1 de fevereiro de 2018

CNV: O falacioso mito da Violência Redentora

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O que é um mito?
Os mitos, são narrativas que surgiram nos primórdios da civilização humana e que têm o intuito de explicar e dar resposta às questões fundamentais que os homens de todo o tempo se colocaram: a origem do mundo, do homem de Deus, o sentido da vida etc.

Os mitos não são históricos porque não se referem a coisas que realmente aconteceram; porém o facto de não o serem não significa que sejam falsos. São verdadeiros em tanto em quanto tratam de explicar realidades num tempo em que a ciência não existia; tomemos por exemplo o mito do deus do tempo chamado Cronos; Cronos dava à luz filhos e depois comia-os; é certo que não é histórico, mas é verdadeiro porque, de facto o tempo é algo que temos e depois consumimos; cada dia que nos levantamos pela manhã damos à luz um dia e à noite já o temos consumido.

O sistema de domínio, ou estrutura de poder
Assim lhe chama Walter Wink a um conjunto formado por relações económicas injustas, relações políticas opressivas, relações raciais tendenciosas, relações de gênero de tipo patriarcal; tudo isto dentro de uma sociedade que divide as pessoas em as classes sociais para que as relações entre estas sejam hierárquicas e não de igual para igual; por fim o uso da violência para manter e custodiar este “status quo”, que vigora desde o surgimento da Babilónia há 3000 anos AC.

As coisas não acontecem ao acaso, segundo Wink, um sistema de domínio tem que possuir necessariamente um mito de dominação; uma lenda ou narrativa que tenta explicar e justificar o porquê desta situação e como é que chegámos aqui.

Might is right” - O mito chama-se “Violência redentora” que consagra a crença de que a violência salva e justifica-se a si mesma, que a guerra traz paz, “vis pacem para bellum”, como diziam os Romanos, se queres a paz prepara-te para a guerra. Este mito defende que o poder é imprescindível para estabelecer a paz e a concórdia. Tal como recorremos a Deus quando tudo falha, assim recorremos à violência para solucionar os problemas individuais e sociais, pelo que esta parece funcionar como um deus. De facto, para Wink, esta, e não o Judaísmo, o Cristianismo ou o Islão, é a “religião” mais antiga e tem sido a mais predominante no mundo desde a Babilónia até aos dias de hoje.

O mito da violência redentora dota o sistema de domínio com uma narrativa que pode ser reproduzida de várias formas até ao infinito, convencendo todos os envolvidos nele, tanto os opressores, como os oprimidos, que sem este sistema de domínio, ou estrutura de poder, o mundo tal como o conhecemos colapsaria; portanto só a “violência legal”, ou seja a exercida pelo sistema de domínio, nos pode salvar deste destino.

O jogo dos polícias e dos ladrões ou do herói e do vilão
Vejamos paradigmaticamente o funcionamento deste mito: um indivíduo poderoso, sistema ou grupo, causou dano ou angústia a um outro determinado indivíduo ou grupo; desde dentro do grupo oprimido, surge um herói, ou grupo poderoso, que defronta violentamente, derrota e mata o opressor, terminando assim o seu reinado de terror.

Ato seguido, o protagonista vitorioso e herói cria um sistema no qual os libertados podem viver livres e em harmonia, durante algum tempo. Porém, como o poder corrompe, eventualmente, o antes libertador justo, agora enamorado e agarrado ao poder, torna-se ele mesmo num opressor, um vilão. Desta feita, o ciclo começa de novo com o eventual surgimento de outro herói.

É baseado neste mito que alguns historiadores afirmam que a história se repete. Tomemos como exemplo a Rússia opressora dos Czares; a revolução Bolchevique de 1917 libertou por um tempo, de certo muito pouco, o povo, do domínio absoluto dos Czares, para ficarem, talvez bem pior, debaixo do domínio de Stalin e dos que lhe seguiram na chamada “ditadura do proletariado”.

Desde muito cedo as crianças são doutrinadas neste sistema de domínio por intermédio do culto e admiração pela figura do herói nos desenhos animados e depois em todos os filmes. A um herói invencível opõe-se um vilão aparentemente também invencível. As crianças, os jovens, ou nós mesmos, conscientemente identificamo-nos com o herói, desta feita temos um bom conceito de nós mesmos; mas inconscientemente também nos identificamos com o vilão, no qual projetamos a nossa ira reprimida, a nossa rebeldia e luxúria e disfrutamos desta nossa maldade durante três quartos do filme durante o qual o mau parece prevalecer.

Quando por fim, eventualmente, o bom prevalece, depois de muito esforço e sofrimento, é como se no nosso íntimo conseguíssemos reestabelecer a ordem sobre as nossas próprias maldades e baixos instintos. Por isso gostamos tanto de ver filmes ou talvez os necessitemos para manter a nossa agressividade debaixo de controlo ou a um nível manejável. Este tipo de sublimação acontece também com o desporto, sempre é preferível que os grupos ou os países rivais se defrontem no estádio ou nos jogos olímpicos que no campo de batalha.

Os filmes funcionam então como uma catarse libertadora pois a punição do vilão no cinema corresponde a uma autopunição das nossas tendências más. A salvação encontra-se na identificação com o herói, ficando assim justificado e reforçado o uso da violência e Auto violência e a perpetuação do sistema de domínio.

Tal como nas antigas arenas romanas onde os gladiadores se digladiavam entre si até à morte, ou onde os cristãos eram devorados pelas feras ou, ainda hoje, nas arenas das touradas, a violência não é apenas um meio para obter a justiça e a paz; a nossa cultura tem feito dela um espetáculo agradável e gratificante.

A violência na educação
La letra com la sangre entra
Era o provérbio castelhano que exaltava a violência sobre as crianças como a melhor forma de aprendizagem. À mercê de professores sadistas e sem escrúpulos as crianças eram espancadas nas escolas e nos colégios além de o já serem no seio da família. Sempre recordarei um colega de escola, que tinha perdido o pai, como a mãe já era idosa e não tinha força para lhe bater, e as pancadas da escola eram insuficientes, então sistematicamente ia ao posto da GNR para ser espancado todos os dias.

O mito Babilónico da criação
O mito mais antigo da criação do universo e dos seres humanos reza que no princípio existiam o deus Apsu e a deusa Tiamat que tiveram vários filhos, como os mais novos eram barulhentos quando brincavam e Apsu não conseguia nem dormir nem trabalhar, decidiu matá-los; entretanto os deuses novos descobrem o plano e antecipam-se matando Apsu.

Tiamat promete vingança pela morte do marido, cheios de medo os deuses rebeldes solicitam a ajuda do primo Marduk; este, ato seguido captura Tiamat, mata-a despedaçando posteriormente o seu corpo e espalhando o seu sangue; assim foi criado o Universo segundo o mito babilónico. Ou seja, a criação é um ato de violência e não de bondade como no mito bíblico da criação.

A ordem cósmica requer a supressão violenta do feminino e é espelhada na ordem social pela sujeição das mulheres aos homens e a dos homens ao seu governante. No princípio era o caos e a violência foi usada para estabelecer a ordem. Fica assim justificado o uso da violência pois sem ela não haveria ordem. O mito da violência redentora é a vitória da ordem sobre o caos por intermédio da violência.

Depois da criação do mundo Marduk mete na prisão os deuses que estavam do lado de Tiamat; como estes protestavam, porque a comida na prisão não era boa, Marduk e o seu pai Ea (filho de Apsu), matam um deles e do seu sangue criam os seres humanos para serem servos dos deuses.

Portanto, segundo o mito Babilónico da criação, a violência é natural está incorporada nos nossos genes. Não foi a humanidade que criou a violência, como ato de desobediência a Deus, como no caso do mito bíblico; no mito babilónico a violência sempre esteve presente, fazendo parte da natureza cósmica e humana. Os seres humanos estão naturalmente incapacitados para a coexistência pacífica; a paz tem de ser imposta desde cima.

Os mais espertos e poderosos apresentam-se então ante os outros, como reis, Czares, emperadores, príncipes, sacerdotes e mestres, representantes da bondade e justiça de deus com a missão de combater os maus e de os punir. A violência “legal” dos lideres da sociedade opõe-se à violência “natural” para subjugar os maus, dissuadir os outros das suas más tendências e facilitar a convivência social.

Desta feita as mulheres são aconselhadas a não ter necessidades pelo que se devem sacrificar para o bem da família; os homens abdicam dos seus interesses pessoais para servirem o rei a ponto de lhe darem a vida em guerras para proteger e aumentar os seus domínios. As crianças são instruídas desde muito pequenas de que há certo e errado, maus e bons, e que para serem bons devem usar o seu poder natural não exteriormente, mas interiormente contra si mesmas reprimindo as suas más tendências e obedecendo à autoridade incondicionalmente sem questionar.

O mito bíblico da criação
Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. (…) Deus disse: «Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus, num único lugar, a fim de aparecer a terra seca.» E assim aconteceu. Deus chamou terra à parte sólida, e mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom. (…) Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o sexto dia. Génesis 1, 3, 9, 10, 31

Bem diferente é o mito bíblico da criação descrito no livro do Génesis. Foi redigido enquanto o povo Judeu vivia exilado no cativeiro da Babilónia, por isso tem semelhanças com este, mas no fundamental opõe-se ao mito Babilónico. Na bíblia Deus é bom e a criação é um ato de bondade de Deus. À medida que Deus vai criando cada uma das várias realidades dá-se conta de que o que cria é bom. Deus é bom e cria uma criação boa. (Génesis 1, 4, 12, 18, 21, 25)

O mal e a violência não são parte da criação tal como Deus a concebeu. A criação é um jardim idílico onde os primeiros seres humanos vivem em harmonia entre si, com a natureza e com Deus. O mal entra posteriormente, como resultado de um mau uso ou abuso da liberdade. O mundo e a realidade que Deus criou era inicialmente bom, tendo sido posteriormente corrompido pelo pecado do Homem.

Na bíblia, depois de Adão e Eva terem roubado a Deus a prerrogativa do bem e do mal e de se colocarem a si mesmos como medida de todas as coisas, a arbitrariedade entrou no mundo e com ela a violência, que se vê exercida logo na segunda geração por Caim sobre o seu irmão Abel. A violência nunca aparece na bíblia como uma realidade naturalmente boa, mas sempre como artificialmente má; não se apresenta como um facto natural que tem de ser assumido e aceitado, mas sim como um problema a resolver.

Está claro que este não foi o mito que prevaleceu em todo o mundo, desde a Babilónia ou Mesopotâmia ao Egipto, à Grécia, à India, à China. O mito da Babilónia é o mais antigo e o mais atual, e não tem rival; são bem poucos os que o confrontam e põem em causa. É uma espécie de religião civil que é transversal a todas as culturas, civilizações, e religiões, e a matriz sobre a qual estão feitos todos os filmes e desenhos animados, no intuito de educar as gerações jovens sobre a necessidade da violência para restabelecer a ordem.

A religião como legitimação do poder
Que todos se submetam às autoridades públicas, pois não existe autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade opõe-se à ordem querida por Deus, e os que se opõem receberão a condenação. Romanos 13, 1-2

A crença de que a autoridade vem de Deus e que quem a exerce na terra fá-lo em nome Dele é ideologia do sistema de domínio. Desta crença a idolatrar a autoridade é um passo curto que muitos reis e imperadores deram. Já no nosso tempo o ditador Francisco Franco, após a guerra civil, para justificar a usurpação do poder, declarou-se, e fez até cunhar moedas com a sua efigie e as palavras “Francisco Franco, Caudillo de Espanha pela graça de Deus”.

A religião em vez de fazer valer o seu mito, de que o homem não é violento de per se, pois, foi criado por um ato de amor de Deus, deixou-se influenciar pelo mito babilónico tornando-se uma religião violenta, no caso da religião Judaica.

Todo o sistema sacrificial está baseado na crença de que só com sangue se redime ou resgata sangue; A única diferença entre os Judeus e os povos circundantes, ou os longínquos Maias e Astecas, é que os sacrifícios humanos foram substituídos por sacrifícios de animais, sendo, de alguma forma o cristianismo uma volta a ao sacrifício humano, mas desta vez de um só por todos, válido para todo tempo e lugar.

O cristianismo sucessor do judaísmo, como o texto acima citado de São Paulo sugere, seguiu as pisadas do judaísmo, abençoando e adotando o mito da violência redentora. É certo que Jesus de Nazaré é um caso aparte, e precisamente por isso, não foi entendido pelos seus discípulos, por isso lado foi deslavado ou aguado já na geração apostólica pelos seus mesmos seguidores.

Para Walter Wink, o cristianismo foi pervertido e feito capelão, ou tutelar religioso e garante moral, de tudo o que o Estado fazia. O Cesaropapismo é a ideologia que governou o mundo ocidental depois de que o cristianismo se tornou religião do Estado com o emperador romano Constantino, não obstante Jesus ser contra a união de poderes como concluímos pela sua advertência de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. (Mateus 22,21)

As cruzadas e a Inquisição são os casos mais exponenciais onde os interesses da política se unem e coincidem como os interesses da religião, fundindo-se num único objetivo e estratégia, justificando-se uma com o outro. Pelas cruzadas a Igreja, que as declarou mobilizou exércitos para defender os lugares santos ocupados pelos muçulmanos, o conceito de guerra santa, o matar em nome de Deus é o “non plus ultra” na autojustificação da violência. 

A Inquisição, instrumento da Igreja para purificar e obrigar os fiéis à verdadeira fé e doutrina, foi mais usada pelo Estado que pela própria Igreja; o caso mais flagrante foi a condenação de Joana de Arc. Tanto no mundo católico como no mundo protestante, a caça às bruxas era promovida pelo Estado, com o beneplácito da Igreja, que dessa forma se via livre de indivíduos que ameaçavam o sistema.

O triangulo de Karpman ou das Bermudas
Em suma, o mito da violência redentora é a história da vitória da ordem sobre o caos através da violência. Como neste mito a violência se apresenta como a única solução possível ante o caos, a barbárie e a anarquia; como a violência não é um problema, mas sim um facto, o nosso mundo nem é perfeito nem é aperfeiçoável. O mundo é um teatro de um eterno conflito no qual vigora uma versão mais ou menos branda da lei da selva, ou seja, da lei do mais forte.

Em última análise, a violência redentora não redime coisa nenhuma, nem a vítima, nem o vilão, nem resolve o problema ou conflito que a originou. A única coisa que faz é perpetuar-se a si mesma numa espécie de eterno círculo vicioso. Assim sendo temos uma versão do triângulo de Karpman (perseguidor – salvador – vítima, equivalente a vilão – vítima – herói) e desta espécie de triângulo das Bermudas não sai ninguém vivo.

O pensamento grego está formatado no mito do eterno retorno, a própria dialética hegeliana de tese-antítese-síntese que se transforma numa nova tese à qual segue uma nova antítese e assim por diante ad infinitum… tem este mito como paradigma; é ao fim ao cabo o mesmo mito que faz dizer a alguns que a historia se repete. Circulo vicioso é também a visão do tempo na filosofia grega; o deus do tempo chamado Cronos dá à luz filhos e come-os.

Se não mudarmos de paradigma, se não destituirmos o mito babilónico e adotarmos o mito bíblico, não há esperança, o mundo está num beco sem saída pelo que a autodestruição da humanidade é o fim mais provável.

Contrário ao paradigma grego do eterno retorno, o pensamento judeu é bem diferente pois está enraizado na epopeia hebreia da saída da escravidão do Egipto - passagem pelo deserto de purificação - e entrada na Terra prometida da liberdade. O tempo não é cíclico, mas sim linear; nesta visão do tempo nunca regressamos ao ponto de partida, como um rato a correr numa roda, mas caminhamos para um futuro que nos possibilita um progresso ad eternum.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2018

CNV - Cosmovisão e Cosmovisões

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CNV = Comunicação Não-Violenta
Quando eramos bebés podíamos aprender uma ou duas línguas sem necessidade de aprender a gramática, ou seja, a razão pela qual é assim que se deve falar. Quando crescemos e somos adultos para aprender uma língua precisamos de aprender gramática, ou seja, de saber as regras da língua, e de alguma forma obedece-las para falar bem e adequadamente.

A comunicação não violenta ou compassiva é uma nova língua, para aprende-la de adultos, precisamos de aprender as suas regras, a filosofia, a cosmovisão, ou a forma de pensar que lhe é subjacente. Se vamos aprender uma língua não violenta, precisamos de saber de que forma a língua que atualmente falamos é uma língua violenta. De onde vem essa língua violenta, o que é que esta na sua base.

O que quer que seja tem que ver com a forma como conceptualizamos o mundo e a sua história, a natureza humana, a realidade que nos rodeia e o próprio sentido da vida. A cosmovisão é a pedra angular, os alicerces onde assenta o nosso pensamento; composta por crenças, mitos e ideias basilares que em grande medida são inconscientes por isso não se discutem nem se põem em causa.

Para transformar a nossa linguagem violenta na linguagem do Reino de Deus, temos de mudar a nossa maneira de pensar e para mudar a nossa maneira de pensar, temos de confrontar e eventualmente mudar a cosmovisão na qual esta se assenta.

O teólogo Walter Wink, no seu livro “The powers that be”, diz que a cosmovisão é o esqueleto do nosso pensamento e dá exemplos de cosmovisões que vigoraram na civilização ocidental:

A cosmovisão antiga
Apresenta o mundo celestial em paralelo ao mundo terrestre; o que acontece no Céu também acontece na Terra e vice-versa; é o que se verifica nas mitologias grega e romana. Todas as realidades terrestres têm uma dimensão divina, e uma divindade que as representa no céu; assim, o deus da guerra é Marte, a deusa do amor é Vénus, o deus do mar é Neptuno, o chefe ou pai dos deuses é Júpiter, etc… No mundo antigo os gregos, os romanos, os Egípcios, os Babilónios, os Indianos e os Chineses, todos partilhavam desta forma de entender a realidade.

A cosmovisão espiritualista
Aparece no século II da era cristã e em direto confronto com a ideia de que a criação é basicamente boa. Impõe-se o dualismo grego, o espírito é bom a matéria é má; o mundo é a prisão do espírito o corpo é a prisão da alma. Considera o sexo e em geral as coisas do corpo como más; para vencer o mal, o corpo precisa de ser mortificado e negado para que o espiritual se possa impor. Este mundo é um “vale de lágrimas” e a morte é vista com uma libertação da alma dos grilhões do corpo que a fazem impura.

A cosmovisão materialista
Em contraposição com a espiritualista, a cosmovisão materialista estabelece que o real é o que pode ser conhecido através dos nossos cinco sentidos, e para além disto tudo é superstição; o Céu não existe, nem Deus, nem a alma; os seres humanos não são mais que matéria, o universo não tem nenhum significado intrínseco pelo que carece de sentido e finalidade. A ética é inexistente, o bem e o mal, o certo e o errado são arbitrários e convencionais e resultam de um acordo social com vistas à sobrevivência e convivência pacífica entre os cidadãos. 

Walter Wink diz que este é o ethos dominante no mundo pós-moderno; é a estrutura mental ou a matriz (mother board do computador) sobre a qual assentam e operam as universidades, a política, os meios de comunicação e a cultura em geral. Esta cosmovisão tornou-se tão invasiva da sociedade e pensamento moderno, que até se afirma científica ou baseada na ciência, quando a ciência, em especial a física há muito se desmarcou da visão materialista do mundo para uma visão do “universo reencantado”.

As pessoas que vivem nesta cosmovisão julgam-se que acompanham a ciência a par e passo, mas ao contrário ficaram para trás. Ficaram agarrados e amarrados à física de Newton para a qual o mundo é como um relógio que funciona previsivelmente com uma precisão matemática.

Depois de Einstein, a física mecanicista de Newton deu lugar à física quântica; esta fundada no princípio da incerteza e casualidade de Heisenberg, substituiu a previsibilidade do mundo real por um cálculo de probabilidades.

Cosmovisão teológica
Aparece como reação espiritual à cosmovisão materialista; reafirma a existência de um mundo sobrenatural e amuralha-o declarando que a sua existência é puramente matéria de fé; não se pode aceder a ele pelos sentidos pelo que a sua existência não pode ser provada nem desmentida pela ciência.

Nesta forma de entender a realidade, a ciência e a religião vivem de costas voltadas uma para a outra. Isto obriga os crentes com um alto grau de cultura a viver uma esquizofrenia; durante a semana acreditam que o homem é o resultado da evolução de outras espécies de animais, ao Domingo que foi criado diretamente e expressamente por Deus; evolucionistas durante a semana criacionistas ao fim de semana.

Cosmovisão integral
Esta cosmovisão é ao mesmo tempo uma combinação e superação das anteriores ao colocar o espírito no coração da matéria; Deus é transcendente, ou seja, é diferente, está destacado e por cima de tudo e de todos, mas ao mesmo tempo é o coração de cada coisa e de cada pessoa. Esta combinação harmónica entre imanência e transcendência não se pode confundir como panteísmo no qual se afirma que tudo é Deus.

A cosmovisão integral tem que ver com o panenteísmo:  tudo está em Deus e Deus está em tudo. É de alguma forma a visão que São Francisco tinha das criaturas como sendo manifestações de Deus porque Deus é imanente a todas elas.

Wink afirma que esta é a cosmovisão da nova Física Quântica, da teologia da libertação, teologia feminista, muitas das religiões nativas dos Estado Unidos e nomeia como expoentes desta cosmovisão o psicólogo Karl Jung e o paleontologista Jesuíta Pierre Teilhard de Chardin.

Da forma como estão apresentadas estas cosmovisões, dá a entender que houve um processo de evolução e que agora a maioria das pessoas neste planeta é guiada pela cosmovisão integral, mas pode não ser assim; todas elas são atuais e provavelmente pouca gente se guia na sua vida por uma só. Wink diz que todos possuímos pedaços de umas e de outras, consoante seja o assunto que nos ocupa.

Para Wink, entender as cosmovisões que inspiram, guiam e governam o nosso pensamento é importante para que o ser humano e as suas instituições se libertam dos poderes que as dominam.

“Beau sauvage” ou “Homo omini lupus”?
Homo homini lupus – Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1679) o Homem em estado natural, julga-se com direito a tudo, usando o seu poder de uma forma arbitrária para preservar a sua própria vida; como o seu interesse egoísta prevalece não pode haver segurança e paz pois vigora a lei do mais forte. Não sendo sociável por natureza, a coexistência social obriga o indivíduo a abdicar da sua vontade em favor de um líder ou assembleia que o representa, o rei ou o Estado, perdendo assim a sua liberdade e até abdicando da violência.

Beau Sauvage – O Homem em estado natural é bom, sadio o feliz; a criação da propriedade privada leva a diferenciação entre ricos e pobres, escravos e livres, predominando assim a lei do mais forte. O homem que surge da desigualdade é corrompido pelo poder e esmagado pela violência. Propõe um contrato em que a vontade geral seja soberana; como todos perdem por igual ninguém perde.

Qual destas teorias descreve melhor a verdadeira natureza humana? Como o ser humano vem de uma evolução de 5 milhões de anos dos mamíferos e primatas seria bom que chegássemos primeiro a uma conclusão sobre os animais que nos precedem na história da evolução das espécies: estes animais são por natureza violentos ou não violentos? Não precisamos de observar muito o mundo animal para concluir que, por regra geral, os animais não são violentos gratuitamente ou seja por natureza; só se comportam violentamente quando as suas necessidades não são satisfeitas.

Como a vida só se alimenta de vida, no contexto biológico da cadeia alimentícia, toda forma de vida é um alimento para outra forma de vida; a gazela come a erva, o leão come a gazela, o leão morre e é comido pelas hienas e pelos abutres estes morrem e são comidos pelos vermes que ao morrer fecundam a terra onde volta a crescer a erva. Um corpo morto chama-se cadáver; curiosamente esta palavra é composta pelas iniciais das palavras carne-dada-aos vermes: Ca-da-ver.

Se qualquer um dos animais acima mencionados tiver uma via alternativa de se alimentar, deixará imediatamente de caçar, ou seja, deixa de ser “violento”; tomemos como exemplo os nossos animais de estimação os cães e os gatos, outrora eram caçadores implacáveis hoje convivem em perfeita harmonia nos nossos lares.

Milhões de anos de evolução nos separam dos animais mais próximos os primatas. Criado à imagem e semelhança de Deus Pai universal, o Homem não é lobo do Homem, mas sim irmão; o mundo por Deus criado tem recursos suficientes para que as necessidades de todos sejam satisfeitas sem ter de recorrer à violência.

Isto nos leva de volta a um dos postulados fundamentais da linguagem não violenta: tal como no resto dos seres vivos, a violência e os conflitos entre as pessoas acontecem quando as necessidades não são satisfeitas. A NVC é, neste sentido, uma técnica que leva a que as necessidades de uns e outros sejam satisfeitas aplacando-se assim a violência e resolvendo qualquer conflito resultante das necessidades de alguns não serem satisfeitas.

A crença de que o homem é por natureza mau, egoísta e violento é por tanto de origem mitológica e serviu ao longo dos séculos para justificar a violência de uns sobre outros e até sobre si mesmo no sentimento de culpa e vergonha.

Se vis pacem para bellum” – Se queres a paz prepara-te para a guerra. Tem sido o lema desta cosmovisão do homem como ser individual e comunitário. Segundo este lema, porque se entende que o homem é por natureza violento, a paz não pode ser conseguida por meios pacíficos, mas sim por meios violentos.

A sociedade educa o indivíduo a ser violento consigo mesmo e reprimir a sua ira inata; àqueles que não o conseguem fazer a sociedade exerce sobre eles o seu poder coercivo e punitivo. Desta forma, sobre uma ideia falsa, a de que o ser humano é mau por natureza, se perpetuam as estruturas de poder e a violência.

A cosmovisão sobre a qual assenta a linguagem não violenta como sendo a linguagem de um Mundo Novo, o Reino de Deus que Jesus veio trazer ao mundo, é a de que Deus só criou coisas boas. O autor do livro do Génesis apresenta-nos um Deus que se regozija a cada realidade criada dizendo: “E Deus viu que era bom” (Génesis 1, 4, 12, 18, 21, 25) … Ora se tudo é bom muito mais o ser humano que foi criado à imagem e semelhança do próprio Deus criador de tudo. (Génesis 1, 26)

Os homens do futuro
Para além de Walter Wink e outros teólogos, como Paul Tillich e Teilhard de Chardin, quem mais influenciou Rosenberg foi o seu professor Carl Rogers, o grande mestre da psicoterapia não diretiva centrada na pessoa.

Num artigo escrito no fim da sua vida Rogers descreveu como seria o talante do homem de amanhã. As suas previsões foram acertadas e as suas ideias continuam a ser atuais e inspiradoras sobre as quais deve ser a cosmovisão que deve guiar o nosso pensamento:
  •  Abertos ao mundo interior e exterior, a novas formas de ver, de ser, novas ideias e conceitos.
  • Desconfiados em relação à ciência e tecnologia que tem como finalidade controlar o mundo da Natureza e o mundo das pessoas.
  • Buscadores de novas formas de comunicação, cercania e intimidade.
  • Têm pelos outros uma consideração e positiva e um olhar benévolo; quando prestam ajuda fazem-no de uma forma gentil e cortês, não moralística e não julgadora.
  • Ecológicos, aliados com as forças da natureza não em guerra pela sua conquista.
  • Antipáticos pelas instituições altamente estruturadas inflexíveis e burocráticas; entendem que as instituições existem para as pessoas e não ao contrário.
  • Desconfiam da autoridade externa, são pessoas moralmente autónomas, ou seja, confiam na sua própria experiência e consciência moral para fazer juízos de valor que podem ir contra leis que consideram injustas.
  • São pessoas espirituais, ou seja, buscam um sentido, um desígnio e uma razão de vida que sejam maiores que o indivíduo e a vida mesma.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2018

CNV - A linguagem da paz

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Um dos logotipos da CNV
Eu vim para que tenham vida e a tenham abundantemente. João 10, 10

Ano Novo, vida nova” – Fazendo jus ao provérbio, vou escrever, este ano, sobre uma nova forma de viver que quero progressivamente adotar à medida que investigo e escrevo sobre ela. Não me custa admitir que esta é, provavelmente, a razão principal pela qual decidi escolher este tema para o blogue de 2018. 

Investigo e escrevo sobre este assunto, para me convencer a mim mesmo de que, até agora, vivi de uma forma errada, pelo que este ano será para mim o noviciado nesta outra forma alternativa de viver. Se, com estas letras, alguém mais chegar à mesma conclusão que eu, tanto melhor. Como dizia Mahatma Gandhi: “Se não encarnarmos, ou não nos tornarmos na mudança que queremos ver no mundo, nunca no mundo haverá mudança”. 

O tema chama-se CNV (Comunicação Não-Violenta) mais conhecido em inglês por NVC, (Non-Violent Communication) - Tomei conhecimento desta técnica num curso de Bíblia que fiz em Jerusalém, e rapidamente me dei conta do potencial que esta teoria tem para transformar a vida das pessoas, da sociedade e do mundo.

No entender do seu fundador, Marshall Rosenberg, CNV não é somente uma forma de comunicar, nem se refere apenas à não-violência. Mais que uma simples teoria ou técnica, CNV é toda uma nova filosofia de vida e uma nova língua, que tem como base uma nova cosmovisão ou forma de ver, pensar e sentir a vida e tudo o que a ela se refere.

Marshall Rosenberg, judeu norte-americano, formou-se em Psicologia Clínica e, ao iniciar a sua carreira de psicoterapeuta, rapidamente se deu conta de que a Análise e a Psicanálise e o Diagnóstico da ira ou de outros problemas psicológicos que as pessoas lhe apresentavam não levavam à mudança que ele e as pessoas desejavam. Rosenberg percebeu que o problema era mais sistémico do que individual, e que a solução do mesmo deveria, também, ser sistémica.

A comunicação não-violenta pretende ser uma forma alternativa de comunicação, uma linguagem nova para enfrentar o problema da violência individual e social, e criar uma nova civilização, um mundo novo O reino de Deus em termos cristãos. A linguagem que temos vindo a utilizar desde o começo da civilização humana é violenta, porque nós somos violentos, não por natureza, mas por educação. Somos violentos, porque nascemos, crescemos e somos educados numa sociedade cujas estruturas e instituições sociais assentam numa cosmovisão e numa cultura violentas.

O sucesso do uso de técnicas de CNV em psicoterapia catapultou Rosenberg para fazer workshops e, assim, atingir mais gente. Desde então, o fundador de CNVtem viajado por todo o mundo, ensinando e levando as pessoas a falar esta nova língua, sobretudo em zonas de conflito. O sucesso tem sido enorme. Todas as pessoas que entram em contacto com CNVdão-se conta de que têm vivido no erro, e sorriem esperançadamente ante a possibilidade de viver de uma forma mais plena, mais genuína e mais feliz.

Como somos chamados a viver
Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de compaixão, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. Colossenses 3, 12-13

Rosengerg, ao dar-se conta de que lidava com um assunto global, sentiu surgir no seu interior uma pergunta: como somos chamados a viver? Atendendo a que esta pergunta não podia ser respondida no âmbito da psicologia, recorreu às religiões. Em todas elas encontrou a palavra compaixão; somos chamados a viver compassivamente connosco mesmos e com os outros.

Na tradição judeo-cristã, a compaixão que Deus tem do seu povo é incondicional (Isaías 54, 10). Para Jesus, é um sentimento natural a sua compaixão das pessoas que se cruzavam na sua vida; assim, Jesus sentiu compaixão das multidões que andavam como ovelhas sem pastor (Mateus 9, 35-38). Sentiu compaixão dos dois cegos à beira da estrada da vida sem poderem participar nela plenamente (Mateus 20, 29-34).

Os conceitos e as ferramentas de comunicação não-violenta são projetados para ajudar-nos a pensar, ouvir e falar de forma a despertar a compaixão e a generosidade dentro de nós mesmos e para com os outros. A comunicação não-violenta ajuda-nos a interagir uns com os outros de forma a sentirmo-nos mais vivos, genuínos e solidários.

A forma de pensar e as técnicas necessárias para viver compassivamente são muito diferentes daquelas nas quais fomos educados ao longo dos séculos.

Como temos vivido
Longe de nos comunicarmos compassivamente connosco mesmos e com os outros, sem nos apercebermos, a nossa linguagem é ofensiva e violenta: fere, causa e alimenta conflitos. A linguagem que a maior parte dos seres humanos usa é uma linguagem estática, baseada no uso e no abuso de um verbo estático, como o verbo SER, usado para julgar, interpretar, diagnosticar, classificar e rotular as pessoas com as quais entram em relação. Temos o mau hábito de apontar defeitos às pessoas, dizendo-lhes qual é o seu problema e dando-lhes conselhos de como deveriam comportar-se.

Desde tempos imemoráveis, nós, seres humanos, usamos uma linguagem que promove o conflito interno e externo, a guerra fria ou aberta, a agressividade passiva ou explosiva e assim vivemos num mundo de explorados e exploradores, mestres e escravos, dominados e dominadores - nem uns, nem outros são felizes; não vive em paz nem quem promove nem quem sofre a guerra; como diz o povo, “Quem vai à guerra dá e leva”.

Fomos educados em estruturas de poder pelas quais alguns se julgam superiores aos outros, arrebatando para si a prerrogativa do bem e do mal, do certo e do errado, do justo ou injusto, adequado ou inadequado. Bons são os que se submetem e obedecem às regras por eles impostas, maus, os insubmissos e os que se rebelam. A justiça deste mundo é retributiva; os bons, os que obedecem, são premiados e os maus, os que desobedecem, são castigados. A NVC confronta e expõe a falácia da linguagem e dos comportamentos que estão subjacentes a esta cosmovisão.

Uma linguagem que avalia e rotula
São raras as vezes em que observamos e referimos o observado sem opinar, avaliar e julgar o que observamos. A nossa cultura abusa em demasia o verbo ser, pois estamos viciados em rotular e encaixilhar tudo o que observamos. Porque um matou um cão, já todos o chamam mata-cães e, assim sucessivamente, colocamos etiquetas em tudo e todos os que observamos: fulano é egoísta, preguiçoso, vaidoso, cruel, mentiroso…

O uso e abuso do verbo ser amarra as pessoas a uma identidade estática, impede-as de crescer, de mudar de serem elas mesmas. Com tempo, os nossos olhos enevoam-se com as cataratas dos preconceitos que nos vão cegando, pouco a pouco, à realidade tal como ela é, acabando por ver apenas o que queremos ver, e ouvir apenas o que queremos ouvir.

Uma linguagem que nega responsabilidade e capacidade de escolha
O uso e abuso, com os outros e connosco mesmos, de expressões como: “Eu tenho de fazer isto ou aquilo” quer goste ou quer não goste; “É meu dever fazer tal coisa…” retira-nos a liberdade e faz de nós escravos de um dever, de algo que não é da nossa escolha.

A negação ou abdicação da nossa capacidade de escolha e de decisão, tem como consequência imediata, a negação de responsabilidade pelos atos praticados. Como não é da nossa escolha, não respondemos nem nos sentimos responsáveis pelo que fazemos.

Ao abrigo deste constructo mental se assassinaram milhões de judeus nas câmaras de gás durante a segunda guerra mundial; os que os mataram defenderam-se em tribunal, dizendo que apenas obedeciam a ordens - desta forma se dessensibilizavam da crueldade que era preciso ter para fazerem o que fizeram. Hoje, usamos a mesma técnica quando dizemos:, são ordens superiores, é a regra, é a constituição, é a politica da empresa.

Uma linguagem coerciva que intimida com castigos
As pessoas que são obrigadas a fazerem o que quer que seja por medo de serem castigadas, por vergonha ou por sentimentos de culpa sentem-se constrangidas, ao dar-se conta de que alguém as pode castigar e fazer sofrer, se não fazem o que lhes é ordenado.

Os que foram obrigados a determinado tipo de tarefa, podem até realiza-la bem, mas o custo a pagar, tanto pelo que obedeceu, sentindo-se coagido, como pelo que ordenou, intimidando com castigos, é muito alto, porque a violência só pode gerar violência; pela via violenta, nunca se chega ao dar e receber compassivamente.

Uma linguagem que seduz com prémios
O mesmo pode ser dito quando a tarefa a realizar, está motivada por um prémio que ansiamos e prevemos receber. Também neste caso, o motivo não é a compaixão, a alegria de contribuir para o bem dos outros. Fazer algo para receber um premio não provem daquela energia que tem por objetivo enriquecer a nossa vida e a dos outros.

Quem faz para receber, deixa de fazer, se deixar de receber; ao passo que, “quem corre por gosto, não cansa”. Tão violentas são as tarefas motivadas por prémios com as motivadas por castigos; como nem umas nem outras são voluntarias, ou seja, por livre opção, não enriquecem a vida nem de quem as ordena nem de quem as executa; ao contraio empobrece a vida de ambos pois estabelecem relações humanas de desigualdade que por sua vez geram ainda mais violência.

Viver compassivamente
A linguagem é a interação entre palavras e conceitos; a inteligência é a interação entre neurónios. Ao longo de milhões de anos de evolução da humanidade, a linguagem e a inteligência evoluíram paralelamente. É impensável a inteligência sem a linguagem e a linguagem sem a inteligência; mesmo assim, não é questão do ovo e da galinha. O bebé aprende a falar e com esta aprendizagem é, ao mesmo tempo, educado; a educação não seria possível sem o uso da linguagem.

Poderíamos equacionar mudar de vida e depois e só depois aprender uma nova linguagem que se adequasse a essa nova forma de viver; mas como o bebé é educado ao mesmo tempo que aprende a falar, convertamo-nos ou seja, assimilemos a nova cosmovisão e a nova forma de viver, ao adotar e usar connosco próprios e com os outros, a nova língua que lhe subjaze.

Aprendamos e adotemos a linguagem da não violência que o resto virá por acréscimo. Foi isso que Rosenberg se deu conta, pelo que abandonou a psicoterapia e começou a fazer workshops de cidade em cidade, ensinando esta nova língua e todos os que a aprenderam viram os seus problemas resolvidos sem os resolverem e experimentaram uma “metanoia” - mudança de mente - seguida de uma mudança de vida e entendimento dessa mesma a vida, sem necessidade de nenhuma psicoterapia baseada na análise ou na psicanálise.

Subjacente a toda a ação humana, estão as necessidades que todas as pessoas buscam satisfazer; a compreensão e o reconhecimento destas necessidades pode levar a criar uma base compartilhada para uma maior conexão e cooperação entre indivíduos e em definitiva e mais globalmente contribuir para a paz.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2017

Fátima: Teologia da mensagem

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Feliz Natal e próspero ano novo!
O centro da mensagem de Fátima, é o mistério da Santíssima Trindade; por ser objeto de uma oração ensinada pelo Anjo e outra por Nossa Senhora, podemos dizer que as aparições de Fátima, abrem e fecham com este mistério.

Lúcia, porém, disse, ao então cardeal Ratzinger, que o objetivo “prático” de todas as aparições era fazer crescer o povo de Deus nas virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade, que estão presentes na mensagem desde a primeira oração ensinada pelo Anjo: Meu Deus eu creio, Adoro, Espero e Amo-vos…

No meu entender, ao contrário de alguns teólogos, Guadalupe, Lourdes e Fátima são teofanias e não marianofanias. Quando os pastorinhos inquiriram de onde era a Senhora ela respondeu que era do Céu; portanto foi o Céu que se manifestou por intermédio dela e a mensagem que veio comunicar não era dela, mas sim do Céu, ou seja, de Deus.

As revelações de Deus acontecem em diferentes tempos, em diferentes lugares, e por intermédio de diferentes pessoas. A teofania de Fátima, é um pouco mais complexa que outras teofanias, pois acontece em diferentes lugares, por diferentes pessoas, e em tempos diferentes.  Assim podemos distinguir três ciclos diferentes nas aparições de Fátima:

Ciclo angélico nas Aparições do anjo em 1916
deixando de fora as experiências da Lúcia e suas amigas no ano 1915 por serem muito difusas e inconsequentes. Mesmo assim, puseram a Lúcia de sobreaviso para as aparições do anjo no ano seguinte, não já com estas amigas, mas sim com os seus primos. Em linha com o papel dos anjos na bíblia, este anjo é um mensageiro, e tal como o Arcanjo Gabriel anunciou a Maria que ela tinha sido escolhida por Deus para ser a mãe do Verbo encarnado, o anjo também anuncia às crianças que foram escolhidas:

“Os corações de Jesus e de Maria, estão atentos à voz das vossas súplicas (…) têm sobre vós desígnios de misericórdia. No caso de Fátima, o anjo extrapola o papel de só mensageiro e prepara as crianças para as verdadeiras aparições, as de Nossa Senhora. Algo assim como João Batista, percursor do Messias, o anjo prepara as crianças para o encontro com o sobrenatural.

Talvez seja por isso que os encontros com o anjo tenham sido de diferente natureza; as crianças referem que os três encontros com o anjo foram extenuantes; sentiam-se sugados das suas energias e ficavam quase fora de si; ao contrário os encontros com a Senhora deixavam-nos radiantes, confortados e cheios de energia.

Há um outro pormenor que pode suscitar dúvidas em alguém. Nas representações de anjos que vemos nas esculturas, nas pinturas, nos teatros e filmes, e é claro no imaginário dos pastorinhos, os anjos sempre aparecem com asas; O anjo de Fátima, porém, tal como os pastorinhos o descrevem, não tinha asas. A razão está com os pastorinhos e até podíamos ver aqui mais uma prova da veracidade destas aparições, ou manifestações do divino; os anjos de facto, na Bíblia, não têm asas, os que têm asas são os Querubins e os Serafins de guarda à Arca da Aliança.

Ciclo Mariano as aparições de Nossa Senhora em 1917
O centro da mensagem de Fátima são as aparições marianas, ocorridas de maio a outubro de 1917; as do anjo, como dissemos, foram uma preparação para estas, e as seguintes uma ajuda e interpretação destas.

Nas aparições da virgem se revela o núcleo doutrinal que é vasto, completo e a razão pela qual Fátima é a aparição mais doutrinal, mais profética e se quisermos também a mais social e política, pois, inspirou e influenciou medidas sociais e políticas concretas no século XX.

Ciclo do Coração de Maria aparições em Pontevedra 1925-1926 e Tuy 1929
Nestas aparições já anos depois, e quando a Lúcia ainda talvez não estava habituada à solidão a que fora votada depois da morte dos seus primos, a Senhora favoreceu-a com estas aparições, como aliás já o tinha feito com a sua prima Jacinta no leito de morte, para cumprir o que lhe prometera, de nunca a abandonar, dar força e a ajudar na interpretação da mensagem.

Estas visões tiveram para Lúcia o efeito que a transfiguração do Senhor teve para Ele e os apóstolos, o de confirmar a Lúcia no rumo que tinha tomado, tanto em relação à interpretação da mensagem como ao percurso da sua vida na terra, e a razão pela qual tinha sido deixada cá. Estas aparições também serviram para a Lúcia tirar dúvidas e clarificar alguns aspetos da mensagem sobretudo no que respeita à devoção dos cinco primeiros sábados.

As dimensões da mensagem de Fátima
Como aparição de maior amplitude doutrinal, no entender de muitos teólogos, Fátima é toda uma “Suma Teológica” pois toca todos os temas que são essências à nossa fé e dá pistas para os viver, tanto no campo da espiritualidade individual como litúrgica, de uma forma bem prática e pedagógica.

Dimensão sacrificial – Entendida como sacrifício eucarístico, e oferta de si mesmo no contexto da eucaristia e da vida, ou seja, fazer da vida uma eucaristia. Quereis oferecer-vos… Logo na primeira aparição mariana, parafraseando Tiago e João que pediram sentar-se um à direita e o outro à esquerda do Senhor no seu Reino, mas primeiro teriam de beber do mesmo cálice do Senhor (Marcos 10,35-45); assim os pastorinhos pediram para ir para o Céu, mas primeiro a Senhora perguntou-lhe se se queriam oferecer…

Cristo foi o que deu a sua vida, o cristão, ou seguidor de Cristo, é o que ama os outros não como a si mesmo, mas sim como Jesus nos amou, mais que a si mesmo, ou seja, dando a vida. (João 13,34-35)

Dimensão escatológica – Traduz a advertência evangélica, “se não vos converteis perecereis do mesmo modo” (Lucas 13, 3). Trata das desgraças que pendem sobre o mundo por causa do pecado. Trata também da conversão dos pecadores, e como nos podemos implicar nela e a visão profética e pedagógica do inferno, assim como a forma de o evitar.

Dimensão missionária - A Missão é transversal a toda a mensagem de Fátima; todas as práticas que Nossa Senhora pede de oração, sacrifícios, o Rosário, a consagração, os primeiros Sábados, têm como objetivo os outros, ou seja, a conversão e salvação dos pecadores e não a santificação pessoal. O seguidor e devoto da mensagem de Fátima converte-se rezando pela conversão dos outros. Tudo é orientado para os outros é, portanto, uma espiritualidade “altruísta” e não “egocentrista”.

Ao contrário da maioria dos Católicos que, naquele e também neste tempo, vivem obcecados com ganhar o Céu e o bem que fazem tem como finalidade a sua salvação individual, os pastorinhos nada fizeram para salvar as suas almas, pois a Senhora já tinha dito que os levaria para o Céu.

É como se praticassem a teologia da reforma protestante, e agora também católica, segundo a qual o Céu é gratuito para todos pois Cristo pagou o bilhete de entrada por inteiro. Com o Céu garantido os pastorinhos dedicaram a sua vida a garanti-lo também para os outros.

Assim sendo, os pastorinhos tudo o que faziam era Missão, em forma de “Apostolado da Oração”, na qual se distinguiu Francisco, buscando tempo e lugares para estar a sós com Deus consolando-o, e em forma de “Apostolado do Sacrifício”, no qual se distinguiu Jacinta que era incansável em encontrar ocasiões para fazer mais e mais sacríficos, pois ela queria que toda a gente também fosse para o Céu.

Dimensão mariana – Devoção ao imaculado coração de Maria, o Rosário como contemplação com Maria do mistério de Cristo. A manifestação da Senhora identificando-se como senhora do Rosário.

Dimensão eclesial – Comunhão solidária de toda a igreja, na oração pela paz no mundo e pela conversão dos pecadores.

Dimensão Petrina – Fátima começou com um apelo do papa e sempre envolveu os papas; o que não queria deixar-se envolver por ela foi precisamente o maior protagonista da sua mensagem, João Paulo II.

Dimensão profética – Fátima representou para milhares de cristãos, o opor o exército azul de Maria - o ativismo evangélico, contra o exército vermelho da Rússia - o ateísmo militante. O ateísmo militante continua a existir mesmo sem a tutela da Rússia, nos maçons e certos grupos de agnósticos que sempre tentam influenciar políticas contra a Igreja.

Neste tempo como em todo o tempo, Fátima é uma chamada perene a ser ativistas do evangelho dando razões da nossa esperança (1 Pedro 3:15). Ou como alguém dizia, depois do Concílio Vaticano II, um apelo a ser cristãos como membros de um partido político e militantes como membros da Igreja.

Dimensão pedagógico-religioso – Aprendizagem de orações, devoções práticas de piedade. Reparar consolar e desagravar o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

Encarnar a mensagem de Fátima
É pôr em prática aquilo que Maria pediu aos pastorinhos e que eles generosamente satisfizeram, encarnando todos os aspetos desta mensagem. Toca a nós fazer o mesmo se somos amantes de Maria nossa mãe e se, tal como os pastorinhos, queremos colaborar na redenção do mundo.

Parar de ofender a Jesus – Foi o primeiro que os pastorinhos fizeram; primeiro deixaram de ser pecadores, ganhando uma consciência mais desperta que lhes permitia julgar cada um dos seus atos e expor o pecado nas suas vidas por pequeno que fosse.

Rezar o rosário todos os dias – Pelo rosário somos levados das mãos de Maria nossa mãe, a contemplar os mistérios da Nossa Redenção, ou seja, a vida do Seu filho; como ela o conhece mais que ninguém, ela, mais que ninguém nos pode introduzir ao seu filho, à sua vida e doutrina.

Oferecer sacrifícios – Ao oferecer sacrifícios estamos a pôr em prática a razão pela qual participamos na eucaristia. Ao fim da Missa em Latim, o sacerdote despede as pessoas dizendo, “Ite missa est” o qual significa não só que a missa termina, mas que estais em Missão; ou seja, termina a Missa começa a Missão.

Parte dessa missão é trazer para a vida a dimensão eucarística; comemos o corpo entregado e bebemos o sangue derramado, para sermos nós mesmos nas nossas vidas, corpo entregado e sangue derramado. Participamos na eucaristia para sermos eucarísticos e fazermos da nossa vida uma doação pela redenção dos outros. Isto fazemos, quando, como os pastorinhos, nos oferecemos ao negarmo-nos a nós mesmos, abraçando a cruz de Cristo todos os dias, negando-nos a nós mesmos, para afirmar o outro nas nossas vidas.

Devoção ao Imaculado Coração de Maria – A oração assídua coloca-nos diante de Deus que atua como um espelho que nos faz ver quem realmente somos; uma falsa imagem de nós mesmo leva a uma falsa imagem de Deus. A oração purifica as duas imagens de Deus e de nós próprios; por outro lado a oração ao Imaculado Coração de Maria purifica o nosso coração e trona-o semelhante ao dela. É do nosso interesse esta devoção pois segundo a Bem-aventurança, só os puros de coração a que vêm a Deus.

Observância dos 5 primeiros Sábados – São uma bela campanha para revigorar a nossa fé e a nossa prática cristã. São como os exercícios espirituais de Santo Inácio ou como os cursilhos de cristandade; é um começar de novo, o despertar de uma fé adormecida que perdeu o sal que dava sentido e sabor à vida que deixou, por isso, de ser luz do mundo.

Usar o escapulário – Esta prática que chegou a ser muito popular, ainda não perdeu o seu valor. Não é que o escapulário seja um talismã que nos protege de por si sem a nossa colaboração; isso seria idolatria. O uso do escapulário serve para nos recordar, hora a hora, minuto a minuto, que estamos chamados a revestir-nos de Cristo como diz São Paulo. (Efésios 4, 22-24)

Conclusão
Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para demonstrar que este poder que a tudo excede provém de Deus e não de nós mesmos. (2 Coríntios 4:7)

Ao fim desta longa digressão e estudo do acontecimento Fátima, o seu significado e mensagem, apercebo-me da riqueza, da profundidade doutrinal, profética, social e politica da mensagem. Quase nem posso acreditar como possa ter sido depositada em três crianças de tão tenra idade completamente incultas, e como apesar destas limitações, como dizemos em bom português, elas deram bem conta do recado no viver, anunciar e custodiar a mensagem de Fátima, apesar da incredulidade das suas próprias famílias a da Igreja e os obstáculos e ameaças do poder político e administrativo.

Quero terminar esta reflexão da mesma forma que a comecei: O mistério escondido aos sábios, orgulhosos da sua sabedoria, foi revelado aos simples e aceite por aquele tipo de sábios que são os verdadeiros, os que mantém a mente aberta, sem preconceitos, os que reconhecem que só sabem que nada sabem. (Mateus 11, 25)
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2017

Fátima: Os primeiros sábados

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A irmã Lúcia com a imagem que mais gostava
Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Aparição de 13 de julho 1917

A aparição do dia 13 de julho foi sem dúvida a mais rica em conteúdos e também a mais emblemática da mensagem de Fátima. É nesta aparição que as três partes do segredo são reveladas por Maria aos pastorinhos e foi nesta aparição que Maria falou pela primeira vez na devoção dos 5 primeiros Sábados de cada mês.

Uma das razões pelas quais Lúcia ficou na terra enquanto os seus primos foram levados para o Céu logo após as aparições, foi para divulgar na terra a devoção ao Imaculado Coração de Maria e propagar a prática dos cinco primeiros Sábados de cada mês.

Modus operandi
Passados uns anos, em 1925, quando Lúcia já era irmã Doroteia, a Nossa Senhora apareceu-lhe para lhe recordar a prática dos primeiros sábados que tinha pedido em 1917. Desta vez a Virgem Santíssima relatou detalhadamente como devia ser feita. E como tivessem surgido algumas dúvidas sobre o modo de a fazer, o menino Jesus apareceu-lhe a 15 de Fevereiro no ano seguinte 1926 para lhe perguntar se já tinha espalhado a devoção à Sua santíssima mãe, e resolveu o problema dos que não pudessem confessar-se mesmo no dia de sábado podendo faze-lo qualquer dia do mês com tal de estarem em graça no sábado para fazerem a comunhão reparadora.

Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfémias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que todos aqueles que durante cinco meses, ao primeiro sábado, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem o Terço e me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 Mistérios do Rosário com fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.» Aparição de Nossa Senhora no quarto da Lúcia, em Pontevedra a 10 de dezembro de 1925

Para entender por que se deve desagravar o Coração de Maria, é preciso entender que a gravidade de uma ofensa é proporcional à dignidade da pessoa que se ofende. Não é a mesma coisa ofender uma pessoa da rua e ofender a nossa própria mãe; a ofensa pode ser a mesma, mas a gravidade é diferente quando se trata da nossa própria mãe. Sto. Tomás diz na Suma Teológica que a Virgem Maria, por ser mãe de Deus tem uma certa dignidade infinita, proveniente do bem infinito que é Deus.

As ofensas feitas a Nossa Senhora são mais graves, porque a Virgem Maria está numa ordem diferente na qual todos nós estamos; os anjos e os santos vivem na ordem da Glória, pois vêm a Deus cara a cara; nós, se vivemos em amizade com Deus, estamos na ordem da Graça. Maria por ser mãe de Jesus uma pessoa divina, ela participa de alguma maneira na união hipostática; por isso as ofensas feitas à Nossa Senhora são graves pois indiretamente são ofensas feitas ao mesmo Deus.

Quando Nossa Senhora aparece com o seu coração coroado com uma coroa de espinhos como a cabeça do seu filho, ela quer mostrar de uma forma simbólica fácil de entender quanto ela sofre as “blasfémias e ingratidões”. Se o filho sofre a mãe também sofre.

Porque é que a Nossa Senhora nos pede esta prática dos cinco primeiros sábados? Porque ela sabe do mal que nos causamos a nós mesmos quando ofendemos o coração dela. A Virgem Maria está gloriosa no Céu, ela já não pode sofrer mais; é o feedback ou as consequências das nossas ofensas feitas a ela que a preocupam. Quando um filho bate num pai ou numa mãe idosa o mal maior deste filho não é o que é feito ao pai ou à mãe, mas o que é feito a si mesmo; um mal terrível que se um dia vem a ter consciência dele os remorosos vão consumi-lo.

Quando um confessor da irmã Lúcia lhe perguntou porque cinco sábados e não 7, como numero perfeito na bíblia? A Irmã Lúcia referiu a pergunta a Nosso Senhor, que assim lhe respondeu: "Minha filha, o motivo é simples: são cinco as espécies de ofensas e blasfêmias proferidas contra o Imaculado Coração de Maria.
  1. As blasfêmias contra a Imaculada Conceição;
  2. Contra a sua virgindade;
  3. Contra a maternidade divina, recusando, ao mesmo tempo, recebê-La como Mãe dos homens;
  4. Os que procuram publicamente infundir, nos corações das crianças, a indiferença, o desprezo, e até o ódio para com esta Imaculada Mãe;
  5. Os que A ultrajam diretamente nas Suas sagradas imagens"
Aparte alguns não cristãos, são muitos os cristãos protestantes que ofendem a Maria e entre os católicos há certos países que têm o vício de blasfemar, como a Itália e a Espanha. Em Portugal ninguém, nem cristão nem ateu nem agnóstico algum blasfema contra Deus nem contra Maria.

Esta ofensas têm de ser reparadas, ou seja, a ordem natural das coisas tem de ser reposta. Para isto devemos realizar quatro atos: uma confissão com a intenção de reparar ou desagravar, a comunhão feita com a mesma intenção, a reza do Santo Rosário, e 15 minutos de meditação nos mistérios da vida de Jesus.

Confissão
Alem de ser uma confissão pessoal, dos nossos próprios pecados se os temos, e sempre os temos; esta confissão tem uma outra dimensão: é uma confissão devocional, ou seja, nós fazemo-la pelos que não a fazem, pedirmos perdão pelos pecados dos outros; mais uma vez a dimensão missionária de Fátima, a piedade não só ao serviço da nossa santificação, mas ao serviço da santificação dos outros.

A confissão deve ter uma intenção reparadora; no caso de esquecer esta intenção recorda-la na próxima; não tem de ser feita no sábado, pode ser feita noutro dia basta que no primeiro sábado a pessoa esteja em estado de Graça.

Sagrada Comunhão
Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.  João 6, 53

São muitos os cristãos que abandonaram a prática dominical; e entre os que ainda a mantêm há anos que não se consideram dignos de receber o corpo e sangue do Senhor. Fazemos esta comunhão reparadora não tanto por nós, mas por todos estes que não fazem corpo connosco, que não estão em comunhão plena com Cristo e a sua Igreja, vides não desligadas da cepa que é Cristo. (João 15, 5)

Rosário
Rezado com a intensão de reparar o coração Imaculado de Maria, rezamos o Rosário por todos aqueles que não o rezam todo os dias; os que ainda não descobriram a riqueza desta oração o tempo passado na contemplação dos mistérios de Cristo na história da nossa salvação.

15 minutos de companhia, meditando nos 15 Mistérios do Rosário
Estes 15 minutos são para estar com o Senhor contemplando os seus mistérios, 15 como eram inicialmente ou 20 como são agora; como a meditação ou contemplação é ao Senhor, pode ser ante a exposição do Santíssimo, e pode também ser uma meditação da Palavra de Deus tipo Lectio divina como muitos cristão hoje fazem; o importante é que sejam 15 minutos para estar a sós com Jesus escondido sacramentalmente no sacrário, espiritualmente no nosso coração.

O valor desta Campanha
É evidente que tantos as ofensas como os atos de amor a Deus, revertem em nós. Deus não precisa do bem que lhe fazemos e o mal que lhe fazemos não o atinge.  Tanto o mal como o bem fica com quem o pratica. É fundamentalmente nós que nos fazemos mal e Deus sofre não porque sofra algum mal que lhe façamos, mas sim porque esse mal que pretensamente lhe fazemos reverter para nós; “Volta-se o feitiço contra o feiticeiro” “Quem mal quer fazer mal lhe há-de acontecer, diz o povo.

Muitas campanhas fazem-se para despertar um valor adormecido, na esperança de que uma vez despertado uma determinada pratica continue. As campanhas fazem-se para vencer a inércia do estaticismo, e uma vez em movimento a esperança é que se continue. Assim acontece nas práticas comerciais quando se anunciam novos produtos ou se quer que certos produtos voltem a ser consumidos. A mesma lógica opera nas práticas religiosas; é difícil tirar as pessoas de uma vida medíocre, do imobilismo e da apatia espiritual, do “dolce fare niente”.

Em dialogo com o menino Jesus na aparição de Tuy a 15 de fevereiro de 1926 acerca ainda da prática dos primeiros Sábados, e porque o confessor de Lúcia tinha expressado certas reservas em relação à importância desta prática:

– Mas o meu Confessor dizia na carta que esta devoção não fazia falta no mundo, porque já havia muitas almas que Vos recebiam, aos primeiros sábados, em honra de Nossa Senhora e dos 15 Mistérios do Rosário.

– É verdade, minha filha, (responde o menino Jesus) que muitas almas os começam, mas poucas os acabam; e as que os terminam, é com o fim de receberem as graças que aí estão prometidas; e Me agradam mais as que fizerem os cinco com fervor e com o fim de desagravar o Coração da tua Mãe do Céu, que os que fizerem os 15, tíbios e indiferentes…

Em todas as campanhas tem de haver um fator aliciante, para tirar as pessoas da sua inércia, é preciso prometer algo em troca; nesta é a promessa de assistência, na ora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dos que forem fiéis nesta prática. Mas é claro que Deus, como refere o menino Jesus à irmã Lúcia, prefere aqueles que fazem a prática por puro amor e não por razões de “mercantilismo espiritual.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de novembro de 2017

Fátima: "Rezai o Rosário todos os dias"

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Em Portugal chama-se terço, o que nos demais países se chama Rosário. O que nós rezávamos, de facto, era um terço do Rosário que completo seriam três terços, somando o total de 150 Ave Marias. 150 são também o número de Salmos, do livro com o mesmo nome, que faz parte da literatura sapiencial do Antigo Testamento.

De aí alguém dizer que o rosário completo era o breviário do povo ou dos leigos que não podiam como os clérigos e os religiosos rezar a salmodia.

O rosário completo eram, portanto, três terços que se rezavam meditando no primeiro os Mistérios Gozosos, que correspondiam ao nascimento e infância de Jesus: no segundo os mistérios Dolorosos, que correspondiam à Sua Paixão e Morte: no terceiro os mistérios Gloriosos que correspondiam à sua Ressurreição e Ascensão aos Céus.

A Igreja tardou em descobrir que o Rosário estava incompleto com tão só a meditação dos mistérios da encarnação nascimento, paixão e morte e Ressurreição do Senhor. Faltava a vida pública na qual Jesus de Nazaré, pela sua pregação, as suas atitudes e forma de viver e atuar, modela para nós o homem novo, aquele que é caminho verdade e vida para todo o ser humano.

Com a criação e integração dos Mistérios Luminosos pelo Papa João Paulo II numa carta apostólica intitulada Rosarium Virginis Mariae, escrita em 2002, a lógica dos três terços serem um Rosário completo desfez-se. O Rosário completo são agora quatro “terços” de 50 Avé Marias cada um fazendo o total de 200 e não de 150 como era antes.

Em concordância com esta nova realidade, ao que antes chamávamos “Terço”, deveríamos agora chamar Quarto, pois ao incluir a vida pública de Jesus nos Mistérios Luminosos, são agora quatro os mistérios a contemplar. Como não vamos rebatizar o “Terço de “Quarto”, o melhor seria abandonarmos esta palavra, e, no seu lugar, como o resto da cristandade sempre fez, usar a palavra Rosário.

A Composição do Rosário
Chama-se “Rosário”, porque as 150, agora 200, ave-marias, entrelaçadas em grupos de 10, com a oração do Pai Nosso, do Glória e as meditações dos mistérios da vida de Jesus, e da nossa redenção, formam uma “Coroa de Rosas”, que se oferece a Maria, Mãe do Senhor e nossa Mãe.

Os vinte mistérios da vida do Senhor repartem-se em quatro series de 5 mistérios cada uma. Em cada Rosário, rezamos apenas os cinco mistérios de uma destas series:

Nos Mistérios Gozosos, meditamos o começo da redenção da humanidade, desde a anunciação a Maria, e a encarnação do filho de Deus no seu seio, até à adolescência de Jesus.

Nos Mistérios Luminosos, meditamos os momentos mais importantes da vida pública de Jesus, desde a sua investidura no Batismo até à instituição da Eucaristia como memorial da sua paixão. É nos anos da Sua vida pública que Jesus verdadeiramente, se revela como sendo a Luz do Mundo (Jo 8, 12), pelas suas atitudes ante as mais diversas situações da vida em que se foi encontrando, pela doutrina que ensinou, e pelos seus atos.

Nos Mistérios Dolorosos, meditamos o processo a paixão e morte de Jesus, desde a sua agonia no jardim das Oliveiras até ao ultimo suspiro no alto da cruz. Quando dizemos que Jesus morreu pelos nossos pecados, quer dizer que saldou a dívida que nós eramos incapazes de pagar; mas também quer dizer que os pecados dos que intervieram na sua morte ainda hoje se cometem, pelo que podemos concluir que foi o pecado de toda a humanidade que o matou.

Nos Mistérios Gloriosos, meditamos o triunfo de Jesus sobre a morte com a Sua Ressurreição. A morte foi vencida assim como o pecado que a causa. Depois da Ressurreição de Jesus, a morte já não é o destino final da humanidade, mas sim uma passagem para a vida eterna. A vida de Jesus que começa com o Sim de Maria ao plano de Deus termina agora com a glorificação daquela que é para todos, modelo de vida cristã.

O Pai Nosso – O Pai Nosso, que intercala cada mistério, é muito mais do que uma simples oração que o Senhor nos ensinou para recitar ocasionalmente. Ela contém o mais importante do Evangelho de uma forma resumida; é neste sentido todo um Evangelho de bolso pois contem o que devemos conhecer e praticar.

Como é composto por vários enunciados, sem relação uns com os outros, pode ser olhada como uma lista, como as listas de compras que fazemos para não nos esquecermos de nada. Esta lista diz respeito ao protocolo da nossa relação com Deus, ou seja, como deve estar estruturada a nossa oração; como nos devemos dirigir a Deus, como louvá-Lo, o que devemos pedir, em que ordem, quando e como. Portanto, mais que uma oração, é fundamentalmente um guia pratico de oração e vida.

A Ave Maria – Divide-se em duas partes; a primeira é bíblica e é composta pelas saudações do Anjo Gabriel e da Sua prima Isabel; a segunda tem origem na fé da Igreja, não se sabe como nem quando nem onde começou a ser usada. Por isso a Ave-maria representa a perfeita união entre a Bíblia como Palavra de Deus e a Igreja como comunidade dos crentes.

Num movimento ascendente, a primeira parte, decalcada da Bíblia, é constituída por 5 escadas que sobem até Jesus. Num movimento descendente a segunda parte é constituída também por 5 escadas que descem até a realidade humana, a nossa morte.

Não pode ser entendida pelos advogados de “sola fide sola scriptura solus christus” pois nela se unem de uma forma harmoniosa a Escritura, a Palavra de Deus, descrita na primeira parte, com a Tradição, ou seja, a história da fé da comunidade cristã ao longo dos tempos plasmada na segunda parte. “Jesus” alfa e Omega, principio e fim e centro da história é a cerneira que une as duas partes.

Gloria ao Pai – É a invocação de Deus como Uno e Trino. Uma só divindade em três pessoas diferentes unidas num triângulo de amor. É a solução à dialética da filosofia grega entre o uno e o múltiplo. Esta oração também nos recorda que feito à imagem e semelhança de Deus, o ser humano também é uno e trino: não existe nem subsiste fora da família.

Origem e história do Rosário
Como instrumento de oração as contas do rosário, têm a sua origem na India, no terceiro século antes de Cristo. No cristianismo foram os padres do deserto do terceiro e quarto século que começaram a usar instrumento de contagem de orações, sobretudo do Pai-Nosso.

Por outro lado, na antiguidade os gregos e os romanos costumavam coroar, com uma coroa de Rosas, as estátuas dos seus deuses como prova de amor e gratidão. Talvez baseada nesta tradição as mulheres cristãs que eram levadas ao martírio iam vestidas a rigor levando nas suas cabeças uma coroa de rosas, como símbolo de alegria e entrega caminhando ao encontro do esposo, Cristo. Depois do seu martírio os cristãos recolhiam estas coroas e rezavam, uma oração por cada rosa, pela alma dos mártires.

A Lúcia e a Jacinta de Fátima gostavam de usar flores no cabelo. No dia das aparições os três vestiam as melhores roupas que tinham como se fossem à missa ao Domingo; as duas meninas colocavam flores no cabelo em especial a Jacinta que foi fotografada usando uma coroa de rosas na cabeça por ocasião das aparições.

A oração do rosário surge no ano 800 à sombra dos mosteiros como saltério dos leigos. Foi só no ano 1214, no entanto que a Igreja recebeu o rosário na sua forma presente. A tradição diz que foi dado à Igreja por Santo Domingos de Gusmão que por sua vez o recebeu da Virgem Maria como arma poderosa contra os inimigos da fé.

O rosário ganhou grande pujança depois da batalha naval de Lepanto, na qual os cristãos venceram os turcos eliminando para sempre o perigo dos muçulmanos subjugarem o cristianismo. Antes da batalha, o Papa Pio V pediu aos cristãos que rezassem o rosário para apoiarem a frota cristã, pelo que depois da vitória, foi instituída a festa da Senhora das Vitórias no dia da batalha a 7 de outubro de 1571, mais tarde mudada para Senhora do Rosário.

As aparições marianas, em especial a de Fátima no seu insistente apelo a rezar o Rosário todos os dias, fizeram desta prática um distintivo dos católicos em contraposição com o resto da cristandade, os ortodoxos e os protestantes.

Modo de rezar o Rosário
Em cada dia da semana meditamos uns mistérios diferentes; assim Segunda Feira e Sábado meditamos os mistérios Gozosos; terça feira e sexta-feira meditamos os mistérios dolorosos, Quarta Feira e Domingo os mistérios Gloriosos, reservando a Quinta Feira para os mistérios Luminosos.

Há vários modos de rezar o terço, mas a maior parte das pessoas inicia com o sinal da cruz, seguido do Credo, de um Pai-Nosso uma Ave-Maria e um Gloria. Terminadas estas orações introdutórias, anuncia-se o primeiro mistério seguido ou não de uma pequena meditação e secundado por uma dezena de ave-marias precedidas de um Pai-Nosso.

Depois da decima Ave-Maria de cada dezena, reza-se o Gloria seguido de várias jaculatórias, dependendo do lugar e de quem reza e termina-se com a oração que a Nossa Senhora em Fátima recomendou aos pastorinhos que rezassem depois de cada mistério: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem"… (da vossa misericórdia). Por fim rezam-se três Ave-Marias pelas intenções do Santo Padre para assim estarmos unidos a toda a cristandade, nele representada, e termina-se com a Salve Rainha precedida ou não, segundo o tempo que se dispõe, pela Ladainha da Nossa Senhora.

A importância do Rosário
O Rosário é ao mesmo tempo uma oração mariana e Cristo-Centrica porque repetidamente invocamos Maria como Mãe de Deus e nossa Mãe, e lhe pedimos que se junte a nós na nossa oração ao Pai, ao recitarmos o Pai Nosso e à Santíssima Trindade ao recitarmos o Glória, e nos ajude a meditar e contemplar os mistérios da vida do Seu filho, nosso irmão mais velho e nosso salvador, dos quais ela também faz parte.

Em Fátima, como nas demais aparições marianas, Maria não atrai nenhuma atenção para si mesma, mas sim e exclusivamente para o Seu filho. O seu contentamento não lhe vem de a louvarmos, mas sim de louvarmos o seu filho. Como diz o provérbio, “Quem o meu filho beija, minha boca adoça”.

Não se ama o filho sem se amar a mãe, por isso todo o amor dirigido ao filho indiretamente é dirigido à mãe. Assim como todo louvor dado à mãe se dirige ao filho como foi o caso daquela mulher que no meio da multidão, levantou a voz para dizer a Jesus, Bem-aventurada aquela que te deu à luz, e os seios que te amamentaram!” (Lucas 11, 27)

O Rosário não é uma oração de Ação de Graças, nem uma oração de petição, nem sequer uma oração de lamentação como alguns salmos da bíblia. O Rosário, é fundamentalmente uma oração de meditação e contemplação. De facto, anunciamos e enunciamos cada mistério dizendo neste mistério contemplamos….

Conta-se que um dia alguém confessou ao Papa João XXIII a dificuldade de rezar o terço pois frequentemente se distraía no rezo maquinal e rotineiro das Ave-Marias, ao que o papa respondeu, para que serve o Rosário se não para nos distrairmos?

Ao ser uma oração contemplativa, a recitação repetitiva de Ave-marias no Rosário tem a mesma função que os mantras na espiritualidade Budista; ocupam a mente impedindo que esta salte de um pensamento para outro, permitindo e facilitando a contemplação dos mistérios da vida do senhor.

A finalidade, portanto, não é colocar a nossa atenção em cada Ave-Maria e Pai-Nosso que rezamos, mas sim ocupar a mente com estas orações como se tratassem de mantras e saltar assim para a contemplação do divino.

O Rosário e Fátima
Nas aparições de Fátima, Nossa Senhora pediu aos pastorinhos que rezassem o Rosário todos os dias, não numa ou duas aparições, mas em todas as ocorridas em de 1917, assim como nas que ocorreram em Tuy e Pontevedra à irmã Lúcia. Porquê o Rosário, pergunta-se esta, por ser uma oração acessível a todos, pequenos e grandes sábios e ignorantes.

Naquela região, e um pouco por todo o Portugal, a recitação do Rosário era parte integrante dos serões da província, antes ou depois da Ceia ao calor da lareira, o pai ou a mãe lideravam a reza e ninguém pedia a bênção do pai e da mãe e se ia deitar antes de terminar mesmo que o sono já fizesse cair as cabeças.

Família que reza unida mantêm-se unida; a Televisão qual cavalo de Troia veio perturbar a candura e harmonia do lar e o terço foi substituído pelas telenovelas. Talvez esta seja uma das razões pela qual, somos um dos países com uma das mais altas taxas de divorcio, 70%.

Os pastorinhos que já rezavam o Rosário, mas apressadamente, passaram a reza-lo como a Senhora queria. Em especial o Francisco a quem a Senhora disse que tinha de rezar muitos terços para ir para o Céu.

Com efeito o terço identificou Francisco na sua vida pois havia dias que rezava dez terços, e também identificou as suas ossadas quando o seu corpo foi exumado. Entre tantas ossadas enterradas na mesma sepultura comum, o Ti Marto, pai de Francisco, identifico os ossos do seu filho pois agarrado a eles estava o Rosário ainda intacto que o Francisco usava.

Penitência e oração pedia Maria em Fátima tanto por nós como pelos outros. O Rosário catapulta-nos para a contemplação do Mistério de Deus, sobretudo do Verbo incarnado. Por isso, meditando ou não meditando, distraídos ou não, os que amam profundamente o Rosário e não podem deixar passar um dia sem o recitar, são, “ipso facto”, verdadeiramente pessoas de oração.
Pe. Jorge Amaro, IMC
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1 de novembro de 2017

Fátima: A Oração como Missão

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A Penitência e a Oração são o cerne da mensagem e espiritualidade de Fátima. O objetivo principal da Penitência e Oração, que Maria pede aos pastorinhos em Fátima, não é o aperfeiçoamento pessoal. A Nossa Senhora não exorta as três crianças a fazerem sacrifícios e a rezar pela sua santificação pessoal; por isso, espiritualidade de Fátima não é uma espiritualidade egocêntrica, ou seja, um conjunto de praticas espirituais que têm como objetivo o benefício, ou perfeição de quem as pratica; não é por isso comparável à ascética dos monges, que sim tem como finalidade a santificação, a mística e a visão beatifica.

Muito pelo contrário, tanto a penitência como a oração que Maria pede aos pastorinhos, têm um fim muito concreto e específico: a da conversão dos “pobres pecadores” e o desagravo do Sagrado Coração de Jesus e do Coração Imaculado de Maria; é, portanto, uma espiritualidade “altruísta”.

É certo que nestas práticas os pastorinhos se santificaram, mas não as praticaram para se santificar, mas sim para contribuir ao bem espiritual de outros. Não foi para salvar-se que as praticaram, mas sim para salvar os outros. Neste sentido tanto a sua oração pessoal como a sua penitência eram o seu contributo para a missão universal de salvação.

Até quando os pastorinhos resolveram não pecar mais, a razão fundamental que os levou a esta resolução não foi o ser santos, mas sim para não ofenderem mais a Nosso Senhor; ou seja, até no evitar o pecado, o objetivo é altruísta; os pastorinhos não pecaram por amor a Deus. Os videntes nunca fizeram nada cujo objetivo fosse a santidade.

A oração de intercessão
Abraão aproximou-se e disse: «E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? Talvez haja cinquenta justos na cidade; matá-los-ás a todos? Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir? (…) Se encontrar em Sodoma cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles. Génesis 18, 23-33

E acontecia que, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec. Êxodo 17, 11

Os dois grandes patriarcas da nossa fé, Abraão e Moisés, experimentaram o valor e a eficácia da oração de intercessão a Deus pelo povo. Mais tarde cabe aos sacerdotes, descendentes de Aarão, esta tarefa de pedir a Deus pelo bem-estar do povo. A sociedade medieval cristã estava dividida em classes e cada classe tinha uma tarefa específica; os nobres defendiam o clero e o povo, o clero intercedia pelos nobres e pelo povo, e o povo sustentava materialmente o clero e os nobres.

Hoje a oração não é tarefa exclusiva de uma classe de pessoas, mas todos estão chamados a rezar. A oração não é só um meio para expressarmos o nosso amor a Deus. De facto, a oração tanto expressa o nosso amor a Deus como o nosso amor ao próximo, quando rezamos por ele. A oração pode ser a nossa resposta a Deus, que nos pergunta onde está o teu irmão (Génesis 4,9). Ao contrário de Caim devemos sentir-nos guardiães do nosso irmão, preocuparmo-nos por ele, querer o seu bem, atuar em seu favor, não só nas obras, mas também na oração, intercedendo por ele a Quem lhe pode fazer mais bem do que eu, especialmente onde eu não posso chegar.

A oração do Pai “Nosso” e da Ave Maria, assim como a maior parte das orações, nunca excluem os outros; podemos rezá-las na privacidade do nosso quarto e no íntimo do nosso coração, os outros estão sempre lá, pois a Deus nos dirigimos em plural como comunidade; e o que quer que peçamos, nestas ou noutras orações, não o pedimos para nós somente, mas para a toda a comunidade dos crentes.

O capitulo 17 do Evangelho de São João apresenta a chamada oração sacerdotal, que é a oração mais longa de toda a bíblia. Na segunda e a terceira parte dessa oração Jesus pede ao Pai pelos seus discípulos e depois por todos os crentes; ponto importante nesta oração é a unidade entre todos; é nesta unidade de sermos todos membros do corpo místico de Cristo que assenta a oração de interseção. 

A comunhão dos santos é uma crença muito querida do catolicismo; esta consta da solidariedade que se estabelece entre todos os batizados, vivam eles no espaço e no tempo, ou para além destes, no purgatório ou no seio de Deus. É com base nesta comunhão que o povo português tem um afeto especial em rezar e oferecer o sacrifício da Eucaristia pelas almas mais abandonadas do purgatório; aqueles que não têm ninguém que interceda por elas.

Quando já tinha decidido não ir hoje a cortar o cabelo, comecei a escutar com insistência uma voz no meu interior que me dizia que tinha de ir; como eu recusava a voz fez-se cada vez mais insistente até ser uma obsessão. Decidi então aceder e fui. Ao entrar o barbeiro surpreendeu-me dizendo estava agora mesmo a rezar para que o senhor viesse hoje.

"... A oração é o complemento mais eficaz depois da medicina tradicional, superando a acupuntura, ervas, vitaminas e outros remédios alternativos." Washington Post, March 24, 2006

É difícil quantificar a eficácia da oração; nas aparições de Fátima são muitas as intenções que Lúcia apresenta à Senhora e ela mesmo respondia que algumas as satisfazia outras não. Ante esta realidade, só temos uma certeza que é mais fácil que os nossos pedidos sejam atendidos se os formulamos que se não os formulamos. No entanto, quer os nossos pedidos sejam atendidos quer não, é a vontade de Deus que se cumpre; uma vontade que devemos aceitar incondicionalmente, porque Deus, porque é Pai, sabe, muito mais que nós, o que nos convém e verdadeiramente nos faz falta

Mateus 5, 44 - Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; - Até o inimigo deixa de ser inimigo quando tenho a coragem de rezar por ele como o evangelho nos manda. É de facto algo misterioso que todos podemos experimentar; no momento em que conseguimos rezar pelos que nos querem mal, cessa o nosso ódio por eles.

Francisco e Jacinta reparadores da humanidade
No Verão de 1916, enquanto os três brincavam no quintal da casa da Lúcia, junto ao Poço do Arneiro o Anjo aparece-lhes e diz-lhes:
– Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

À distancia do tempo, a irmã Lúcia interpreta esta interpelação do Anjo não como uma repreensão por estarem a brincar, mas como uma chamada de atenção para algo de suprema importância, a oração. Esta chamada de atenção deve ainda ecoar nos nossos corações porque como cristãos perdemos o tempo em mil e uma coisa, como a Marta do Evangelho, e não escolhemos o mais importante… sentar-se, parar no meio do frenesi dos nossos dias e como Maria, a irmã de Marta, dirigir-nos a Ele que é tudo em todos.

Os pastorinhos responderam fielmente à chamada de atenção do Anjo e um ano depois às exortações da Senhora, em rezar e oferecer sacrifícios, de tudo o que podiam, como lhes tinha sugerido o Anjo, pela conversão dos pecadores. Tomaram essa tarefa como uma missão, e encarnaram-na em conformidade com a sua personalidades e carácter:

Jacinta sendo emocional, e sem descuidar a oração, sobretudo a eucarística ao Jesus escondido, era mais dada aos sacrifícios, pois tinha muita pena dos pecadores, queria salvar quantos mais melhor. Francisco como era mais instintivo, sem descuidar como a irmã os sacrifícios, era mais dado à oração; estava particularmente sensibilizado pela tristeza de Jesus e passava horas e horas a sós com Ele para o consolar.

Oração & Sacrifício é um binómio inseparável, como a teoria e a praxis. Rezar sem fazer sacrifícios é comparável aquela personagem do Evangelho que diz “Senhor, Senhor”, mas nada faz para encarnar a Palavra, ou seja pô-la em pratica (Mateus 7,21).

Por outro lado, o sacrifício sem oração não seria cristão; por isso mais tarde a Virgem Maria ensina aos pastorinhos uma oração que deve acompanhar todos os sacrifícios que fazem: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria".

Usando uma carta dos correios como alegoria para explicar a relação entre o sacrifício e a oração, o sacrifício é o texto da carta, a oração é o envelope onde está escrita a direção à qual é dirigida a carta, neste caso a Deus para interceder pelos “pobres pecadores”.

Francisco consolador do Senhor
Um dia a Lúcia perguntou a Francisco:
– Francisco, por que não me dizes para rezar contigo e mais a Jacinta?
– Gosto mais – respondia – de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor que está tão triste.
Um dia, perguntei-lhe:
– Francisco, tu, de que gostas mais: de consolar a Nosso Senhor ou converter os pecadores, para que não (vão) fossem mais almas para o inferno?
– Gostava mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora, ainda no último mês, se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor e depois converter os pecadores, para que não O ofendessem mais.

Francisco reconhece simultaneamente a transcendência de Deus e o júbilo pela sua presença. Confessa: «do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!». Francisco Sente-se «a arder, naquela luz que é Deus [...]. e afirma Como é Deus! Não se pode dizer!».

É esta união com Deus que o faz perceber a dor que lhe provocam as ofensas humanas. Dá-lhe pena por «Ele estar tão triste» e, por isso, brota nele a resposta enternecedora: «Se eu O pudesse consolar! ( Cfr. Conferencia episcopal Portuguesa 2017)

Será talvez a parte mais contemplativa da mensagem de Fátima. Francisco era de facto um contemplativo, afastava-se dos outros companheiros, teria vocação de monge se tivesse vivido. No entanto a contemplação que faz a sua oração, de manhãs inteiras na igreja de Fátima diante do Jesus escondido, enquanto Jacinta e Lúcia iam à escola, não era para se sentir bem na companhia de Deus, mas sim para consolar Jesus triste pelas ofensas dos pecadores.

Devoção ao Imaculado Coração de Maria
… A Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. [A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono].

O mundo moderno frio e tecnológico é pouco dado aos símbolos. Para melhor entendermos o que significam o Coração de Jesus e o Coração de Maria, é de ajuda que nos adentremos no mundo da poesia.  Todos conhecemos a expressão de “falar com o coração na mão” que segundo o dicionário significa: Estar muito aflito, muito angustiado, preocupado ou nervoso com alguma assunto ou alguma situação. Pois assim se apresentam o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria; angustiados e preocupados pela situação da humanidade.

No sentido bíblico, e também na mensagem de Fátima, o coração não é somente o músculo de forma arredondada, que coloca o sangue em movimento, mas também o símbolo do mais íntimo do homem, onde se conjugam os pensamentos, os afetos e a vontade.

O Sagrado Coração de Jesus – A imagem de Jesus, com o coração diante do peito e às vezes na mão, quer ser uma representação gráfica para deixar bem patente, o quanto Jesus nos amou nos homens do seu tempo a ponto de sofrer e dar a vida por eles, seus amigos e pela humanidade inteira neles representada. A devoção a esta imagem tem inspirado a cristandade desde as aparições a Sta. Margarida em 1675. Estas visões não estão descabidas de sentido histórico e bíblico se pensamos que verdadeiramente foi o soldado que abriu o peito de Jesus e nos mostrou o seu coração.

O Imaculado Coração de Maria – A imagem de Maria, representada como a de Jesus com o coração diante do peito, significa o amor e dedicação e padecimento pelo seu filho desde a sua conceção até à morte na cruz; já crucificado e antes de morrer, Jesus entrega-nos a sua mãe como nossa mãe, começando assim a paixão Desta pelos irmãos do seu filho.

A virgem Maria comunica aos pastorinhos em Fátima que o seu filho quer estabelecer esta devoção na terra, sendo também esta uma das razões pela qual a Lúcia ficaria ainda algum tempo em vida. Também esta imagem não está descabida de sentido histórico e bíblico se pensamos no vaticínio do velho Simeão em relação à Virgem Maria: “uma espada atravessará a tua alma”.

Amor com amor se paga” – A devoção ao coração de Jesus, como ao Coração Imaculado de Maria, como todas as devoções e atos de amor a Deus não se justificam pelo facto de que Deus precise deles. Somos nós os que precisamos, pelo facto de que só quando nos abrimos ao amor de Deus é que o amor de Deus produz frutos na nossa vida.

Enquanto permanecemos de costas voltadas para Deus, o seu amor, que não cessa nunca, não produz nenhum efeito nas nossas vidas. Por outro lado, não é possível ao mesmo tempo estar abertos ao amor de Deus sem o amar, por isso o provérbio faz todo sentido; Deus precisa do nosso amor para nos amar. Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. João 14,23

O Imaculado Coração de Maria é medianeiro de todas as graças; foi este coração, imaculado por ter sido concebido sem pecado, que acedeu ao plano de Deus, concebendo o Seu filho para salvação da humanidade. Por ser medianeira da Graça primigénia que é Cristo, também em graças menores, Maria é sempre medianeira entre a Terra e o Ceu.

Por isso, Jacinta fervente devota do coração Imaculado de Maria, exorta a sua prima Lúcia que propague essa devoção que por essa razão fica mais algum tempo em vida:

Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no Mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas. Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria; que Ihas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria, que Deus Lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria…
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de outubro de 2017

Fátima: O Sacrificio como Missão

4 comentários:
– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos!
– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Tema central da mensagem de Fátima
Na primeira aparição, logo após as apresentações e a petição aos pastorinhos de virem ali nos seis meses seguintes, a Nossa Senhora perguntou-lhes se queriam oferecer-se a si mesmos pela salvação dos pecadores.

Fátima faz-se eco da forma como a comunidade cristã interpretou a morte de Jesus o qual se ofereceu como cordeiro sem mancha para expiar os pecados da humanidade. Jesus não deu por nós a vida só no ato da sua morte, toda a sua vida foi uma vida para os outros; veio para servir e não para ser servido (Marcos 10, 45). Jesus na sua vida combateu o pecado e o mal nas suas mais variadas formas; ao fim foi o mesmo pecado que o matou; morreu não só pelos nossos pecados, mas também a causa do nosso pecado.

Jesus lutou contra o pecado da mesma forma que o nosso corpo luta contra a doença. Quando uma bactéria ou vírus invade o nosso corpo, um glóbulo branco chamado neutrófilo persegue estes invasores depois dos anticorpos os terem identificado e marcado para serem destruídos. Por um processo chamado fagocitose, o neutrófilo captura e devora o invasor e morre. Também Jesus assumiu o pecado da humanidade, morrendo neste mesmo processo, mas salvando a humanidade da morte eterna

O que Maria pede aos pastorinhos é a solidariedade e participação na paixão de Cristo no seu ato único de reparação dos pecados da humanidade. A participação no mistério da redenção de Cristo com o nosso sacrifício voluntário, de sujeitos passivos e alheios, faz-nos proactivos em relação não só à nossa salvação como à salvação dos outros.

Este tema central da mensagem de Fátima é também o mais difícil de entender nos nossos dias. Mas tal como Maria em Lourdes veio reafirmar o dogma da Imaculada Conceição, em Fátima vem reafirmar a teologia, para muitos obsoleta e retrograda, da expiação e reparação. Mas como pode uma pessoa reparar os próprios pecados e os pecados dos outros?

Jesus morreu para expiar os pecados da humanidade
O salário do pecado é a morte (Romanos 6,23) – É a ordem das coisas, não há atos inócuos ou neutros; o que não promove a vida, leva à morte. O bem promove a vida o mal leva à morte como consequência lógica, esta é uma verdade irrefutável. Vemos prova disso em cada má ação que praticamos; como diz o provérbio, “o mal fica com quem o pratica”; o castigo acompanha a má ação como o anexo acompanha o email.

Não há obra má que pratiquemos que não seja sucedida por um castigo, que não provém de Deus, mas sim da mesma ordem das coisas, como consequência logica da má ação praticada. Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nem perdoa nem esquece; o mal que fazemos contra a nossa natureza humana ou contra a natureza do planeta paga-se e bem caro.

Se Jesus de Nazaré só fosse um profeta e nada mais, a sua morte seria vista como a morte individual do justo. Mas como Jesus, para além de ser verdadeiro homem é também verdadeiro Deus, a sua morte já não pode ser interpretada ou vista como um acontecimento meramente pessoal, mas sim um acontecimento que tem repercussões na humanidade por Ele criada e Nele representada. Como Jesus ressuscitou, a sua morte serviu para matar a morte; aquela morte eterna à qual a humanidade estava abocada.

Jesus morreu pelos nossos pecados, no sentido de que foram os nossos pecados que o mataram; mas como Jesus não permaneceu morto, mas ressuscitou, os nossos pecados mataram-se a si mesmos; a sua morte foi, portanto, o fim da morte como consequência do pecado.

Deus não pode negar a ordem das coisas por Ele criadas; como vimos acima, pertence a essa ordem das coisas que com o pecado vai o castigo e o castigo é a morte. Sem a intervenção divina, seriamos com um comboio sem freios que corre para um destino mortal irreversível.

João 15, 3 - Sem mim nada podeis fazer - Se pelas nossas próprias forças fossemos capazes de nos salvar, não teria sido necessária a vinda de Cristo ao mundo. O pecado colocou-nos no fundo de um poço sem possibilidade de sair; em areias movediças nas quais quanto mais nos movemos mais nos enterramos; em buraco feito no gelo estaladiço que cobre a água de um lago, que parte quando nos apoiamos nele. Do mal e do pecado não podemos sair sozinhos.

João 1.29 – Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. –  João Batista que apesar de ser filho de sacerdote atua fora do sistema sacrificial do templo oferecendo o perdão dos pecados por intermédio de um batismo de purificação, aponta a Jesus como sendo o verdadeiro cordeiro de Deus que vem substituir o sacrifício de cordeiros do Templo de Jerusalém. Só quem não tem pecado, pode pagar pelos pecados dos outros.

O sacrifício de Cristo é um sacrifício perfeito porque ele mesmo é o sacerdote, a vítima, o altar e o Templo onde se oferece. Se algo é perfeito não pode ser igualável pelo que o sacrifício de Cristo, e só o sacrifício de Cristo é suficiente para pagar pelos pecados de toda a humanidade presente passada e futura.

No sacrifício de Cristo, a justiça de Deus, a ordem natural das coisas é satisfeita; alguém pagou o preço do pecado que é a morte; por outro lado também é satisfeita a bondade, a graça e o amor de Deus pois não fomos nós que pagámos mas sim o seu filho.

Associar-se ao sacrifício de Cristo
Misteriosa solidariedade - Tanto somos solidários no mal, como somos solidários no bem. A ideia de que pertencemos todos ao Corpo Místico de Cristo, não é só uma ideia piedosa, mas também científica; o ser humano vem de um tronco comum; há laços que unem toda a Humanidade desde o seu aparecimento sobre a Terra. "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade" disse, quando pôs o pé na Lua; Neil Armstrong. Não foi uma empresa de franco atirador, nem na sua execução nem no seu significado; em realidade, nele, por ele, e com ele a Humanidade chegou à Lua.

Inconsciente espiritual coletivo – Freud descobriu uma instância no interior da nossa personalidade chamada - inconsciente, constituído pelo que foi vivido experimentado, recalcado, escondido, esquecido, nos primeiros anos da nossa vida quando ainda não eramos conscientes de nós mesmos. Este material influencia o nosso pensar, sentir e atuar de uma forma automática e fora do nosso controle; às vezes aflora à consciência em forma de linguagem corporal, lapsus linguae, e em especial em sonhos.

Para além deste inconsciente individual, a um nível ainda mais profundo, Jung, discípulo de Freud, defende que existe um inconsciente coletivo. O material que o constitui, já não tem que ver com as minhas vivências individuais, mas sim com o que a humanidade como um todo viveu.

Cada uma das nossas obras entra a formar parte de uma base de dados coletiva de tal forma que qualquer individuo da espécie humana está, à nascença capacitado para fazer os atos mais heroicos que já foram feitos assim como os mais criminosos e deploráveis, sem precisar de nenhuma aprendizagem. Desta forma o individual influência o coletivo e o coletivo influência o individual.

Efeito borboleta - Pequenas e até irrisórias causas podem ter grandes efeitos ou consequências. Os efeitos de um grande furacão que aqui se faz sentir podem ter sido causados pelo esvoaçar de uma borboleta milhares de quilómetros de aqui, que ao perturbar o equilíbrio, fez cair a primeira peça do efeito dominó. Assim se explicam também as grandes avalanches de neve que sepultam casas e aldeias.

Na vida humana não há atos inócuos, neutros e sem consequências que não tenham tarde ou cedo repercussões, positivas ou negativas, no resto da humanidade, consoante o ato seja positivo ou negativo. 

Mateus 16:24 - Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; - Todo sacrifício é imolação do nosso Ego tudo o que fazemos pelos outros todo é altruísmo, é um sacrifício do ego. Só negando o meu ego posso eu afirmar o outro, o alter ego. Depois do sacrifício de Cristo os sacrifícios que valem aos olhos de Deus não são o dom de algo que me pertence, como eram os sacrifícios da antiga lei, a imolação de cordeiros e cabritos, mas sim a imolação de mim mesmo.

Tertuliano 197 DC - O sangue de mártires é semente de cristãos – pelo martírio o cristão configura a sua vida a Cristo de uma forma quase absoluta, pelo que é via direta para o Reino de Deus. Por outro lado, não só ganha ele individualmente, a Igreja também ganha, pelo seu testemunho em repetir, renovar e atualizar na sua vida a paixão de Cristo no aqui e agora da história. É sobretudo edificante e encorajante para os novos cristãos, para os que ainda estão num processo de conversão a Cristo.

Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja. Colossenses 1, 24

Este é o texto que tem sido citado para dar fundamento bíblico à prática pedida por Nossa Senhora logo na primeira aparição, de oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores. É preciso deixar bem claro que os nossos sacrifícios não têm o valor redentor do sacrifício de Cristo, nem aumentam a sua eficácia. Portanto, e neste sentido, nada falta ao sacrifício de Cristo que foi perfeito e a perfeição não é aperfeiçoável.

As nossas aflições individuais, a nossa cruz, o sofrimento com que a vida nos depara, pode ser vivido com sentido ou sem sentido. O cristão que em todos os aspetos da sua vida vê em Cristo o caminho a verdade e a vida configurando a sua vida à Dele, associa também o seu sofrimento ao Dele. Os apóstolos ficaram contentes quando começaram a sofrer por Cristo. Atos 5,41

Associando os nossos sofrimentos aos de Cristo estamos-lhe a dar um sentido, pelo que serão mais fáceis de suportar, e um bom uso pois damos-lhe um valor redentor. O ponto principal é que nossos sofrimentos não são desperdiçados se podemos juntá-los ao sacrifício de Cristo; Eles se tornam de grande valor.

O inferno evita-se com o purgatório
O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: "Penitência, Penitência, Penitência!" (Terceira parte do segredo)

São as palavras do anjo com a espada de fogo. A Nossa Senhora mostra aos pastorinhos o inferno como possibilidade na outra vida e o inferno em que se tinha tornado mundo no século XX. Para evitar tanto um como o outro a alternativa é a penitência. O inferno evita-se com o purgatório tanto nesta vida como na outra; de facto na tradição católica o purgatório está entre o Céu e o inferno.

Cristo expiou pelos nossos pecados, pelo que nós não precisamos já de expiar por eles; por outro lado Deus perdoa e esquece, para quê então o purgatório? Somos nós que não perdoamos e esquecemos nem aos outros nem a nós mesmos; o purgatório é uma exigência da nossa natureza. Vemos isso no Evangelho no episódio da conversão de Zaqueu:

…”de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.». (Lucas 19,8) Jesus já tinha perdoado a Zaqueu não lhe exigiu nada como preço desse perdão; o que Zaqueu ofereceu como expiação foi da sua livre vontade e como consequência da sua conversão e de ter obtido perdão, e não como requisito desta.

“Pænitemini et credite evangelioArrependei-vos e acreditai no evangelho - (Mc 1, 15). A penitência, o sacrifício faz parte do processo de conversão, como o deserto medeia entre o Egito do Pecado e a Terra Prometida da Graça. Quanto mais puros vamos desta vida, menos purgatório precisamos na outra vida. O purgatório pode ser já feito aqui e agora. Tanto se é feito aqui ou na outra vida a bem-aventurança permanece válida: Só os puros de coração verão a Deus.

Sobre a natureza do fogo purificador a irmã Lúcia diz anos mais tarde, que não se trata de um fogo físico sustentado por qualquer combustível, mas sim do fogo do amor divino comunicado por Deus às almas. Diz ainda que um ato perfeito de amor como por exemplo o martírio, leva a pessoa diretamente ao céu pois purifica de imediato todos os pecados até ali cometidos.

Jacinta a boa pastora
Um dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.
– Jacinta – perguntei-lhe – para que vais aí, no meio das ovelhas?
– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.

Jacinta encarna o aspeto sacrificial da mensagem de Fátima; ela a seu modo imita Jesus bom pastor, que se preocupa e busca a ovelha perdida, e depois a traz aos ombros de volta ao rebanho. Muitos foram os sacrifícios que Jacinta ofereceu pelos pecadores durante os três anos que se sucederam às aparições. E quando, já na cama estava a viver a sua paixão, a Nossa Senhora perguntou-lhe se ainda queria sofrer mais para converter mais pecadores, ela respondeu que sim. Como Cristo bom Pastor, ela a pequena pastorinha também deu a vida pelas ovelhas do Senhor.

A visão do inferno afetou de tal maneira a Jacinta que mesmo a brincar não deixava de se interrogar e perguntar à Lúcia: E se a gente rezar muito por os pecadores, Nosso Senhor livra-os de lá? E com os sacrifícios também? Coitadinhos! Havemos de rezar e fazer muitos sacrifícios por eles!

A expressão, pobres pecadores foi cunhada em Fátima; sempre que se fala de pecadores, a mensagem de Fátima refere-se aos pecadores como pobres que tem o mesmo sentido afetivo de “coitadinhos” usado por Jacinta. Os pecadores são tratados com afeto, pelo Anjo na oração à Santíssima Trindade, por Maria depois da visão do Inferno e pelos mesmos pastorinhos.

Jacinta, a mais sentimental dos três, é a que melhor espelha a misericórdia e a solicitude amorosa de Deus pelos pecadores que percorre os dois Testamentos da Bíblia: Porventura me hei-de comprazer com a morte do pecador - oráculo do Senhor Deus - e não com o facto de ele se converter e viver? Ezequiel 18,23.

Em Jesus de Nazaré, a misericórdia de Deus encarna-se em ações concretas; Jesus, ao contrário dos fariseus que os criticavam e fugiam deles, com medo a serem contaminados, buscava a sua companhia, tocava-os, curava-os e comia com eles e por fim entregou-se por eles como vitima imolada sendo comida na eucaristia e na cruz, corpo entregado e sangue derramado.

Os pastorinhos em especial Jacinta na sua curta vida e Lúcia na sua longa vida entenderam e  associaram os seus sacrifícios à paixão de Cristo fazendo-se eco desta mesma, dando-lhes aqueles um sentido e uma utilidade, para atualizar ou sublinhar no aqui e agora a paixão de Cristo redentora da humanidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC