois é que pensamos; é como se o nosso comportamento estivesse em modo de piloto automático.

Como melhor funcionamos
Emoções negativas como criticar e julgar os outros, stress, medo, preocupação, egocentrismo, ressentimento, frustração, dor emocional não sanada. Contra estas emoções devemos aumentar a nossa auto-observação e autoconsciência, cuidar de nós mesmos, da nossa saúde física, emocional e espiritual; lutar contra o stress organizando melhor a vida com vista a ter tempo para o desporto, encontrar os amigos, meditar e rezar.

O psicólogo Paul Gilbert distingue três grupos de emoções, as que têm que ver com a ameaça e autoproteção; as que têm que ver com a nossa atividade, conquistas e sucessos o que ele chama a nossa mente competitiva; por fim as emoções que têm que ver com contentamento, sentir-se seguro, calmo relaxado alegre e feliz.

Segundo Gilbert o primeiro grupo de emoções e o segundo são mais motivantes pelo que é provável que sejam elas a despertar a nossa atenção. Mas isto só acontece se o permitimos. A nossa mente competitiva faz com que não nos importe perder uma pessoa com tal de ganhar um argumento; as notícias negativas são a maioria e estão na primeira página dos jornais em letras grandes; as positivas estão perdidas no meio do jornal pois poucos estão interessados nelas. Dar prioridade ao nosso cérebro reptílico só aumenta a nossa miséria não nos faz mais felizes.

É certo que a compaixão não habita no centro do nosso cérebro; este, como sabemos, é ocupado pelo cérebro reptílico. No entanto, como observa Gilbert, está mais que comprovado que o nosso sistema imunitário, hormonal, cardiovascular e demais funções vitais, funcionam melhor quando pensamos, sentimos e atuamos desde o nosso córtex ou cérebro racional; amando e sentindo-nos amados e não odiando e sentirmo-nos odiados; apoiando e ajudando os outros e não os denigrindo ou ignorando faz-nos mais felizes; a pica que o cérebro reptílico nos pode dar é curta e normalmente traz-nos mais problemas.

Se o ser humano fosse violento por natureza como crê Hobbes com a sua máxima “Homo homini lupus” e a maior parte das pessoas conscientemente ou inconscientemente seguidoras do mito babilónico da criação, o homem seria mais feliz na violência, as suas funções vitais e órgãos funcionariam melhor num ambiente violento; a verdade, porém como afirma Gilbert é precisamente o contrario.

Para além de nos alertar e ajudar ante o perigo, o cérebro reptílico só nos traz problemas. Como os répteis não estabelecem relações com nada nem com ninguém, para eles tudo e todos é hostil; assim sendo o seu cérebro não pode ser de grande ajuda para o ser humano que é um ser relacional na sua essência.

Segundo uma lenda, dos Índios nativos da América do Norte, dois lobos lutando no nosso coração e na nossa mente disputando entre si o nosso interesse e atenção; um é raivoso, vingativo, invejoso, ressentido e enganador; o outro é amoroso, empático, generoso e pacífico. Qual deles vai ganhar o nosso interesse e atenção? Aquele que mais e melhor alimentares. Pratica a empatia, mesmo sem a sentires, e serás e te sentirás empatia pelos outros.

O que não é empatia
O seu livro Rosenberg cita a sua amiga Holley Humphrey apontando alguns comportamentos comuns ou tentações nas quais caímos muitos dos que tentamos ajudar os outros, a verdade é que estes nossos comportamentos não só não ajudam como até complicam e colocando em evidencia a nossa dificuldade em verdadeiramente estar com o outro.

•    Aconselhar: "Acho que deverias ... ", "Por que é que não fazes assim…?"
•    Analisar: “Como é que começou?” “Quando foi a ultima vez que te sentiste assim?
•    Competir pelo sofrimento: "Isso não é nada; olha o que aconteceu comigo".
•    Educar: "Isso pode até acabar por ser uma experiência muito positiva se tu ... "
•    Consolar: "Não foi culpa tua, fizeste o melhor que pudeste".
•    Contar uma história: "Faz-me lembrar uma ocasião ... "
•    Encerrar o assunto: "Anima-te. Não te sintas tão mal".
•    Solidarizar-se: "Oh, coitadinho ... "
•    Interrogar: "Quando foi que isso começou?"
•    Explicar-se: "Eu teria telefonado, mas ...
•    "Corrigir: "Não foi assim que aconteceu".

Como funciona a empatia
Empatia é entrar em contato com o que está vivo na outra pessoa, como o que está acontecendo com ele ou ela; é colocar-se no seu lugar dele. É calçar os seus sapatos; é ver a realidade desde a perspetiva do outro; vê-la como o outro a vê.  Muitas vezes quando os outros se apercebem que não estamos a conseguir conectar empaticamente com eles dizem de forma desesperada "Põe-te no meu lugar". Pensando eu que estava a ser empático dando conselhos ao meu pai procurando consola-lo nos últimos dias da sua vida, ele calou-me dizendo, “bem fala o são ao doente”.

Ao ouvir estas palavras dei-me conta de que estava bem longe da empatia para com o meu pai e ele fez-me ver que eu não estava com ele. Ele não precisava de uma solução rápida pois sabia que não a havia, nem de conselhos, mas só de empatia e eu fui incapaz de lha dar. Pensamos que oferecendo soluções, dando conselhos, consolando faz com que o outro se sinta melhor, mas a crua realidade é que longe de sentir-se melhor o único que faz é aumentar o seu sofrimento.

Já é difícil ser empático com aqueles que amamos, como será difícil ser empáticos com os que não amamos ou até com os que odiamos. Em NVC a empatia é para todos; empatia é conseguir ver a beleza de uma pessoa por detrás do que quer que seja diga ou faça. A verdadeira empatia é composta por três componentes:

Presença – O filósofo Martin Buber diz que a presença é o presente mais poderoso uma pessoa pode dar a outra; é um componente importante da cura, alguns psicoterapeutas chegam até a dizer que a presença ativa responde por 90% do processo de cura. Mas não é fácil manter-se ativamente presente com o outro; requer trazer nada do passado para o presente.

Se começarmos a pensar sobre o que a pessoa está dizendo, analisando ou até pensando em alguns conselhos para dar, que é preciso corrigir alguma coisa ou se sentir a necessidade de ajudar, perdemos a qualidade da presença. pois a compreensão intelectual não é empatia. Quando subimos para a nossa cabeça tentando entender e conceptualizar o que o outro nos diz, imediatamente deixamos de o ouvir e de estar com ele para estar só connosco mesmos.

Por exemplo, por vezes os sentimentos das pessoas podem ser uma reação a algo que não é correto do ponto de vista fáctico; mesmo nesta situação devemos ser empáticos primeiro e corrigir depois; “Como foram estúpidos os Americanos ao invadir o Iraque na crença de que Gaddafi possui armas de destruição massiva. A tentação é corrigir de imediato de que o presidente não era Gaddafi, mas sim Saddam Hussein, porém devemos recordar que a conexão empática é mais importante que a correção.

Simpatia não é empatia; se eu mostrar simpatia, dizendo, "Estou triste pelo que te aconteceu", poderia até ser adequado, mas só se antes eu demonstrei empatia. Mostrar simpatia sem empatia, é retirar a nossa atenção à pessoa para a focar sobre nós mesmos, neste caso sobre o nosso sentimento de tristeza. Também não é empatia quando digo, “Entendo o que sentes”. É demasiada pretensão da nossa parte quando fazemos tal afirmação. Em CNV não dizemos que entendemos, procuramos demonstrar compreensão.

Focar a nossa atenção no aqui e agora – se as pessoas partilham sobre a dor causada por factos passados, em vez de me transferir para o passado com a pessoa, devo manter-me no presente e focar a minha atenção no que a pessoa está a sentir no momento. Se eu o sigo na sua viagem ao passado de certo não vou resistir em tentar compreender intelectualmente o que lá se passou. Então, para manter-me no aqui e agora tudo o que tenho que fazer é estar em contato com os sentimentos e necessidades da pessoa agora.

Neste caso, a pergunta a fazer é como se sente agora como resultado o que aconteceu no passado. Por exemplo: se alguém partilha sobre as muitas vezes que o seu pai lhe bateu e do medo que lhe causava, eu devo inquirir sobre qual é o sentimento que sente agora; se no passado sentia medo agora provavelmente não é medo o que sente, mas ira ou raiva e este é o sentimento que conta pois é o que sente aqui e agora. O mesmo devemos fazer quando a pessoa se perde em palavras e passa de uma história para a outra sem para de falar. Interrompemos e perguntamos, “Desculpe como se sente agora a causa do que me acaba de contar?

Certificar-se parafraseando – Nunca devemos assumir que entendemos e que estamos conectados empaticamente com o que está acontecendo na pessoa, ou seja os seus sentimentos e necessidades; necessitamos de confirmar para ter a certeza e fazemo-lo parafraseando o que a pessoa nos disse, sobretudo perguntando: “Sente-se… porque tem necessidade de… O feedback do nosso entendimento é importante por duas razões; primeiro se o nosso palpite foi errado a pessoa tem a oportunidade de nos corrigir; segundo a própria pessoa pode precisar de alguma confirmação de que estamos realmente com ela que a estamos seguindo e compreendendo.

É difícil conectar-se empaticamente com uma pessoa que diz que se vai suicidar porque o mundo fica melhor sem ela... A tendência é analisar, fazer perguntas, dar conselhos... Mas mais difícil ainda é conectar empaticamente com alguém que nos critica ou que nos diz: “O teu problema é..." Necessitamos recordar que toda a critica é uma expressão dramática de uma ou várias necessidades insatisfeitas pelo que ignoramos a critica como se não tivesse sido feita a nosso respeito e procuramos descobrir os sentimentos e necessidades por detrás dela, conferindo com a pessoa sobre quais são os seus sentimentos e necessidades, dando-lhe a possibilidade de nos corrigir se estamos errados.

Empatia – simpatia - Compaixão
Empatia - é visceralmente sentir o que o outro sente. Alguns psicólogos chamam-lhe "espelho de neurónios;" A empatia pode surgir automaticamente quando vemos alguém a sofrer. Por exemplo, se virmos alguém a falhar o prego e martelar o dedo, imediatamente temos uma perceção bem real da sua dor; como se a sentíssemos também nós. Não é sempre assim de fácil, por isso quando não vem automaticamente, como no exemplo, precisamos da nossa imaginação. É claro que, empatia não é apenas para sentimentos desagradáveis é também para os agradáveis; muitas vezes, o sorriso de uma pessoa nos faz-nos sorrir a nós também.

Simpatia - a maioria das pessoas confundem empatia com simpatia. Empatia é ser solidário estar com o outro, simpatia é fundamentalmente estar connosco mesmos porque, ao contrario da empatia que é uma atitude, uma forma de ser e estar, simpatia é um sentimento. Um sentimento que surge da compreensão da situação do outro. Se simpatia vem após empatia é bom se vem antes ou em vez de empatia, então não é bom e não ajuda.

Compaixão – a compaixão leva empatia e a simpatia a um passo mais adiante. Quando somos compassivos, sentimos a dor do outro (ou seja, empatia) ou reconhecemos que a pessoa está a sofrer (i.e., simpatia), e então fazemos o nosso melhor para aliviar o sofrimento da pessoa.

A compaixão é o objetivo final do processo que começa com ser e estar com o outro sentindo os seus sentimentos; num primeiro momento, estamos simplesmente com a pessoa esta primeira etapa é insubstituível e a mais importante de todas; só depois podemos subir à nossa cabeça e conceptualizar e tentar entender a sua situação para depois movidos pela compaixão darmos o nosso melhor para o aliviar.

Foi precisamente isto que Deus fez connosco ao enviar-nos o seu Filho; não nos tentou salvar desde cima; primeiro fez-se um de nós vestiu a nossa natureza humana e desde ela simpatizou com a nossa causa comovendo-se com a nossa dor a ponto de a sentir na sua própria carne. Isto mesmo diz a carta de São Paulo:

(Cristo) embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;
mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz! Filipenses 2, 6-8

Resumindo o que dissemos, a empatia é sentir o que o outro sente; a simpatia é o sentimento que resulta da compreensão que temos da sua dor; compaixão é a vontade de aliviar o sofrimento do outro.

Pe. Jorge Amaro, IMC