1 de agosto de 2016

O Sol põe-se no Ocidente - 2ª Parte

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O declínio de uma civilização vem com a aparecimento dos bárbaros, de uma forma ou outra a senilidade crescente dos países que compõem o mundo ocidental vai sucumbir aos invasores, o resultado será a extinção da cultura ocidental juntamente com a sua riqueza e poder e um retorno à idade das trevas.  - Arnold Joseph Toynbee

A impotência do poder político
Depois dos absolutismos monárquicos e dos fascismos republicanos, o Ocidente habituou-se tanto à democracia que a dá por descontada, desinteressando-se pela política. Assim sendo, qual comboio acelerado sem condutor, os ocidentais não são senhores do seu destino, nem têm interesse em o ser; por um lado confiam demasiado nos seus governantes, por outro não lhes dão importância porque sabem que não governam nada. O governo da “Polis” (cidade em grego) já não pertence aos políticos

Na política manda a economia, na economia mandam os mercados e nos mercados mandam as finanças e nas finanças manda a bolsa, que é como um grande Casino onde o dinheiro sem produzir riqueza, troca de mãos concentrando-se cada vez mais nas de muito poucos. Este ano 2016, segundo diz Oxfam, 1% dos habitantes deste planeta possui mais riqueza que 99% da humanidade; mais propriamente este 1% possui 54% da riqueza mundial. 

De alguma forma conscientes de que quem manda são poderes fácticos não ilegíveis popularmente e que os políticos só são marionetas nas mãos dos verdadeiramente poderosos, que não se fazem ver talvez porque temam pela própria segurança.  O povo perdeu interesse em eleger os seus representantes pois sabem implicitamente que não o representam, mas sim esses tais presidentes e assessores das grandes multinacionais, a quem o povo nem elege nem conhece.

A taxa de abstenção nas democracias ocidentais ronda pela metade do eleitorado. Em Portugal nas ultimas legislativas foi de 46% e nas presidenciais de 51%. É caso para questionar a validez dos resultados quando quase metade, ou nalguns casos mais de metade dos eleitores não se pronunciaram. Ante a irresponsabilidade política de tantos cidadãos, não seria o caso de fazer o voto obrigatório como é nalguns países? Pelo menos como medida pedagógica por algum tempo?

O que se calou sobre o Bataclan
Depois de invocarem e recitarem o credo de Niceia ao contrário: “Eu creio num único deus Satanás todo poderoso…”, no exatíssimo momento em que os jihadistas irromperam no teatro, disparando rajadas de metralhadora em todas as direções o conjunto “Eagles of Death Metal”, interpretava uma canção de prestação de vassalagem e amor ao diabo; os jovens dançavam e cantavam com o conjunto, levantando as mãos com os dedos simbolizando os chifres de satanás que no momento adoravam. A letra do “Cântico” ao deus diabo dizia: Quem quer amar o diabo, quem quer cantar a sua canção? Eu quero amar o diabo eu quero beijar a sua língua, eu quero beijar o diabo na sua boca….

Perante este facto que os “politicamente corretos” media calaram, não faltou quem observasse com negra ironia, eles invocaram o diabo e ele apareceu.  Esta não é, porém, a nossa interpretação até porque naquela fatídica noite os terroristas tomaram como alvo não só o Bataclan mas também o exterior do estádio de Paris, cafés e restaurantes ao acaso. Nem todos, portanto eram adoradores do diabo; muitos só foram ver um jogo de futebol ou jantar fora com familiares e amigos. Ninguém merecia morrer, nem mesmo os ditos adoradores do diabo se é que o eram de verdade e não era apenas uma diversão.

Não há nada, absolutamente nada nem de longe nem remotamente, que justifique a ação daqueles terroristas islâmicos. O que me dá que pensar é a razão pela qual os jovens do Bataclan e tantos outros trocaram a fé racionalmente razoável e plausível na existência de Deus, e na sua revelação em Jesus de Nazaré inquestionavelmente o melhor modelo de vida humana, pela crença supersticiosa da existência do diabo personificação do mal, da violência da guerra e da anarquia. 

Como bebé irrequieto e rebelde o mundo ocidental, morde a mama que o amamentou. Para qualquer historiador imparcial é inegável que a Igreja, o cristianismo, foi e é ainda “Mater ed Magistra”, mãe e mestra da cultura ocidental. Por muito que a sociedade não queira reconhecer, os valores que o mundo chama cívicos “copia & cola” do evangelho. Não havia uma única menção à igreja, nem ao cristianismo, na Constituição da Europa que pelo ex-presidente Francês Valéry Giscard d'Estaing redactou; por ignorância ou por aleivosia?

Uma prova de que a Igreja ainda hoje influencia a cultura Ocidental, está no “Principio de Subsidiariedade”, que hoje é a emenda 14 à Constituição dos Estados Unidos e uma das normas da União Europeia consagrada pelo Tratado de Maastricht no artigo 5. O Principio de Subsidiariedade não nasceu na politica; foi decalcado da doutrina social da Igreja, e apareceu pela primeira vez mais na encíclica “Quadragesimo anno” do papa Pio XI de 1931.

A começar pela França, a europa, e o resto do mundo ocidental, está em decadência porque instalada no luxo, na abundância dos prazeres, da pura mundanidade, perdeu a sua fé, a estrela que a guiava, os ideais do humanismo cristão, a razão de viver… só pode esperar o pior, pois para quem não sabe para onde navega, não há ventos favoráveis.

Vêm aí os bárbaros - com uma nova idade das trevas
A prova disto é que, infelizmente, o Ocidente não está nem remotamente interessado em montar uma defesa de seus valores em face de fanatismo muçulmano. Pior ainda, há sinais de que o Ocidente está mesmo preparado para sacrificar alguns dos seus principais valores para aplacar aqueles que sempre desprezaram esses mesmos valores. ― Lee Harris

Quando no século VIII os muçulmanos invadiram a Europa, e o que restava do Império romano do oriente Bizâncio, tomando e destruindo os lugares santos e impedindo os cristãos de os visitarem, o ocidente tinha uma moral forte: os nobres eram verdadeiramente “nobres” pois se inspiravam nos ideais da cavalaria, e estavam dispostos a dar a vida por valores mais altos que a própria existência”. Neste sentido, as cruzadas foram fundamentalmente um movimento em legitima defesa da nossa idiossincrasia cristã.

Por isso Basta de entoar o “mea culpa” e de esconder a palavra e o conceito de cruzada porque não é politicamente correto. É certo que depois se cometeram abusos e excessos, que não são moralmente justificáveis, porém o mal do politicamente correto é que hoje vergados ao mundo islâmico só vemos os defeitos dos cruzados e não lhes reconhecemos as suas virtudes. Os senhores do politicamente correto esquecem-se que se não fossem os cruzados hoje eles mesmos estariam voltados para meca ao canto do muezim do alto do minarete.

A massa cinzenta do ocidente abandonou o humanismo, o pensamento filosófico e ético, e está toda voltada para a ciência e a tecnologia. Sem ideias a civilização ocidental padece de sida… da síndrome de imunodeficiência cultural sendo por isso facilmente presa do fanatismo muçulmano, que consegue até recrutar jovens que nasceram e cresceram entre nós. Porque é que estes jovens são facilmente ludibriados pelos ideais negativos do fanatismo? A resposta é simples, porque cresceram num mundo asséptico de ideais. Pior que ter ideais negativos é não ter ideias… O Ocidente esqueceu-se que "ter uma boa vida" do ponto de vista material, não é suficiente. Os seres humanos, especialmente os jovens, precisam de saber porque, para o quê ou por quem vivem.

A juventude é o tempo de sonhar por um mundo melhor; os jovens são naturalmente e visceralmente idealistas. Se a sociedade ocidental de matriz cristã, ainda que o renegue, já não lhes oferece nem os educa nos ideais do humanismo cristão, os jovens buscam ideais noutro lado; são muitos os que, fugindo do niilismo de valores e de ideais que lhes oferece a sociedade ocidental optam pelo fanatismo que lhes oferece o estado islâmico ou outros.

O terrorismo islâmico que tem assolado o Ocidente nos últimos tempos, não é praticado por muçulmanos que vêm de fora, mas sim por jovens que nasceram nos nossos países cresceram nos nossos bairros, e foram à escola e formaram-se nas nossas universidades, porem não nos pertencem, pois não comungam dos nosso ideais.

Ninguém dá a vida pelos ditos “valores laicos”
Os assim chamados valores laicos não têm a mesma forma motivadora de comportamento e ação que os valores religiosos, simplesmente porque ninguém dá a vida por eles. Prova disto é a capa do numero de janeiro de 2016 da revista Charlie Hebdo, no primeiro aniversário do massacre de alguns dos seus cartoonistas.

Apresentam a Deus armado de metralhadora e sangue nas mãos e no corpo. A particularidade de esta representação de Deus é que por detrás da sua cabeça, de cabelos compridos e barba branca, está o triângulo que todos entendem como sendo o distintivo do Deus uno e trino dos cristãos.

Como não existe nenhum movimento terrorista de inspiração cristã esta é uma crítica covarde à violência religiosa muçulmana. Os editores desta revista que reservam para si o direito ao insulto, atiram a pedra e covardemente escondem a mão. Porque “damos a outra face”, Eles sabiam que dos cristãos não tinham nada que temer. Por isso usaram o “Deus dos Cristãos” para criticar o “Deus dos muçulmanos” e os seus seguidores.

É como aquele empregado que recebe uma bofetada do patrão e não podendo devolver-lha por medo a perder o emprego, dá uma bofetada à esposa, esta dá-a ao filho mais velho, este ao filho mais novo e este ao cão ou ao gato.

Ao fazer do inocente Deus dos cristãos o bode expiatório da violência muçulmana, os editores de Charlie Hebdo fizeram, inadvertidamente e ironicamente, uma profissão de fé Naquele que inocentemente morreu pelos pecados de outrem, Jesus de Nazaré. A Ele deviam agradecer por tê-los ajudado psicologicamente a desquitar-se da ira que era devida aos fanáticos muçulmanos.

Porque é que os niilistas, ateus, agnósticos e os que vivem sem Deus na pura mundanidade, ao contrário dos cristãos, não estão dispostos a dar a vida pelos seus ideais e valores éticos? A resposta é simples, ninguém dá nada por nada; os cristãos trocam a sua vida, a sua temporalidade pela eternidade, enquanto que os niilistas ao não terem nada com que trocar agarram-se egoisticamente ao único que têm, a vida temporal.

Se os ateus, os niilista e agnósticos fossem intimidados com ameaça de morte a converter-se ao islão, como foram e são no momento presente muitos cristãos, de certo se converteriam para salvar a pele pois seria insólito e quase ridículo que dessem a vida pelo “nada” em que acreditam. De facto, até à data não conheço nenhum mártir do ateísmo, agnosticismo ou niilismo.

Precisamente porque ninguém está disposto a dar a vida pelos valores laicos ou niilistas, como prova a capa da revista Charlie Hebdo de 6 de janeiro de 2016, ao contrário do seculo VIII, quando os parámos em Poitiers, desta vez, tal como o Império Romano à mercê dos bárbaros no seculo V, estamos irremediavelmente indefesos… à mercê dos novos Hunos, Vândalos, Vikings e Visigodos, os fundamentalistas muçulmanos.

Quem os parará desta vez em Poitiers se eles já estão cá dentro como um cavalo de Troia e não param de crescer? Podemos esperar outro desembarque da Normandia se a américa para aquele tempo ainda for cristã?

Falsa segurança é o poderio militar do qual o Ocidente tanto se orgulha. No entanto, por quanto as armas não se disparem sozinhas, os exércitos continuam a fazer-se primariamente com gente jovem que escasseia cada vez mais num ocidente perigosamente envelhecido.

A melhor solução para este problema foi apresentada por aquela que talvez seja o politico mais influente depois do presidente dos Estados Unidos, Ângela Merkel, filha de um pastor alemão que disse ante a potencial islamização da europa as pessoas em vez de darem crédito a teorias da conspiração deveriam voltar à Igreja e a ler a bíblia como antes faziam.

Alerta
O que quisemos dizer é que há certos fatores dentro do mundo ocidental que podem causar o seu colapso:
  • Degradação moral, falta de valores morais e ideais que inspirem e comprometam os jovens
  • Desinteresse pela politica manifestado na abstenção eleitoral
  • Baixa natalidade
  • Fragmentação da família
  • Individualismo falta do sentido comunitário e do bem comum
Com estas duas crónicas não pretendi ser um profeta de mal agoiro. O determinismo de que a história inexoravelmente se repete, é uma crença sociológica tal como a predestinação é uma crença religiosa, não é um princípio ou uma lei da ciência histórica. A função da profecia e o seu sentido bíblico não é adivinhar o que irremediavelmente vai acontecer, mas alertar precisamente para que não aconteça.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de julho de 2016

O Sol põe-se no Ocidente - 1ª Parte

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As civilizações morrem por suicídio não por homicídio. Arnold Joseph Toynbee

França laboratório social
A revolução francesa é um de tantos exemplos de como França, talvez pela sua situação geográfica, tenha sido e continue a ser o tubo de ensaio de ideias sociais que depois revolucionam o resto da Europa e eventualmente o resto do mundo ocidental.

Será por esta razão que precisamente aquela que travou a invasão islâmica da Europa, em Poitiers no ano 732 AD, está agora a sofrer um novo tipo de luta e invasão? O facto é que, em pouco tempo foi duas vezes vítima do terrorismo islâmico: em fevereiro de 2015, contra o jornal satírico Charlie Hebdo, e em novembro do mesmo ano, em Paris nas aforas de um estádio de futebol, em alguns bares da cidade e sobretudo no teatro Bataclan onde decorria um concerto de rock.

Com vistas a uma maior integração politica entre os países membros da Comunidade Europeia, o ex-presidente Francês Valéry Giscard d'Estaing, redactou a Constituição da Comunidade Europeia. Aprovada pela Comissão, estava fadada para passar em todos os parlamentos europeus de não ter sido chumbada por um referêndum francês. Depois deste chumbo a Europa nunca mais levantou a cabeça, e vive hoje mergulhada numa crise de identidade e desintegração progressiva.

Há muito que campeia neste país um descarado e obsceno laicismo militante, inspirador das caricaturas grotescas da revista Charlie Hebdo contra a fé cristã e muçulmana, nunca contra a fé ateia. Por serem de sobra conhecidas as caricaturas do islão menciono duas contra o cristianismo particularmente chocantes e blasfemas: uma representa a Santíssima Trindade num “ménage a trois” sexual, a outra, representa o Papa Francisco a ser sodomizado por um travesti.

Apesar do laicismo e niilismo militante contra a religião, a França ainda é maioritariamente católica, como se declara 63% da sua população. Outrora a “filha amada da Igreja”, onde está hoje essa França que tanto defendeu o cristianismo, e que tantos santos e teólogos deu à Igreja e ao mundo? Agora cabisbaixa perdeu toda a assertividade de outrora e deixa-se vexar por gente sem princípios, como se tivesse vergonha de ser cristã. Tendo sido no passado o país que travou o avanço dos muçulmanos, em Poitiers no ano 732, hoje é o país da Europa que mais muçulmanos tem: 7.5% da população, seguida pela Alemanha 5,8%, a Inglaterra com 4,8%, a Espanha com 2,1 % e Portugal com 0,3%.

Pode a história repetir-se?
Se a história se repete, e o inesperado sempre acontece, quão incapaz é o homem para aprender com a experiência!? ― George Bernard Shaw

A história não é feita só de evolução e progresso, mas também de desenvolução e regressão. Desde o Egipto dos faraós, a Mesopotâmia, Israel, Grécia, até Roma, cada país, cada Imperio deu o seu contributo à civilização ocidental que se foi desenvolvendo progressivamente até chegar ao seu apogeu, económico, politico e cultural, com Grécia e Roma.

Do Egipto herdamos a medicina, a astrologia, a origem da escrita alfabética; da Mesopotâmia-Babilonia herdamos o primeiro código de leis - o Código Hamurabi, e técnicas agrícolas; de Israel, herdamos o monoteísmo religioso como cosmovisão e a Bíblia como fonte de ética; da Grécia herdamos a filosofia, a ciência e a democracia como forma de governo da cidade; de Roma herdamos a República, a forma de organização do Estado, o direito, as estradas e as pontes.

Parece impossível que uma cultura superior, em todos os aspetos incluindo o militar, tenha sucumbido ante um punhado de bárbaros incultos vindos do Norte e do Leste da Europa que mergulharam o continente em séculos de trevas. Qual foi a causa da ruína do Império romano? Como pode uma cultura superior ser derrotada e sucumbir ante uma muito inferior?

Como diz o grande historiador britânico Arnold Toynbee, acima citado, as civilizações morrem por suicídio não por homicídio. Os bárbaros apenas pregaram “o último prego no caixão”; apenas deram o golpe de graça a uma civilização que há muito estava moribunda. O Império Romano acabou por implodir, caiu sobre a própria espada - suicidou-se.

Roma não se construiu num dia e também não ruiu numa noite, foi um processo gradual que começou pela degradação e o declínio moral dos valores cívicos que tinham construído o império. São as ideias, os valores morais e éticos que motivam a vida do dia a dia dos povos. Quando estes faltam, a vida das pessoas muda e com ela a sociedade. Portanto, o Império antes de ruir política económica e militarmente primeiro ruiu moral e eticamente.

Não podeis servir a Deus e o dinheiro (Mateus 6, 24) – No contexto do declínio de Roma, Deus simboliza os valores espirituais, autenticamente humanos, e o dinheiro os valores temporais. A degradação moral, como sempre, começou na acumulação de riqueza, na vida desregrada de prazer e luxo, das classes dirigentes; naqueles que deviam continuar a inspirar os antigos valores que levaram ao engrandecimento do Império no tempo de César Augusto.

Das classes dirigentes, como fogo que lentamente se propaga, a corrupção acabou por alastrar-se a todos os níveis da sociedade romana. O amor pelo poder levou à instabilidade política; as guerras constantes de sucessão obrigavam as legiões a abandonar as fronteiras para vir restabelecer a ordem e a disciplina na capital.  Por fim o crescente abismo, entre uns muito ricos e o resto muito pobre, fez do Império o gigante com pés de barro, vulnerabilidade que os bárbaros souberam explorar.

Muitos dos fatores que contribuíram para o declínio de Roma, depois de 500 anos de domínio absoluto sobre o Ocidente, estão em ação agora mesmo fazendo possível que a historia se possa repetir e que as hostes, desta vez as muçulmanas, possam fazer mergulhar o ocidente numa segunda idade média ou das trevas, como os historiadores americanos gostam de chamar.

Houve muito menos atrocidades no Césaro-papismo (Estado e Igreja unidos) da Idade Média que na Sharia dos países muçulmanos dos nossos dias: O bombardeamento pelos Taliban do Afeganistão das centenárias estátuas de Buda escavadas na rocha da montanha; o apedrejamento das mulheres adulteras; o corte de membros sobretudo as mãos daqueles que roubam; o sonho de Erdogan, presidente da Turquia, em restaurar o império Otomano; O jogo duplo da Arábia Saudita, pela frente amiga do Ocidente a quem vende petróleo por detrás financiando o terrorismo ou qualquer forma de militância islâmica; o sonho do Irão dos Ayatollalhs em erradicar Israel do mapa e em possuir a bomba atómica; as atrocidades do Estado Islâmico em degolar até crianças porque faltaram à oração na sexta feira…

A disfuncionalidade da família
Por ser a família a célula germinal do tecido social, os valores familiares são a pedra angular de uma cultura em ascendência; assim era na antiga Roma durante a sua expansão e na sociedade ocidental do pós-guerra até ãos anos 70. Com as novas gerações, a família começou a enfraquecer e fraturar-se.

Os valores verdadeiramente humanos e espirituais prosperam melhor numa sociedade frugal do que na abundância de bens materiais. O aumento do bem-estar material que a sociedade de consumo trouxe ao ocidente, é inversamente proporcional ao decréscimo na vivencia de valores espirituais e humanos. Pouco a pouco, com cada nova geração tal como aconteceu na sociedade romana, a unidade da família começou a fragmentar-se e a enfraquecer.

Tal como na antiga Roma, com o declínio dos valores morais, maridos e esposas cederam aos impulsos da natureza humana, generalizou-se o adultério, aumentou o número de casamentos fracassados e famílias disfuncionais; o divórcio apresenta-se como a solução mais fácil para qualquer tipo de conflito entres esposos. Atualmente a taxa de divórcio nos Estados Unidos é de 53%, em França de 55%, em Espanha de 61% e em Portugal de 70%.

Com famílias desestruturadas e disfuncionais abundam os pais negligentes, a quem o Estado se vê obrigado a retirar os filhos, pelo que há cada vez mais crianças e jovens institucionalizados. Na antiga Roma a educação das crianças e dos jovens era esmerada e cuidada de forma a que os valores do patriotismo, a formação do caracter, o controlo das emoções, a importância da obediência e o respeito pelas leis, fossem assimiladas; assim era na antiga Roma e nas décadas 60/70 no mundo ocidental.

Hoje em dia a escola não ensina valores, a única disciplina que os ensinava, Educação Moral e Religiosa Católica, despareceu da maior parte das escolas, e naquelas onde ainda existe, é relegada para segundo plano e colocada ao fim de uma tarde sem aulas, obrigando assim até os alunos mais fervorosos a desistir.

Um falso conceito de democracia e a sua inadequada aplicação na área da educação levou muitos pais a abdicar de serem educadores, ensinar, disciplinar e corrigir para estabelecerem uma relação de amizade de igual para igual com os seus filhos acabando por dar-lhes mais liberdade que aquela que eles na sua tenra idade eram capazes de gerir responsavelmente. Sem disciplina e guia os jovens crescem como pequenos burgueses com a vida facilitada e alcatifada, preguiçosos, irreverentes e desobedientes vivendo num mundo de fantasia onde só têm direitos e não têm deveres, onde só consomem sem contribuirem.

Com a perda do valor da família perdeu-se também a solidariedade entre as gerações, prova disso é o crescente isolamento e solidão em que vivem muitos dos nossos idosos. Quem não recorda aquela onda de calor, em agosto de 2003, em que só em Paris mais de 14.000 idosos morreram sozinhos nos seus apartamentos. Muitos dos seus corpos não foram reclamados por ninguém e tiveram funerais pagos pelo Estado. Nem os cães assim morrem hoje em dia… ironicamente, em Portugal, tal como está a lei, é crime abandonar um animal de estimação, mas não é crime abandonar um idoso.

Natalidade negativa
Recentemente um anúncio publicitário de preservativos mostrava um pai com o filho às compras num supermercado; passando por uma prateleira o filho agarrou num saco de batatas fritas e colocou-o dentro do carro, o pai retirou o saco do carro e voltou a colocar na prateleira; o filho reticente, repete a façanha e o pai também; à terceira vez a criança tem um ataque de histeria e começa a dar pontapés ao carro e às prateleiras esvaziando-as do seu conteúdo. Ante o assombro do pai e outros adultos a titulo de explicação do que está a acontecer aparece a mensagem do anuncio publicitário que diz: “Se tivesse usado o preservativo tal…. Isto não teria acontecido”.

Desta cena, qualquer pessoa com senso comum concluiria que a criança está muito mal-educada; o anúncio, no entanto, parece que quer que os telespectadores concluam que as crianças são o resultado do falhanço desta ou daquela marca de preservativo.

O crescente individualismo e egocentrismo influenciou a taxa de natalidade; alguns matrimónios equacionam a possibilidade de ter animais de estimação em vez de filhos. Muitos destes animais de estimação são tratados como membros da família, estabelecendo com eles laços próprios de seres humanos; autênticas fortunas são gastas no seu bem-estar.

Recordo o episódio de um gato ligado a uma máquina que lhe mantinha a vida artificialmente, quando o veterinário sugeriu desligar a máquina, porque os órgãos vitais já não funcionavam, foi chamado de cruel pela família a quem o animal de estimação pertencia.

A irracionalidade do aborto
Apesar de envelhecido e sem gente suficiente para substituir a geração anterior, o ocidente continua a olhar para o aborto como um método anti conceptivo. Sobre esta e outras questões, desde o caso de Galileo Galilei, a igreja tem sido injustamente acusada e estigmatizada como sendo pré-científica. No caso de Galileu, a verdade é que ele não forneceu provas que fundamentassem a sua teoria; provas essas que, por outro lado não estavam disponíveis naquele tempo. O mesmo aconteceu em relação à teoria de Einstein da relatividade que só agora começam a aparecer provas que a dão como certa.

A Igreja não só não é contra a ciência como faz ciência. Entre muitos exemplos ressalto o padre belga Georges Lamaitre que descobriu o Big Bang, e o monge Gregor Mendel tido como o pai fundador da genética.

No caso do aborto é a sociedade que se coloca contra a ciência, pois cientificamente é indiscutível que a vida humana começa com a concepção, ou seja quando o espermatozoide, que é metade de uma célula humana, se une ao óvulo, que é outra metade, aproximadamente uma hora depois do ato conjugal, formando uma célula humana nova, indivisível, com um código genético novo irrepetível em toda a história da vida neste planeta.

Uma vez formada a célula primigénia, o novo ser está auto programado, só precisa que o deixem em paz por nove meses. Quando para justificar o aborto certos partidos procuram colocar o princípio da vida humana em qualquer outro momento depois da concepção, fazem-no tendenciosamente para defender a sua ideologia; para além da concepção, qualquer outro momento em que coloquemos o princípio da vida humana não será nunca científico, mas sim arbitrário e ao serviço de uma ideologia.

Enquanto isto acontece no Ocidente Erdogan, o presidente da Turquia que sonha com a restauração do império Otomano como acima foi dito, declara-se contra o planeamento familiar, limitação dos nacimentos e a igualdade de género dizendo que são ideias ocidentais, não aplicáveis ao mundo muçulmano; para ele ninguém deve interferir nos desígnios de Alá; o dever de uma mulher é ser mãe, de quantos mais filhos melhor.

A função da profecia
Jonas levantou-se e foi a Nínive, segundo a ordem do Senhor. Nínive era uma cidade imensamente grande, e eram precisos três dias para a percorrer. Jonas entrou na cidade e andou um dia inteiro a apregoar: «Dentro de quarenta dias Nínive será destruída.» Jonas 3, 3-4

Na Bíblia a profecia nunca pretendeu ser um vaticínio, mas sim uma admoestação ou um aviso: se continuais a viver desta maneira vai acontecer esta ou aquela catástrofe. Os habitantes de Nínive como sabemos converteram-se e o que o profeta Jonas anunciou estar para vir não veio. O mesmo pode acontecer á civilização Ocidental, por meio de uma revolução ou evolução pode mudar de rumo evitando o declínio ao qual se dirige hoje.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de junho de 2016

Pedir Perdão

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Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. Mateus 5, 23-24

A palavra religião vem do latim religare ou seja relacionar-se. A nossa religião consta de dois tipos de relações: a Deus sobre tudo e sobre todos, ao próximo como a nós mesmos. Estos dois mandamentos são inseparáveis tanto na teoria como na prática.

Não é possível estabelecer uma relação com Deus quando estou de relações cortadas com algum irmão. Enquanto não restabeleço a relação com o meu próximo, Deus volta-me as costas; é portanto contraproducente todo o meu esforço em relacionar-me com Deus estando de relações cortadas com o meu irmão. Por outro lado, e parafraseando a São João, como podes pedir perdão a Deus que não vez, se não pedes perdão, ao teu próximo que vês.

Inevitabilidade do conflito nas relações humanas
É inevitável o conflito nas relações humanas. Os conflitos dividem as pessoas entre agressores e agredidos. Para que a paz se volte a restabelecer, os agressores devem pedir perdão, os agredidos devem perdoar. Perdoar e pedir perdão, são portanto, duas caras da mesma moeda. Porque uma vez somos agressores, outras, somos agredidos, todos nós durante a nossa vida temos sobradas ocasiões para pedir perdão e para perdoar. Para uns é mais difícil perdoar, para outros pedir perdão.

O perdão não pedido e não concedido amarra agressores e agredidos a um passado que não acaba de passar, acabando por viver os dois num contínuo presente perfeito. Quando um verbo está em presente perfeito a acção começa no passado mas continua no presente.

Quem não pedir perdão ou perdoar, estabelece-se e permanece no rancor para sempre; faz com que algo que aconteceu no passado num determinado lugar aconteça uma e outra vez; porque cada vez que o acontecimento aflora à consciência os sentimentos perturbadores de odio de rancor e raiva fazem-se sentir outra vez. O agressor que não pediu perdão continua ainda a agredir, mas agora não só a vitima de antanho, mas também a si mesmo vitima do seu orgulho. O agredido que não perdoou perpetua a agressão do agressor e está a pagar inocentemente por algo que não fez.

Se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento, nem deis espaço algum ao diabo. Efésios 4,26-27

Um delito cometido no passado deve permanecer no passado; como St Paul aconselha aos Efésios. Não se deve deixar passar um dia sequer sem restabelecer a paz: porque se um dia passa, com mais probabilidade passa o segundo e o terceiro, desta feita, como alerta o apostolo, damos uma oportunidade para que o mal se estabeleça em nós.

Quando o agressor e o agredido não assumem a sua responsabilidade e restabelecem a paz por vias do perdão, a ofensa nutrida pelo odio e ressentimento de ambos, cresce de dia para dia drenando-os da sua energia. “Como pedra no sapato”, torna-se omnipresente na mente e no coração de ambos sob forma de uma ansiedade continua criando um clima instável de guerra fria com a possibilidade sempre iminente de o conflito se reacender.

Perdoar e esquecer
Muitas vezes ouvimos a expressão que aquele que não se esqueceu, não perdoou. De uma forma, é verdade, não ter esquecido a ofensa pode de facto significar que a raiva e o ressentimento continuam. Quer isto dizer que só é possível perdoar verdadeiramente quando sofrermos de alguma forme de amnesia ou Alzheimer?

Há diferentes formas de lembrar; uma ofensa perdoada aflora menos vezes à nossa consciência, e quando o faz, já não me perturba como costumava; é como um vírus desativado; já não me faz sentir raiva nem rancor; ao contrario, uma ofensa não perdoada, aflora mais vezes à nossa consciência fazendo com que a raiva e o ressentimento cresçam de dia para dia.

The ball is in your court
“Crê o ladrão que todos são da sua condição” - Muitos dos agressores projectam a sua personalidade e talante sobre os agredidos e não dão o primeiro passo porque temem não ser perdoados. Como a ofensa dói a uns e a outros, e agrilhoa tanto agredido como agressor ao passado, cada um deve fazer-se responsável pela parte que lhe toca, fazendo o que se espera dele, sem entrar em cálculos de probabilidade sobre a possível reacção do outro.

Os nossos inimigos não são os que nos odeiam mas sim a quem nós odiamos - A maior parte das vezes o agredido cessa de odiar-nos no momento em que pedimos perdão e as relações ficam restabelecidas às vezes até cresce mais a amizade.

Reconheço que agredi, reconheço que falhei como o filho pródigo, levanto-me e peço perdão a quem ofendi. Se o outro me perdoar muito bem, se não me perdoar muito bem na mesma; a bola está agora no seu campo se, se recusar a perdoar; o stress, a ansiedade e o remorso que a culpa me causava, desaparece da minha mente e do meu coração pois eu descarreguei-a e desenvencilhei-me dela fazendo o que era requerido de mim e estava ao meu alcance. Não posso obrigar o outro a perdoar; se ele decide ficar no passado está nele sozinho não comigo.

Pedir perdão não é humilhante
Todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado, Lucas 14,11 – Quem reconhece o seu erro e pede desculpa, aparentemente humilha-se, mas essa humilhação leva a uma exaltação. O não reconhecer o erro e não pedir desculpa é em si mesmo um acto de orgulho e exaltação e prepotência o qual não poucas vezes leva à humilhação.

Muitas vezes o que nos impede pedir perdão é o medo de ser humilhados pela pessoa que ofendemos, mas na realidade o que acontece é o oposto. O ato de pedir perdão é vivenciado de forma diferente pelo agressor e pelo agredido.  O agressor vivencia-o como humilhação o ter de pedir perdão, o agredido vivencia-o como exaltação; ou seja, o agressor sobe na consideração do agredido.

Ao contrario, quando não admitimos os nossos erros e não pedimos desculpas, é provável que sintamos um certo prazer dentro das muralhas do nosso orgulho e arrogância, porém aos olhos de quem agredimos somos simplesmente patéticos e perdemos a já pouca consideração que tinha por nós. Se conseguirmos pôr de lado nossos sentimentos naturais e abraçar a realidade, todos nos sentiremos melhor vivendo em paz em harmonia com Deus e nossos vizinhos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de junho de 2016

Santos são os que se reconhecem pecadores

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O Papa Francisco confessando-se
O Rabino costumada dizer que os pecadores estavam mais perto de Deus que os justos. E explicava-o dizendo que a comunicação entre nós e eus se faz por um fio que liga a nossa cabeça às mãos de Deus. Cada vez que pecamos rompe-se o fio e em consequência a nossa comunicação com Deus. Mas cada vez que reconhecemos o nosso pecado, e nos arrependemos, é como se fosse dado um nó no fio ficando assim restabelecida a comunicação. Quando por ventura voltamos a pecar e nos voltamos a arrepender outro nó é dado no fio pelo que este vai ficando cada vez mais curto. Desta forma concluía o Rabino o pecador está mais perto de Deus que o justo.

Santos declarados
A Igreja tem todo um processo que costuma ser demorado para levar alguém aos altares. Primeiro, respondendo à petição dos fiéis em virtude da boa fama ou fama de santidade de determinada pessoa, é analisada a pente fino a biografia do candidato, virtudes e defeitos, escritos, sermões obras; se as perspectivas forem boas, é escolhido um postulador e o candidato é declarado “servo de Deus”.

O postulador estuda minuciosamente a vida do candidato a santo e apresenta as suas conclusões ao Papa que o declara “Venerável” ou seja, que o servo de Deus viveu as virtudes teologais de fé, esperança e caridade e as virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e Temperança, de uma forma heróica.

Como a causa de beatificação e canonização parece às vezes um caso de tribunal, ao lado da figura do postulador aparece a figura caricata do “advogado do diabo”. Durante todo o processo enquanto o postulador procura provar as virtudes do candidato, o advogado do diabo, que nos processo civis é o ministério publico ou a acusação, procura retirar importância às virtudes evidenciando os defeitos do candidato.

O passo seguinte é a beatificação. Se o candidato foi um mártir, e ficou suficientemente provado de que deu a vida na defesa da fé, o papa declara-o beato. Se o candidato não é mártir o céu deve pronunciar-se, ou seja, o postulador deve apresentar um milagre, o qual deve ser comprovado que se realizou por intercessão do venerável.

Por fim o Beato é declarado santo com a realização de um segundo milagre, o qual prova que o candidato goza já da visão beatífica. É-lhe atribuído um dia de festa no calendário, pode ser declarado padroeiro de igrejas paroquiais e os fiéis podem livremente e sem restrição, celebrar e honrar o Santo.

Santos não declarados
“Nem são todos os que estão, nem estão todos os que são”, dizia um poeta espanhol acerca dos loucos dentro e fora dos hospitais psiquiátricos. Depois de ver como se apressaram algumas canonizações, nestes últimos tempos, para satisfazer os desejos ou conveniências de alguns, atrevo-me a dizer acerca dos santos… nem todos os que foram declarados, são santos, nem todos os santos foram declarados.

Sempre houve há e haverá pessoas que viveram como santos sem nunca terem sido declarados como tal; por essa razão a Igreja institucionalizou um dia solene para celebrar os santos nunca declarados, algo assim como o soldado desconhecido; ou seja os que a oração eucarística refere como sendo aqueles “cuja fé e dedicação ao vosso serviço bem conheceis”.

Santo sinónimo de cristão
Saúdam-vos todos os santos, mas em especial os da casa de César. (Filipenses 4, 22)

Aos irmãos em Cristo, santos e fiéis, que vivem em Colossos: a vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai. (Colossenses 1, 2)

Os discípulos foram chamados cristãos, primeiro em Antioquia, diz o livro dos Atos dos Apóstolos. Foi um nome dado por gente de fora, ou seja pelos que não seguiam a Cristo e como tal tinha conotações negativas. “Cristãos” não era o nome pelo qual se reconheciam os primeiros cristãos. Como vemos no segundo texto os cristãos conheciam-se e tratavam-se entre si como irmãos em Cristo, santos e fieis.

O chamar santo a quem tecnicamente ainda não o é, segundo o processo acima descrito, leva implícito um chamamento à santidade. Pela mesma razão chamamos cristãos aos que se esforçam por ser como Cristo, como São Paulo – quando diz Já não sou eu que vivo é Cristo quem vive em mim - mas não quer dizer que o sejamos já.

Santos são os que se reconhecem pecadores
Quem deixa de querer ser melhor, deixa de ser bom” (São Bernardo).
Há dois tipos de pessoas: os que não são conscientes dos seus defeitos e nada fazem para melhorar, e os que sim são conscientes dos seus defeitos e se esforçam por serem melhores cada dia.

Os que nada fazem para melhorar não ficam sempre na mesma, ao contrário cada dia são piores. Na vida moral como na natureza existe uma lei da gravidade; quem não está a subir está descer; quem, consciente das suas imperfeições, nada faz cada dia para melhorar, não permanece como é mas vai de mal em pior; quem não progride regride.

Se eu perco a consciência de que sou pecador, estou perdido. São Francisco, foi talvez o ser humano que mais perto chegou na imitação de Cristo a ponto de ser chamado “o alter Christus” e apesar de em vida já ser tido pelos seus companheiros como um grande santo, tinha-se a si mesmo como pecador e corria pelas ruas de Assis como um louco gritando, “Eu sou um grande pecador”. De facto, os verdadeiros sábios julgam-se si mesmos ignorantes, só os ignorantes se creem sábios; os verdadeiros santos julgam-se pecadores, só alguns pecadores se julgam Santos.

Posso ter chegado já longe no caminho da santidade, o que me faz crescer ainda mais; o que me faz progredir ainda mais é o conseguir ainda encontrar imperfeições na minha vida. Para isso só preciso de afinar a minha peneirinha com o evangelho e certamente encontrarei sempre algo de que me converter. Os verdadeiros santos não se têm a si mesmo como tal, ao contrário consideram-se pecadores.

Os verdadeiros santos, depois de se terem convertido dos grandes pecados, continuamente buscam, na sua consciência, outros que escapam aos exames de consciência das pessoas menos santas. São verdadeiros picuinhas em examinar a fundo a sua consciência, encontrando sempre algo de que acusar-se, pelo que estão sempre num processo contínuo de conversão.

Na parábola do semeador são recriminados os campos que nada produzem; o bom campo é o que produz, não importa que seja 30% ou 60% ou 100%. O importante é produzir, pouco ou muito a quantidade não interessa. Não estamos chamados a ser os melhores, mas a dar o nosso melhor. Da mesma forma na parábola dos talentos o importante é não esconder o talento e faze-lo render, sendo secundária percentagem de lucro.

homo simul iustus et peccator – No caminho para a santidade, o ser humano é e será sempre ao mesmo tempo justo e pecador. Hoje melhor que ontem, inferior a amanhã; mais que um estado ou uma meta, ser santo é um processo de perfeição impulsado e motivado pela consciência de ser pecador.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de maio de 2016

O Ser e o Dever-Ser

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Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? 4Como ousas dizer ao teu irmão: 'Deixa-me tirar o argueiro da tua vista', tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão. Mateus 7, 3-5.

Criticar os outros é quase sempre negativo; as tais ditas “críticas construtivas” não são mais que uma oportunidade, inconsciente e solapada, para punir e humilhar o outro exaltando-nos a nós próprios; de facto, sempre que humilhamos o outro, exaltamo-nos a nós mesmos, e sempre que nos enaltecemos humilhamos o outro. Há uma humilhação implícita em toda a exaltação.

Contigo em contradição/ pode estar um grande amigo/ livra-te daqueles que estão/ sempre de acordo contigo. António Aleixo

O que distingue uma crítica negativa de uma positiva, é a amizade provada que temos para com a pessoa que criticamos. Só temos “direito” de criticar a pessoa que amamos e na qual reconhecemos valores. E ainda neste caso a crítica vem sempre depois da afirmação desses valores. Se nunca reconhecemos nem afirmámos uma pessoa nos seus valores, não temos nenhum direito de a criticar e se o fazemos, a critica é negativa.

A Psicose geral dos nossos dias
Sem autoconsciência não nos conhecemos, sem autocrítica não há progresso nem crescimento pessoal. Como acima ficou dito, se por um lado é quase sempre negativo criticar os outros, por outro é quase sempre positivo criticar-se a si mesmo. O ser e o dever ser nunca coincidem; o que somos no momento presente e o que estamos chamados a ser no futuro nunca coincidem; é a consciência desta realidade que nos impulsiona a crescer, a progredir.

O amor é como a lua, quando não cresce mingua” - Montados num planeta em movimento, devemos ser conscientes que a nível físico nada na realidade que nos rodeia e que forma o nosso ser é estático. O mesmo acontece a nivele espiritual e moral: quando não estamos a crescer, para ser melhores, estamos a minguar e a tornar-nos cada vez piores.

Viver é como andar de avião; sem o impulso dos motores, para manter a altitude ou subir, inexoravelmente descemos; não existe uma inercia nem uma lei da gravidade que nos impulsione para cima, sempre nos puxa para baixo. Automaticamente, sem esforço e sem autoconsciência, só fazemos o que a nossa natureza animal nos dita pelo instinto, o qual tanto a nível pessoal como social quase sempre é mal.

A morte da consciência
(…) João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter contigo a mulher do teu irmão.» Herodíade tinha-lhe rancor e queria dar-lhe a morte, mas não podia, porque Herodes temia João e, sabendo que era homem justo e santo, protegia-o; quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. (…) Herodes, pelo seu aniversário, ofereceu um banquete (…). Tendo entrado e dançado, a filha de Herodíade agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres (…)  «Quero que me dês imediatamente, num prato, a cabeça de João Baptista.» Marcos 6, 17-26.

Quem não vive como pensa, pensa como vive – Quem, pelo esforço em melhorar, não consegue ajustar a sua vida, os seus atos e o seu comportamento aos ditames da sua consciência moral, acaba por ajustar a sua consciência moral à realidade da sua vida, justificando e racionalizando as suas ações e o seu comportamento. Se assim não fosse acabaria neurótico; para preservar a saúde mental, a luta não pode continuar indefinidamente; ou ganha a evolução ou ganha o status quo; ou ganha o modus vivendi ou ganha a consciência moral. Quem não consegue, ou não quer adaptar a sua vida à sua forma de pensar aos valores morais, acaba por adaptar a sua forma de pensar à sua forma de viver, matando assim a sua consciência moral.

A história da execução de João Batista, pode servir de parábola para ilustrar ou exemplificar a morte da consciência moral de Herodes. Herodes bem sabia que João Batista estava certo, que viver com a mulher do seu irmão era moralmente um erro. João era a consciência moral de Herodes, podia falar, mas não atuar por isso estava preso. Herodes gostava de ouvir a verdade, mas faltava-lhe a vontade para a pôr em pratica; assim andou sem se decidir até que as circunstâncias da vida decidiram por ele.

Psicose coletiva
O resultado da morte da consciência moral, que regula a nossa vida guia e julga os atos de cada dia, é a psicose. O psicótico é uma pessoa fria e cruel sem sentimentos, infringe ou presencia o sofrimento alheio sem compaixão; nos casos mais graves, pode chegar a torturar ou matar sem o mínimo sentimento de culpa ou remorso. A falta de uma consciência moral acusatória, hoje comum a muitas pessoas, poderia ser diagnosticada como psicose coletiva cronica.

Eu não tenho pecados ouvimos os que nos sentamos no confessionário. Por que a nossa vida está focada para a distância, e não para o perto, vemos o argueiro na vista do nosso vizinho e não a trave no nosso olho. A autoconsciência, que é o que nos distingue do resto dos seres vivos que habita o planeta, e que foi o resultado de uma evolução que durou cinco milhões de anos, nem sempre nos assiste. Muito do nosso comportamento, o que dizemos, o que fazemos e até muito do que pensamos, funciona independente da nossa vontade, ou seja, vivemos em piloto automático a maior parte do nosso dia.

Ao encontrar-se dois amigos, depois de algum tempo sem se verem, diz um ao outro; “Ouve lá, disseram-me que vendeste um chanfalho velho ao nosso amigo António por um preço exorbitante, o carro valia muito menos do que lhe pediste, tu enganas-te o homem”. “Não enganei nada, o que eu fiz foi um bom negócio” respondeu o vendedor. Entristecido, e abanando a cabeça num gesto de desaprovação, disse o amigo, “Ouve lá sei que tu és um católico praticante, quando te ajoelhas na confissão, o que é que contas ao padre? “Ao padre”, respondeu o vendedor, “conto-lhe os meus pecados não os meus negócios”

Ainda ontem estavas a sulfatar as couves e hoje já as vais vender? Constata o amigo de um produtor agrícola. Quero lá saber, responde o produtor, não sou eu que as vou comer! - No nosso mundo o lucro pessoal ou coletivo, é um valor que está por cima da saúde pública. Este senhor não come essas couves, mas consome outros produtos agrícolas que são produzidos da mesma forma assim como a comida produzida industrialmente. Quando o lucro está por cima da saúde pública ninguém ganha, e todos perdemos.

O mesmo vale para a fuga aos impostos, um pecado que em 31 anos de sacerdote nunca ouvi ninguém mencionar. Aparentemente ou a curto prazo, quem foge ganha, fica com mais dinheiro na algibeira, mas na realidade a longo prazo, todos perdem incluído o que foge.

O sacramento da autocritica
O sacramento da Penitência, ou confissão, é em si mesmo um exercício de autocrítica. Já poucos o usam e os poucos que o fazem, fazem-no por rotina ou para observar o preceito da Igreja popularmente chamado de “desobriga”, de se confessar e comungar pelo menos uma vez no ano por Páscoa florida. Não o fazem, portanto, por necessidade, e para crescer espiritualmente, mas sim por obrigação.

E porque é por obrigação e rotina, quando se ajoelham diante do confessor, não sabem que dizer e recorrem a uma lenha lenga tantas vezes repetida: matar não matei, roubar não roubei etc. Por mais que tente espiolhar, sem ter a curiosidade morbosa de alguns antigos confessores, não consigo arrancar nenhum pecado pessoal e frequentemente o que ouço são os pecados dos outros, do marido, dos filhos, dos cunhados e das noras, das sogras etc; quantas vezes tenho de parar o penitente na sua lamúria e recordar-lhe que eu não posso perdoar os pecados dos outros mas só os próprios…

Comparo a nossa consciência moral a uma peneira daquelas que todas as mulheres usavam para peneirar, purificar a farinha, retirando-lhe as impurezas, que constituíam o farelo que se dava às galinhas, ficando a farinha branca com a qual se amassava o pão. Quanto mais fina e fechada é a malha, ou rede da peneira, mais pura fica a farinha.

A consciência moral de muitas pessoas do nosso tempo está tão laxa, a rede é tão grossa, ou está tão cheia de buracos que ao peneirar os atos de um dia nada fica na peneira. Não é, portanto, verdade que não tenham pecados, têm-nos e fazem-nos, mas não são conscientes de os ter e de os fazer. O justo, diz a bíblia, peca sete vezes ao dia; sendo o sete o número perfeito significa que peca muitas vezes; quantas não pecaremos nós que somos injustos…

Afogar-se na culpa como Judas
Nas antípodas da consciência laxa, está a consciência escrupulosa; aquela que não se consegue libertar da culpa.

Uma mulher foi um dia ter com o seu pároco e revelou-lhe que Deus lhe aparecia muitas vezes. O pároco incrédulo, para confirmar a veracidade das aparições ou ironicamente para gozar com a senhora, autorizou-a a perguntar a Deus pelos seus pecados, pensando para consigo, “só Deus conhece os meus pecados, se ela me relatar algum então terei que acreditar nas aparições”. A senhora, tomando em sério a proposta do pároco sem se aperceber da ironia, foi-se embora. Passados uns dias voltou à presença do pároco e este com ar de troça perguntou; “então Deus voltou a aparecer-lhe”? “Voltou sim senhor”, respondeu ela, “e a senhora perguntou-lhe pelos pecados”? “Perguntei sim senhor padre” disse ela; “e que disse Deus”? Inquiriu o pároco, “a respeito dos seus pecados senhor padre, Deus disse-me que já se tinha esquecido”.

 Não há miséria superior à misericórdia divina. Deus perdoa-nos e esquece, passa página coisa que nós não fazemos. Deus que nos conhece melhor do que nós nos conhecemos, que nos ama mais que nós a nós mesmos, por muita que seja a nossa autoestima, também nos perdoa muito mais do que nós nos perdoamos a nós mesmos.

Ao fim de uma guerra fratricida entre hindus e muçulmanos, nos alvores da independência da India, um hindu veio ter com Gandhi para que ele o ajudasse a libertar-se da sua culpa. Contou que um dia, durante a guerra, entrou numa casa muçulmana onde se encontrava uma mulher que ia dar de mamar a um bebé, que lhe retirou o bebé e o arremeçou contra a parede da casa. A imagem do bebé esmagado contra a parede e o seu sangue a escorrer, dizia, persegue-me para onde quer que vá, eu vivo num inferno… Gandhi, para o livrar da culpa, propôs-lhe adotar um bebé muçulmano, dos muitos que ficaram órfãos com a guerra, e de o educar na religião muçulmana.

Nos meus 31 anos de ministério, não foram poucas as mulheres que à idade de oitenta e tantos anos ainda confessavam obsessivamente, uma e outra vez, o aborto que tinham cometido quando eram adolescentes. O escrupuloso acredita mais num Deus vingativo, à maneira humana, que num Deus amor. É uma ofensa a Deus não acreditar no seu perdão, quando Deus não sabe fazer outra coisa…

Anulou o documento que, com os seus decretos, era contra nós; aboliu-o inteiramente, e cravou-o na cruz. (Colossenses 2, 14).

Deus perdoa e esquece, como sugere São Paulo, destrói a fatura da nossa dívida para não mais se recordar dela; somos nós, que pela nossa natureza, não nos conseguimos perdoar nem esquecer.

O purgatório, do qual a bíblia não fala diretamente, foi criado por Deus, não porque Ele precise de que expiemos a nossa culpa, mas sim porque nós precisamos.

Reconhecer e chorar o erro como Pedro
 (Ante a quantidade de peixes resultante da pesca milagrosa) Simão caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. (Lucas 5, 8)

In medio vírtus” – Entre o extremo da consciência moral laxa, e a consciência moral escrupulosa, está a consciência recta de Pedro, que nem é laxa, nem escrupulosa. Pedro, tem ante Deus a atitude correta; reconhece-se pecador ao ver os poderes de Deus manifestados em Cristo Jesus a quando da pesca milagrosa.

O episodio da pesca milagrosa vem provar que não foi a negação do mestre, pecado equivalente ao de Judas, que lhe deu a Pedro a consciência de ser pecador; Pedro sempre se teve como tal, consciente de que ante Deus não há justos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de maio de 2016

O Rico e o pobre Lázaro

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Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão.

Morreu também o rico e foi sepultado. Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.' Abraão respondeu-lhe: 'Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Lucas 16, 19-31

Na única “história aos quadradinhos” que Jesus contou, observamos reversão de cenários de vida e fortuna entre dois homens na sua passagem de este mundo para o outro. No primeiro quadradinho observamos um o céu de luxo e prazer do rico em contraste com o inferno também temporal de penúria e sofrimento do pobre Lázaro. No segundo quadradinho no qual tantos os papeis como os cenários são invertidos: O rico que vivia num Ceu temporal de prazer insolidário, vive agora no eterno inferno de penúria e sofrimento, ao contraio o pobre Lázaro que vivia na penúria a e no sofrimento vive agora no eterno céu de abundancia e consolação.

A morte, que na natureza não existe mais que como passagem entre duas diferentes formas de vida, também aqui é apresentada como ponte entre o quadradinho da vida na terra e o quadradinho da vida no céu. Contrariamente ao que a maioria pensa, a morte não é o grande raseiro, que a todos nos faz iguais. No entender da parábola, contada por aquele que um dia disse, “pobres sempre os tereis convosco” (Jo 12,8), as desigualdades sociais que encontramos na terra vamos encontra-las invertidas no céu. Por isso, a igualdade social é a utopia que em todo momento e lugar deve inspirar e guiar a nossa ação.

O pobre que se senta à nossa porta
A parábola não nos diz o nome do rico, não tem identidade humana porque é definido pelo seu modo de vida, como ainda hoje se definem muitos ricos:

Vestia de púrpura e linho fino – O rico não tem nome porque a sua identidade não é definida de dentro para fora, mas de fora para dentro. É a púrpura e o linho fino que o definem, o seu estatuto é-lhe conferido pelo tipo de roupa que veste. Quem se sente um Zé Ninguém usa certos subterfúgios para vestir o vazio da sua alma: a roupa de marca, telemóvel ultima geração, carro topo de gama…

Muitos adolescentes, nas nossas escolas, em vez de buscarem o prestígio no desempenho moral e académico, buscam-no na roupa de marca. Compram camisolas caras, que exibem no peito um determinado logotipo de exageradas dimensões. Caro lhes fica o tal “prestígio” que buscam, pois além de terem comprado bem cara a camisola, ainda fazem publicidade gratuita à marca sempre que a vestem. Eles exibem-se à custa da marca, a marca faz-se pagar bem e ainda se exibe á custa deles. No fim não sei quem ganha mais os adolescentes ou a marca.

 Fazia todos os dias esplêndidos banquetes – O pobre tem banquetes muito de vez em quando, o rico é todos os dias. O pobre diverte-se de tempos a tempos, o rico vive para se divertir. Não vive a vida, goza a vida, consome a vida que para ele não é mais que um passatempo.

O rico não é criticado por ser rico, mas por ser insolidário; as riquezas no evangelho têm o mesmo valor que os talentos, não são para ser possuídas, mas para ser usadas para o bem comum, pelo que devem ser bem administradas. Quanto maior é o poder económico de um individuo, maior é a sua responsabilidade social. Como recorda o evangelho, a quem muito lhe foi dado muito lhe será exigido (Lc 12,48). O pobre que se senta à nossa porta, ou que se cruza no nosso caminho, nem sempre é o que necessita de pão e vestido; às vezes só necessita que lhe demos tempo e ouvidos; muitas são as necessidades da pessoa humana e muitas são as formas de ajudar.

Para o rico, Lázaro não era mais que um aspecto da paisagem à qual se tinha acostumado. O seu modo de vida na opulência tinha-o anestesiado, insensibilizado perante a miséria e o sofrimento do que jazia à sua porta. Ao contrário do rico, a parábola diz-nos o nome do pobre, Eleazar que em hebreu significa “Deus ajuda”. Sozinho, sem sustento e doente, este pobre está às portas da vida, do lado de fora, na esperança de poder alimentar-se com as migalhas caídas da mesa farta do rico, mas nem isso lhe é dado. Jesus, o autor da parábola, termina a primeira vinheta ou quadradinho dizendo que os cães vinham lamber as chagas ao pobre Lázaro. Os humanos têm para com Lázaro uma atitude inumana e irracional; ao contrário os cães, seres irracionais, têm para com o pobre uma atitude “humana”.

Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. (…) Ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas (Isaías 53, 4-5).

Segundo o canto de Yaveh de Isaías, as chagas de Cristo têm para nós poder curativo. Da mesma forma, a salvação do rico estava nas chagas do pobre Lázaro, porque como diz Mateus 25, o que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes. “Quem dá aos pobres empresta a Deus” diz o ditado. De facto se os ricos salvam os pobres nesta vida, são os pobres que salvam os ricos na vida futura. São os cães que se aproveitam das propriedades curativas das chagas. Recordemos que os judeus chamavam cães aos pagãos; são precisamente os pagãos que se salvam pelas chagas de Cristo.

Vale de prazeres – Vale de lágrimas
Eventualmente a morte chega para os dois, e como ela a parábola apresenta-nos o segundo quadradinho ou vinheta. Lázaro, que antes vivia num “vale de lágrimas”, passa agora a viver num “vale de prazeres”; ao contrário o rico, que vivia num “vale de prazeres”, passa agora a viver num “vale de lágrimas”. Invertem-se os cenários com a diferença de que na primeira vinheta tanto as lágrimas como os prazeres eram temporais; “não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature”, na segunda os prazeres e as lágrimas são eternos.

Existe uma fatalidade na forma como a morte do rico é descrita; morre e é sepultado, como para dizer para ele acabou tudo. O inferno é, portanto, a morte eterna que se contrapõe á vida eterna. As poucas vezes em que, como aqui, na biblia aparece como sofrimento eterno tem um valor pedagógico de nos meter medo, como os pregadores antigos faziam baseados no facto de que temos mais medo do sofrimento que da morte.

Como quase sempre acontece “a morte abre os olhos aos vivos”. De facto o rico, que anteriormente não conseguia ver Lázaro, agora vê-o perfeitamente. Mas continua ainda egoísta; antes não via o pobre porque este não tinha nada para lhe dar, agora, vê-o porque precisa dele. Muitos de nós vemos a vida e as relações humanas como um grande buffet; relacionamo-nos com os outros, não pelo que lhes possamos aportar, mas, pelo que estes possam contribuir para uma melhoria na nossa vida.

O que antes se revestia de linho fino está agora revestido de chamas; e é no meio delas que se lembra de que tem Pai e irmãos e quer que Lázaro seja enviado para os salvar. Abraão refere-lhe que têm os mesmos meios que ele tinha para se salvar, a Lei e os Profetas, que Jesus resume em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

Pensa o rico que se Lázaro ressuscitasse, os seus familiares iam acreditar nele e mudar de vida. Contrariamente a esta crença, sabemos muito bem que quando Jesus ressuscitou um Lázaro, não levou os judeus a acreditarem mais nele, apenas os levou a decidir matar o recém-ressuscitado Lázaro juntamente com Jesus.

A fé continua a ser a única porta para a salvação, não vai haver nenhum sinal do outro mundo, nenhum milagre que prove de forma irrefutável a verdade destas coisas; pela fé vivemos e na fé nos salvamos, não há garantias científicas, nunca as haverá, de que Deus existe e que sustem a vida dos que têm fé aqui agora como a susterá depois da nossa morte.

O pobre que se assoma à nossa janela
O ano passado a Oxfam informou, no Fórum económico Mundial em Davos na Suíça (21-24 janeiro 2015), que este ano 1% da humanidade possuirá mais riqueza que o resto dos 99%. Mais concretamente 1% da humanidade possuirá 54% da riqueza mundial, o resto dos 99% possuirão 46%.

Uma realidade que nos faz pensar… Depois de tanto progresso cientifico e técnico, a raça humana progrediu bem pouco em humanidade, o abismo cada vez maior entre os ricos e os pobres prova inequivocamente que, na raça humana, o que verdadeiramente guia e inspira o comportamento não é a inteligência nem a bondade, como seria desejável, mas sim o instinto egocêntrico e irracional que temos em comum com os animais.

Ao longo da historia da humanidade, a inteligência humana parece ter estado mais ao serviço do egoísmo que do altruísmo; o homem parece que é mais criativo para o mal que para o bem, só desta forma se explicam tantos factos como o holocausto dos judeus, e tantos outros genocídios (o aborto, os crimes de guerra e a própria guerra…). Temos que concluir tristemente que a raça humana supera os animais, não só na sua racionalidade como também na sua irracionalidade.

Nos países pobres ainda se morre de doenças que há muitíssimos anos têm cura: a lepra, a febre tifóide, a tuberculose, e todas as conectadas com a falta de higiene, água potável e alimentação precária… Nos países ricos morre-se pelo excesso de consumo; nos países pobres morre-se por falta de consumo do imprescindível.

Se partilhássemos nem os pobres morriam da pobreza nem os ricos da riqueza. Eramos todos mais saudáveis...

As leis ou o sistema que fez isto possível é simplesmente injusto. O fosso entre os ricos e os pobres vai sempre aumentando. Como o planeta não permite que todos vivam como nós vivemos, há mecanismos que fazem com que os ricos nunca percam a sua riqueza, e o seu nível de vida, e os pobres como Lázaro sejam sempre pobres e não possam sair da sua pobreza, porque se saíssem e consumissem tanto quanto nós consumimos o nosso planeta depressa se tornaria inabitável.

Uma e outra vez se reúnem as potências mundiais para discutir as mudanças climatéricas, que são um sintoma de que o nosso planeta está doente e a doença é provocada pelo nosso abuso dos seus recursos, e pouco se tem conseguido.

Todos sabemos quais serão as consequências e, no entanto, não conseguimos travar os comportamentos que inexoravelmente nos estão a levar a um suicídio coletivo. Há um mês a cidade de Pequim declarou pela primeira vez alerta vermelho, fechou as escolas e os edifícios públicos; o ar estava tão contaminado que além de ser irrespirável dificultava a visibilidade.

O facto de a pobreza ser um problema global cada vez mais difícil de resolver porque o fosso que separa os ricos dos pobres é cada vez maior, não deve motivar a nossa inação. Deus não me vai pedir contas pelos pobres do mundo, mas por aquele que se senta à nossa porta ou se cruza no nosso caminho.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de abril de 2016

O Bom Samaritano

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Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.'

Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.» Lucas 10, 25-37

A segunda parábola mais conhecida depois do Filho Pródigo, é sem duvida a do Bom Samaritano. De tal forma esta parábola influenciou a cultura ocidental que hoje o termo “samaritano”, mais que referir-se a um habitante da Samaria, aplica-se a toda a pessoa que é solidária, se compadece e ajuda os que estão em dificuldades.

Como ganhar a vida eterna
A parábola está inserida no contexto do diálogo que Jesus tem com um doutor da lei que o interpela sobre o que deveria fazer para ganhar a vida eterna. Jesus, tal como um bom psicoterapeuta não diretivo, ao estilo de Rogers, ajuda-o a buscar ele mesmo a resposta à sua pergunta remetendo-o para a sua leitura da Lei. O doutor da lei diz em resposta o que Jesus quer ouvir; ou seja, em vez de mencionar leis concretas, dá ao amor o estatuto e a importância de uma lei, assumindo que Jesus faria isso mesmo.

A resposta do doutor da lei sintetiza o Antigo Testamento, a Lei e os profetas, ao unir o amor a Deus, descrito no livro do Deuteronómio (6, 4-8), como o amor ao próximo, descrito no livro do Levítico (19, 18). A esta síntese Jesus limitou-se a aprovar dizendo faz isso e viverás; viverás aqui e agora segundo a Lei e entrarás na vida eterna.

Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 1 João, 4,20

Com este texto podemos concluir que o amor a Deus que não se verifica e manifesta no amor ao próximo, não é real nem genuíno; porem, como diz o evangelho, só podemos verdadeiramente amar o próximo, quando entendemos que o fazemos aos outros, o estamos a fazer a Deus. 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes. (Mateus 25, 40)

Desta forma estamos de volta ao amor a Deus comos sendo o primordial e o mais importante, porque só quando vemos a Deus como Pai a que vemos o outro como nosso irmão. Se Deus não é Pai de todos, então o meu próximo não é meu irmão, mas sim meu rival, meu inimigo, a quem temo invejo ou odeio. Por melhor que estejam na vida os nossos irmãos de sangue, não os invejamos, da mesma forma quando verdadeiramente amo a Deus como Pai, todas as pessoas que me rodeiam, grandes e pequenos, de perto ou de longe, são meus irmãos de sangue porque Deus é Criador e Pai de tudo e de todos.

Cristianização da gramática
Quem é o meu próximo? – Tal como os outros doutores da lei que vieram ter com Jesus, também este não veio com a intenção de enfatizar a doutrina de Jesus. A primeira pergunta que faz a Jesus é só a preparação da segunda, na qual pretende denunciar o facto de Jesus não aceitar diferenças entre as pessoas. Portanto, a segunda pergunta deixa supor que há pessoas que podem ser consideradas como próximo e outras, pelo contrário, não. E assim era para os Judeus; eles eram o povo escolhido por Deus, por isso para eles o próximo era o que era da sua mesma tribo e religião; os outros eram gentios, pagãos e como tal não podiam ser tidos como próximo para um Judeu.

 Para Jesus não existe diferença entre pessoas. É o que tenta explicar com a parábola do bom samaritano. Em pleno deserto de Judá jaz um ferido; ninguém o conhece; não se sabe nada dele; o rosto desfigurado, pelo que não podemos ler as feições do seu rosto para o definir etnicamente; meio morto, pelo que não pode falar para sabermos que idioma fala ou que dialeto ou sotaque tem; talvez despojado meio nu, pelo que não sabemos como veste para saber quais são os seus usos e costumes e poder identificá-lo. Jesus não menciona nenhum destes detalhes, porque para Ele não são importantes, a única coisa que é clara é que é um ser humano, isso é o único que conta. A dignidade não está subjugada a diferenças étnicas, linguísticas ou politicas, mas simplesmente ao facto de ser um ser humano.

Deus é Pai de todos pelo que quando rezamos o Pai Nosso, ninguém deveria ficar excluído do pronome “nosso”. Aliás se levássemos a nossa fé até às últimas consequências, modificaríamos a gramática e aboliríamos todos os pronomes pessoais ficando só com três, pois trinitária é a nossa fé; Eu + Tu = Nós.

Começando por mim pois me reconheço com um ser livre autónomo, distinto de tudo e de todos os que me rodeiam; seguidamente, olhando à minha volta e reconheço um alter ego, um Tu, diferente de mim, mas de igual dignidade; por fim, o facto de precisarmos um do outro, e de termos iguais direitos e deveres, faz surgir uma terceira entidade o “Nós” ou seja o eu e o tu juntos; para alem destes, os restantes podemos descarta-los por ser discriminativos.

Os pronomes “Ele” e “ela” “Vós” e “Eles” estabelecem distinções que ao ser irrelevantes quanto á dignidade da pessoa humana, abrem o passo para a discriminação que pode até estar camuflada no reconhecimento objetivo de diferenças entre pessoas. Uma vez mais, como cristãos que somos, o nosso, do Pai Nosso, deve englobar toda a gente sem distinção e discriminação.

Anatomia geográfica
A ciência diz-nos que o ser humano vem de um tronco comum. Com a filosofia grega na mente, verificamos que a dignidade da pessoa humana está ligada à essência e não aos acidentes. O que Jesus quer que este doutor da lei entenda é que as diferenças étnicas, de género, de posição social, de classe, de cor da pele, de tipo de cabelo etc., são acidentes, ou seja, são formas de existir e nada têm que ver com a essência pois não a alteram. Como a dignidade da pessoa humana provém da essência e não dos acidentes, Jesus conta a parábola na esperança que o seu interlocutor conclua por ele mesmo que o próximo, de cada pessoa humana, é toda a pessoa humana.

Nascidos de um tronco comum, há cinco milhões de anos no vale de Rift na África, as características fisiológicas, que apresentam os seres humanos de hoje, devem-se às condições morfológicas e climatéricas do meio ambiente em que habitaram por muitos milhares de anos. Por exemplo, a cor da pele é proporcional à distância do equador; quanto mais perto mais preta, quanto mais longe mais clara; os Congoleses são os seres humanos mais pretos, os Marroquinos são mais claros que os Congoleses, os Portugueses mais claros que os Marroquinos e os Noruegueses mais claros que os Portugueses.

Com a distância do equador tem que ver também a cor dos olhos e do cabelo; no norte da Europa proliferam os azuis, no centro os castanhos, no Sul os pretos; o mesmo vale para a cor do cabelo; no norte da Europa é louro, no centro castanho, no sul preto. O tamanho do nariz tem que ver com a temperatura do ar; além de o filtrar, o nariz tem também a função de o aquecer, pelo que nos países frios as pessoas têm um nariz maior.

Também tem que ver com a temperatura e incidência do sol o cabelo encaracolado e o cabelo liso. O cabelo encarapinhado dos africanos forma uma caixa de ar a qual permite que o ar circule, protegendo assim a cabeça dos raios solares e do calor. Por fim os olhos dos asiáticos tem que ver com o clima extremo das estepes asiáticas; no inverno muito frio e muita luminosidade, no verão muito vento e pó.

A revolução francesa “avant la lettre”
No ocidente, foi a revolução francesa instituiu a ideia que tem sido a pedra angular da democracia de que pelo nascimento e perante a lei, somos todos iguais; desta forma não há escravo nem senhor, nem nobre e plebeu. No entanto muito antes de sermos iguais perante a lei já eramos iguais perante Deus.

Se observarmos atentamente, verificamos que os ideais da revolução francesa, não são verdadeiramente descoberta dos revolucionários, mas já estavam implícitos no mandamento do amor, a Deus e ao próximo.

Liberdade – Está implícita no mandamento do amar a Deus sobre todas as coisas; só quando amamos a Deus sobre todas as coisas, e sobre todas as pessoas, é que colocamos ordem e hierarquia no nosso coração e somos verdadeiramente livres. Ao prestar vassalagem a um ser Transcendente transcendo-me, coloco-me por cima de todos as coisas que não são Deus; assim e só assim sou verdadeiramente livre.

Igualdade – Está Implícita no mandamento do amar ao próximo como a mim mesmo; o outro é um alter-ego, um outro eu de onde vem o conceito de altruísmo. Não é um estranho, portanto, mas sim uma pessoa de igual dignidade, iguais direitos e deveres. Como me amo a mim mesmo assim devo amar o outro que está na minha frente, nem mais nem menos; a medida da minha autoestima é a medida do meu amor pelo outro, pelo que não há melhor afirmação de igualdade que esta.

Fraternidade – Esta palavra é uma derivação de “frater” que em latim significa irmão. Uma das marcas do cristianismo é o considerar que Deus é Pai de todos, o qual nos faz a todos seus filhos e portanto irmãos entre nós. Por isso tudo o que faço, de bem ou de mal, a um irmão o estou a fazer; e por outro lado, como diz Mateus 25, a Cristo o nosso irmão mais velho o estou a fazer.

Fraternidade é ao mesmo tempo sinónimo de amor ao próximo e de igualdade, pois tendo em mente o conto do Príncipe Encantado que se apaixona pela gata borralheira ou Cinderela, há proverbio que no assegura que “O amor ou nasce entre iguais ou faz as pessoas iguais”. Assim sendo, podemos concluir que igualdade e fraternidade são uma e a mesma coisa. A fraternidade leva á igualdade e a igualdade leva à fraternidade. A liberdade, ou o amor a Deus é o alicerce da vida humana na sua vertente individual; a igualdade ou o amor ao próximo, o alicerce da vida humana na sua vertente social; Uma não existe sem a outra

Ante o dito é inadmissível que existam castas, como na Índia, e que estas ainda hoje pautem as relações entre pessoas a ponto de não serem iguais perante a lei. Como também é inadmissível que os muçulmanos considerem infiéis a todos os que não adoram o seu deus e não se comportam segundo a lei da Sharia.

Religião como opio
Discordamos de Karl Marx quando diz que a religião é o ópio do povo. A religião em si não é ópio, mas a sua pratica pode ser. Uma religião que crie diferenças entre as pessoas, que me leve a relacionar-me com elas diferentemente é opio do povo; porque me aliena, aliena outros e cria ódios e contendas. Uma religião que me afasta dos outros, que desumaniza, que me impede ajudá-las e que busca desculpas para não o fazer é ópio. Uma religião que não me ensina o caminho para sair da minha zona de conforto, do meu egocentrismo, não é sequer uma religião. Religião vem de “religare” relação, a verdadeira religião é a que motiva o maior número de relações possíveis e todas elas baseadas no amor.

O sacerdote e o Levita passam de largo para não serem contaminados e poderem praticar a sua religião, oferecer sacrifícios no templo; por isso têm desculpa, têm alibi; a própria religião os proíbe de fazerem o bem; uma religião que é ópio funciona assim, justifica, ilumina e fundamenta ideologicamente o egoísmo e a inatividade, acabando até por matar a compaixão que surge natural, quando presenciamos o sofrimento humano e até mesmo o sofrimento de um animal. Uma religião assim é uma superestrutura, na linguagem de Karl Marx, que desumaniza o ser humano.

O sacerdote e o levita, algo assim como o padre e diácono nos nossos tempos, são por sua natureza pontífices; ou seja, pontes entre Deus e os homens. A sua função é a de interceder a Deus pelos seus semelhantes; levar Deus aos homens e os homens a Deus. Estes clérigos ficaram-se com a teoria, iam certamente para o templo para interceder pelos homens, mas por um homem genérico inexistente, pois homem era aquele que viram a precisar de ajuda e passaram de largo. A sua religião era ópio e ideologia, pois em vez de os aproximar dos homens e mulheres concretos distanciava-os deles.

A compaixão vem de quem menos se espera, de um homem de negócios, em quem normalmente se presume a ganância e busca do proveito próprio em todo tempo e lugar. Um para quem o tempo é dinheiro e todas as atividades devem ser lucrativas. Sendo um homem de negócios, se alguém tinha “desculpas” para passar de largo era o samaritano, e, no entanto, é precisamente ele que pára e coloca de lado a sua agenda e atende o desafortunado.

Talvez por não ser religioso, o sentimento natural de compaixão não estava anulado ideologicamente pelo que, anacronicamente, é precisamente nele que vemos a compaixão e a misericórdia, atributos de Deus que não os vemos nos religiosos, o sacerdote e o levita, que teoricamente mais perto de Deus, mais deveriam ser como Ele.

O samaritano não só sente compaixão, mas atua com base nessa compaixão; muitos há que sentem e nada fazem. A sua compaixão faz com que coloque o seu programa de lado, não só oferece tempo, a sua montada e ele vai a pé, mas abre os cordões à bolsa, e paga por ele o equivalente ao ordenado de dois dias e comprometendo-se a pagar ainda mais caso fosse necessário. O samaritano é-nos apresentado como um ícone vivo da misericórdia divina, um exemplo que o próprio Cisto nos convida a seguir.

Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericordiae Vultus Papa Francisco.
Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de abril de 2016

Perdidos & Achados - Os dois filhos

1 comentário:
A parábola do filho pródigo é sem lugar a dúvidas, a narrativa mais notável de todos os tempos. É realmente uma obra-prima e de alguma forma o ex libris do Evangelho. Para além de “Parábola do filho pródigo” é também chamada a parábola dos dois filhos, pois a atitude pouco louvável do filho mais velho, é parte integrante da história; por esta mesma razão outros chamam-lhe O menos mau de dois maus filhos, e por fim, retirando o protagonismo aos dois filhos para o dar ao Pai, também há quem lhe chame a parábola do Pai Misericordioso.

Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.' E o pai repartiu os bens entre os dois.

Disse ainda… - Jesus introduz esta parábola ligando-a às duas precedentes, a da ovelha e da dracma perdidas. Uns perdidos em casa dentro do rebanho:  a dracma, o filho mais velho e as 99 ovelhas que simbolizam os fariseus; outros perdidos para fora do rebanho, a ovelha perdida e o filho pródigo, que simbolizam os publicanos, as prostitutas e os pecadores em geral; para Jesus tanto uns como outros, todos são pecadores necessitados de perdão, doentes necessitados de cura. Na verdade, como diz a Escritura, Todos nós andávamos errantes como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes (Isaías 53,6). Cristo morreu por todos porque todos eramos pecadores.

'Pai, dá-me a parte dos bens – Segundo a lei Judaica, um pai não podia dispor da sua propriedade como quisesse. O filho mais velho tinha direito a dois terços e o mais novo a um terço da propriedade (Deuteronómio 21:17). Nesta terceira parábola o drama acentua-se, não se trata já da perda de uma ovelha, um dracma, nem mesmo de parte da propriedade; o que preocupa este pai é a perda do filho. Para entender a aflição daquele pai, recordemos a angústia de Jacob quando julgou ter perdido José, o seu filho mais novo e preferido, por ser filho de Raquel a mulher que ele amou à primeira vista e por quem teve de trabalhar 14 anos.

O drama deste pai, implícito na parábola, é a ingratidão do seu filho mais novo. Pedir a herança antes da morte, da sua morte, é como dizer-lhe: “Para mim já morreste por isso herança deve ser repartida; não vales pelo que és, ou por quem és para mim, mas pelo que tens, como não quero viver contigo não vou ficar aqui à espera da tua morte, quero o que me pertence já”.

E o pai repartiu os bens entre os dois – Apesar de profundamente ofendido pela ingratidão do seu filho, o pai não discute, nem tenta convence-lo de que está a proceder mal; sabe muito bem que o que ele não lhe conseguiu ensinar com amor a vida lho ensinará com dor; o erro e o sofrimento como consequência é muitas vezes parte integrante do processo de aprendizagem. De facto, aprendemos mais com os nossos erros de que com os nossos acertos; neste sentido “Não há males que por bem não venham”.

No respeitar a liberdade do homem, revela Deus Todo-Poderoso a sua impotência. Como não se pode obrigar um adulto a fazer o bem, tal como Deus, quantos pais contemplam como os seus filhos destroem as suas vidas, pelo vício ou a preguiça, sem nada poderem fazer.

Não há mulheres nesta parábola porque as mulheres naquele tempo nem possuíam bens nem eram herdeiras deles; mas vemos um pai com atitudes e rasgos que tradicionalmente são mais próprios de uma mãe, pelo que podemos dizer que a mulher, o caracter feminino, está também presente nesta parábola.

Poucos dias depois, (…) juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, (…) começou a passar privações. (…) E, caindo em si, disse: 'Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!

Caindo em si - Foi preciso cair bem fundo para cair em si e se dar conta da sua situação; passar fome, descer à condição de guardador de porcos, animal impuro por excelência, e nem sequer ter acesso às alfarrobas que estes comiam.

Deus intimior intimo meo est- Deus está para além do meu intimo; pelo que o caminho para Deus passa pelo profundo do meu ser; quando caminhamos para Deus caminhamos para uma maior consciência de nós mesmos; ao contrário, quando voltamos as costas a Deus, como o filho pródigo fez, voltamos as costas a nós mesmos; fora de si como os drogados, os alcoolizados, andou desvairado enquanto fugia de Deus e de si mesmo.

Não aceitava a sua realidade de ser filho de Deus, pelo que de certa forma, voltou à “animalidade”, ao tempo em que os seres humanos ainda primitivos não tinham consciência de si mesmos lá longe na evolução das espécies. Possuídos por uma paixão ou por um vício, quando fazemos o mal andamos fora de nós mesmos; perdemos a autoconsciência, o autocontrole, e a identidade.

Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.' E, levantando-se, foi ter com o pai.

Decide voltar não tanto porque estivesse arrependido, mas porque tem fome… primum vivere deinde filosofare… ao voltar ainda está à procura do seu interesse; volta porque tem fome e precisa de mais bens; não volta por saudades do pai, mas porque na sua casa até os servos estão melhor do que ele como guardador de porcos. Não é digno de ser filho, diz no seu discurso em preparação, e não parece interessado em ser filho.
   
O filho pródigo queria impor-se uma penitência; queria de alguma forma fazer restituição, compensar pelo que ele fez, mas o pai não o deixa concluir o discurso que tinha preparado de antemão, e detém-no após ter escutado a sua confissão.  Deus não precisa de nossa restituição e da nossa penitência para nos perdoar; Deus perdoa e esquece. Mas então e o purgatório? É uma necessidade da nossa natureza e não de Deus; porque Deus perdoa-nos mais facilmente e mais depressa do que nós nos perdoamos a nós mesmos.

Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos. O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.' Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' E a festa principiou.

Ao longe não é o filho que vê o pai, mas o pai que vê o filho por quem estava à espera, pois nunca deixou de o esperar, nunca se esqueceu dele e refez a sua vida, como se costuma dizer; ao contrário nunca o deu por perdido, nunca prescindiu dele e viveu na esperança de que ele um dia ia voltar. O lugar que ocupamos no seio de Deus não pode ser ocupado por mais ninguém e fica sempre vazio até que regressemos a Ele.

O filho fez um pouco de estrada em direcção ao pai e a ele mesmo, mas foi o pai quem mais estrada fez; pois foi ele que nunca o deu por irremediavelmente perdido, nunca o esqueceu, sempre esteve de atalaia à sua espera, e quando o filho se apresentou como jornaleiro ele sem ressentimentos e cheio de compaixão recebeu-o como filho. Abraça-o, não se abraçam jornaleiros, beija-o como a um filho e de igual para igual pois não o deixa ajoelhar-se, depois coloca-lhe um anel de herdeiro com o selo do poder; veste-lhe a veste melhor de filho predilecto, como Jacob fez com José. Por fim mata o bezerro mais cevado e é festa.

Ora, o filho mais velho (…) ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.' Encolerizado, não queria entrar;

O filho que pecou aprendeu uma lição; quantas vezes precisamos de nos ver privados das coisas para nos darmos conta do seu valor. O filho mais novo entendeu o que era o amor do pai porque o negou e porque fugiu para longe dele. O filho mais velho nunca chegou a entender. É precisamente neste sentido que Sto. Agostinho desenvolve a sua teologia da “Felix culpa” referindo-se ao pecado de Adão, e Lutero agrega o seu paradoxo “pecca fortiter”; se pecas peca forte pois só um pecado forte, é motivo para uma forte conversão. A “peccata minuta” do filho mais velho não o demoveu da sua vida também pecaminosa.

'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.' O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.'» Lucas 15, 11-32

O pecado do filho mais novo foi rejeitar a paternidade do seu pai, o pecado do filho mais velho é o mesmo; também ele não se considera como filho mas como jornaleiro, entendendo o seu pai um capataz justiceiro pelo que lhe obedece não por amor mas por medo. Tal como o jovem rico e os fariseus nunca transgrediu um só mandamento. Cumpriam só a letra da lei porque, como bem dizia Jesus, o seu interior estava cheio de imundícia como fica claro pela forma como o filho mais velho descreve a vida dissoluta do seu irmão. O filho mais velho é, de alguma forma, como os que só se comportam bem diante da polícia e da autoridade; patrão fora dia santo na loja

Um filho verdadeiro partilha a vida e os bens com o pai e comporta-se segundo a “liberdade dos filhos de Deus” (Romanos 8,21). Por isso não precisava de pedir um cabrito pois dispunha da herança que é devida aos que são e se comportam como filhos de Deus (Mateus 25).

De como o filho pródigo gastou o dinheiro não o sabemos do narrador mas do filho mais velho; em todo o texto não se fala de prostitutas até o filho mais velho as mencionar apelando à possibilidade de que o pai fosse puritano e rigoroso contra este tipo de pecados. Há uma certa moralidade católica que julga toda a matéria sexual como pecaminosa e que faz a vista gorda aos pecados de justiça social.

Por outro lado, se psicanalisamos o enfase que o filho mais velho dá à forma como o seu irmão gastou o dinheiro chegamos à conclusão que afinal o filho pródigo só fez o que o irmão mais velho sempre quis e desejou, mas nunca teve a coragem de fazer. É, portanto, uma questão de inveja.

Ao contrário do filho mais novo que chama ao Pai, pai, o filho mais velho ao dirigir-se ao Pai não o trata como tal. E também não trata o irmão como irmão referindo-se a ele como “esse filho teu”. Quando Deus não é Pai os outros não são irmãos, mas sim inimigos ou rivais. Ante os quais sentimos inveja, ressentimento e ódio. Muito se fala do amor ao próximo como sendo o mais importante e a prova de que amamos a Deus; mas é só quando amamos a Deus que o nosso próximo é verdadeiramente próximo e não um estranho.

Uma catequista depois de ter contado a parábola do filho pródigo às crianças pediu-lhes que a contassem por palavras suas. Uma criança recontou parábola tal qual até ao momento em que o filho pródigo aparece no horizonte. Depois disse que quando pai viu o filho agarrou num cacete e pôs-se a correr ao encontro do filho.

No caminho encontrou o filho mais velho que lhe perguntou para onde ia, o pai disse-lhe que ia ao encontro do seu irmão, este ao ouvir que o seu irmão estava de volta agarrou também noutro cacete e foram ambos ao encontro do desgraçado que deixaram meio morto. Depois de terem ambos descarregado toda a raiva acumulada, disseram entre si façamos festa comamos e bebamos à saúde deste tratante.

Desta forma expressou, aquela criança, o que naturalmente qualquer pai do mundo faria, mas Deus Pai não é assim; porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor (Isaías 55. 8).
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2016

Este ano em Jerusalém!

2 comentários:

A noite passada enquanto dormia/ Sonhei que estava diante do templo/ na cidade velha de Jerusalém/ Ali ouvi vozes de crianças que me pareciam anjos do céu a cantar Jerusalém, Jerusalém, levanta as tuas portas e canta/ Hosana nas alturas, Hosana ao teu Rei.
Musica de Stephen Adams; Letra de Frederick E. Weatherly

Tal como o Natal deixou de ser, para muitos, a celebração do nascimento de Jesus, para ser a festa do Pai Natal e do calor físico e afetivo da intimidade familiar que contrasta com o frio e a neve fora de casa; Assim também a Páscoa deixou de ser a comemoração da paixão, morte e ressurreição de Jesus, para ser a festa do ovo e do coelhinho, que simbolizam o renascer da natureza na Primavera depois do longo letargo do Inverno.

Não sabemos ao certo quando nasceu, nem quando morreu Jesus de Nazaré. A colocação do seu nascimento no solstício de Inverno e da sua morte e ressurreição no equinócio da Primavera foi intencional; mas a intenção não era, como muitos pensam, cristianizar as celebrações pagãs desses eventos astronómicos e mudanças climatéricas.

A intenção era claramente teológica: Jesus nasceu quando os dias começam a crescer, ao fim e começo de um novo ano solar, pois Ele é o Alfa e o Omega, o principio e o fim de tudo quanto existe. Tal como o nosso planeta obtém a sua vida ao revolver-se à volta do sol, Jesus é para nós o sol à volta do qual giramos para obter vida.

Por outro lado, Jesus morreu e ressuscitou quando a terra renasce da morte aparente do inverno; se o outono nos recorda a velhice e o inverno a morte, a primavera, que como diz a cantiga vai e volta sempre, nos recorda a eternidade que conquistamos com o renascer de Cristo.

A pré historia da nossa Páscoa
A Ceia Pascal é uma refeição ritual, que toda família judia celebra, para comemorar a libertação do povo de Israel da escravidão do Egipto. Como ordena o livro do Êxodo (23, 8) durante a refeição deve ser recontada a historia da saída do povo do cativeiro. Ao fim desta ceia os comensais declaram em tom jubiloso “No próximo ano em Jerusalém”. 

Jerusalém foi sempre o objeto da saudade dos judeus da diáspora, expulsos da sua própria pátria; é bem conhecido o lamento destes no cativeiro da Babilónia: se me esquecer de ti, Jerusalém, fique ressequida a minha mão direita! Pegue-se-me a língua ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a minha suprema alegria! (Salmo 137, 5-6)

No próximo ano em Jerusalém – Esta frase com a qual termina a ceia pascal é vista por muitos como anacrónica; sendo Israel hoje um estado moderno, ocupando mais ou menos a mesma terra que ocupava no tempo do rei David; vivendo hoje confortavelmente tanto os judeus de Israel com os da diáspora, não faz sentido repetir esta frase, e muito menos para os Judeus que vivem em Jerusalém permanentemente, a menos que a frase tenha um sentido mais escatológico.

Neste sentido para os judeus tradicionais refere-se á vinda do Messias e a reconstrução do templo; para os judeus liberais que não aceitam a ideia do Messias, nem de um judaísmo baseado no templo, a frase pode ter inúmeras interpretações que têm mais que ver com uma Jerusalém ideal e utópica e até celeste que está para vir que com a Jerusalém onde me encontro agora.

A última ceia de Cristo
Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: «Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos. Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus.» Após o canto dos salmos, saíram para o Monte das Oliveiras. (Marcos 14, 24-25)

Alguns dizem que a última ceia de Cristo foi decalcada da tradicional ceia pascal dos judeus, outros opinam que é algo novo. Como a ceia pascal dos judeus comemora a libertação da escravidão do Egipto enquanto que a de Cristo marca o momento de uma libertação maior, a de todo o género humano, qualquer que seja a conclusão da discussão serve o nosso objetivo.

Tal como os judeus de todos os tempos dizem ao fim da ceia pascal, “no próximo ano em Jerusalém” querendo com isto significar a esperança de um mundo melhor, assim como na continuação da vida na Jerusalém celeste, Jesus na última ceia com os seus discípulos ao dizer: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus, afirma que esse futuro está para chegar e se cumpre Nele mesmo.

Jerusalém, Jerusalém...
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos, como a galinha junta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste! Agora, ficará deserta a vossa casa. Eu vo-lo digo: Não me vereis até chegar o dia em que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Lucas 13, 34-35


Jerusalém está dividida em 4 quarteirões: o muçulmano, o Judeu o cristão Arménio e o cristão árabe ou palestino, porque as três religiões do livro a têm por cidade santa. Para o Judaísmo é santa porque está construída à volta do Templo, o centro da fé judaica. Para os cristãos porque Jesus a visitou muitas vezes como bom judeu que era, nela morreu e ressuscitou.

Para os muçulmanos é santa porque estes afirmam que o profeta Maomé numa noite viajou de Meca para Medina e de Medina para Jerusalém, desde onde ascendeu ao céu mais precisamente no Templo no santo dos santos, onde hoje se encontra a mesquita da Rocha; em consequência, para os muçulmanos Jerusalém é a terceira cidade santa depois de Meca e Medina, por esta razão foi invadida logo após a morte do profeta.

Contra a ascensão ao céu de Maomé à imagem e semelhança de Jesus, fala o facto histórico da morte de Maomé, provavelmente por envenenamento, e o seu tumulo na mesquita verde de Medina. Para dar mais força à lenda da ascensão do profeta ao céu, atualmente a Arábia Saudita, contra o parecer de muitos muçulmanos, quer destruir e mesquita e o tumulo, exumando o corpo do profeta, sepultando-o numa sepultura anónima.

Infelizmente, para os que hoje exigem controlo total sobre Jerusalém, esta visita só pode ter sido um sonho, por muito que lhes custe admitir não existe qualquer evidencia ou prova que Maomé tenha viajado em carne e osso a Jerusalém, pois ainda não havia aviões supersónicos naquele tempo.

O que os muçulmanos alegam como facto histórico, o próprio profeta alega ter sido um sonho cujo contexto histórico era o de convencer os mais céticos que ele pertencia à linhagem dos profetas do judaísmo, Abraão, Moisés, Jesus. Ainda em relação a esta vinda a Jerusalém Aicha, a esposa favorita de Maomé, insistiu posteriormente de que nunca se tratou de uma deslocação real, mas sim de uma experiencia espiritual.

A ligação da fé muçulmana à cidade de Jerusalém é extremamente ténue, quando a comparamos com a que existe em relação ao judaísmo e ao cristianismo. A verdadeira razão pela qual os muçulmanos reivindicam Jerusalém como cidade Santa para eles é porque o judaísmo e o cristianismo, que eles a todo custo sempre quiseram suplantar, a declaram santa antes.

Durante todo o ano pelas ruas de Jerusalém observamos peregrinos judeus e cristãos de todo o mundo; os únicos muçulmanos que vemos são os que cá vivem; de facto a cidade está formatada para este tipo de peregrinos, por todo o lado se vêm lojas de souvenirs judeus e cristãos e nenhuma para muçulmanos; por si só a falta de peregrinos muçulmanos é uma prova contundente de que para eles esta cidade não é importante, e muitos deles nem acreditam que Maomé alguma vez esteve aqui.

Sendo a religião muçulmana uma mistura de judaísmo e cristianismo, adaptada â cultura beduína, desde Maomé até aos nossos dias que olham para estas religiões com uma certa inveja e crescem com a mentalidade de “nós também”, se os outros são nós também somos, se os outros têm nós também temos. A invasão de Jerusalém nada tem de diferente da invasão e exterminação do cristianismo em todo o norte de Africa e Turquia; e na Europa desde a península Ibérica até Posters, na França, onde foi parada.

Possuindo já eles duas cidades santas, ao declararem Jerusalém a terceira, estabelecendo-se na colina do templo, coração da fé judaica, deixaram os judeus sem lugar santo, com apenas a parede ocidental do templo, em frente da qual ainda hoje rezam e se lamentam feridos na sua fé e nacionalismo como quem tem um espinho enterrado na carne.

Hoje lugar proibido para os Judeus, a esplanada do Templo, é ocupada por duas mesquitas: a mesquita de Al Aksa ou a da cúpula de prata, e a mesquita da rocha ou a da cúpula dourada, construída sobre o santo dos santos do templo de Salomão, sendo a rocha o lugar onde Abraão ia sacrificar o seu filho Isac. A cúpula dourada pode ser vista desde qualquer angulo da cidade e arredores pelo que é hoje, anacronicamente, o ex libris de Jerusalém.

O conflito entre Israel e a palestina é fundamentalmente um conflito político e não religioso; a religião, no entanto é invocada e instrumentalizada por ambas as partes como desculpa para evitar fazer concessões, pois o que vem mandado por Deus não se discute ou põe em causa ou se abdica.

Uma ponte não se começa a fazer pelo meio, mas sim pelas margens que pretende unir. Do lado de Israel é fundamental que reconheçam o direito da palestina a uma Pátria, como eles tiveram e o mundo lhes deu. Do lado muçulmano é importante que reconheçam que muito do seu comportamento é governado por mitos lendas, e crenças que desafiam a razão pelo que é importante que purifiquem a sua fé de tudo o que está em colisão frontal com a ciência e até mesmo com o sentido comum.

Este ano em Jerusalém
Sobre este monte, (refere-se ao monte Sião Jerusalém) o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos. (…) há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Isaías 25, 6-8

Como missionário, ao longo de 30 anos de ministério, já celebrei a Páscoa em diferentes países e localidades. Inspirado na tradicional frase de júbilo, que os judeus exclamam ao final de cada ceia Pascal, apetece-me dizer com igual júbilo e com a mesma esperança: Este ano em Jerusalém! Esta é a quarta vez que aqui venho, e espero que ainda não seja a última vez que piso a terra que o redentor pisou, mas é a primeira em que celebro a Páscoa do Senhor onde esta teve lugar há 2000 anos.

Jerusalém significa cidade de Paz, e, no entanto, anacronicamente, hoje dividida em quarto povos antagónicos que continuamente se digladiam, é difícil encontrar lugar que tenha sido palco de tantas guerras. Rezemos para que um dia Jerusalém faça jus ao seu nome e cumpra a profecia de Isaías de um banquete de manjares deliciosos e vinhos generosos.
Pe. Jorge Amaro, IMC